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Notas do Autor - Capítulo 42

ALERTA DE SPOILERS! Antes de ler as notas, leia o capítulo correspondente primeiro!
Com este capítulo damos fim ao arco de Lumiose dessa temporada. Nem acredito que enfim concluímos essa etapa com todas as peças... É até estranho ler um capítulo mais leve e até com certas tiradas cômicas depis de tanta agonia... Não nos enganemos: ainda é a Saga Y, ainda temos grandes temores, mas pelo menos há no que nos agarrarmos. Vamos agora entrar em um novo ciclo, que é o caminho até Laverre.
Charlie e a síndrome do terceiro protagonista
Eu não quis isso quando comecei Kalos. A Serena não seria uma personagem envolvida em competições - o que na época era meio arriscado - e o Charlie consequentemente seria o oposto do "terceiro protagonista". Em partes acho que funcionou. Não perfeitamente, mas com certeza, quando pensam no Charlie, não o assimilam a uma figura de responsabilidade. Ele sempre tentou ajudar e proteger os primos, de certa forma, mas em outras parecia mais atrapalhar que colaborar.
Eis que por muito, muito tempo eu estive atiçando a curiosidade de vocês. Desde os primeiros capítulos ele deixa ambiguidades, contradições, dúvidas e mistérios. Desde o primeiro encontro Serena pede para que ele seja sincero, e ele diz que um dia as coisas farão sentido. Várias vezes outros personagens revelavam desconfiança para com ele. Desde Camphrier ele parece saber de algo que nós não sabemos. Parece que o dia chegou, e finalmente nos deparamos com todo o passado escancarado de nosso personagem, que esteve conosco o tempo todo e, curiosamente, tinha mais camadas e segredos fundamentais a compartilhar que nossos dois parceiros. Talvez vocês nem se lembrem de alguns elementos como a carta mencionada (que Charlie respondeu lá pelo capítulo 14 e o Stevan confrontou a Serena no capítulo 29), mas assim como o Charlie devia a verdade a Serena, eu também devia a vocês.
Capítulo 42

O aroma dos restaurantes que
compunham as avenidas mais turísticas de Lumiose indicavam a chegada de uma
tarde. Após dias de um tempo fechado e gélido, as nuvens pareciam abrir espaço
para que raios de sol brilhassem e trouxessem mais cor às ruas da
metrópole após uma sombria madrugada. Todos os noticiários repetiam as mesmas
notícias, o mundo estava chocado com o atentado ao maior monumento de Kalos.
Contudo, mesmo com todo o temor,
Serena conseguiu permitir que algum indício de tranquilidade lhe consumisse.
Abriram espaço para que ela
dormisse, mas ela pouco conseguiu descansar de fato. Logo acordou algumas horas
depois, vendo o sol espantar as sombras que lhe perseguiam, e mesmo àquela área
retirada da cidade parecia conseguir sentir o calor tocando sua pele e trazendo
a vida de volta. Ela tinha um milhão de perguntas correndo pela cabeça naquele
momento mas, em respeito a Charlie, tentou segurá-las.
Viu o garoto sozinho em um canto,
encarando a janela, com algumas bandagens cobrindo seu machucado. Calem parecia
cochilar, mas em poucos segundos começou a se remexer. Ela foi até a sala, onde
Sycamore e o Observador cochichavam, diminuindo o tom ao correrem os olhos e a
notarem chegando. Ashley tinha uma imensa xícara de café preto na mesa, onde
bebericava vez ou outra. Ela olhou por cima dos óculos, deparando-se com a
loura:
— Ei. Como você tá?
Serena abriu um sorriso.
— Pergunta idiota. — Ashley
repreendeu a si mesma, logo abrindo o que parecia – alguns poderiam dizer – um
sorriso. — Vocês foram muito corajosos.
Calem caminhou até a sala. A cara
estava em um estado de mau-humor absurdo de quem não conseguia pregar os olhos
havia tempos. Naquela hora, tampouco. Bocejou e abriu a garrafa térmica de
Ashley, servindo-se de um pouco do café. O Observador e Sycamore se juntaram
aos jovens, aniquilando qualquer que fosse sua conversa anterior. O professor
abriu seu típico sorriso, mas a expressão de sono ainda era perceptível.
— Estou muito orgulhoso de vocês. —
murmurou.
Calem deu de ombros.
— A gente cometeu no mínimo uns
quinze crimes. Não sei se é algo que a gente deva se orgulhar.
Nada como uma noite sem dormir
fugindo de um atentado para piorar o mau-humor. O Observador conseguiu quebrar
o gelo.
— Foi um risco imenso… Ainda não
acredito que colocamos vocês para fazerem tudo aquilo. Vocês são jovens
formidáveis.
Calem espiou de canto de olho
Serena, perdida na janela. Respirou fundo, o peito ainda apertado depois de
tudo o que aconteceu.
— Com sinceridade, agora. —
murmurou. — Nos contem o que precisamos saber.
O Observador e o professor se
entreolharam.
— Bem, como imaginam, o irmão de
Charlie… — balbuciou o detetive. — … não será algo que devem se preocupar mais.
A polícia conseguiu capturar alguns dos membros da gangue que estavam na Torre,
e isso deve levar aos que conseguiram escapar. Ainda os estão interrogando, mas
sem grandes informações até então. Dizem que foi arquitetado pela gangue há um
bom tempo.
Calem revirou os olhos.
— E você não acredita nisso.
O Observador parou de falar.
— Não temos como afirmar nada.
Calem lhe ofereceu uma expressão
fechada.
— Não precisam nos poupar de
informações. Somos jovens, mas fomos sozinhos àquela Torre e salvamos Charlie.
Temos o direito de saber de tudo. Eu sei que não foram só eles. Marc praticamente
me confirmou que havia alguém por trás.
O Observador buscou algum refúgio
na expressão de Sycamore, que deu de ombros com uma expressão que dizia “eu
disse que eles não são jovens quaisquer”.
— Pois é. Por isso estão tentando
extrair informações que levem a quem possa ter provocado tudo isso.
— Uma gangue de rua não cria um
atentado terrorista que paralisa Kalos. — retorquiu Calem. — Mesmo que seja um
líder da máfia, não existe nenhum motivo pra Marc fazer tudo aquilo só por
vingança ao irmão.
Ashley assentiu, mostrando o
monitor de seu computador. Ela alternou entre noticiários de Kanto, Unova e
Galar.
— O rosto de vocês não está só em
Kalos. Está no mundo inteiro. — ela ajeitou os óculos. — É sobre criar pânico, e tornar vocês figuras que ninguém teria remorso que fossem entregues em um
atentado. Ou que fossem presos. Ou qualquer outra coisa. Não acho que seja só isso, mas talvez seja uma das peças do quebra-cabeças.
Naquele momento Serena finalmente
disse algo:
— Foi o meu pai.
Todos ficaram quietos. O barulho do
vento entrando na pequena sala do hostel
assoviava entre os prédios de Lumiose.
— Eu sei que vocês estão tentando
não falar isso, mas é o que estão pensando. — ela falou, virando-se para eles,
mas encarando o chão. — Ele poderia ter feito isso. Poderia ter bancado isso.
Calem encostou a cabeça na parede.
— Marc preferiu desaparecer a ser
capturado. Ele sabia que se fosse pego e pressionado a falar enfrentaria o
pior.
O Observador aproximou-se da garota
e abaixou um pouco para encará-la. Aqueles olhos acinzentados como um céu que
esconde uma tempestade pareciam ter visto mais horrores que gostaria; ela sabia
que aquele não era um dia tão atípico na vida daquele homem. Ainda assim, havia
um tom de preocupação quando a observava.
— É uma hipótese, Serena.
Ele sabia dar as más notícias.
Existem informações que não há como reduzir seu impacto. Elas sempre serão más
notícias.
— É possível. Eu desconfio disso.
Mas muito provavelmente nunca chegarão nele por meio daqueles que foram
capturados. Qualquer um que se atrever a dar uma pista sobre o mandante muito
provavelmente será silenciado.
A garota cerrou os punhos,
agoniada.
— Então vai ficar por isso?
Ela queria gritar. Os outros
ficaram em silêncio. Serena há algum tempo sabia que as coisas não eram
exatamente justas como nas histórias com final feliz. Contudo, a injustiça às
vezes a tiravam do sério, lhe faziam pensar que não importa o que faça ou para
onde corra, ela sempre chegaria ao mesmo lugar. O Observador ponderou antes de dizer:
— Eu não quero dar falsas
esperanças, Serena, mas…
Ela levantou o olhar.
— Bem… A polícia não fará esse
paralelo com Stevan tão cedo. Mas talvez, sabendo dessa possível ligação, eu
possa traçar um caminho até ele e descobrir seu grau de responsabilidade nisso
tudo.
A garota arregalou os olhos.
— Mas o senhor não estava aposentando?
Ele massageou a testa cansada.
— Estava. Achei que poderia passar
os últimos anos cuidando de casos pequenos e cotidianos de Lumiose. — murmurou,
um pouco ranzinza. — Mas não vejo outra maneira. Tenho pessoas de confiança que
poderia aconselhar dentro da polícia, mas se vazasse que estão atrás de Stevan,
ele daria algum jeito de afastar as investigações.
Ele se recostou na janela.
— Pelo menos eu sei por onde
começar…
Ela se encostou ao lado dele,
tímida.
— Se o senhor conseguisse… Apenas
supondo…
Ele fechou os olhos e assentiu com
certo receio, pois sabia o impacto que aquilo poderia lhe trazer:
— Ele seria preso. Hipoteticamente.
E você estaria livre.
Serena quase chorou naquele
momento. O Observador não teve coragem de encará-la. Sabia que aquela pequena
hipótese seria o que a menina precisava para se agarrar e ter alguma réstia de
esperança. Contudo, as chances eram escassas diante do cenário que se desenhava
à frente. Um caso desses poderia levar tempo. Bastante tempo. E tempo era algo
que aquele trio não tinha.
Trio.
Serena caminhou até a porta do quarto, onde Charlie continuava na mesma posição. Ficou parada, o observando perdido. Ela tinha um milhão de questões na ponta da língua. Mas era preocupada o suficiente com o rapaz para compreender que ele havia atravessado dias ainda mais horripilantes que ela. Com suavidade e hesitação tocou os dedos finos em seu ombro.
— Charlie…
Uma longa pausa.
— Me desculpa, Serena.
Ele se virou para ela, cabisbaixo.
Ela sentou-se na beirada da cama, sem muita energia. Ele não conseguiu segurar
por muito tempo olhando em seus olhos, desviando para a sala e para a janela.
Os dedos nervosos se entrelaçavam e soltavam, procurando o que fazer,
procurando onde se agarrar.
— Por que, Charlie?
Respirou fundo.
— Eu precisava, Serena.
Ele se levantou, andando de um lado
para o outro.
— Eu não menti pra vocês. Você
sabe, eu morei mesmo em todos os lugares que disse. Eu era de Lumiose, Marc era
meu irmão, e todo aquele… Todo aquele pesadelo. Eu não menti.
Uma nuvem espessa se formava bem ao
longe, sendo soprada pelos ventos para fora da cidade.
— Eu estava em Laverre na época. Eu
já tinha passado muito tempo por Kalos, havia ido de norte a sul, do litoral ao
interior.
Os dedos batendo na janela.
— Mas em Laverre, um dia, eu fui
furtar a casa de uma moça e acabamos… Acabamos nos aproximando. Ela morava
sozinha, tinha uma doença meio grave, e eu acabei me dispondo de ajudar.
Serena prendeu a respiração. As
imagens em sua cabeça apareciam como um filme.
— E comecei a morar com ela. Ela
era… Ela era a pessoa mais incrível do mundo. A mais bonita, a mais amável, a
mais… Ah, a melhor pessoa do universo inteiro. Igual a você.
A garota sentiu um nó na garganta.
Cobriu a boca com as mãos, segurando firme enquanto ouvia.
— Eu sabia que ela tinha uma filha,
mas ela nunca contou muito sobre. E eu entendo, porque, né, eu que não queria
falar da minha família. Aparentemente o seu pai era meio doido, mas eu não
tinha dimensão do quanto. Ela disse que eles tinham feito um trato.
Calem espiava da sala.
— Um trato? — perguntou ela, com
uma voz fraca.
— Sim. De que você poderia sair de
casa com quinze anos.
Naquele momento, o primo se
encostou no batente da porta, cruzando os braços.
— O que a mãe dela tem a ver com
isso?
Os dois voltaram sua atenção a
Calem. Charlie deu de ombros.
— Não culpe o mensageiro.
— Por que ela fez isso, Charlie? —
indagou a loura. — Por que ela nunca…?
— Porque ela não pôde. — Charlie
sentou-se em sua frente e pegou em sua mão. — Ela não podia ir atrás de você. Seu
pai não… Bem, é por causa do seu pai. Basicamente.
— Mas por quê?
— Eu não sei, Serena. Eu não sabia
o tamanho da encrenca. Ela só sabia que ele viria atrás de você, mesmo
supostamente te deixando sair de casa. Cedo ou tarde. Ela queria te ajudar, de
algum jeito. E ela confiou em… Mim.
Calem socou a parede.
— Por que você não disse, Charles?
Você teve tanto tempo, tantas oportunidades…
— Porque eu achei que ia conseguir.
— naquele momento ele se perdeu e a voz ecoou por todo o lugar, silenciando até
as conversas na sala. — Achei que era só defender vocês de uma floresta
pequena, de não serem assaltados na rua, ou lembrar de ligarem para o papai de
vez em quando. Era um segredo, eu prometi a ela que não contaria a você para
não coloca-la em risco.
Abaixou a cabeça.
— Mas quanto mais tempo passou mais
eu entendi o quão difícil era aquilo… E por que eu precisava estar aqui. Virou
uma bola de neve, uma bola de neve enorme e de repente tudo estava se
conectando. Eu. Seu pai. Sua mãe. Meu irmão.
Serena recolheu a mão, deixando-o
sem ter onde se segurar. Ele acariciou a própria pele áspera, encarando as
palmas suadas e trêmulas.
— Eu devo muita coisa à sua mãe,
Serena… Muita coisa. E eu confesso que a ideia de viver no luxo por uns meses
com vocês parecia tentadora e um grande motivador… Mas logo que eu te conheci…
Você era o próprio motivo pelo qual eu queria proteger. E eu achei… Achei que
eu ia conseguir.
Ela balançou a cabeça.
— Por que… Por que você mandou
aquela carta ao meu pai?
Então, esfregou as mãos no rosto.
— Quando o Calem me disse que seu
pai organizaria seu casamento um dia, eu logo entendi que era uma das coisas que Alice,
sua mãe, temia… Ele iria tentar captura-la de novo. E ele havia descoberto que você e o Calem não
estavam sozinhos. Eu precisava… Precisava fazer alguma coisa. Precisava que ele
não soubesse de mim, e menos ainda de Alice, deixasse tudo como estava… Ele não
podia desconfiar que sua mãe tinha algo a ver com a história. Você parou de
respondê-lo e eu sabia que isso iria colocá-lo em sua cola. Mas se te
convencesse que você precisava voltar a falar com ele só para despistá-lo, você
ia desconfiar que eu sabia algo a mais.
O garoto então cerrou os punhos,
socando o próprio chão em um acesso de ódio.
— Mas no final fui eu quem estragou
tudo tentando ajudar. Não consegui te proteger como sua mãe queria, não
consegui afastar seu pai, só… Só estraguei tudo. Pra todo mundo.
Serena sentiu as lágrimas
escorrendo. Ela chorou tantas vezes nos últimos dias que pareceu um processo
natural. Charlie também não conseguiu segurar as emoções. De repente, todos os
sentimentos por tanto tempo aprisionados eram libertos como um tsunami em tão
pouco tempo. Uma vida inteira em uma cidade, em um quartinho.
Ele segurou na mão dela de novo.
Dessa vez ela não o afastou.
— Sua mãe não te conheceu, Serena…
Mas ela sentia que…Que você iria me acolher. De algum jeito. Ela poderia ter
errado. Mas não errou. Vocês me receberam como se eu fosse parte da família. —
ele levantou o olhar a Calem. — Você, pelo menos.
O outro deu de ombros.
— Eu sempre achei que você escondia
algo. E eu estava certo.
Serena olhou nos olhos de Charlie
sem saber ao certo o que sentir. Ela entendeu a história, entendeu que o garoto
tentou, de algum modo, fazer o melhor. Mas sentia uma ponta de desapontamento
em seu peito. De repente, aquele garoto de olhos verdes cheio de humor e
histórias fantásticas parecia apenas um personagem de uma peça; as cortinas
haviam subido, e só o que restara era o ator à sua frente, no qual já não se
sabia onde a realidade se misturava à ficção.
— Eu nem acredito que contei tudo
isso. Eu já tentei contar minha história de tantos jeitos diferentes que às
vezes me esqueço da verdade. — murmurou o rapaz. — Chega uma hora que sua
cabeça esquece aquilo que você já viveu e aquilo que você precisa convencer os
outros que viveu. Vira uma grande névoa, e você só consegue ficar infeliz.
Apático.
Ele se levantou e ficou entre os
primos.
— Serena, Calem… Eu fiz muita
burrice. Uma atrás da outra. Acho que a gente só está aqui agora porque eu fiz
tanta merda. Mas eu juro que achei que estava fazendo o melhor. Eu só não
queria colocar vocês no meio. Não desse jeito.
Calem semicerrou o olhar.
— Nós não estamos no meio, Charles.
Nós somos o meio.
O primo caminhou pelo quarto,
parando na janela, perdido. Esperava que quando se deparasse com o vidro, veria
a paisagem do jardim das mansões de Vaniville. Que poderia voltar no tempo e
tudo seria normal. O que mais o assustava não era não poder voltar no tempo. Era
que ele nunca conseguiria, depois de tudo aquilo. Nunca existiu normalidade. O
revólver que Marc segurava parecia de novo à sua frente, podendo roubar-lhe a
vida em uma fração de segundo.
— E sim, a verdade é que você é
grande parte do motivo de as coisas estarem assim agora. — resmungou.
Em seguida, virou-se para Charlie,
encarando os olhos verdes tristes e cabisbaixos.
— Mas elas também podiam estar mil
vezes piores. — disse, cruzando os braços. — E elas não estão por sua causa.
Então…
Charlie limpou as lágrimas e abriu
um sorriso torto.
— Isso é um “obrigado”?
Calem fechou a cara, se levantando
constrangido.
— É você quem disse, não eu.
O outro soltou uma risada amigável.
— Não esquece que eu lembro que
você me chamou de “Charlie”.
— Ora essa, Charles, eu tenho mais
o que fazer. — resmungou Calem corado, indo rumo à sala.
Charlie continuou rindo sozinho,
mas logo voltou a ficar sério encarando a garota à sua frente, ainda imóvel.
Perdida. Ela tinha esse direito. Tinha todo o direito de querer nunca mais
olhar em sua cara. Ele havia subestimado aquela garota desde o primeiro dia.
Achou que sua função era de defendê-la do mal, porém, quando seu mundo estava
desabando, foi ela quem o salvou com coragem, mesmo com a suja verdade que se
colocou à sua frente.
— Charlie… Você disse que minha mãe
estava doente… — fungou ela. — Ela…?
Charlie emudeceu.
— Eu não sei, Serena. — brincava
com os dedos. — O quadro dela piorou ao longo dos anos… Mas ela era – é – forte
igual a você. Nós podemos ir até lá. Juntos. Se você ainda me quiser na jornada
com você.
Após alguns instantes, ela desenhou
um fino sorriso. Ele sorriu de volta. Deslizou um dedo em sua bochecha e limpou
uma lágrima delicada que se formava. Não gostava de vê-la chorar.
— Lindo, quase chorei. — resmungou
Calem de longe. — Mas esqueceram que estamos presos aqui?
Um silêncio pairou sobre a sala.
Sycamore olhou para o Observador, que evitou transparecer qualquer emoção até
ceder, com um tom de resmungo:
— Céus, vocês vão deixar minha vida
inteira em débito com a polícia de Kalos. — murmurou. — Eu posso tentar dar um
jeito nisso.
Os três levantaram em um salto.
— Isso é sério? — indagou Calem.
— Posso garantir que não serão
parados na saída. Só isso. — falou o detetive. — Mas depois disso, é com vocês.
Naquele momento, Sycamore atendeu
um telefonema. Tentou abafar a chamada indo até a janela para conversar, mas
logo retornou ao grupo com seu costumeiro sorriso.
— Pode subir. — falou, desligando a
chamada e então se voltando aos outros. — Tem alguém que gostaria de
encontrá-los.
Todos ficaram em silêncio até que ouvissem algumas batidas. Sycamore abriu a porta, e o grupo se deparou com um rapaz mais baixo que Serena, de cabelos louros espetados e um enorme traje azul típico de cientistas que trabalham com experimentos robóticos. Um par de óculos redondos marcantes ampliavam o tamanho de seus grandes olhos acinzentados. Nas costas, uma mochila que parecia guardar algo bem mais complexo que meros livros. Ao seu lado, uma jovem criança também loura, que abraçava um pequeno Dedenne.

O garoto cumprimentou o professor e
o Observador e se colocou à frente dos jovens.
— Meu nome é Clemont. —
apresentou-se, ajeitando os óculos. — Eu sou o líder do ginásio de Lumiose, e o
responsável pela Prism Tower.
Ele deu um aperto de mão. Clemont
parecia mais jovem que os três – talvez apenas em aparência – mas tinha uma
pose de alguém muito mais velho. O rapaz era um nome extremamente conhecido na
ciência de Kalos por ser um prodígio da área de robótica, desenvolvendo
invenções que inovaram os sistemas da tradicional torre de Kalos.
— Essa é a Bonnie, minha irmã.
Bonnie soltou um bocejo. Ela havia
estado junto dos outros naquela noite por ser a única pessoa capaz de entrar de
maneira segura nos sistemas de Clemont em caso de emergência. E, claramente,
havia sido uma emergência.
— Nunca achei que fôssemos
enfrentar algo daquele tipo… — murmurou o garoto, coçando o queixo.
— Devo parabenizá-lo, jovem
Clemont. — disse o Observador, dando-lhe tapinhas nas costas. — A estrutura e
segurança da Torre nos auxiliaram a impedir uma catástrofe maior. Pelo menos
não houve mais feridos.
— Precisarei revisar tudo, depois
dessa… Com certeza. — comentou, mexendo nos cabelos.
Calem ficou um pouco sem jeito.
— Talvez eu tenha certa culpa
nisso. — falou, lembrando-se do jeito que ficou a arena de batalhas do ginásio.
O menino deu uma risada simpática,
aproximando-se.
— Você fez o que precisou fazer
naquele momento. Máquinas, felizmente, podem ser consertadas. — falou.
Ele pressionou algumas teclas em um relógio em seu pulso – que parecia fazer tudo menos informar as horas – e sua mochila se abriu. Todos tomaram um susto quando uma mão robótica se deslocou de dentro com uma enorme naturalidade, abrindo-se na frente de Calem. O garoto não entendeu direito o ato até perceber um pequeno símbolo sendo segurado. Um triângulo dourado como um escudo, de onde partiam uma série de raios elétricos, símbolos do Ginásio de Lumiose.

Calem levantou o olhar ao líder, confuso.
— Quero que fique com isso como
agradecimento.
— Como assim? — questionou o outro,
dando um passo para trás. — Eu não posso aceitar, não lutei contra você. Nem
faz sentido.
— Você lutou contra o Clembot. — deu uma risada cansada. — O sistema de inteligência artificial que eu criei para auxiliar a enfrentar os desafiantes. Eu não estava operando, mas ele iniciou automaticamente com a batalha. Seu adversário tinha o controle dele, era como lutar contra uma máquina. — fez uma pausa. — Bem, uma máquina sujeita às falhas humanas de quem o comanda.
Calem titubeou.
— Ele precisa de uns ajustes, mas
você conseguiu enfrentá-lo. Um dia a inteligência artificial irá superar totalmente
a humanidade, sabe? — ponderou.
O outro balançou a cabeça.
— Mesmo assim, eu não posso
aceitar…
Clemont pegou a insígnia do robô e
ofereceu de sua própria mão a Calem, colocando entre seus dedos.
— Sei que não pode registrá-la
oficialmente ainda… Mas espero que logo as coisas se acertem para vocês. Quando
se acertarem, volte ao meu Ginásio. Faremos uma batalha pessoalmente e
validaremos essa insígnia para a Liga, tudo bem? É apenas um agradecimento
temporário.
Calem olhou para a insígnia em sua
mão, levantando o olhar para o líder, que abriu um sorriso. Ele sorriu de
volta.
— Combinado. — falou, dando-lhe um
aperto de mão.
Naquele momento, uma sequência de
batidas altas soou da porta da sala, colocando todos em posição de alerta. Os
primos deram passos para trás, desesperados. O Observador pareceu procurar
alguma maneira de se defender. Clemont pressionou um botão e duas mãos
robóticas se colocaram em posição de ataque. Apenas o Professor não pareceu
muito exaltado.
— AQUI É A POLÍCIA! ABRAM
IMEDIATAMENTE!! — berrou uma voz feminina do lado de fora.
— Pela janela! — gritou Charlie,
pegando suas coisas.
Naquele momento o professor abriu a
porta, revelando um total de zero policiais. No lugar, havia uma menina de
longos cabelos negros penteados sobre uma boina cor-de-rosa e um rapaz louro
alto ao seu lado com a pele vermelha de vergonha como uma Cheri Berry.
—
SERENAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA! — gritou a menina abraçando a menina
loura que mal conseguia respirar.
— Kath, pelo amor de Arceus, nós ainda somos fugitivos.— disse Serena
respirando aliviada com a mão sobre o peito onde seu coração quase saía pela
boca. — O que você tinha na cabeça? Quase nos matou do coração!
— Ih minha filha quem deve teme,
né. — disse ela, com a mão na cintura. — E a senhora deve um monte pelo visto,
é só o seu rosto que tá na tevê todo dia o tempo inteiro! É Serena pra cá,
Serena pra lá, Serena acolá. Dá até raiva menina, falam tanta coisa ruim de
você que se eu não conhecesse...
Aldrick entrou, encostando a porta
suavemente.
— Mil perdões, eu falei que não era
uma boa ideia…
Calem esfregou a mão no rosto.
— Pronto… Foi só a gente ter um respiro que vem Arceus e os outros
quarenta lendários querendo visitar. Como todo mundo nos encontrou?!
— CALEM-KUN MEU PRINCESO! — gritou
ela correndo para um abraço mesmo com todas as tentativas do outro de escapar.
— O profe que é um baita fofoqueiro, eu amo. Liguei correndo pra ver se ele
sabia o porquê desse babado todo na Torre que ninguém me chamou, não é que ele
sabia dos bastidores tudo?
Os três encararam o homem.
— PROFESSOR!
Ele deu uma risada.
— Eles estavam preocupados com vocês.
Achei que gostariam de revê-los depois de tantas emoções. É bom nos reunirmos
com as pessoas que amamos.
— Na próxima eu deixo você ir no
meu lugar, se quiser. — resmungou Calem para ela.
— Meu deus você tá fracote demais,
é com esses bracinhos que você quer me vencer na Liga?
Calem corou, cruzando os braços
para tentar disfarçar. Em seguida a garota virou-se para Clemont ao lado.
— Falando em fracote e em Liga OLHA
SÓ SE EU JÁ NÃO TENHO A INSÍGNIA DESSE AQUI!
— É um prazer revê-la… — murmurou o
louro um pouco sem graça.
— Que bom que estão a salvo… —
disse Aldrick, sorrindo. — Até fomos próximos à Torre para tentar ver melhor,
mas não adiantou muito. Ficamos preocupados com vocês.
— Estamos a salvo. — disse Calem,
sério. — Por enquanto.
Katheryn se jogou no sofá
confortavelmente como se estivesse em casa.
— Quais os planos?
Os três se olharam.
— Bem, temos uma… Uma missão em
Laverre. — comentou Charlie, dando uma piscada para Serena.
— Ahhh sempre me falam que é uma
cidade linda!!! Eu morro de vontade de conhecer, vamos pra lá também Aldy!! —
falou a garota.
— Kath, não podemos colocá-los em
perigo!
Calem deu uma risadinha.
— O perigo maior somos nós para
vocês. — argumentou. — Mas se quiserem assumir o risco, serão bem-vindos.
Kath esticou os pés sobre uma
mesinha de centro.
— Quero ver alguém mexer com vocês
com Kate Berry por perto!
Calem examinou o tempo do lado de
fora.
— Bem, já que vamos, devemos ir o
quanto antes...
— Acho que pode não ser uma ideia
estratégica. — murmurou Ashley, até então quieta mexendo no computador. Ela nem
tirou os olhos da tela. — Vocês não conseguem parar em pé. Descansem hoje e
partam amanhã de manhã. A Route 13
pode ser perigosa se não forem atentos.
— Gente, e quem é você?? — indagou
Kath só então notando a presença da ruiva.
— Alguém que já está de saída. —
falou, fechando o computador.
— Podemos garantir que pelo menos
até amanhã vocês fiquem em segurança por aqui. — comentou o professor. — E
amanhã vocês saem cedo para a próxima cidade.
Kath deu um salto do sofá.
— Ouvi dizer que tem um PÂNTANO!!
Eu não vejo a hora de ver que criaturas bizarras e loucas que vão tentar
engolir a gente estão escondidas naquela água gosmenta e suja que a qualquer
segundo pode fazer a gente afundar e morrer!!! — gritou, empolgada, percebendo
um sinal de todos para que falasse mais baixo.
Calem coçou a cabeça.
— Ninguém me avisou de pântano
nenhum.
E virou-se para o Observador.
— Acha que consegue para nós um
helicóptero também?
Serena mexia em suas coisas na
mochila no quarto quando Aldrick entrou caminhando suavemente, com sua
costumeira expressão cuidadosa.
— Como está o ovo, Serena?
Ela abriu um sorriso, pegando o ovo
no colo com certa dificuldade em equilibrá-lo.
— Ai Ald, para ser sincera faz uns
dias que não tenho dado tanta atenção para ele… Mas ele parece que tem ficado
um pouco mais agitado.
— Agitado? — cortou Kath, entrando
na conversa. — Garota, seu primo fugindo do pântano é menos agitado que esse
ovo.
— Ele está nascendo! — comentou
Ald, abrindo um sorriso.
Serena tomou um susto. Sentou-se
sobre a cama e colocou o ovo no colo, vendo-o balançar para um lado e para o
outro tentando conseguir romper a casca. Rachaduras começaram a se desenhar.
Todos se puseram em volta do evento. Por um segundo, todas as tensões e medos
das múltiplas discussões foram silenciados por um acontecimento que parecia tão
mágico que às vezes esqueciam o quão natural era: a Vida.
— O milagre da Vida nunca perde a
beleza. — comentou o professor, admirado.
Serena conseguiu avistar uma pequena criaturinha de pelos castanhos. Um par de orelhas começou a se mover, tentando captar o que acontecia ao redor enquanto os dois olhos ainda não conseguiam se atrever a enxergar o mundo ao redor. Se afagava em sua própria cauda felpuda, tentando se aquecer em meio ao frio de Kalos. Serena não podia acreditar na bela cena que testemunhou, fazendo-a esquecer por um segundo todos os problemas.

— Um Eevee!!
Ela cobriu a criatura com uma
manta, afagando-a em seu colo. Aldrick sentou-se ao seu lado para ajudá-la, e
logo o professor se juntou para dar alguns conselhos e orientá-la. Bonnie já
queria colocar as mãos para acariciar o Pokémon, sendo repreendida por seu
irmão. Até mesmo o Observador e Ashley, que costumavam ser mais frios, não
evitaram sentir o coração mais aquecido com a cena. Os medos abriram um pouco
de espaço para que se lembrassem do porquê tudo aquilo era suportável. Como um
translúcido arco-íris que se forma após uma tempestade devastadora.
Calem dava apoio a Serena. Correu seus olhos para a sala, vendo Charlie sentado sobre a janela. Abriu um sorriso fino. Ele sorriu de volta.
Notas do Autor - Capítulo 41

Capítulo 41

— O que eu mais quero é encontrar a minha mãe. — disse Serena voltando a fitar o movimento das águas, com um tom mais sério. — Não sei quem ela é ou onde está, mas quero encontrá-la e vencê-la. Acho que ela é uma treinadora, ou algo do tipo. E quero derrotá-la.
Ele se aproximou da menina e tocou seus cabelos louros. Ela corou com a aproximação, mas ele tinha apenas uma expressão admirada no rosto. Um sorriso sincero. Sua voz soou de uma forma que Serena adorou ouvir, como se pudesse escutá-la o dia inteiro.
—
Você tem enormes sonhos dentro de você. Eu gosto disso. Não pare de acreditar
neles. Eu vou te ajudar a realizar cada um. Não pare.
Serena e Charlie. Capitulo 4.
♠ ♣ ♠
Sob a luz amarela pendendo no teto,
as sombras de Charlie dançavam na parede da pequena sala. O contraste em seu
rosto era intenso, os olhos esverdeados cravavam em si enigmáticos e travessos
como sempre, mas em uma expressão de súplica que não lhe era costumeira. Mais
uma vez, colocava-se uma barreira do desconhecido entre os dois.
Serena não conseguiu formular nenhuma
resposta. O tempo parou ao seu redor, os estrondos da tentativa de invadir o
pequeno espaço pareciam detalhes de um sonho ao qual ela poderia despertar a
qualquer segundo. Sua imediata resposta seria falar para Charlie parar de
mentir, mas ela sabia que ele jamais brincaria com aquele tipo de coisa. Seu
olhar não mentia, mas por quê? Tantas
dúvidas lhe cruzaram a mente que não conseguia decidir qual frase cortaria o
silêncio cada vez mais longo que se interpolava entre ambos.
Antes que Charlie pudesse tentar
amenizar o clima, a porta se rompeu, com a invasão de um dos adversários
armados. Mary lançou um Psybeam que o
derrubou confuso no canto, abrindo uma brecha. Charlie apenas pegou na mão de
Serena, quase sem resposta, e a puxou correndo para fora. Por instinto, ela o
seguiu, mas sua mente não conseguia responder da mesma maneira.
Disparos podiam ser ouvidos. Serena
corria os olhos por todas as direções, os corredores pareciam um labirinto sem
fim, feito apenas para confundi-los e tornar a caçada mais divertida. Ela
permitia que as pernas corressem por si, mas sua mente estava em outro lugar.
Estava no rosto daquele garoto que a segurava pela mão, arrastando-a para um
caminho que mais que nunca parecia desconhecido e incerto.
— Vamos nos esconder aqui! —
murmurou ele.
Charlie invadiu uma sala e os dois
entraram na companhia dos Pokémon. O garoto fechou a porta e grudou o ouvido na
madeira fria, ouvindo o som de passos, cada vez mais próximos. O suor lhe
escorria na testa, pingando pelo nariz que lutava por oxigênio. Aos poucos, os
ruídos de sapatos batendo no piso se tornaram mais distantes, e ele escorregou
levemente aliviado até o chão.
Pela réstia que entrava no vão da
porta, encarou a garota perdida e desolada à sua frente. O aperto no peito lhe
confirmava que, embora soubesse que não poderia ter guardado aquilo por muito
mais tempo, a brusca informação pegou a garota de uma maneira ainda mais
intensa que temia. Seus lábios conseguiram sussurrar algo, enfim:
— Como isso é possível, Charlie?
Ele afundou as mãos no rosto.
— É… É complicado Serena. Eu juro –
juro – que posso te explicar tudo. Cada detalhe.
— Por que você não disse? Por que
enganou a gente por tanto tempo?
Na penumbra, ela conseguia ver a
sombra daquele garoto. Era Charlie, encostado em uma árvore próxima a
Vaniville, assoviando com uma folha, com roupas humildes e desgastadas, na
companhia de um Pancham. Seus olhos verdes hesitaram ao olhá-la pela primeira
vez, reverenciando-a com um cumprimento cortês. A expressão de alguém jocoso e
desafiador, que ela jamais sabia dizer se era honesta ou se apenas tentava distrai-la
para um furto.
Porém, perdidos em meio à Prism Tower, com sua vida desabando em
um blecaute, as pequenas luzes de suas memórias especiais e perdidas se
tornavam cada vez menos fiéis à realidade; cada movimento, cada segundo, cada
conversa, pareciam apenas devaneios enganosos do qual ela teve a coragem de
imaginar por tanto tempo. A resposta estava em sua frente o tempo todo,
brincando com sua mente e seus desejos. Como sombras na luz.
— Charlie, a única coisa que eu
pedi… Implorei… Era que você fosse sincero comigo. Você me enganou
sobre a coisa mais importante pra mim.
No fundo, ela não sabia o que
esperava. Nenhuma resposta parecia suficiente, nenhuma explicação daria conta
de alinhar a confusão que se passava dentro de si. Mas o silêncio também não
era reconfortante. Charlie tentava disfarçar, mas entre os vãos dos dedos
lágrimas desciam pingando no chão.
— Eu sempre estrago tudo. Sempre.
Sempre. Sempre.
Os dedos escorregaram pelo rosto,
revelando um par de olhos assustados e inchados. Serena não viu Charlie
chorando em todo o tempo juntos, mas desde que retornaram a Lumiose, parecia
ter aberto uma porta dentro dele que nunca mais pôde ser fechada. Isso de certa
maneira a assustava. Por mais que Calem lhe trouxesse alguma segurança, Charlie
era quem sempre tinha tudo sob controle.
Quando tudo parecia desabar, ele fazia
uma piada. Quando ela tinha pesadelos, ele se dispunha a ficar como um
guardião. Quando quase se casou, ele apareceu para interromper o evento. Mesmo
nos dias mais obscuros de sua fuga, ela sabia que em algum lugar ele sempre
abriria um sorriso torto e diria “vai ficar tudo bem, princesa”
E, finalmente, um dos últimos
pilares parecia tão frágil quanto ela se sentia naqueles momentos. Pela
primeira vez ela teve certeza que no fundo tanto ela quanto seu primo e Charlie
estavam desesperados e sem chão.
Seu primo. Calem. Ele estava lá em
cima esperando por ela.
— Estraguei tudo com a Emma. Com
sua mãe. E agora com você. — ele socou o chão. — Quanto mais eu tento fazer
algo, sinto que afundo mais e mais, eu destruo tudo aquilo que mais quero
proteger. Todas as pessoas que mais amo, tudo aquilo em que eu tento me
segurar… Talvez eu deva parar. Talvez eu não deva segurar em nada.
Ela se aproximou e segurou seu
rosto.
— Eu não estou destruída, Charlie.
— murmurou. — Eu estou aqui…
Ele balançou a cabeça.
— Você entendeu, Serena…
— Charlie, eu… Eu não sei, agora
mais que nunca eu sinto que não te conheço…
Ele abaixou a cabeça.
— Mas… Mas eu também sei onde você
esteve quando eu mais precisei, todas essas vezes… Eu não sei o que pensar
agora, mas precisamos sair daqui. Você não precisa ser indestrutível o tempo
inteiro. Não precisa fingir que não tem medo. Você não era meu guardião. Você era
nossa família.
— Você não entende…
— Talvez não. — ela falou. — Mas eu
vou te proteger dessa vez.
Ela se levantou e lhe esticou a mão.
Quando Charlie olhou pra cima, sentiu um arrepio. Serena poderia estar
assustada por dentro, mas ela tinha bravura em seu olhar. Parecia disposta a
enfrentar uma tempestade para sair daquele lugar. Ela enfrentou sua vida
virando de ponta cabeça, mas a esperança lhe parecia vívida dentro de si, um
brilho que nunca se apagava.
Enquanto ele por muito tempo
acreditou que a coragem era aparentar não ter medo de nada, percebeu naquela
garota que por tanto acreditou estar protegendo, que ela era capaz de enfrentar
qualquer coisa.
Ele aceitou segurar em sua mão,
colocando-se de pé. Os dois deram um abraço firme.
— Vamos terminar com isso. Você tá
pronto? Vai ser meio barulhento.
E quando Charlie limpou as últimas
lágrimas, os olhos verdes brilharam em divertimento, desenhando-se no rosto as
covas de seu sorriso travesso:
— Ora, princesa. E eu lá sou alguém pra recusar extravagância?
♠ ♣ ♠

Start.
De um breu total, as luzes se acenderam com uma intensidade tão forte que Calem precisou tampar os olhos. O chão se tornou multicolorido, raios de luz e fumaça eram disparados de uma forma que precisou de uns segundos para não perder as direções. Uma música tocava pelos alto falantes como se fosse um jogo infantil.
De longe, algumas pessoas podiam
ver que algo acontecia daquela área da Torre, onde o campo de batalhas era
localizado. Mas era difícil afirmar com clareza que um evento daquele acontecia
durante um atentado.
— Essa é uma batalha oficial entre o líder de ginásio de Lumiose, marquês
Clemont, e o desafiante Calem, Calem Windsor. — disse a voz robótica,
imitando o próprio jeito que Calem se apresentou.
Marc ainda tentava se localizar. Três
Pokébolas apareceram de uma das máquinas. Todas as informações sobre tempo,
temperatura, clima, eram exibidas nos mais diversos monitores à sua disposição.
O registro oficial de Calem – desatualizado, da última vez que esteve em
Shalour – apresentava todos os dados possíveis sobre o treinador. Marc se
divertia. Ele disparou uma das Pokébolas, revelando um dos Pokémon do ginásio.
A primeira criatura parecia um canino, tinha o corpo esguio e os pelos rapidamente se eriçaram com a energia elétrica que emanava de seu corpo. O Pokémon pareceu confuso de ter sido evocado, mas não baixou a guarda, pois sabia que outros treinadores do ginásio eram autorizados a utilizá-los além do líder. Era um Manectric, espécie que manipulava os poderes elétricos para aumentar sua força e agilidade.

— Muito bem, Calem Windsor. —
falou, olhando o registro na tela. — Dezesseis anos. Vamos ver quanto tempo
você consegue segurar essa brincadeira.
Calem tentou não transparecer seu
nervosismo. Honedge se colocou à frente do adversário. Iniciou com Swords Dance, como se estivesse
preparando a lâmina para o combate. Os olhos de Marc brilharam por trás dos
óculos à medida que todos os dados do adversário foram colocados. Possíveis
golpes, natureza, stats, até mesmo
valores individuais que mal Calem conhecia do próprio Pokémon. Em seguida, deu
um toque na tela, que logo anunciou:
— Fire Fang.
O canino avançou, as presas em
chamas desferindo uma mordida certeira em Honedge. Apesar de a espada possuir
uma lâmina resistente, os poderes de fogo traziam à tona suas fraquezas
metálicas.
— Shadow Sneak! — respondeu Calem.
A criatura entrou nas sombras,
revelando-se ao atingir o canino com um corte direto em seu corpo. Manectric
saiu rolando. Logo Marc conseguiu acompanhar uma barra onde os aproximados Hit Points do Pokémon caíram. Ele
pressionou uma nova tecla:
— Crunch.
Mais uma vez fazendo uso de sua
mandíbula, o Pokémon avançou contra Honedge. A espada conseguiu deslizar pelo
ar em uma esquiva, contra-atacando com o Pursuit,
porém não demorou muito para que Marc disparasse um novo comando. Novamente o
Manectric o golpeou com o Fire Fang.
Sorriu vendo na tela os pontos de vida do adversário serem abaixados ao nível
crítico.
— Mais uma vez, Shadow Sneak! — gritou Calem.
Fazendo uso das sombras –
ainda que em um ambiente tão brilhante – Honedge derrubou Manecric, vendo a
criatura cair desmaiada no campo com o impacto do corte dado seu alto nível e
poderosos índices de ataque. Marc olhou pensativo para a tela, mas não parecia
exatamente surpreso diante das estatísticas. Uma nova sequência de opções
surgiu. Ele teclou um botão e viu o canino ser retornado à Pokébola. Em
seguida, lançou uma segunda esfera no campo.
Ruídos metálicos começaram a ecoar, conforme um Pokémon dançava pelos ares se movimentando por meio das ondas magnéticas do ambiente. Era um Magneton, cujos múltiplos ímãs faiscavam dentro daquele espaço repleto de energia. Seus olhos se concentraram no inimigo, provocando-lhe para o ataque.

— Electric Terrain. — disse a máquina com o comando de Marc.
Os ímãs começaram a girar, lançando
uma rajada de energia que estimulou todas as telas ao redor, o que fez com que
começassem a piscar, mas logo em seguida atingissem um nível de brilho tão
intenso que pareciam estar com o máximo das baterias carregadas. Faíscas
saltavam de alguns monitores e às vezes estalavam no ar, tornando ainda mais
propício aos golpes elétricos de Magneton.
— Pursuit! — bradou Calem.
A espada avançou com um corte ágil
na direção do oponente, mas pouco foi seu impacto, onde as criaturas logo se estabilizaram
novamente no ar. Marc murmurou em retorno:
— Thunderbolt.
Eles focaram as energias em apenas
um ponto, disparando um raio certeiro e de imensa intensidade. Honedge caiu no
mesmo instante preenchendo o ambiente com o eco do metal despencando no chão. Calem
sentiu-se tremer. Um de seus maiores guerreiros estava derrotado. Ele refletiu
por um momento e lançou uma nova Pokébola.
Fennekin logo assumiu o campo. Marc
sorriu vendo os dados serem preenchidos. Um Pokémon de fogo poderia trazer
alguma desvantagem a Magneton, mas seu nível relativamente mais baixo tornava a
desvantagem quase um detalhe. A raposa saltava com agitação de um lado para o
outro, sem se intimidar com os movimentos imprevisíveis do elétrico do outro
lado.
— Fire Spin! — instruiu Calem.
A pequena criatura avançou com um
poderoso espiral de chamas que desestabilizou Magneton. Contudo, os índices não
tiveram uma queda notável. Marc pressionou a tecla que solicitava um Thunderbolt, vendo os ímãs do Pokémon se
concentrarem em um certeiro disparo que atirou Fennekin contra a parede. A
estática em seus pelos parecia confirmar uma nova condição que aparecia na
tela, marcando Paralysis.
— Psybeam! — comandou o menino.
Fennekin demorou para conseguir
processar a informação, lançando um golpe psíquico que surtiu pouco efeito em
Magneton, que contra-atacou com um Sonic
Boom, mais uma vez jogando a pequena criatura para o outro lado do campo,
ainda afetada pela paralisia do golpe anterior.
— Flame Charge, vamos! — insistiu Calem, aumentando seu nervosismo.
— Thunderbolt. — retorquiu Marc.
O Pokémon de fogo tentou concentrar
seus poderes, mas as limitações da paralisação impediram que conseguisse se
mover. Totalmente vulnerável ao disparo de Magneton, Fennekin viu seus últimos
pontos de vida chegarem ao zero nos monitores de Marc, que sorriu com
confiança. Calem suou frio, retornando a criatura hesitante.
Ele talvez tivesse errado na
estratégia. Mas, sobretudo, estava enfrentando um adversário que não cometia erros. Do outro lado, Marc
operava um sistema de computador. Era ele contra uma máquina que podia prever e
prevenir qualquer uma de suas ações. Que em segundos calculava todas as
estatísticas possíveis para presumir o melhor caminho à vitória. E, não
bastasse sua mente falha de humano, não conseguia pensar com clareza olhando
nos olhos de Marc.
Sabia que alguns metros à distância
estavam Serena e Charlie, possivelmente em perigo. Ou não. Talvez salvos.
Talvez mortos. Ele não tinha como saber, e a dúvida lhe tirava toda a
concentração. Ele sabia o que era mais coerente de fazer naquele momento, mas a
imprevisibilidade lhe perturbava. Olhava para a Pokébola de Pupitar.
— Por quê? — ouviu.
Calem levantou o olhar. Marc estava
tão neutro que parecia não ter dito nada. Ele só entendeu que realmente foi uma
pergunta quando ele repetiu:
— Por quê?
— Por que o quê? — indagou de
volta.
Marc fez uma pausa.
— Por que você veio até aqui?
Ele olhou para o lado. As luzes
piscando freneticamente o irritavam um pouco. Ele definitivamente não nasceu
para ser um personagem de videogame.
— Você sabe que é uma armadilha. A
chance de seja lá o que estiver tentando fazer dar certo é menor que esse
computador possa calcular. — murmurou Marc. — Por que tá aqui?
Calem respirou fundo.
— Porque eu preciso estar.
A Pokébola dançava entre seus dedos
trêmulos e nervosos. As memórias lhe atravessavam a cabeça nos curtos segundos
em que piscava, como se pudesse estar em todos aqueles lugares ao mesmo tempo.
— Seu irmão é o responsável por eu
estar aqui, Marc. — falou com firmeza. — E por isso devo tanto agradecê-lo
quanto amaldiçoá-lo.
De óculos escuros, sua expressão
não mudou.
— Você tá certo. É loucura. Eu… Eu
não sei o que tô fazendo aqui.
Sua garganta ardia, o peito
apertava. Seria uma vontade de chorar um choro que não poderia sair?
— Mas eu sei que o Charles estaria
aqui no meu lugar se fosse necessário. Porque ele já esteve.
Marc soltou uma risada. Menos um
riso de divertimento, mais uma tentativa de deboche mal sucedida, perturbada,
amarga.
— Por que você tá fazendo tudo
isso? Vingança?
— A vingança é um bom motivador. —
ponderou. — Mas é uma motivação fraca para esse risco enorme. Meu irmão não
vale isso.
— Dinheiro? Chantagem?
Ele ficou em silêncio, como se
ensaiasse uma resposta. Por fim, deu de ombros.
— Meu irmão é apenas a isca. —
falou com pouca fé nas próprias palavras. — Todos ficaremos felizes com o final
da história.
Calem titubeou, pensando que suas
piores hipóteses pareciam cada vez mais perto de estarem certas.
— Para de enrolar e joga logo seu
último Pokémon. — resmungou o outro, sem abrir muito espaço. — Vamos acabar com
essa merda, ou vai ser a minha cabeça em jogo.
Calem suou frio, apertando com
força a esfera em sua mão. Só havia uma coisa que ele poderia fazer naquele
momento. Concentrou-se e disparou a bola em direção ao campo:
— Vai, Pupitar!
O grandioso casulo se impôs
majestoso frente ao adversário metálico, brilhando diante dos feixes luminosos
como um escudo polido pronto para se defender de qualquer golpe. Calem sabia
que sua relação com Pupitar era cheia de conflitos. Contudo, era seu mais poderoso
Pokémon e sua melhor chance de vencer aquele combate. Marc pareceu intrigado ao
ver as estatísticas daquela criatura mostradas em seu visor.
— Sandstorm!
Os olhos intensos de Pupitar
gradualmente desapareceram ao seu adversário frente a uma nuvem de areia que se
formou rodeando o campo outrora beneficiado pelos poderes elétricos. Magneton
encontrou dificuldades em se locomover flutuando pelo ar repleto de areia.
— Mirror Shot! — gritou Marc.
— Ancient Power! — retorquiu Calem.
O corpo metálico de Magneton
brilhou, disparando um raio capaz de refletir todas as luzes que iluminavam o
campo. Todavia, o poder de Pupitar a partir do golpe ancestral atingiu o adversário
com tanta força que foi derrotado em questão de segundos. Marc viu o monitor em
um estado de emergência com o resultado imprevisto, com a mensagem “A critical hit”. As estatísticas disso
eram baixas, mas Pupitar contrariou o previsível.
Ele retornou a criatura,
enfurecido. Contudo, soltou um sorriso ao ver as informações da última Pokébola
disponível. Ele devolveu a esfera para a máquina no mesmo instante.
— Ora essa. Dessa vez nem
precisarei usar os reforços do querido líder. — murmurou, contente.
Calem não entendeu a brincadeira. O
adversário enfiou a mão nos bolsos, o que o fez se colocar em posição de
defesa. Mas o que saiu do bolso não era uma arma. Era uma Pokébola. Velha e
gasta, até mesmo enferrujada. Marc a estendeu:
— Vá, meu parceiro.
Em meio à tempestade de areia era
difícil ver com clareza a criatura que se libertava no centro do campo.
Contudo, uma pequena e esguia silhueta se formou, as escamas reptilianas
reluzindo com as luzes dos monitores brilhantes ao redor. Um par de sérios
olhos cravaram em Calem, dando-lhe um leve susto quando a pele de seu pescoço
se abriu como uma antena parabólica, onde faíscas saltaram, energizando as máquinas
ao redor. Era um Heliolisk, espécie típica das áreas mais áridas de Kalos.

O Pokémon sequer tremeu, sequer
pareceu surpreso. Apenas se colocou em posição de ataque diante de seu dono. Calem
ficou intrigado ao descobrir que aquele rapaz tinha um Pokémon, afinal de
contas. As máquinas do ginásio levaram alguns segundos até capturar todas as
estatísticas daquela criatura desconhecida para o sistema.
— Mud-Slap! — ordenou Marc.
— Rock Slide! — revidou Calem.
Embora Pupitar tenha tentado causar
um deslizamento, o lagarto foi capaz de desviar, disparando um golpe de lama
que interferiu em sua visão. A habilidade de Heliolisk em se deslocar em
terrenos áridos com o Sand Veil
permitia que usasse a tempestade de areia a seu favor dentro do campo. Marc
analisou as opções no monitor, abrindo um sorriso.
— Solar Beam. — murmurou.
— Use o Rock Slide!
A pele do pescoço de Heliolisk se
expandiu, absorvendo energia ao redor. O chão e as paredes iluminadas pareciam
entrar em parafuso com a interferência em seus geradores de energia. Pupitar
avançou com um deslizamento dos materiais da torre, mas o adversário conseguiu
minimizar o impacto com sua agilidade.
O lagarto guinchou, encarando Pupitar. Suas escamas brilharam como o sol, disparando um feixe tão certeiro que atirou a criatura rochosa contra uma das paredes com toda a força. A energia foi tamanha que todos os monitores da sala se acenderam, o que obrigou Calem a proteger a vista a todo o custo – desejando fortemente os óculos escuros de Marc. Aos que encaram de fora, gritos de surpresa: de um blecaute, a Torre acendeu todas as suas luzes momentaneamente como uma estrela.

Os índices de Pupitar caíram a um
nível crítico. O Pokémon teve dificuldades em se colocar novamente frente ao
inimigo. Calem ficou ainda mais ansioso.
— Pupitar, não desista! Por favor.
— suplicou. — Use o Thrash!
O Pokémon foi tomado pela fúria em
seus olhos. Avançou com uma velocidade quase incompatível com seu peso,
investindo com tanta força que o pequeno lagarto, ainda se recuperando do
poderoso golpe, foi atirado na direção contrária. Marc hesitou vendo os índices
caírem.
— Se levante! Mud Slap!
Heliolisk conseguiu despistá-lo com
uma rajada de terra, deslizando seu corpo de réptil para escapar da ira de
Pupitar, que teve seu fluxo de golpes interrompido. A imunidade terrestre
frente aos poderes elétricos da criatura tornavam as opções de Marc limitadas,
encarando tenso o monitor que agora piscava com certa dificuldade após o golpe
luminoso de seu Pokémon.
— Solar Beam! — bradou, com fúria. Dessa vez, não mais soava como um
conselho ou um comando mecânico. Por um segundo, Calem ouviu sua voz apenas como
a de um treinador que coordenava seu Pokémon em campo.
O lagarto começou mais uma vez a
recarregar sua energia como uma antena que drenava toda a força ao redor. Calem
gritou, desesperado:
— Ancient Power! É sua última chance!
Pupitar se concentrou. Uma de suas
maiores qualidades era conseguir manter o foco mesmo em situações adversas,
mesmo com a confusão mental afligida pela batalha.
Os geradores enlouquecidos forçavam
uma mensagem de advertência nos monitores; o chão e as paredes tingiam a sala
de um tom de vermelho vivo, intenso, onde a dura expressão de Marc parecia um
demônio prestes a arrastar Calem para o inferno. Heliolisk se tornava tão
brilhante quanto uma bomba prestes a explodir.
Pupitar avançou, permitindo que
seus poderes ancestrais desestabilizassem o andar inteiro, onde parte do teto começou
a desabar. As estruturas cediam a uma força dos confins da terra, muitos metros
abaixo, soterrando o pequeno lagarto frente a um amontoado de materiais. Uma cortina
de poeira se levantou e Calem foi obrigado a tossir e se proteger.
Marc saiu naquele exato segundo de
onde estava, correndo disparado rumo a Heliolisk.
— Não!
Calem conseguiu abrir os olhos momentos depois, perdido. A poeira baixava, o ensurdecedor barulho das máquinas havia parado. A música agora era abafada, eram poucos os monitores que ainda conseguiam funcionar com precisão, mas estes exibiam uma colorida mensagem “Congratulations! You’ve defeated the Gym Leader”. A voz mecânica soou, agora já quase cansada:
— Marquês Clemont foi derrotado. A vitória vai para Calem, Calem Windsor.
No centro da arena, Marc tocava a
pele de seu Pokémon derrotado. Sua expressão continuava neutra. Contudo, os
óculos escuros agora estavam levemente rachados, embora ainda conseguissem esconder
bem seus olhos. Calem sentiu que o silêncio talvez significasse alguma
redenção. O sentimento de ver-se derrotado talvez tivesse impactado aquela
figura quase impassível.
Contudo, Marc levantou o rosto e correu
para o lado, recuperando seu revólver.
Calem levantou os braços. A mão de
Marc tremia, conforme seus óculos caíram no chão. Um tique. O dedo suado
deslizando pelo gatilho, pronto para dispará-lo. Pupitar se colocou em posição
de defesa, mas antes de qualquer coisa, uma voz atravessou a arena:
— Não, Marc!!
O elevador outrora desativado se
abriu. O homem imediatamente virou em direção a Charlie e Serena, que pararam
exatamente onde estavam. Marc alternava a direção do revólver entre Charlie e
Calem, que permaneciam congelados em seus lugares.
— Acabou. — murmurou Charlie,
movimentando os pés a pequenos e curtos passos adiante.
— Parado aí, irmãozinho! — gritou,
o dedo pousado no gatilho.
Mais um pequeno e curto passo de
Charlie.
Marc levantou a arma para o alto e
deu um tiro. Os três se jogaram no chão.
— Charlie!! — repreendeu Serena.
— Marc, por favor. — suplicou
Charlie. — Por favor.
O outro desenhou um sorriso quase
sádico no rosto. Os olhos arregalados, imersos em loucura.
— Eu sabia, Charlie. Sabia que um
dia iria acabar assim….
— Marc…
— Você iria se arrastar de volta.
Arrependido. Implorando aos meus pés.
— Marc, por favor…
— Porque você fugiu dos únicos que estenderam a mão pra você.
Sua vida inteira! Os ÚNICOS! E o que
isso te trouxe? Hm? Riqueza? Reconhecimento? Glória? Segurança?
Os olhos de Charlie marejaram. Marc
soltou uma risada.
— NÃO! Porque no final das contas
depois desse tempo todo você tá NA MINHA FRENTE IMPLORANDO PRA EU NÃO TE MATAR.
O grito de Marc ecoou pela arena.
Para além do eco, um silêncio incompatível com a Cidade Luz.
— E sabe o que é o pior?
Charlie quase não se atreveu a
olhá-lo nos olhos.
— É que eu faria um favor se eu te
matasse agora. Faria um favor. Um favor. Porque o que vai sobrar pra você fora
daqui é muito pior que seu medo infantil de mim.
O outro engoliu em seco.
— É isso que sobra pra você e pra
mim, Charlie. No final do dia, seus dois amiguinhos vão voltar de helicóptero
pra mansão do pai. E você, Charlie? Acha que vai junto? Acha que vão te tratar
do mesmo jeito?
— E o que eu iria ganhar ficando? —
sussurrou Charlie, engolindo o choro.
— Quê?
— O que eu ia ganhar ficando? Com
você.
— Você não é um deles, Charlie.
Você nunca vai ser. E quando tentou ser, olha o que fez com os dois.
— Eu não sou um deles. Mas não sou
igual a você. Nunca vou ser.
Marc agarrou Charlie pela blusa,
jogando-o contra a parede. Serena gritou. Pupitar, Goomy e Espurr se colocaram
em posição de combate, mas ninguém se mexeu mais que isso. Charlie sentiu o
cano frio do revólver em sua testa, estava a poucos centímetros dos olhos
opacos e intrigantes de seu irmão. Quando foi a última vez que seu irmão
permitiu ser olhado nos olhos? As lágrimas escorriam pelo rosto, respingando no
chão empoeirado.
Ele fechou os olhos e sentiu o
cheiro de seu pai. O cheiro do casebre velho, onde o silêncio escondia seus
piores pesadelos. Onde a escuridão era onde seus medos dançavam formando um
monstro que ele podia contar os passos para capturá-lo. Três. Dois. Um.
— Deixa eles irem, Marc. Por favor.
Faz o que quiser comigo. Mas deixa eles irem.
Marc engoliu em seco vendo-o
chorar. Fez silêncio por alguns instantes.
— Eles não vão conseguir fugir,
Charlie. — murmurou baixinho. Dessa vez não havia terror, sadismo, paranoia.
Soou como uma confissão. — Não existe futuro bonito pra quem mexe com essa
gente.
Charlie fungou. Sua garganta
arranhava, as palavras lhe escaparam como uma súplica perdida que enfim se
libertava de um labirinto de anos.
— Você é um monstro. — chorou.
O mais velho piscou. Por um
instante, viu o choro de um garotinho de poucos anos de idade se protegendo no
escuro de seu pior pesadelo. E ele, a todo custo, tentara protegê-lo. Faria o
que pudesse para protegê-lo. Iria até o inferno e voltaria para protegê-lo.
Mas, quando abriu os olhos, era ele
quem o ameaçava. Em uma ironia do destino, havia o tornado exatamente aquilo
que mais temeu por toda a sua vida. A mão suava no cabo da arma. O dedo tremia
no gatilho.
— Valeu a pena?
Charlie abriu os olhos.
— Valeu a pena? — indagou seu irmão,
baixinho. — Viver livre. Mesmo que por pouco tempo.
O rapaz balançou a cabeça, mesmo
com a pressão da arma.
— Cada segundo. Eu viveria de novo
e de novo.
Sentiu o cano fazer mais força em
sua testa, e orou para as divindades que sequer acreditava. As lágrimas
pingaram e encharcaram sua camisa. Serena gritou desesperada, ouvindo seus
gritos reverberarem pelo andar. Amaldiçoou seu pai. Então, Marc pressionou o
gatilho.
Um disparo.
Ele ainda sentia sua pele. Sentia
os pés trêmulos mal o sustentando.
A bala atingira o elevador ao lado
e travou a máquina de se mover. Alguém estava tentando chegar naquele andar e
foi impedido. Marc soltou Charlie, que caiu ajoelhado tentando se segurar.
Ainda sentia tudo. Ainda estava bem. Seu irmão deu alguns passos para trás.
Vagarosamente. Um a um, encarando as mãos trêmulas.
— Não tô fazendo por eles. —
murmurou. — Tô fazendo por você.
E mais passos para trás. Charlie
tentou se levantar.
— Marc…
— O mundo é um lugar horrível, meu
irmão. Por muito tempo eu achei que conseguiria devolver pelo menos um pouco de
tudo aquilo que veio sobre a gente.
— Marc…
— Mas se existe algum lapso de
beleza nessa merda desse lugar, que você possa provar disso por mim.
Ele pegou os óculos escuros caídos
no chão e os colocou sobre os olhos. Poderia ter sido uma lágrima no canto do
rosto, mas Charlie nunca conseguiria saber. Foi a última vez que olhou nos
olhos do irmão, até que seus óculos voltassem a ser colocados como uma máscara. Charlie começou a andar em sua direção, arrastado.
— Digo que mandou lembranças ao
papai quando encontrá-lo no inferno. — falou, abrindo pela última vez seu
sorriso cínico.
— Marc, NÃO!
E correu disparado, atirando-se
contra as imensas janelas da Torre Prisma, em um mergulho em direção às
inúmeras estrelas brilhantes que iluminavam a escuridão de Lumiose. Charlie
correu desesperado atrás dele, mas seu irmão sumiu de vista diante do mar
brilhante ao redor, gritando sozinho frente a uma galáxia perdida.
O garoto chorou como uma criança, tentando
sentir as mãos de seu irmão sobre o ombro – não o Marc ameaçador que o havia
sequestrado, mas o garoto de pouca idade que prometeu protegê-lo do mundo e não
foi capaz de cumprir.
Voltou-se a seus amigos, vendo a
expressão abismada de Serena com os olhos arregalados e Calem praticamente sem
qualquer reação. Contudo, seus passos foram interrompidos em questão de um
curto instante, quando um novo disparo foi ouvido.
Charlie foi a o chão, e os amigos
imediatamente se voltaram para a origem do ruído, onde múltiplos tiros eram
lançados da porta lateral que conectava o andar à escadaria. Calem
intuitivamente bradou:
— Pupitar, Rock Slide!
A criatura criou um soterramento
que bloqueou por completo qualquer entrada por aquela porta, onde nenhum outro
barulho foi ouvido desde então. Todavia, seus olhos agora correram para
Charlie, caído no meio da arena. Serena imediatamente se abaixou e tocou seu
rosto, as mãos tremendo e mal conseguindo segurá-lo. Na lateral do corpo, a
camiseta manchada de sangue.
— Charlie! — gritou Serena, entre
um chamado e um pedido de socorro.
Calem se abaixou, sem saber o que
fazer. Chacoalhou o garoto, mas ele não respondeu. As lágrimas de Serena
pingavam sobre sua pele. A garota apoiou o rosto sobre seu peito, soltando um
grito.
— Charlie, por favor.
O primo tocou o rosto do amigo,
sentindo algo que há muito não sentia. Algumas lágrimas tentavam lhe escapar
pelos olhos, procurando um caminho para fora. A primeira levou à segunda, e à
terceira, e aí por diante.
Sua voz soou tão frágil que poderia
se desmanchar antes de sair pela boca.
— Charlie… Por favor, Charlie. Por
favor. A Serena precisa de você. — murmurou, segurando sua camiseta com força.
— Nós precisamos de você.
Sentiu um movimento de respiração
brusco no garoto, fazendo-os ter uma surpresa. Charlie abriu os olhos
levemente, com dificuldade frente às luzes intensas no ginásio de Lumiose. Talvez
agora ele tivesse coragem de enfrentar a luz, depois de tantas sombras. Encontrou
as pessoas que mais amava lhe encarando, queria poder congelar aquele instante.
Tudo parecia girar, mas após alguns segundos conseguiu recuperar o equilíbrio
para levantar a cabeça. Ele olhou nos olhos de Calem.
— Você… Você me chamou de Charlie.
E abriu um sorriso. Serena permitiu
uma pequena risada escapar, enquanto Calem limpou as lágrimas rapidamente, se
levantando.
— Ora, Charles!! — resmungou. —
Você ainda tem muito o que viver pra poder pagar as coisas que roubou de mim.
E Charlie riu, logo colocando a mão
sobre a área machucada.
— Que fofinhoooooo! Posso te chamar
de Cal-Cal?
— Pode me chamar de Senhor Vossa
Majestade Calem Windsor no tribunal quando meu advogado te processar por me
fazer morrer do coração, seu idiota!!
Examinou o machucado do rapaz,
enquanto sua prima ria. Um riso que logo foi se esvaziando ao olhar aqueles
olhos verdes mais uma vez. Ficaram ambos em silêncio. As inúmeras questões
ainda pairavam entre si, sem respostas. Apenas dando espaço para uma prioridade
maior.
— Acho que de tudo não foi tão
grave. Acha que consegue andar?
E começou a se levantar, com ajuda
dos amigos.
— Consigo.
Ele olhou para o lado e viu uma
Pokébola caída – a Pokébola de Heliolisk. Pegou o objeto e guardou a esfera com
cuidado, engolindo uma sequência de pensamentos que lhe atravessaram. Ao longe,
a janela quebrada onde Marc o havia deixado. Muito longe, o sol começava a
nascer, preenchendo a escuridão onde antes as luzes de Lumiose se desenhavam.
— Vamos embora. — murmurou Calem, levando-os para o elevador, que logo começou a funcionar sem qualquer comando, sob controle de Clemont. — O Observador está nos esperando no subsolo.





























