Notas do Autor - Capítulo 41

ALERTA DE SPOILERS! Antes de ler as notas, leia o capítulo correspondente primeiro!

Talvez esse seja um dos meus capítulos favoritos da temporada. Talvez até da fanfic. Acho que são muitas informações. Fiquei com medo de que por muitos capítulos e anos de AeXY parecesse que eu estava apenas enrolando e segurando as informações. É estranha a sensação de chegar e colocar tudo pra fora, sinto que o que fica depois é um vazio e um silêncio, igual ao que sinto ao final desse capítulo. Como pudemos chegar até aqui?

Deixo-os com um capítulo um tanto longo e carregado das descrições, mas espero que possam ler com calma e sentir um encerramento de um ciclo que construímos. Acho que esse arco de Lumiose foi sombrio, amedrontador, mas no fundo o que fica é uma luz em que nos agarramos. Em meio ao caos e os medos, a separação, encontramos cenas que nos aquecem o coração e lembram por que, tanto tempo depois, vocês ainda estão aqui lendo essas notas do autor.

Muitos já desconfiavam da imagem do Marc na página de Líderes de Ginásio, e talvez isso provocasse uma dúvida. Por que o irmão do Charlie estaria como líder? Confesso que foi complicado amarrar tudo - Marc não é um treinador por vocação, como sabemos. Porém, sabendo o que esperava do retorno a essa cidade, quis unir tudo da forma mais intensa e potente possível.

Quis aproveitar o que tem de melhor nessa cidade e nesse ginásio para que soasse como um video-game. Calem não estava batalhando só contra o Marc. Estava batalhando contra um sistema virtual, tal qual quando jogamos Pokémon X&Y no nosso 3DS. E, acima de tudo, batalhando contra suas próprias  emoções. Levou 40 capítulos, mas acho que mais que nunca podemos ver como ele cresceu como treinador a ponto de travar essa batalha. Calem finalmente está se tornando o treinador que acreditamos que ele pode ser.

No próximo capítulo encerramos Lumiose de vez, respondemos algumas "pequenas" perguntas e vamos rumo a uma nova etapa, avaliando aquilo que restou após esse furacão. Um ciclo se encerra, e as coisas certamente não serão as mesmas depois dele.

Edit: Marc e Clemont tiveram suas fichas adicionadas na página de Líderes de Ginásio;
Edit: O Trainer Card de Charlie foi atualizado;

Capítulo 41


CAPÍTULO 41
Um Brilho que Nunca se Apaga

— O que eu mais quero é encontrar a minha mãe. — disse Serena voltando a fitar o movimento das águas, com um tom mais sério. — Não sei quem ela é ou onde está, mas quero encontrá-la e vencê-la. Acho que ela é uma treinadora, ou algo do tipo. E quero derrotá-la.

Ele se aproximou da menina e tocou seus cabelos louros. Ela corou com a aproximação, mas ele tinha apenas uma expressão admirada no rosto. Um sorriso sincero. Sua voz soou de uma forma que Serena adorou ouvir, como se pudesse escutá-la o dia inteiro.

— Você tem enormes sonhos dentro de você. Eu gosto disso. Não pare de acreditar neles. Eu vou te ajudar a realizar cada um. Não pare.

Serena e Charlie. Capitulo 4.  

  

Sob a luz amarela pendendo no teto, as sombras de Charlie dançavam na parede da pequena sala. O contraste em seu rosto era intenso, os olhos esverdeados cravavam em si enigmáticos e travessos como sempre, mas em uma expressão de súplica que não lhe era costumeira. Mais uma vez, colocava-se uma barreira do desconhecido entre os dois.

Serena não conseguiu formular nenhuma resposta. O tempo parou ao seu redor, os estrondos da tentativa de invadir o pequeno espaço pareciam detalhes de um sonho ao qual ela poderia despertar a qualquer segundo. Sua imediata resposta seria falar para Charlie parar de mentir, mas ela sabia que ele jamais brincaria com aquele tipo de coisa. Seu olhar não mentia, mas por quê? Tantas dúvidas lhe cruzaram a mente que não conseguia decidir qual frase cortaria o silêncio cada vez mais longo que se interpolava entre ambos.

Antes que Charlie pudesse tentar amenizar o clima, a porta se rompeu, com a invasão de um dos adversários armados. Mary lançou um Psybeam que o derrubou confuso no canto, abrindo uma brecha. Charlie apenas pegou na mão de Serena, quase sem resposta, e a puxou correndo para fora. Por instinto, ela o seguiu, mas sua mente não conseguia responder da mesma maneira.

Disparos podiam ser ouvidos. Serena corria os olhos por todas as direções, os corredores pareciam um labirinto sem fim, feito apenas para confundi-los e tornar a caçada mais divertida. Ela permitia que as pernas corressem por si, mas sua mente estava em outro lugar. Estava no rosto daquele garoto que a segurava pela mão, arrastando-a para um caminho que mais que nunca parecia desconhecido e incerto.

— Vamos nos esconder aqui! — murmurou ele.

Charlie invadiu uma sala e os dois entraram na companhia dos Pokémon. O garoto fechou a porta e grudou o ouvido na madeira fria, ouvindo o som de passos, cada vez mais próximos. O suor lhe escorria na testa, pingando pelo nariz que lutava por oxigênio. Aos poucos, os ruídos de sapatos batendo no piso se tornaram mais distantes, e ele escorregou levemente aliviado até o chão.

Pela réstia que entrava no vão da porta, encarou a garota perdida e desolada à sua frente. O aperto no peito lhe confirmava que, embora soubesse que não poderia ter guardado aquilo por muito mais tempo, a brusca informação pegou a garota de uma maneira ainda mais intensa que temia. Seus lábios conseguiram sussurrar algo, enfim:

— Como isso é possível, Charlie?

Ele afundou as mãos no rosto.

— É… É complicado Serena. Eu juro – juro – que posso te explicar tudo. Cada detalhe.

— Por que você não disse? Por que enganou a gente por tanto tempo?

Na penumbra, ela conseguia ver a sombra daquele garoto. Era Charlie, encostado em uma árvore próxima a Vaniville, assoviando com uma folha, com roupas humildes e desgastadas, na companhia de um Pancham. Seus olhos verdes hesitaram ao olhá-la pela primeira vez, reverenciando-a com um cumprimento cortês. A expressão de alguém jocoso e desafiador, que ela jamais sabia dizer se era honesta ou se apenas tentava distrai-la para um furto.

Porém, perdidos em meio à Prism Tower, com sua vida desabando em um blecaute, as pequenas luzes de suas memórias especiais e perdidas se tornavam cada vez menos fiéis à realidade; cada movimento, cada segundo, cada conversa, pareciam apenas devaneios enganosos do qual ela teve a coragem de imaginar por tanto tempo. A resposta estava em sua frente o tempo todo, brincando com sua mente e seus desejos. Como sombras na luz.

— Charlie, a única coisa que eu pedi… Implorei… Era que você fosse sincero comigo. Você me enganou sobre a coisa mais importante pra mim.

No fundo, ela não sabia o que esperava. Nenhuma resposta parecia suficiente, nenhuma explicação daria conta de alinhar a confusão que se passava dentro de si. Mas o silêncio também não era reconfortante. Charlie tentava disfarçar, mas entre os vãos dos dedos lágrimas desciam pingando no chão.

— Eu sempre estrago tudo. Sempre. Sempre. Sempre.

Os dedos escorregaram pelo rosto, revelando um par de olhos assustados e inchados. Serena não viu Charlie chorando em todo o tempo juntos, mas desde que retornaram a Lumiose, parecia ter aberto uma porta dentro dele que nunca mais pôde ser fechada. Isso de certa maneira a assustava. Por mais que Calem lhe trouxesse alguma segurança, Charlie era quem sempre tinha tudo sob controle.

Quando tudo parecia desabar, ele fazia uma piada. Quando ela tinha pesadelos, ele se dispunha a ficar como um guardião. Quando quase se casou, ele apareceu para interromper o evento. Mesmo nos dias mais obscuros de sua fuga, ela sabia que em algum lugar ele sempre abriria um sorriso torto e diria “vai ficar tudo bem, princesa”

E, finalmente, um dos últimos pilares parecia tão frágil quanto ela se sentia naqueles momentos. Pela primeira vez ela teve certeza que no fundo tanto ela quanto seu primo e Charlie estavam desesperados e sem chão.

Seu primo. Calem. Ele estava lá em cima esperando por ela.

— Estraguei tudo com a Emma. Com sua mãe. E agora com você. — ele socou o chão. — Quanto mais eu tento fazer algo, sinto que afundo mais e mais, eu destruo tudo aquilo que mais quero proteger. Todas as pessoas que mais amo, tudo aquilo em que eu tento me segurar… Talvez eu deva parar. Talvez eu não deva segurar em nada.

Ela se aproximou e segurou seu rosto.

— Eu não estou destruída, Charlie. — murmurou. — Eu estou aqui…

Ele balançou a cabeça.

— Você entendeu, Serena…

— Charlie, eu… Eu não sei, agora mais que nunca eu sinto que não te conheço…

Ele abaixou a cabeça.

— Mas… Mas eu também sei onde você esteve quando eu mais precisei, todas essas vezes… Eu não sei o que pensar agora, mas precisamos sair daqui. Você não precisa ser indestrutível o tempo inteiro. Não precisa fingir que não tem medo. Você não era meu guardião. Você era nossa família.

— Você não entende…

— Talvez não. — ela falou. — Mas eu vou te proteger dessa vez.

Ela se levantou e lhe esticou a mão. Quando Charlie olhou pra cima, sentiu um arrepio. Serena poderia estar assustada por dentro, mas ela tinha bravura em seu olhar. Parecia disposta a enfrentar uma tempestade para sair daquele lugar. Ela enfrentou sua vida virando de ponta cabeça, mas a esperança lhe parecia vívida dentro de si, um brilho que nunca se apagava.

Enquanto ele por muito tempo acreditou que a coragem era aparentar não ter medo de nada, percebeu naquela garota que por tanto acreditou estar protegendo, que ela era capaz de enfrentar qualquer coisa.

Ele aceitou segurar em sua mão, colocando-se de pé. Os dois deram um abraço firme.

— Vamos terminar com isso. Você tá pronto? Vai ser meio barulhento.

E quando Charlie limpou as últimas lágrimas, os olhos verdes brilharam em divertimento, desenhando-se no rosto as covas de seu sorriso travesso:

— Ora, princesa. E eu lá sou alguém pra recusar extravagância?

  


Start.

De um breu total, as luzes se acenderam com uma intensidade tão forte que Calem precisou tampar os olhos. O chão se tornou multicolorido, raios de luz e fumaça eram disparados de uma forma que precisou de uns segundos para não perder as direções. Uma música tocava pelos alto falantes como se fosse um jogo infantil.

De longe, algumas pessoas podiam ver que algo acontecia daquela área da Torre, onde o campo de batalhas era localizado. Mas era difícil afirmar com clareza que um evento daquele acontecia durante um atentado.

Essa é uma batalha oficial entre o líder de ginásio de Lumiose, marquês Clemont, e o desafiante Calem, Calem Windsor. — disse a voz robótica, imitando o próprio jeito que Calem se apresentou.

Marc ainda tentava se localizar. Três Pokébolas apareceram de uma das máquinas. Todas as informações sobre tempo, temperatura, clima, eram exibidas nos mais diversos monitores à sua disposição. O registro oficial de Calem – desatualizado, da última vez que esteve em Shalour – apresentava todos os dados possíveis sobre o treinador. Marc se divertia. Ele disparou uma das Pokébolas, revelando um dos Pokémon do ginásio.

A primeira criatura parecia um canino, tinha o corpo esguio e os pelos rapidamente se eriçaram com a energia elétrica que emanava de seu corpo. O Pokémon pareceu confuso de ter sido evocado, mas não baixou a guarda, pois sabia que outros treinadores do ginásio eram autorizados a utilizá-los além do líder. Era um Manectric, espécie que manipulava os poderes elétricos para aumentar sua força e agilidade.

— Muito bem, Calem Windsor. — falou, olhando o registro na tela. — Dezesseis anos. Vamos ver quanto tempo você consegue segurar essa brincadeira.

Calem tentou não transparecer seu nervosismo. Honedge se colocou à frente do adversário. Iniciou com Swords Dance, como se estivesse preparando a lâmina para o combate. Os olhos de Marc brilharam por trás dos óculos à medida que todos os dados do adversário foram colocados. Possíveis golpes, natureza, stats, até mesmo valores individuais que mal Calem conhecia do próprio Pokémon. Em seguida, deu um toque na tela, que logo anunciou:

Fire Fang.

O canino avançou, as presas em chamas desferindo uma mordida certeira em Honedge. Apesar de a espada possuir uma lâmina resistente, os poderes de fogo traziam à tona suas fraquezas metálicas.

Shadow Sneak! — respondeu Calem.

A criatura entrou nas sombras, revelando-se ao atingir o canino com um corte direto em seu corpo. Manectric saiu rolando. Logo Marc conseguiu acompanhar uma barra onde os aproximados Hit Points do Pokémon caíram. Ele pressionou uma nova tecla:

Crunch.

Mais uma vez fazendo uso de sua mandíbula, o Pokémon avançou contra Honedge. A espada conseguiu deslizar pelo ar em uma esquiva, contra-atacando com o Pursuit, porém não demorou muito para que Marc disparasse um novo comando. Novamente o Manectric o golpeou com o Fire Fang. Sorriu vendo na tela os pontos de vida do adversário serem abaixados ao nível crítico.

— Mais uma vez, Shadow Sneak! — gritou Calem.

Fazendo uso das sombras – ainda que em um ambiente tão brilhante – Honedge derrubou Manecric, vendo a criatura cair desmaiada no campo com o impacto do corte dado seu alto nível e poderosos índices de ataque. Marc olhou pensativo para a tela, mas não parecia exatamente surpreso diante das estatísticas. Uma nova sequência de opções surgiu. Ele teclou um botão e viu o canino ser retornado à Pokébola. Em seguida, lançou uma segunda esfera no campo.

Ruídos metálicos começaram a ecoar, conforme um Pokémon dançava pelos ares se movimentando por meio das ondas magnéticas do ambiente. Era um Magneton, cujos múltiplos ímãs faiscavam dentro daquele espaço repleto de energia. Seus olhos se concentraram no inimigo, provocando-lhe para o ataque.

Electric Terrain. — disse a máquina com o comando de Marc.

Os ímãs começaram a girar, lançando uma rajada de energia que estimulou todas as telas ao redor, o que fez com que começassem a piscar, mas logo em seguida atingissem um nível de brilho tão intenso que pareciam estar com o máximo das baterias carregadas. Faíscas saltavam de alguns monitores e às vezes estalavam no ar, tornando ainda mais propício aos golpes elétricos de Magneton.

Pursuit! — bradou Calem.

A espada avançou com um corte ágil na direção do oponente, mas pouco foi seu impacto, onde as criaturas logo se estabilizaram novamente no ar. Marc murmurou em retorno:

Thunderbolt.

Eles focaram as energias em apenas um ponto, disparando um raio certeiro e de imensa intensidade. Honedge caiu no mesmo instante preenchendo o ambiente com o eco do metal despencando no chão. Calem sentiu-se tremer. Um de seus maiores guerreiros estava derrotado. Ele refletiu por um momento e lançou uma nova Pokébola.

Fennekin logo assumiu o campo. Marc sorriu vendo os dados serem preenchidos. Um Pokémon de fogo poderia trazer alguma desvantagem a Magneton, mas seu nível relativamente mais baixo tornava a desvantagem quase um detalhe. A raposa saltava com agitação de um lado para o outro, sem se intimidar com os movimentos imprevisíveis do elétrico do outro lado.

Fire Spin! — instruiu Calem.

A pequena criatura avançou com um poderoso espiral de chamas que desestabilizou Magneton. Contudo, os índices não tiveram uma queda notável. Marc pressionou a tecla que solicitava um Thunderbolt, vendo os ímãs do Pokémon se concentrarem em um certeiro disparo que atirou Fennekin contra a parede. A estática em seus pelos parecia confirmar uma nova condição que aparecia na tela, marcando Paralysis.

Psybeam! — comandou o menino.

Fennekin demorou para conseguir processar a informação, lançando um golpe psíquico que surtiu pouco efeito em Magneton, que contra-atacou com um Sonic Boom, mais uma vez jogando a pequena criatura para o outro lado do campo, ainda afetada pela paralisia do golpe anterior.

Flame Charge, vamos! — insistiu Calem, aumentando seu nervosismo.

Thunderbolt. — retorquiu Marc.

O Pokémon de fogo tentou concentrar seus poderes, mas as limitações da paralisação impediram que conseguisse se mover. Totalmente vulnerável ao disparo de Magneton, Fennekin viu seus últimos pontos de vida chegarem ao zero nos monitores de Marc, que sorriu com confiança. Calem suou frio, retornando a criatura hesitante.

Ele talvez tivesse errado na estratégia. Mas, sobretudo, estava enfrentando um adversário que não cometia erros. Do outro lado, Marc operava um sistema de computador. Era ele contra uma máquina que podia prever e prevenir qualquer uma de suas ações. Que em segundos calculava todas as estatísticas possíveis para presumir o melhor caminho à vitória. E, não bastasse sua mente falha de humano, não conseguia pensar com clareza olhando nos olhos de Marc.

Sabia que alguns metros à distância estavam Serena e Charlie, possivelmente em perigo. Ou não. Talvez salvos. Talvez mortos. Ele não tinha como saber, e a dúvida lhe tirava toda a concentração. Ele sabia o que era mais coerente de fazer naquele momento, mas a imprevisibilidade lhe perturbava. Olhava para a Pokébola de Pupitar.

— Por quê? — ouviu.

Calem levantou o olhar. Marc estava tão neutro que parecia não ter dito nada. Ele só entendeu que realmente foi uma pergunta quando ele repetiu:

— Por quê?

— Por que o quê? — indagou de volta.

Marc fez uma pausa.

— Por que você veio até aqui?

Ele olhou para o lado. As luzes piscando freneticamente o irritavam um pouco. Ele definitivamente não nasceu para ser um personagem de videogame.

— Você sabe que é uma armadilha. A chance de seja lá o que estiver tentando fazer dar certo é menor que esse computador possa calcular. — murmurou Marc. — Por que tá aqui?

Calem respirou fundo.

— Porque eu preciso estar.

A Pokébola dançava entre seus dedos trêmulos e nervosos. As memórias lhe atravessavam a cabeça nos curtos segundos em que piscava, como se pudesse estar em todos aqueles lugares ao mesmo tempo.

— Seu irmão é o responsável por eu estar aqui, Marc. — falou com firmeza. — E por isso devo tanto agradecê-lo quanto amaldiçoá-lo.

De óculos escuros, sua expressão não mudou.

— Você tá certo. É loucura. Eu… Eu não sei o que tô fazendo aqui.

Sua garganta ardia, o peito apertava. Seria uma vontade de chorar um choro que não poderia sair?

— Mas eu sei que o Charles estaria aqui no meu lugar se fosse necessário. Porque ele já esteve.

Marc soltou uma risada. Menos um riso de divertimento, mais uma tentativa de deboche mal sucedida, perturbada, amarga.

— Por que você tá fazendo tudo isso? Vingança?

— A vingança é um bom motivador. — ponderou. — Mas é uma motivação fraca para esse risco enorme. Meu irmão não vale isso.

— Dinheiro? Chantagem?

Ele ficou em silêncio, como se ensaiasse uma resposta. Por fim, deu de ombros.

— Meu irmão é apenas a isca. — falou com pouca fé nas próprias palavras. — Todos ficaremos felizes com o final da história.

Calem titubeou, pensando que suas piores hipóteses pareciam cada vez mais perto de estarem certas.

— Para de enrolar e joga logo seu último Pokémon. — resmungou o outro, sem abrir muito espaço. — Vamos acabar com essa merda, ou vai ser a minha cabeça em jogo.

Calem suou frio, apertando com força a esfera em sua mão. Só havia uma coisa que ele poderia fazer naquele momento. Concentrou-se e disparou a bola em direção ao campo:

— Vai, Pupitar!

O grandioso casulo se impôs majestoso frente ao adversário metálico, brilhando diante dos feixes luminosos como um escudo polido pronto para se defender de qualquer golpe. Calem sabia que sua relação com Pupitar era cheia de conflitos. Contudo, era seu mais poderoso Pokémon e sua melhor chance de vencer aquele combate. Marc pareceu intrigado ao ver as estatísticas daquela criatura mostradas em seu visor.

Sandstorm!

Os olhos intensos de Pupitar gradualmente desapareceram ao seu adversário frente a uma nuvem de areia que se formou rodeando o campo outrora beneficiado pelos poderes elétricos. Magneton encontrou dificuldades em se locomover flutuando pelo ar repleto de areia.

Mirror Shot! — gritou Marc.

Ancient Power! — retorquiu Calem.

O corpo metálico de Magneton brilhou, disparando um raio capaz de refletir todas as luzes que iluminavam o campo. Todavia, o poder de Pupitar a partir do golpe ancestral atingiu o adversário com tanta força que foi derrotado em questão de segundos. Marc viu o monitor em um estado de emergência com o resultado imprevisto, com a mensagem “A critical hit”. As estatísticas disso eram baixas, mas Pupitar contrariou o previsível.

Ele retornou a criatura, enfurecido. Contudo, soltou um sorriso ao ver as informações da última Pokébola disponível. Ele devolveu a esfera para a máquina no mesmo instante.

— Ora essa. Dessa vez nem precisarei usar os reforços do querido líder. — murmurou, contente.

Calem não entendeu a brincadeira. O adversário enfiou a mão nos bolsos, o que o fez se colocar em posição de defesa. Mas o que saiu do bolso não era uma arma. Era uma Pokébola. Velha e gasta, até mesmo enferrujada. Marc a estendeu:

— Vá, meu parceiro.

Em meio à tempestade de areia era difícil ver com clareza a criatura que se libertava no centro do campo. Contudo, uma pequena e esguia silhueta se formou, as escamas reptilianas reluzindo com as luzes dos monitores brilhantes ao redor. Um par de sérios olhos cravaram em Calem, dando-lhe um leve susto quando a pele de seu pescoço se abriu como uma antena parabólica, onde faíscas saltaram, energizando as máquinas ao redor. Era um Heliolisk, espécie típica das áreas mais áridas de Kalos.

O Pokémon sequer tremeu, sequer pareceu surpreso. Apenas se colocou em posição de ataque diante de seu dono. Calem ficou intrigado ao descobrir que aquele rapaz tinha um Pokémon, afinal de contas. As máquinas do ginásio levaram alguns segundos até capturar todas as estatísticas daquela criatura desconhecida para o sistema.

Mud-Slap! — ordenou Marc.

Rock Slide! — revidou Calem.

Embora Pupitar tenha tentado causar um deslizamento, o lagarto foi capaz de desviar, disparando um golpe de lama que interferiu em sua visão. A habilidade de Heliolisk em se deslocar em terrenos áridos com o Sand Veil permitia que usasse a tempestade de areia a seu favor dentro do campo. Marc analisou as opções no monitor, abrindo um sorriso.

Solar Beam. — murmurou.

— Use o Rock Slide!

A pele do pescoço de Heliolisk se expandiu, absorvendo energia ao redor. O chão e as paredes iluminadas pareciam entrar em parafuso com a interferência em seus geradores de energia. Pupitar avançou com um deslizamento dos materiais da torre, mas o adversário conseguiu minimizar o impacto com sua agilidade.

O lagarto guinchou, encarando Pupitar. Suas escamas brilharam como o sol, disparando um feixe tão certeiro que atirou a criatura rochosa contra uma das paredes com toda a força. A energia foi tamanha que todos os monitores da sala se acenderam, o que obrigou Calem a proteger a vista a todo o custo – desejando fortemente os óculos escuros de Marc. Aos que encaram de fora, gritos de surpresa: de um blecaute, a Torre acendeu todas as suas luzes momentaneamente como uma estrela.

Os índices de Pupitar caíram a um nível crítico. O Pokémon teve dificuldades em se colocar novamente frente ao inimigo. Calem ficou ainda mais ansioso.

— Pupitar, não desista! Por favor. — suplicou. — Use o Thrash!

O Pokémon foi tomado pela fúria em seus olhos. Avançou com uma velocidade quase incompatível com seu peso, investindo com tanta força que o pequeno lagarto, ainda se recuperando do poderoso golpe, foi atirado na direção contrária. Marc hesitou vendo os índices caírem.

— Se levante! Mud Slap!

Heliolisk conseguiu despistá-lo com uma rajada de terra, deslizando seu corpo de réptil para escapar da ira de Pupitar, que teve seu fluxo de golpes interrompido. A imunidade terrestre frente aos poderes elétricos da criatura tornavam as opções de Marc limitadas, encarando tenso o monitor que agora piscava com certa dificuldade após o golpe luminoso de seu Pokémon.

Solar Beam! — bradou, com fúria. Dessa vez, não mais soava como um conselho ou um comando mecânico. Por um segundo, Calem ouviu sua voz apenas como a de um treinador que coordenava seu Pokémon em campo.

O lagarto começou mais uma vez a recarregar sua energia como uma antena que drenava toda a força ao redor. Calem gritou, desesperado:

Ancient Power! É sua última chance!

Pupitar se concentrou. Uma de suas maiores qualidades era conseguir manter o foco mesmo em situações adversas, mesmo com a confusão mental afligida pela batalha.

Os geradores enlouquecidos forçavam uma mensagem de advertência nos monitores; o chão e as paredes tingiam a sala de um tom de vermelho vivo, intenso, onde a dura expressão de Marc parecia um demônio prestes a arrastar Calem para o inferno. Heliolisk se tornava tão brilhante quanto uma bomba prestes a explodir.

Pupitar avançou, permitindo que seus poderes ancestrais desestabilizassem o andar inteiro, onde parte do teto começou a desabar. As estruturas cediam a uma força dos confins da terra, muitos metros abaixo, soterrando o pequeno lagarto frente a um amontoado de materiais. Uma cortina de poeira se levantou e Calem foi obrigado a tossir e se proteger.

Marc saiu naquele exato segundo de onde estava, correndo disparado rumo a Heliolisk.

— Não!

Calem conseguiu abrir os olhos momentos depois, perdido. A poeira baixava, o ensurdecedor barulho das máquinas havia parado. A música agora era abafada, eram poucos os monitores que ainda conseguiam funcionar com precisão, mas estes exibiam uma colorida mensagem “Congratulations! You’ve defeated the Gym Leader”. A voz mecânica soou, agora já quase cansada:

Marquês Clemont foi derrotado. A vitória vai para Calem, Calem Windsor.

No centro da arena, Marc tocava a pele de seu Pokémon derrotado. Sua expressão continuava neutra. Contudo, os óculos escuros agora estavam levemente rachados, embora ainda conseguissem esconder bem seus olhos. Calem sentiu que o silêncio talvez significasse alguma redenção. O sentimento de ver-se derrotado talvez tivesse impactado aquela figura quase impassível.

Contudo, Marc levantou o rosto e correu para o lado, recuperando seu revólver.

Calem levantou os braços. A mão de Marc tremia, conforme seus óculos caíram no chão. Um tique. O dedo suado deslizando pelo gatilho, pronto para dispará-lo. Pupitar se colocou em posição de defesa, mas antes de qualquer coisa, uma voz atravessou a arena:

— Não, Marc!!

O elevador outrora desativado se abriu. O homem imediatamente virou em direção a Charlie e Serena, que pararam exatamente onde estavam. Marc alternava a direção do revólver entre Charlie e Calem, que permaneciam congelados em seus lugares.

— Acabou. — murmurou Charlie, movimentando os pés a pequenos e curtos passos adiante.

— Parado aí, irmãozinho! — gritou, o dedo pousado no gatilho.

Mais um pequeno e curto passo de Charlie.

Marc levantou a arma para o alto e deu um tiro. Os três se jogaram no chão.

— Charlie!! — repreendeu Serena.

— Marc, por favor. — suplicou Charlie. — Por favor.

O outro desenhou um sorriso quase sádico no rosto. Os olhos arregalados, imersos em loucura.

— Eu sabia, Charlie. Sabia que um dia iria acabar assim….

— Marc…

— Você iria se arrastar de volta. Arrependido. Implorando aos meus pés.

— Marc, por favor…

— Porque você fugiu dos únicos que estenderam a mão pra você. Sua vida inteira! Os ÚNICOS! E o que isso te trouxe? Hm? Riqueza? Reconhecimento? Glória? Segurança?

Os olhos de Charlie marejaram. Marc soltou uma risada.

— NÃO! Porque no final das contas depois desse tempo todo você tá NA MINHA FRENTE IMPLORANDO PRA EU NÃO TE MATAR.

O grito de Marc ecoou pela arena. Para além do eco, um silêncio incompatível com a Cidade Luz.

— E sabe o que é o pior?

Charlie quase não se atreveu a olhá-lo nos olhos.

— É que eu faria um favor se eu te matasse agora. Faria um favor. Um favor. Porque o que vai sobrar pra você fora daqui é muito pior que seu medo infantil de mim.

O outro engoliu em seco.

— É isso que sobra pra você e pra mim, Charlie. No final do dia, seus dois amiguinhos vão voltar de helicóptero pra mansão do pai. E você, Charlie? Acha que vai junto? Acha que vão te tratar do mesmo jeito?

— E o que eu iria ganhar ficando? — sussurrou Charlie, engolindo o choro.

— Quê?

— O que eu ia ganhar ficando? Com você.

— Você não é um deles, Charlie. Você nunca vai ser. E quando tentou ser, olha o que fez com os dois.

— Eu não sou um deles. Mas não sou igual a você. Nunca vou ser.

Marc agarrou Charlie pela blusa, jogando-o contra a parede. Serena gritou. Pupitar, Goomy e Espurr se colocaram em posição de combate, mas ninguém se mexeu mais que isso. Charlie sentiu o cano frio do revólver em sua testa, estava a poucos centímetros dos olhos opacos e intrigantes de seu irmão. Quando foi a última vez que seu irmão permitiu ser olhado nos olhos? As lágrimas escorriam pelo rosto, respingando no chão empoeirado.

Ele fechou os olhos e sentiu o cheiro de seu pai. O cheiro do casebre velho, onde o silêncio escondia seus piores pesadelos. Onde a escuridão era onde seus medos dançavam formando um monstro que ele podia contar os passos para capturá-lo. Três. Dois. Um.

— Deixa eles irem, Marc. Por favor. Faz o que quiser comigo. Mas deixa eles irem.

Marc engoliu em seco vendo-o chorar. Fez silêncio por alguns instantes.

— Eles não vão conseguir fugir, Charlie. — murmurou baixinho. Dessa vez não havia terror, sadismo, paranoia. Soou como uma confissão. — Não existe futuro bonito pra quem mexe com essa gente.

Charlie fungou. Sua garganta arranhava, as palavras lhe escaparam como uma súplica perdida que enfim se libertava de um labirinto de anos.

— Você é um monstro. — chorou.

O mais velho piscou. Por um instante, viu o choro de um garotinho de poucos anos de idade se protegendo no escuro de seu pior pesadelo. E ele, a todo custo, tentara protegê-lo. Faria o que pudesse para protegê-lo. Iria até o inferno e voltaria para protegê-lo.

Mas, quando abriu os olhos, era ele quem o ameaçava. Em uma ironia do destino, havia o tornado exatamente aquilo que mais temeu por toda a sua vida. A mão suava no cabo da arma. O dedo tremia no gatilho.

— Valeu a pena?

Charlie abriu os olhos.

— Valeu a pena? — indagou seu irmão, baixinho. — Viver livre. Mesmo que por pouco tempo.

O rapaz balançou a cabeça, mesmo com a pressão da arma.

— Cada segundo. Eu viveria de novo e de novo.

Sentiu o cano fazer mais força em sua testa, e orou para as divindades que sequer acreditava. As lágrimas pingaram e encharcaram sua camisa. Serena gritou desesperada, ouvindo seus gritos reverberarem pelo andar. Amaldiçoou seu pai. Então, Marc pressionou o gatilho.

Um disparo.

Ele ainda sentia sua pele. Sentia os pés trêmulos mal o sustentando.

A bala atingira o elevador ao lado e travou a máquina de se mover. Alguém estava tentando chegar naquele andar e foi impedido. Marc soltou Charlie, que caiu ajoelhado tentando se segurar. Ainda sentia tudo. Ainda estava bem. Seu irmão deu alguns passos para trás. Vagarosamente. Um a um, encarando as mãos trêmulas.

— Não tô fazendo por eles. — murmurou. — Tô fazendo por você.

E mais passos para trás. Charlie tentou se levantar.

— Marc…

— O mundo é um lugar horrível, meu irmão. Por muito tempo eu achei que conseguiria devolver pelo menos um pouco de tudo aquilo que veio sobre a gente.

— Marc…

— Mas se existe algum lapso de beleza nessa merda desse lugar, que você possa provar disso por mim.

Ele pegou os óculos escuros caídos no chão e os colocou sobre os olhos. Poderia ter sido uma lágrima no canto do rosto, mas Charlie nunca conseguiria saber. Foi a última vez que olhou nos olhos do irmão, até que seus óculos voltassem a ser colocados como uma máscara. Charlie começou a andar em sua direção, arrastado.

— Digo que mandou lembranças ao papai quando encontrá-lo no inferno. — falou, abrindo pela última vez seu sorriso cínico.

— Marc, NÃO!

E correu disparado, atirando-se contra as imensas janelas da Torre Prisma, em um mergulho em direção às inúmeras estrelas brilhantes que iluminavam a escuridão de Lumiose. Charlie correu desesperado atrás dele, mas seu irmão sumiu de vista diante do mar brilhante ao redor, gritando sozinho frente a uma galáxia perdida.

O garoto chorou como uma criança, tentando sentir as mãos de seu irmão sobre o ombro – não o Marc ameaçador que o havia sequestrado, mas o garoto de pouca idade que prometeu protegê-lo do mundo e não foi capaz de cumprir.

Voltou-se a seus amigos, vendo a expressão abismada de Serena com os olhos arregalados e Calem praticamente sem qualquer reação. Contudo, seus passos foram interrompidos em questão de um curto instante, quando um novo disparo foi ouvido.

Charlie foi a o chão, e os amigos imediatamente se voltaram para a origem do ruído, onde múltiplos tiros eram lançados da porta lateral que conectava o andar à escadaria. Calem intuitivamente bradou:

— Pupitar, Rock Slide!

A criatura criou um soterramento que bloqueou por completo qualquer entrada por aquela porta, onde nenhum outro barulho foi ouvido desde então. Todavia, seus olhos agora correram para Charlie, caído no meio da arena. Serena imediatamente se abaixou e tocou seu rosto, as mãos tremendo e mal conseguindo segurá-lo. Na lateral do corpo, a camiseta manchada de sangue.

— Charlie! — gritou Serena, entre um chamado e um pedido de socorro.

Calem se abaixou, sem saber o que fazer. Chacoalhou o garoto, mas ele não respondeu. As lágrimas de Serena pingavam sobre sua pele. A garota apoiou o rosto sobre seu peito, soltando um grito.

— Charlie, por favor.

O primo tocou o rosto do amigo, sentindo algo que há muito não sentia. Algumas lágrimas tentavam lhe escapar pelos olhos, procurando um caminho para fora. A primeira levou à segunda, e à terceira, e aí por diante.

Sua voz soou tão frágil que poderia se desmanchar antes de sair pela boca.

— Charlie… Por favor, Charlie. Por favor. A Serena precisa de você. — murmurou, segurando sua camiseta com força. — Nós precisamos de você.

Sentiu um movimento de respiração brusco no garoto, fazendo-os ter uma surpresa. Charlie abriu os olhos levemente, com dificuldade frente às luzes intensas no ginásio de Lumiose. Talvez agora ele tivesse coragem de enfrentar a luz, depois de tantas sombras. Encontrou as pessoas que mais amava lhe encarando, queria poder congelar aquele instante. Tudo parecia girar, mas após alguns segundos conseguiu recuperar o equilíbrio para levantar a cabeça. Ele olhou nos olhos de Calem.

— Você… Você me chamou de Charlie.

E abriu um sorriso. Serena permitiu uma pequena risada escapar, enquanto Calem limpou as lágrimas rapidamente, se levantando.

— Ora, Charles!! — resmungou. — Você ainda tem muito o que viver pra poder pagar as coisas que roubou de mim.

E Charlie riu, logo colocando a mão sobre a área machucada.

— Que fofinhoooooo! Posso te chamar de Cal-Cal?

— Pode me chamar de Senhor Vossa Majestade Calem Windsor no tribunal quando meu advogado te processar por me fazer morrer do coração, seu idiota!!

Examinou o machucado do rapaz, enquanto sua prima ria. Um riso que logo foi se esvaziando ao olhar aqueles olhos verdes mais uma vez. Ficaram ambos em silêncio. As inúmeras questões ainda pairavam entre si, sem respostas. Apenas dando espaço para uma prioridade maior.

— Acho que de tudo não foi tão grave. Acha que consegue andar?

E começou a se levantar, com ajuda dos amigos.

— Consigo.

Ele olhou para o lado e viu uma Pokébola caída – a Pokébola de Heliolisk. Pegou o objeto e guardou a esfera com cuidado, engolindo uma sequência de pensamentos que lhe atravessaram. Ao longe, a janela quebrada onde Marc o havia deixado. Muito longe, o sol começava a nascer, preenchendo a escuridão onde antes as luzes de Lumiose se desenhavam.

— Vamos embora. — murmurou Calem, levando-os para o elevador, que logo começou a funcionar sem qualquer comando, sob controle de Clemont. — O Observador está nos esperando no subsolo.

    

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