Notas do Autor - Capítulo 29

ALERTA DE SPOILERS! Antes de ler as notas, leia o capítulo correspondente primeiro! 

Capítulo em plena segunda-feira? Bem, meu final de semana foi um pouco corrido, então não tive tempo de revisar direitinho o capítulo, e não queria esperar até sábado que vem. Vamos conferir mais um pedaço dessa trama!

Este capítulo é majoritariamente de diálogos. De todos, é um dos com menos ações. E, mesmo assim, ficou imenso! Não falamos sobre batalhas, sobre insígnias, ou sobre Mega Evoluções. Hoje os protagonistas são nossos personagens e suas vivências. Cara, estamos fechando uma saga (a Saga X, no caso), e muitas coisas começam a se encaixar neste momento. Acho que esse capítulo responde perguntas que estão na cabeça de vocês há anos. Alguém lembra da suposta carta misteriosa do capítulo 14? Inclusive, nesse mesmo capítulo ouvimos os primeiros comentários sobre o fato de Stevan querer arranjar o casamento da Serena. Para ver como essas informações não estão aí jogadas para nada...

Apesar de prezarmos hoje principalmente por diálogos, diria que estes foram alguns dos mais intensos que tivemos até o momento. Sério, a tensão foi tão grande que a todo momento dá vontade de entrar lá e discutir junto. De repente a história tomou um rumo que não se espera exatamente para uma fanfic de Pokémon. Alguns personagens nos surpreendem por sua conduta, por suas ações, por suas mudanças...

O próximo capítulo é o último da temporada. 30. Trinta capítulos. É aqui que teremos a conclusão de tudo o que construímos até agora nessa temporada, é quando o tema Vida finalmente faz sentido. Eu já o tenho escrito, e vou lançar logo no domingo (três semanas seguidas com capítulo, Haos? Que que tá havendo?). Já posso adiantar: ele tá de pegar fogo. As descrições estão bem detalhadas, mas tudo para tentar criar a melhor atmosfera! Aguardem com paciência e aproveitem todas as linhas do próximo capítulo. Prometo que vai valer a pena <3

Pedaços que se encaixam
Farei um pequeno resuminho aqui. Eu detesto explicar coisas, mas sei que o começo dessa trama veio há anos, então não quero que ninguém se perca por esquecer informações (como é minha cara fazer ~rs) Stevan deixou Serena sair em sua jornada, mas claramente a mandaria de volta à casa após encontrar alguém para casar com ela (coisa que é comum em famílias tradicionais como os Windsor, que é uma forma de manter e aumentar os negócios da famíla). Além disso, ele deve ter ouvido falar sobre o garoto que anda com Serena (pelas notícias e fofocas por aí), além das faturas dos cartões e documentos do gênero. Ele tentava entrar em contato com a filha por cartas, mas Serena justamente temia que Stevan a obrigasse a voltar, e nunca respondia. Participar do Pokémon Showcase, porém, foi um erro: além de anunciar sua localização, ainda mostrou quem era o "terceiro companheiro de viagem". Stevan, que já tinha tudo encaminhando, resolveu tirar as dúvidas e enviou alguém para segui-los e descobrir exatamente quem era o tal garoto misterioso que viajava com Serena. Esse espião é o Elliot, que se passou por um treinador indefeso para entender a relação do grupo, ver como Serena estava e permitir que Stevan pesquisasse sobre o Charlie. Enfim, o pai de Serena a mandou retornar porque conseguiu finalmente acertar o que precisava para concretizar o matrimônio.

Aquela carta que ela recebe no capítulo 14 e joga fora o Charlie leu e, por seus motivos (que não sabemos quais são) resolveu responder tentando se passar pela Serena. O tiro saiu errado, e o Stevan se preocupou mais ainda, acreditando mais que nunca que suas decisões estão certas. Com tudo organizado há anos, faltava apenas o start para o casamento. E, bem, ele agora conseguiu.

Aguardo vocês no final da semana por aqui para ver a conclusão dessa saga!!

Capítulo 29


Capítulo 29
Matrimônio


Serena puxou o ar pesado que rodeava a sala. Desta vez não mais sentia o aroma da maresia da parte costal de Kalos, mas sim um familiar cheiro de mogno e aromatizador de ambientes, que lhe de dava ligeiro enjoo. Aquela sala a deixava claustrofóbica. As estantes altas de madeira escura repletas de livros que ela jamais leu pareciam observá-la; os quadros de renomados artistas da região, intimidavam; oposta à porta, havia uma parede de vidro que revelava um imenso jardim, contrastando ao céu nublado e frio da área central de Kalos.


Ouvia o batucar dos dedos grandes do homem em sua mesa de escritório. Queria que aquele barulho cessasse o mais rápido possível, mas aquilo fugia ao seu controle. Se não por esse ruído, a sala era inundada por um silêncio sufocante; intimidador. Dentro daquele cubículo, era como se entrasse em um universo paralelo e assustador, que a perturbava por toda sua vida, onde perdia todo o seu poder e voltava a ser uma criança indefesa.
— Meses se passaram e não recebo nem um “olá”? — perguntou Stevan, sentando-se em sua cadeira, abrindo um sorriso fino.
Serena tinha os olhos marejados. Levantou-os para seu pai, trêmula. Contra a luz do lado de fora, Stevan mais parecia uma sombra inexpressiva que a observava.
— Como você pôde? — perguntou ela.
Stevan fechou os olhos. Apoiava-se em um dos braços de sua confortável e enorme cadeira, sem dizer uma palavra sequer. Serena queria levantar e chacoalhá-lo, implorar por uma reação. As palavras, mesmo não sendo gritadas, ecoavam pela salinha, na ausência de outros sons. Serena ofegava; olhou para as próprias mãos, nervosa:
— Nós combinamos, papai. — ela falou, segurando as lágrimas. — Você me prometeu.
O pai respirou fundo.
— Eu prometi que você poderia sair em uma jornada, Serena, mas sempre soubemos das condições para tal. — replicou ele.
— Eu tenho quinze anos. — retorquiu a garota, concisa.
— Exatamente, Serena. — assentiu. — Capturar Pokémons e conhecer o mundo é um desejo de uma criança de dez anos. Não de uma mulher.
Serena deu uma risada debochada.
— Talvez eu seja uma criança. — rebateu ela.
— Pois age como uma, às vezes. — Stevan arqueou uma das sobrancelhas.
A loura cobriu o rosto com as mãos, desacreditada.
— Pai, eu não posso casar… — ela disse, soluçando. — Eu nem conheço meu suposto noivo! Eu não posso abandonar tudo desse jeito…
— Você fala como se conhecer alguém fosse algo decisivo para você. — apontou o pai, com um tom sarcástico.
A garota hesitou.
— O que você quis dizer com isso? — perguntou ela, incomodada.
— Quando ia me contar que tem um criminoso andando com vocês? — inquiriu Stevan, se apoiando na mesa enquanto seu tom subia ligeiramente. — Que vocês levam ele para todo lugar desde que saíram de casa? Hm?
— C-como assim?
— Não me faça de idiota, Serena!! — bradou Stevan, socando a mesa. A garota congelou, e um silêncio se instalou após o som da madeira vibrando ressoar por todo cômodo várias vezes. — Vocês viajam com um moleque qualquer, que mal conhecem, e basicamente bancam todos os luxos dele! Você sabia que ele tem uma ficha criminal registrada em Lumiose?!!
Serena se arrepiou.
— Você não conhece o Charlie. — falou ela, reclusa.
Stevan jogou-se para trás na cadeira, abrindo uma risada escrachada de inconformidade. Seus olhos semicerrados focaram na garota, que não conseguiu encará-lo diretamente.
— E ainda por cima estão namorando. — disse, massageando a própria testa. — Acha que eu não ia ver você em um programa transmitido em toda a região?! Todos me ligaram perguntando quem era o garoto que você estava vendo, e claramente eu não sabia nem responder isso!
A respiração do pai tornou-se mais pesada. Sua voz agora já alcançava níveis mais altos, mas ele parecia tentar se controlar após as frases. A garota não evitava se recolher a cada pronunciamento, como se voltasse a ter cinco anos de idade e não tivesse para onde correr quando fosse tomar uma bronca de seu pai, não restando alternativas se não recluir-se em seus próprios braços.
— Eu não estou namorando o Charlie. — falou ela, subindo o olhar. — Ele é nosso amigo, e tem sido de grande ajuda desde o princípio.
Stevan riu.
— Se passando por você, por exemplo? — perguntou ele, provocativo.
A loura titubeou.
— Como assim? — indagou.
O homem abriu uma das gavetas da mesa de seu escritório e procurou entre um amontoado de papéis. Puxou algumas páginas específicas, e as jogou à frente, em direção a Serena. A garota alternou o olhar entre seu pai e as folhas, dúbia. Tinha medo de checar o que aquilo queria dizer. Ele fez um sinal com a cabeça para que ela pegasse nas próprias mãos.
— O que é isso? — perguntou ela.
Ele apontou para que ela olhasse. Serena levantou o pedaço de papel com calma, mas ficou nítido o quanto tremia quando tentou equilibrar a folha nas mãos. Era a cópia de uma carta, e a grafia era claramente rebuscada como a de seu pai. Apesar da pressão, ela tentou ler cada palavra com calma, até o final.
Olá, Serena,
Tenho tentado escrever a você há tempos, mas não tenho obtido resposta e isso me magoa seriamente. Como posso saber que está tudo bem se você não me retorna? Consigo apenas pensar em duas possibilidades para que isso esteja acontecendo:
1)      Você não está recebendo as cartas; então procurarei contratar um mensageiro próprio.
2)      Você está, por algum motivo que não consigo imaginar qual, as ignorando. Nesse caso específico, terei de ser mais autoritário. Tenho minhas maneiras de observá-la, minha querida filha. Não pense que não tenho recursos para encontrá-la e, na pior das hipóteses, trazê-la de volta caso necessário. Se quer continuar “livre”, então transmita-me confiança.
PS: Notei, por acaso, em algumas faturas, logo nas primeiras semanas que você saiu, gastos “para três pessoas”. Posso estar errado, mas você e Calem são apenas duas pessoas. Pergunto-me quem poderia ser a terceira, ou se estou apenas me enganando. Espero que possa esclarecer em sua carta para mim, a fim de tranquilizar-me, para caso seja algum erro do próprio banco possamos resolver.”
Serena ficou muda após terminar de ler, prolongando um pouco o tempo que fitava a carta enquanto pensava em uma resposta.
— Papai, desculpe, eu não havia recebido… — falou a garota, singela, por fim.
— Eu não duvidaria disso, Serena. — respondeu Stevan, puxando um outro pedaço de papel. — Mas a questão é que você me respondeu.
Ele atirou outra página, e se era possível que Serena ficasse ainda mais arrepiada, havia acabado de acontecer. Desta vez ela hesitou fortemente em pegar aquele segundo pedaço de papel, e desejou mais que tudo levantar e sair correndo daquela sala. Mas chegava um momento da vida em que isso não era mais uma resposta aceitável para os problemas. Droga de amadurecimento.
Enquanto lia as palavras da carta, Serena sentiu sua pressão cair.


Pai, 
  Peço desculpas por não ter conseguido respondê-lo. As cartas de fato não estavam conseguindo chegar até mim, mas consegui recuperar algumas delas. Não precisa se preocupar, está tudo ótimo, e a viagem está sendo incrível. Ah, e parece que havia um problema com a fatura dos cartões, mesmo. Não se preocupe, Calem já está indo resolver isso. Obrigada pela preocupação.
 Serena
As mãos da garota fraquejaram, e caíram sobre seu colo. Os olhos da menina ficaram fixos no chão, percorrendo até seus sapatos, subindo vagarosamente, com medo de alcançar o rosto de seu pai. Ele estava sério, parecia se deleitar com aquele silêncio mortal instalado no escritório.
No Parfum Palace. Charlie havia pegado meu diário. Aquele dia ficou marcado na minha cabeça, mas agora tudo fazia sentido. Ele não queria ler o que eu falava dele. Ele queria copiar minha letra para responder a meu pai. Minha mente não consegue explicar o porquê de ele ter feito isso, mas era a única explicação possível.
— A grafia de fato era parecida. O vocabulário… — ponderou Stevan, apontando para a carta. — Mas não era minha filha. Meses sem nenhum contato, e você me mandando uma carta destas… — ele riu.
— Deve ter precisado de um detetive para saber que não era eu. — disse Serena, para si mesma.
Stevan se levantou e caminhou a lentos passos até sua filha. Ficou parado na frente dela, com uma expressão impassível.
— Por que não me conta a verdade? — disse.
Serena olhou para baixo e assim ficou, teimosa. Stevan não se importava. Tinha todo o tempo do mundo naquele dia.
— Eu não queria responder você. — falou ela, com uma voz mais birrenta que gostaria. — Tinha medo que descobrisse onde eu estou, e me mandasse voltar.
Stevan abriu um sorriso.
— Como se eu não conseguisse descobrir onde você está. — rebateu ele.
Serena fez um sinal negativo com a cabeça, abalada.
— Eu não sei o que tinha na cabeça. — falou, com a voz falhando. — Mas virou uma bola de neve, eu não respondia por medo, depois esquecia… De repente achei melhor manter como estava e parei de ler as cartas.
— Até que seu amigo achou melhor se passar por você e me responder. — acrescentou ele, ríspido.
A garota fez um murmúrio baixo.
— Eu não sei por que ele fez isso, papai, mas eu sei que não fez por mal. — disse a garota, o encarando com uma expressão piedosa no rosto. — O Charlie só quer ajudar.
Stevan bufou, segurando com força em sua própria mesa.
— Como você pode confiar em alguém que não conhece? — cuspiu.
— Mas eu conheço o Charlie, pai! Conheço muito bem!
— Ah conhece? — inquiriu ele, subindo a voz. — Quem são os pais dele? Onde ele estudava? Qual o nome da rua em que morava? Onde exatamente ele estava um ano atrás?
Naquele momento Serena não se conteve. Cada pergunta que Stevan fazia subia em volume, e lhe atingia como uma pancada. Primeiro pela dor de ter seu pai questionando uma de suas pessoas mais próximas. Em segundo lugar, porque ela sabia que não tinha nenhuma daquelas respostas. No fundo, seu pai tocara em um ponto que a incomodou a viagem inteira. Ela nunca soube quem de fato era Charlie, e sempre hesitou por isso. Por mais que soubesse que não tinha más intenções, ela não o conhecia por completo, como ele a conhecia. E quando Stevan forçou esse ferimento, as lágrimas começaram a escorrer inevitavelmente.
— Eu…
— Vai me dizer que ele nunca traiu sua confiança? Que não trouxe coisas ruins a vocês dois?
Por mais que Serena soubesse que seu pai estava apenas a manipulando e forçando a odiá-lo, ele sabia fazer isso como ninguém. Aquela voz hipnotizante e autoritária atingia seu interior, e parecia puxar de dentro da garota imagens que ela lutava para esconder. Inevitavelmente todas as piores cenas percorreram sua mente; a vez em que o irmão de Charlie a torturou em Lumiose, e a traumatizou por todos os seus dias subsequentes. Ela quase sentiu uma dor, onde a seguraram. As lágrimas pesaram, molhando seu rosto e caindo no chão de madeira perfeitamente polido.
Naquele momento ela soluçava, e era o único som que preenchia a sala. Curvava-se na cadeira, tentando conter as lágrimas, mas era como tentar fechar uma torneira quebrada. Naquele momento toda a dor de sua jornada pesou nos ombros de Serena. Ela não precisava mais ser forte, não precisava se segurar. Não havia mais por que. Stevan permanecia parado, a encarando em silêncio.
Serena respirou fundo, tentando levantar os olhos. Mas não fitou Stevan cara a cara, porque sabia que isso a faria chorar novamente. Ele também não exigiu isso.
— Minha filha, o mundo é assustador. — ponderou Stevan, caminhando até a janela. Ficou por bons instantes a observar a beleza de seu jardim, se estendendo por muitos metros. — Eu não teria impedido você de sair há tanto tempo por nada. Eu só queria te proteger.
Ele abaixou a cabeça, encostando um pouco a cortina.
— Eu disse que esperaria pelo dia em que você voltaria. — falou, se virando. — Mas sei que você jamais cederia, porque é parte de sua natureza. Então eu a trouxe de volta.
Ele se aproximou de Serena. Ela tinha os olhos perdidos, vazios, como se não restasse mais nada dentro deles após chorar todas aquelas lágrimas. Tocou a no ombro, e ela não fez qualquer reação adversa. Apenas sentiu o peso dos dedos acariciando-a com cuidado, enquanto Stevan olhava para as prateleiras da estante, com retratos e conquistas da família.
— Minha querida, não é o sangue de Charlie que corre em suas veias. — disse ele. — É o meu. Eu não faria as coisas por querer seu mal. Acima de todos, eu sou a primeira pessoa a querer seu bem. Porque eu sou seu pai.
Ele parou de acariciar, voltando a se sentar em sua mesa, com cuidado.
— Eu planejo seu casamento há um tempo. Seu noivo é um homem cuja família conheço há décadas. Um rapaz honesto, intelectual, e que lhe proporcionará tudo de mais agradável em sua vida, porque sabe como você é a maior preciosidade que eu tenho. — explicou Stevan. — Você vai ser a mulher mais feliz do mundo, Serena. Eu lhe prometo isso.
...
Como na cena de um filme, o tique-taque do relógio na sala parecia o prenúncio de uma maldição que nunca chegava.
Charlie caminhava de um lado para o outro. Ele odiava isso. Mas não conseguia evitar, sua ansiedade precisava ser extravasada de alguma forma. Aldrick, Katheryn, Elliot e Vivian apenas observavam o garoto inconscientemente caminhar para as duas mesmas direções e, por mais que também ficassem incomodados, não ousavam impedi-lo. Eles mesmos tinham uma ligeira vontade de fazê-lo enquanto aguardavam por notícias.
— Foi uma manobra… — murmurou o garoto.
Os demais dirigiram-lhe o olhar. Charlie apoiou-se em uma das janelas da pousada em que estavam hospedados anteriormente em Shalour. Calem e Serena haviam partido para Vaniville Town, mas eles precisaram ficar. A pior parte de todas era ter que adivinhar o que estava acontecendo do outro lado de Kalos.
— Foi a droga de uma manobra que aquele idiota do pai dela fez para trazer ela de volta para casa e prender ela de novo. — proferiu o garoto, passando os dedos furiosos pelo vidro.
Os demais se entreolharam, abatidos. Aldrick se levantou, chegando um pouco mais perto. Sua voz sempre era mansa, e suficientemente calma para tranquilizar as pessoas. Ele conseguia ser a única pessoa a acalmar Katheryn, afinal de contas. Tocou suavemente Charlie no ombro, tentando consolá-lo.
— Charlie, sei que é difícil relaxar agora, mas vai dar tudo certo…
— NÃO VAI, PORRA! — gritou Charlie, se virando tão bruscamente que Aldrick retirou sua mão do ombro.
O brado fora tão repentino que todos levaram um susto naquele momento. Charlie ofegou, e logo voltou a ouvir apenas o som do relógio infernal na parede do quarto. A culpa não era de nenhum deles e não era justo descontar. Apenas sentou-se, cobrindo o rosto com as mãos, esfregando os olhos com força.
— Não vai dar tudo certo. — ele balbuciou, para si mesmo — O pai dela estava só esperando o momento para fazer isso. Ele queria prender Serena de novo.
Os outros permaneceram em silêncio. Já haviam percebido que não havia palavra dita no mundo que pudesse mudar aquela situação, a não ser que Serena aparecesse lá e dissesse que estava tudo bem. Mas não parecia algo próximo de acontecer.
...
Após as batidinhas suaves na grande porta de madeira, Stevan levou apenas alguns segundos para alcançá-la, puxando a maçaneta sem muita cerimônia. Logo que liberou a entrada, não disfarçou um pequeno sorriso de satisfação, caminhando tranquilamente até sua cadeira favorita. O rapaz entendeu o convite e adentrou o escritório, encostando a porta com calma. Sentou-se em uma cadeira do lado oposto da mesa, com um olhar sério estampado no rosto.
— Tio Stevan. — murmurou o garoto.
— Calem. — cumprimentou o homem.
O garoto passou uma das pernas por cima da outra, cruzando-as.
— Um golpe de mestre o seu, admito. — anunciou. — O que um ser humano desprezível não é capaz de fazer para arrastar a filha de volta para casa e fazer ela te dar mais riquezas.
Stevan soltou um longo suspiro, virando sua cadeira para que avistasse um pouco a paisagem ao fundo.
— Achei que você me entenderia, pelo menos. — respondeu.
Calem não evitou uma risada.
— Achou? Agora pelo menos não preciso mais esconder o quão repugnante você é. — retorquiu ele. — Você vai obrigar sua própria filha, com quinze anos, a casar com um homem que ela nunca viu. O quão doentio você é?
O tio virou a cadeira de volta com as sobrancelhas arqueadas, não parecendo muito contente com as palavras lhe disparadas.
— Mantenha a compostura. — manifestou, aumentando o tom de voz. — Parece que alguns meses na natureza deixaram você um tanto selvagem também.
Calem semicerrou o olhar, incomodado. Stevan passou o dedo nos lábios, igualmente não muito feliz.
— Você só precisava acompanhar Serena. — falou, gesticulando com simplicidade. — E fez exatamente o oposto, convidando um garoto que vocês acharam na rua para andar com vocês. Como posso confiar em você?! — inquiriu, nervoso. — E se ele fosse um assassino?
Calem encarou as próprias mãos.
— Falando assim você faz parecer que Charles…
— E não foi assim? — perguntou, arqueando uma das sobrancelhas. — Me conte como foi, então. — pediu ele, falsamente interessado.
— Fazer uma menina casar vai resolver esse problema de confiança?
— Desde o segundo que Serena completou quinze anos planejo esse casamento. — admitiu Stevan, se levantando. — Esse foi só o timing certo.
— Você não está garantindo a felicidade futura da Serena, tio. — interveio Calem. — Você está eliminando completamente. Ela nunca vai ser feliz.
— Ela vai. Ela vai aprender a ser feliz.
Stevan naquele momento recostou-se sobre sua mesa. Ele adorava fazer isso. Ficava mais alto que quem estava sentado, e podia encará-los por cima. A posição lhe dava poder, era apenas uma questão psicológica. Ele abriu um sorriso provocativo, apontando para o garoto com a mão.
— Por que está tão empolgado para voltar para sua vidinha de treinador Pokémon? Não vai me dizer que sonha em capturar bichinhos e vencer lutinhas, para ser um “mestre”? — provocou.
Calem naquele momento calou-se. Stevan abriu um sorriso maior em vitória.



— O problema de vocês jovens é que vocês deixam as ideias subirem à cabeça, e ficam cegos. — falou, caminhando um pouco pela sala. — Há gerações o casamento jovem se repete, e…
— Sou um cara clichê, mas já estou um pouco cansado de “tradições” ultimamente.
— Sabe por que elas existem? — perguntou Stevan, fazendo uma pausa. — Porque funcionam. E se repetem. E quando alguém tenta quebrá-las, percebe que não deveria. E a tradição retorna. É assim que elas se formam.
O menino soltou uma risada e balançou a cabeça, debochado, como se discutisse com alguém que não sabia ouvir o que não queria – o que era exatamente o caso. Stevan parou em frente ao garoto, com um olhar sério.
— Você nunca vai ser um mestre Pokémon, Calem. — disparou, deixando o garoto um pouco surpreso. — E isso não importa. Vai ser um excelente homem que irá levar os negócios de nossa família para frente. Isso está em você. — ele deu de ombros. — Ou, ao menos, na sua versão civilizada que deixou essa casa alguns meses atrás.
O rapaz viu-se pego de surpresa pelo comentário. Se ajeitou na cadeira, tentando formular um tom de voz centrado, mas não tardou a ser interrompido novamente.
— Quer parar de…
— Você é uma piada entre treinadores. — continuou Stevan apoiando-se sobre sua mesa com as duas mãos, em uma expressão que dividia-se entre a ira e a diversão, adquirindo um toque sádico perturbador. — Tem medo de Pokémon. Perdeu uma batalha importante para um rival que colocou o nome de nossa família em jogo.
— C-como você…
— Como eu sei? Eu sei de tudo, Calem. Sei de todos os seus fracassos, e acho que eles já foram suficientes para você entender que seu futuro é outro. — acrescentou, estendendo os braços.
Calem naquele instante ficou mudo. Sentiu seu coração disparar, enquanto as palavras finais gritadas de Stevan reverberavam pelo pequeno escritório. Seu ouvido vibrava com as batidas cardíacas. Depois de dias de dúvidas sobre seu futuro como treinador, ele parecia ter encontrado uma pequena paz, um conforto mínimo. Bastaram alguns segundos para que Stevan lhe mostrasse que aquela paz era apenas uma ilusão, e tudo voltasse a desmoronar.
Ele nunca havia sido um grande treinador. Ele era uma piada, até para seus próprios amigos.
O garoto queria retrucar, mas sentiu que não havia o que pudesse dizer. Contra fatos não há argumentos, diziam-lhe. Tudo o que foi capaz de fazer foi se levantar, ainda um pouco tonto, com as palavras dançando em sua cabeça. Stevan não escondia um pequeno sorriso no canto do rosto. Quando o garoto abriu a porta, sem se virar, ouviu pelas costas:
— Você pode brilhar. Pode mesmo. Mas você sabe que não é como um treinador Pokémon. — finalizou Stevan, sentando-se em sua cadeira.
O garoto encostou a porta e caminhou até seu quarto. Encarava o chão, cada detalhe do piso – que ele nunca havia reparado até então. Não conseguiu cumprimentar os parentes e trabalhadores que tentaram puxar assunto, pois sua mente estava tão distante que as palavras pareciam entrar por um ouvido e saírem por outro. A barriga revirava.
Chegou aos seus aposentos e olhou para as coisas jogadas em sua cama. Um conjunto de Pokébolas. Uma pequena caixa, com suas três insígnias conquistadas a muito custo. Alguns manuais de bolso sobre batalhas. Qual o valor de tudo aquilo, frente à verdade? Frente ao fracasso? Calem jogou os livros com força na parede, como nunca havia feito antes, impensadamente.
O barulho foi imenso, reverberando pelos corredores. Sua respiração pesava, e ele ficou assim, parado, vendo tudo chegar ao chão, sem valor algum. Em seguida recostou-se na cama, contendo as lágrimas o máximo que pôde. Elas não caíram.
...
— Açúcar?
— Não, obrigada.
Serena recostou-se na cadeira. Sentiu saudades das roupas confortáveis que usava em seu dia-a-dia. Aquele vestido a espremia na cintura, sendo que havia meses que não sabia mais o que era esse sentimento. Seus cabelos estavam presos em um penteado delicado, contendo as ondas louras atrás da cabeça. Ela pegou uma mecha rebelde e colocou atrás da orelha. Subiu os olhos azuis tristes para espiar aquele rapaz, e corou ao ver que a encarava.
Era alto, com certeza de pé ela não chegaria aos seus ombros. Tinha uma pele tão alva quanto a dela, e cabelos negros alinhados, caindo especialmente por um lado do rosto. Seus olhos tinham um tom de cinza tão escuro que pareciam uma nuvem carregada, fitando-a com admiração e interesse. Ele ocasionalmente dava uma ajeitada em seu terno. Talvez grande parte das garotas que conhecesse que estivessem lá se derreteriam por aquele rapaz.
Mas Serena não conseguia, porque sabia quem ele era.
O rapaz abriu um sorriso discreto, com um toque compassivo. Misturou o café com uma colherzinha, e admirou a paisagem ao redor. A mesa em que se sentavam ficava em uma área externa e reservada da mansão, fortemente arborizada. Um vento frio soprava, balançando as folhas das árvores que se estendiam frente àquele céu nublado.
— Acho que começamos de um jeito bem… Hm… Errado. — disse o moço.
Seu tom era calmo, e a voz poderia ser considerada encantadora. Mas não pela menina.
— Chamo-me Henri. — falou o rapaz. — Henri d’Ampierre.
Serena ficou em silêncio.
— Eu também não sabia que as coisas iriam acontecer assim tão… Rápido. — ele ponderou, suspirando. — Eu queria tê-la encontrado antes. Conhecido. Tenho certeza que é uma garota incrível, como seu pai me contou.
A menina continuou muda, com o olhar baixo e desamparado. Henri tocou-a no queixo, levantando sua cabeça.
— Seu pai me disse que seu sorriso era o mais lindo de Kalos. Mas ainda não tive a oportunidade de vê-lo. — ele abriu um sorriso.
Serena forçou os músculos para tentar articular um sorriso. Infelizmente, não parecia natural.
— Desculpe, eu ainda estou tentando lidar com isso. — falou ela, baixinho.
Henri tomou um gole de seu café, calmamente. O som do vento brincando com as plantas o reconfortava.
— Serena, sei que não posso mudar aquilo que nossas famílias fizeram até agora. — disse Henri com um toque sincero em sua voz. — Mas eu posso lhe prometer que farei tudo o que puder para vê-la feliz assim que nos casarmos.
Eu sabia que não era exatamente culpa dele. Talvez tivesse sido obrigado tanto quanto eu. Talvez esse fosse seu destino desde que nasceu, como o meu. Mas não havia outra forma de olhar para ele, se não como o próximo passo que eu daria rumo ao resto da minha vida, como o futuro que eu tanto lutei contra. Senti-me idiota. Por tanto tempo, acreditei que seria uma heroína. Uma guerreira. Que meu futuro estava tão aberto e livre como um livro em branco.
Infelizmente, este livro já foi preenchido por alguém. Talvez algumas pessoas nascessem para ser guerreiras; outras para serem princesas.
O sabor da liberdade era doce. Cada um dos dias que degustei dela valeram a pena. Mas talvez eu não estivesse mesmo preparada para tudo aquilo. Os dias amargos me marcaram mais que qualquer dia presa dentro daqueles portões. E, sem ter outra alternativa, restava-me apenas acreditar que as coisas melhorariam.
A garota soltou um longo suspiro. Felicidade. Já não parecia mais um sonho tão próximo assim.
— Obrigada. — respondeu, forçando um sorriso tão frágil que se desfez com o vento.
...
Charlie agradeceu aos céus quando não precisou mais esperar. Por mais que insistissem, ele não havia comido praticamente nada e nem saído do quarto. Encarava o Holo Caster de Aldrick incansavelmente, como se aquilo fosse mudar alguma coisa. Finalmente, depois de horas de espera, viu o objeto vibrando e tocando uma música qualquer, e correu imediatamente para atendê-lo.
Sua respiração ficou mais tranquila quando o objeto materializou uma pequena forma holográfica igual a Calem, que tinha uma expressão não muito contente no rosto, como de quem odiava estar se comunicando por aquele objeto.
— Calem! — exclamou Charlie.
— Eu odeio utilizar esse negócio. — resmungou o garoto, com o Holo Caster que ganharam de Lysandre, em Lumiose.
Apesar de ansioso, o garoto esperou algo ser dito. Calem abaixou o olhar, não muito feliz, e murmurou:
— O casamento vai ser daqui a uma semana.
Charlie sentiu um arrepio.
— Você falou com o pai dela?
— Falei.
— E então?
O garoto soltou um longo suspiro. Sempre restava para alguém dar as más notícias. Calem geralmente era essa pessoa.
— Acabou, Charles. — falou, por fim.
O outro tremeu, não modificando sua feição:
— Do que você está falando?
— Está tudo certo há tempos, não tem o que fazer. — explanou o outro, com a voz fraca.
— Você não falou com ele direito! Você tem que…
— Quer calar a boca e me escutar?
Charlie instantaneamente ficou em silêncio, apesar de sua vontade interior ser a de gritar um monte de orações sem nexo.
— Não há o que fazer. — falou Calem, com uma bufada. — Já está decidido. A Serena está desolada, mas no final concordou.
— Eu preciso falar com ela.
— É melhor não. — interrompeu. — Stevan sabe sobre você.
— O que exatamente?
— Tudo. Até coisas que ele não deveria saber. Que não teria como saber. Ele sabe até de uma batalha que eu enfrentei alguns dias atrás quando o Larvitar evoluiu.
Charlie sentiu um frio na barriga e se encostou em uma cadeira para não perder o equilíbrio. Era como estar em labirinto e qualquer caminho que se tentasse percorrer fosse na verdade uma armadilha, sem chance de fuga.
— Stevan não está brincando, Charles. Não há o que fazer.
— Calem, você está realmente escutando ele? Você está desistindo?!
— Não é questão disso. O tio Stevan sempre consegue o que quer. O melhor a se fazer agora é…
— …Desistir.
O menino suspirou. Aproximou o Holo Caster de seu rosto, de maneira que Charlie quase conseguisse ver ao vivo sua expressão desagradada de sempre. Mas, desta vez, seu rosto era apático, de alguém tão desiludido que não tinha mais energias para aquela discussão.
— Charles, foi divertido. — murmurou. — Foram meses que eu… Nunca pensei que viveria. Mas tudo acaba um dia.
— Não.
Charlie não conseguiu parar de tremer. Levantou-se de supetão, aumentando o tom de voz. Calem evitava encará-lo como se não quisesse aumentar a dor do momento. Às vezes era preciso fazer como um band-aid, e puxá-lo de uma vez para que doesse menos.
— Calem, por favor.
— Você foi um bom amigo, Charles. Me ensinou mais que eu pensei que poderia aprender.
— Calem, pare.
— Eu vou pedir para que Serena escreva a você quando estiver pronta.
— Calem, eu estou implorando.
— Eu preciso desligar. — falou Calem, cravando-lhe os olhos cinzentos tristes, mas falando em um tom tão sincero que Charlie nunca havia ouvido antes. — Obrigado por tudo, Charles. Eu nunca o esquecerei.
A imagem de Calem tremeluziu e logo Charlie estava sozinho no cômodo. Não havia Calem para levantá-lo e reclamar que estava sujando seus sapatos. Não havia Serena para dizer sua versão encantada e pura dos motivos do destino. Restava apenas o mesmo garotinho que outrora vivia sozinho pelas ruas de Lumiose, chorando porque não tinha ninguém. Ele disparou o Holo Caster na cama e permitiu-se cair no chão, desabando em lágrimas.
Um dia Serena lhe perguntara por que ele não conseguia chorar, e ele havia dito que esqueceu como fazia para as lágrimas caírem. Mas naquele momento ele se lembrou muito bem. A solidão era sua maior fraqueza. E naquele momento era o único sentimento que percorria seu corpo, consumindo-lhe por inteiro.
Ele ouviu vozes. Os demais amigos chegaram, e logo que viram a cena, correram para acolhê-lo. Aldrick e Katheryn puxaram o garoto, cujo rosto estava tão vermelho que ficaram assombrados por um instante.
— Charlie, o que aconteceu?! — indagou Kath.
— EU ESTRAGUEI TUDO! — gritou o garoto, como uma criança.
— Charlie, a primeira coisa que fazemos é nos culpar… — murmurou Aldrick. — Mas não faça isso, não é culpa sua…
— Se eu não tivesse implorado para andar com a Serena o pai dela não obrigaria a voltar!! Se eu tivesse ido embora em Lumiose depois de colocar eles em perigo estaria tudo bem agora!! — o garoto não conseguia conter que mais lágrimas caíssem. Depois que elas encontraram o caminho para fora, não dava mais para segurá-las.
Charlie limpou o rosto com a blusa.
— Ele sabe de tudo, eu não sei como que…
De repente, foi como se um relâmpago o atingisse. Todas as palavras começaram a se juntar em sua cabeça, como peças de um quebra-cabeças que finalmente ele era capaz de montar. “Stevan sabe sobre você” disse Calem. “Até coisas que ele não deveria saber. Que não teria como saber” Ele sentiu um frio imenso no estômago.
Faz tempo que você viaja com eles?” a voz de Elliot reverberou em sua mente. “Onde está a sua família?”
Ele levantou os olhos, e se deparou com o garoto de cabelos castanhos o encarando ao longe.
— Você. — apontou.
Instantaneamente, os amigos tomaram um susto quando Charlie avançou direto da cadeira em direção a Elliot. O garoto desferiu um soco imediato em sua face, fazendo Vivian soltar inevitavelmente um grito de susto. Aldrick e Katheryn correram para tentar pará-lo, mas Charlie parecia possuído por uma energia furiosa que nunca haviam visto antes.
— O que você está fazendo?! — indagou Aldrick.
— Charlie, por favor, pare!! — implorou Elliot.
— Você!! — gritou o garoto, em fúria. — Você me dedurou!
— Charlie você está delirando! — interveio Katheryn, tentando puxá-lo.
— Eu nunca faria isso! — choramingou o garoto.
Charlie abriu os braços, empurrando Kath e Aldrick para trás inevitavelmente. Em seguida suspendeu o outro garoto pela gola de seu traje, jogando-o contra a parede. O menino ficou a se debater no ar, balançando as pernas buscando ar.
— A culpa é sua, seu traidor de merda!! — gritou Charlie, o soltando e dando mais um soco no rosto.
Elliot caiu no chão, cobrindo o rosto. Emitia um som como um choramingo. Todos congelaram em suas posições, enquanto Charlie ofegava, a mão latejando com o impacto, suja de sangue. Aos poucos o som de Elliot dava abertura para uma pequena risada quase indecifrável.
— Stevan mandava cartas porque não sabia quase nada do que estava acontecendo com Serena. — cuspiu Charlie. — Coincidentemente, um “viajante” novo começa a andar conosco, e ele descobre tudo. O pai de Serena mandou você aqui, não é?! Seu avô nem mora em Shalour!
Elliot aos poucos descobriu o rosto, revelando vários machucados que desfiguravam ligeiramente sua feição. Contudo, não escondia um sorriso.
— Sim, Charlie. — respondeu, por fim. — Foi ele. E não, meu avô morreu há três anos.
Charlie bagunçou os próprios cabelos, incrédulo.
— Desde que você enviou aquela carta estranha para ele, ele resolveu tirar a prova de o que estava acontecendo. — explicou Elliot, não desfazendo o sorriso, ainda no chão. — Ainda mais quando apareceram nos jornais que vocês estavam namorando.
— Por que você está me contando isso? — indagou Charlie, segurando-o pela gola, ameaçando um novo golpe. Aldrick tentou impedi-lo.
— O que eu tenho a perder? — murmurou o garoto, confiante. — Quer me bater? Bata. Mas a única coisa que eu fiz foi comunicar da sua existência. O resto é com o pai dela. E o casamento vai acontecer, eu apanhando ou não.
Charlie sentiu-se tão enojado que largou o garoto, fazendo-o cair no chão. Elliot limpou o sangue da boca com a manga de sua blusa, agora já toda suja.
— Como você pôde fazer isso?! — inquiriu Charlie, aos brados. — Serena olhou nos seus olhos e convidou você para andar com a gente. Ela confiou em você. Ela te ajudou. E você colocou ela no fogo!!
— E você?! — gritou Elliot de volta, se levantando. — Acha que não sei de onde você vem? Acha que eu não sei do risco que você oferecia para aqueles dois?
Os olhos de Charlie reluziram em ira, mas o outro não se intimidou, apontando-lhe o dedo.
— Você é o verdadeiro egoísta. Que coloca todos em perigo só para ter seu “conforto”. — falou, balançando a cabeça. — Queria que acontecesse com Serena o mesmo que aconteceu com a Emma?
As palavras atingiram Charlie como um tiro. O garoto voltou a suspendê-lo pela gola da camisa contra a parede do quarto. Aldrick, Katheryn e Vivian permaneciam congelados, abismados com toda a situação, incapazes de interromper aquele diálogo que parecia pegar fogo. Charlie não escondia as mãos trêmulas.
— C-como você…
— Nós sabemos muito sobre você, Charlie. — continuou Elliot, com um sorriso confiante. — Vá em frente. Bata em mim. Mas a verdade é que vocês já perderam.
Charlie o encarou tão incrédulo, que sabia que não havia soco no mundo que extravasasse toda a sua raiva e indignação naquele momento. A única coisa que conseguiu fazer foi largar o garoto, afastando-se devagar. Encarou as próprias mãos, sujas de sangue, vibrando com a ansiedade e a adrenalina. Lançou um olhar indignado para o outro no chão, dando-lhe um chute fraco.
— Você é nojento. — balbuciou.
Em seguida começou a caminhar para fora do quarto, tendo seu braço segurado por Aldrick.
— O que você vai fazer? — indagou o loiro.

— Eu tenho uma semana para impedir que a Serena cometa o maior erro de sua vida. — respondeu Charlie.

    

Capítulo do Leitor - Anne

Estou passando hoje para compartilhar algo diferente do que estamos acostumados! Este é um capítulo, sim, mas não foi escrito por mim! Fazia um tempo que eu queria abrir um espacinho do blog para quem quisesse compartilhar algo como as Fanarts, mas mais voltado para a parte de escrita mesmo. Não que fosse um grande mural pra todos divulgarem suas fanfics, mas sim uma área que pudessem fazer pequenos contos ou cenas envolvendo os personagens de Kalos que mais gostassem. Eis que a Anne - leitora super presente desde o início da fic, integrante da Aliança e uma amiga MUITO querida minha - mandou uma cena que ela havia escrito, e vi a oportunidade perfeita de estrear esse espaço.

A gente havia brincado uma vez que um encontro entre a Serena e a Giu - personagem da fic da Anne, também passando em Kalos - seria incrível, e com certeza um momento super soft, uma vez que as duas personagens tem essa personalidade mais sensível e singela. Ela se inspirou para escrever mesmo, e o resultado foi um capítulo muito gostosinho que vocês conferem abaixo. Não há um título, mas deixo as palavras da Anne antes de vocês começarem a leitura. Agradeço muitíssimo a você, Annezita, por esse capítulo tão reconfortante e por permitir que meus personagens possam interagir com os seus. A Serena com certeza amou esse encontro, tanto quanto eu! <3

Anne: duas coisas pra saber sobre mim para descobrir como chegamos aqui 
1) eu tenho um amor INFINITO por crossovers e aus (universos alternativos) 
2) eu definitivamente passo tempo demais pensando sobre coisas do tipo envolvendo meus originais. Dito isso, fica meio fácil entender como acabei com essa oneshot envolvendo crias minhas e nossa querida protagonista de AeXY - bem, isso, e o fato de que toda a meiguice e pureza dela me lembram demais de uma personagem minha, e realmente não deu pra conter o sonho com um encontro de ambas <3 ah, talvez um terceiro fato também entre em jogo aqui 
3) eu AMO cenas soft, conversas casuais bem leves, ver os filho apreciando a beleza do mundo..... a gente precisa mais disso, né nom? 
Enfim, espero que apreciem a leitura, e to muito honrada mesmo de poder participar desse pedacinho tão especial nesse blog tão querido <3
P.S. o sonho real é fazer com que essas duas + o Mika se encontrassem, mas ao mesmo tempo acho que o mundo explodiria pq SERIA MUITA ANJICE NUM LUGAR SÓ (sim, eu fiz questão de citar esse neném lindo. um bjo pra ele, to com sdds)


por Anne Lanes

A brisa fresca da manhã brincava com seus cabelos loiros enquanto ela caminhava pela cidade, seu pensamento vagueando nas possibilidades do que fazer. Contudo, sua linha de raciocínio foi cortada ao que ouviu um chamado.
 — Hey, hey! – ela se virou na direção do som, ainda que não reconhecesse a voz, mas a garota lhe fitava, então devia ser com ela mesmo – Você é a Serena, não é?
 De certo modo, não podia evitar certo nervosismo quando a reconheciam, mas essa sensação logo se dissolveu. A menina que a chamou lhe fitava com um sorriso sincero e os olhos brilhando em alegria, então não pode evitar confiar nela. Na verdade, ela parecia até mesmo emanar uma aura calma, seus olhos da cor de mel e seu rosto gentil emoldurado por um curto cabelo ondulado cujo tom vagueava entre o castanho e o avermelhado, trajando um vestido simples rosa de detalhes brancos, quase parecia uma fada tentando se disfarçar entre os humanos.
 — Ah, sim, sou eu.
 — Eu te vi no Showcase! – ela uniu as mãos em gesto de admiração – Você estava fantástica!
 Aquela experiência certamente não tinha sido a melhor na vida de Serena, mas não teve coragem de desarmá— la – até porque, seu elogio soou sincero, e era sempre grata a isso.
 — Obrigada! Você acompanha esse evento?
 — Às vezes. – riu ela, mas então sua expressão apagou um tanto ao prosseguir – Eu até cheguei a participar de um, mas... me eliminaram rápido. Eu fui “muito simples”, sabe? – contudo, o brilho de seu sorriso já estava de volta ao que concluiu – Fiquei muito feliz que mudaram de ideia com você!
 A loira deu um sorriso sem graça, pensando em como isso só aconteceu porque na verdade se interessavam em seu sobrenome para trazer fama ao programa, mas aquela garota definitivamente não merecia ouvir isso.
 — É... – houve uma breve pausa, mas Serena sentiu vontade de não deixar a conversa se perder ali – Qual seu nome?
 — Ah, desculpa, nem me apresentei! – ela se apressou a estender a mão – Eu sou Giulliana, mas pode me chamar de Giu.
 — É um prazer conhecê— la, Giu. – sorriu
 — O prazer é todo meu! Mas eu devo estar te atrasando, né?
 — Ah, não! Na verdade, estou só andando pela cidade. A gente tá descansando um pouco antes de seguir viagem...
 — Ah, você viaja em grupo, né? – Serena assentiu, e a ruivinha prosseguiu de maneira animada – Ótimo! É bem melhor viajar com amigos mesmo. Na verdade, até to aqui por um dos meus, a Isa está treinando pra desafiar seu próximo ginásio!
 — Ah, legal! Boa sorte pra ela! Meu primo acabou de passar por ele.
 — Eu ouvi algo sobre batalhas de ginásio?
 Pouco depois que a frase terminou de ecoar, alguém colocou o braço por cima dos ombros de Giulliana, mas, considerando como ela não recuou – na verdade, seu sorriso até se iluminou mais, se é que era possível –, Serena deduziu que era a amiga a quem se referira. Aparentava ser alguns anos mais velha, tinha um longo cabelo loiro, até parecido com o seu, astutos olhos verde— claros e um sorriso de canto que não era fácil de discernir se deveria soar sarcástico ou não. Ela usava uma camisa de mangas longas de tom lilás, uma boa combinação com o lenço azul que estava em seu pescoço, e uma calça jeans com alguns rasgos espalhados pelo tecido.
 — Oi, Isa! Estava falando de você mesmo! – ela se voltou para a primeira interlocutora – Essa é a amiga que eu falava, e essa é a Serena. Você lembra aquele Showcase que vi, né?
 — Claro que lembro quando eu disse que você não devia dar ibope pra aqueles idiotas que tiveram coragem de te desrespeitar. Mas bom que isso te trouxe uma felicidade. – então ela se virou para Serena, e seu sorriso até soou sincero – Prazer em te conhecer.
 — Igualmente. – replicou de maneira cordial – Vocês estão viajando há muito tempo?
 — Até que não. – foi Isa quem respondeu – A gente acabou se esbarrando e estávamos indo na mesma direção, então, por que não seguir juntas? – e ela se virou para a companheira de viagem, com um olhar totalmente encantado – Até por que, como não querer seguir junto dessa fadinha?
 A garota riu, encabulada mas contente pelo apelido carinhoso.
 — Você pensa em se tornar uma treinadora também? – indagou, focando em Giu de novo, e ela levou uns segundos para perceber isso
 — Ah, não! Na verdade, eu não tenho um objetivo definido. Eu só queria viajar por Kalos, descobrir mais sobre as cidades e as rotas, fazer novos amigos... Ver toda essa beleza por mim mesma, entende?
 Claro que entendia. Ela estava vendo um reflexo de si mesma há algum tempo atrás, sonhando com cada belo detalhe que poderia e iria encontrar em sua jornada. Ainda sentia isso, mas não tanto quanto antes. Aquela garota transmitia uma pureza intocada, uma doçura que reluzia em seus olhos de maneira tão verdadeira que lhe dava vontade de acreditar naquilo também. E do fundo do coração desejou a qualquer força que regesse o universo que nunca nada atingisse aquilo.
 — Ela é muito pura pra esse mundo, não é? – a mais velha comentou, com um sorriso de admiração, e Serena sentiu uma pontada de gratidão por vê— la acompanhada por alguém que apreciava aquela característica e não a criticava
 — Ela é incrível. – sorriu, pegando nas mãos da menina – Eu entendo mesmo. Foi por isso também que comecei a minha jornada. Nunca se esqueça disso, viu? Faça muitos amigos e descobertas e memórias, e guarde todos com muito carinho, tá bom?
 Ela assentiu de maneira animada, com um sorriso extenso no rosto, e Serena só pode desejar que cumprisse aquilo.
 — Você tá com o dia livre, não? – prosseguiu, animada – Porque a gente podia tomar um café juntas e contar das cidades que já vimos.
 — Ah, bem, tenho. – ela voltou o olhar para Isa – Tudo bem se eu ficar com ela?
 — Claro! Eu vou treinar mais um pouco. – a mais velha se voltou para Serena – Aliás, se seu primo te encontrar, avise que já tem um desafio. Pede pra Giu indicar o lugar, ela sabe onde fico.
 — Aliás, não seria melhor conferir se o Tyago acordou? Eu deixei um bilhete dizendo que não ia demorar...
 Ela revirou os olhos com aquela menção.
 — Você já devia saber que ele não funciona de manhã. Ele não deve mesmo ter acordado. – de repente, um sorriso piscou no rosto dela – Bem, mas talvez eu deva avisar mesmo.
 Por algum motivo, a ouvinte deduziu que ela iria acordá— lo mesmo que a contragosto, e parecia se divertir com a ideia. Talvez algumas companhias de viagem realmente fossem mais conflituosas, mas nem por isso menos importantes ou verdadeiras – como seu primo e Charlie já tinham lhe provado.
 — Então, tudo acertado! – Giulliana não pareceu notar o tom de qualquer jeito, e se voltou para Serena com o olhar brilhando em expectativa – Já que você tá na cidade há mais tempo, acho melhor você indicar onde vamos.
 Ela assentiu, e Isa se despediu, dando um beijo na bochecha da companheira e direcionando um sorriso gentil para a nova conhecida. E as duas meninas seguiram seu caminho, engatando em uma conversa animada e sincera sobre tudo que lhes cativava o encanto.

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