Notas do Autor - Capítulo 33

ALERTA DE SPOILERS! Antes de ler as notas, leia o capítulo correspondente primeiro!
Após alguns meses e algumas pandemias (rindo de nervoso), seguimos nossa estadia em Coumarine! Como já cheguei a comentar, esse arco não é tão intenso, mas traz alguns acontecimentos notáveis. Eu imagino Coumarine como uma cidade muito agradável. 

Na busca por respostas, Serena sempre parece que sempre acaba com mais perguntas... Mas olha, alguém se lembra do garoto do capítulo 23? Foi uma aparição tão rápida que acho que ninguém mais deve se recordar. Mas, bem, quando a Serena curiosamente foi parar junto dos túmulos da Rota 7, já havia alguém lá, que vai embora alguns momentos depois. Esse menino era o Azria, um personagem que nos apresenta pouco por enquanto, mas que ainda vai ser fascinante em seu tempo. Alguém que traz interrogações em sua própria existência, em sua própria memória... Quanto pensamos que os mistérios vão se resolver...

Quanto ao Charlie e Calem... Alguém estava com saudade dos dois fazendo confusões? Spritzee é um Pokémon cotado para o time do Calem há muito, muito tempo - um dos primeiros, na verdade, se não me engano. Ela deveria ter sido capturada na época em que eles passavam por Camphrier, na rota em que encontramos esse Pokémon normalmente, mas achei que não era o momento. Felizmente achei uma brecha! É um dos meus Pokémons favoritos de Kalos, inclusive. Acho que essa metade do capítulo foi bem cara de fic de Pokémon - aquela fantasia louca que só aconteceria dentro desse universo. Às vezes juntamos temas tão humanos que esquecemos em que mundo estamos... E, depois dessa, o clima esquentou bastante. Curiosidade: a loja de incensos de fato é um lugar do jogo (um dos poucos lugares existentes em Coumarine).

Espero que tenham tido uma boa leitura, e se preparem, pois uma batalha de ginásio nos espera!

Aproveito esse espacinho para deixar um agradecimento a todos vocês, queridíssimos leitores, sempre de olho nas novidades por aqui, mesmo em tantas pausas... E também um abraço especial em todos os amigos da Aliança, pelo incentivo, pelos comentários e por continuarem com seus planos incríveis que sempre me incentivam a continuar a jornada por aqui também. Feliz em fazer parte dessa equipe <3

Capítulo 33


CAPÍTULO 33
Aromaterapia


Serena protegia a cabeça com sua capa. A chuva gelada escorria em sua pele, caindo insistentemente sobre o corpo. O barulho das gotas rebatendo no plástico protetor era alto. Ela parou na primeira oportunidade que teve de se proteger. Retirou os papéis que carregava debaixo da capa e soltou um suspiro de alívio ao ver que estavam protegidos. Encostou sobre a parede daquele estabelecimento fechado e ficou por alguns momentos olhando em tom admirado a natureza derramando suas águas sobre Coumarine.
Já chovera na maior parte da manhã, parecia que agora o clima finalmente amansaria. O céu estava em um cinza claro, escondendo o sol por detrás das nuvens. A ruazinha estava quase vazia, ela via algumas pessoas caminhando aceleradas tentando evitar de se molharem. De maneira geral a garota gostava de chuva, mas acabou sendo pega um pouco de surpresa pela tempestade. Tirou o capuz da capa e escorreu a água de seus fios curtos de cabelo.
De lá ainda conseguia ouvir um pouco do barulho da parte mais agitada de Coumarine, ainda que a cidade fosse bem tranquila, especialmente não muito frequentada àquela época do ano. Alguns motores de carro e poucas buzinas se perdiam na melodia do respingar contínuo no chão de pedra. A garota foi escorregando as costas na parede, terminando sentada no solo. Encarou os papéis em suas mãos.
“Stevan Windsor”
Ela abriu a pasta e folheou, mas nada além do que já havia visto. Pensou que alguma informação poderia ter passado batido, que faltava um olhar mais atento. Mas não. Nada além do mais básico possível. Teria sido tola de pensar que seu pai teria documentos importantes em um local de fácil acesso assim? Já sabia de onde ele era, seu nome, seu tipo sanguíneo. Além disso, nada que contribuísse com sua busca.
A garota levantou a cabeça e soltou uma respiração longa. Abaixou o olhar ligeiramente e se deparou com uma figura a não muitos metros de si, protegendo-se da chuva da mesma forma. Ele encarava longe, quase perdido em seus pensamentos. Tinha uma pele alva que contrastava fortemente com seus cabelos negros como a escuridão. Sua pose era curiosa, parecia retraído, como alguém que acabara de levar um susto e ainda tinha o coração acelerado.



Serena finalmente conseguiu pousar o olhar naquela figura, mas sabia que não era a primeira vez que o via. O aperto em seu peito não mentia.
— …de novo!
A garota se levantou, indo em direção a ele. Protegeu os papéis mais uma vez, e cobriu a cabeça com o capuz.
— Ei, você! — exclamou.
O menino de imediato lhe dirigiu um olhar assustado. Seus olhos eram de um cinza tão escuro que por pouco chegavam ao preto, como um céu noturno sem estrelas. Os cabelos pretos caíam-lhe bagunçados pela cabeça O rapaz era um tanto mais alto que ela, mas seu corpo magro se esgueirou quando a menina apontou-lhe o dedo.
— Nós já nos vimos antes! — disse ela. — Não vimos?
Ele ficou a encará-la, mas antes que respondesse ela continuou.
— Desculpe te abordar assim, mas eu tive uma sensação muito estranha quando te vi que há tempos eu não tinha. — falou. — Geralmente eu sou uma pessoa que segue a intuição e…
A voz da garota foi morrendo quando percebeu que ele apenas e observava com uma expressão dúbia e talvez até um pouco assustada. A garota colocou a mão na boca, sem jeito. Um trovão ecoou ao longe, e uma nova rajada de água caiu violenta dos céus. Só o barulho da chuva preenchia o constrangedor silêncio.
— Por Arceus… M-me desculpe, moço. Oh, céus, eu fui horrível. Me desculpe!
Ela se virou, corada. Colocou o capuz na cabeça porém antes que fizesse o caminho de volta, ouviu uma voz rouca e grave que fez com que seu corpo sentisse um arrepio até os fios de cabelo.
— Já nos vimos. — ele disse. — Eu lembro de você.
Ela vagarosamente se virou, encarando-lhe.
— Eu vi você ontem e não evitei segui-la. Na biblioteca. Me desculpe, não queria deixá-la com medo. — disse ele.
Serena deu um passo à frente. O garoto permanecia na mesma posição. Era engraçado a contraposição de seus olhos azuis tão faiscantes e vívidos encarando aquelas orbes escuras como buracos-negros.
— Perto de Geosenge. Nos túmulos. — disse ele. — Você estava lá, não estava?
Serena sentiu novamente um arrepio, pois dessa vez ela que fora pega de surpresa.
— E-eu não lembrava de tê-lo visto lá. — disse.
Os dois ficaram em silêncio. Um trovão ribombou bem longe, enquanto a chuva ainda atingia com forças o chão. O som das gotas caindo na pequena parte da capa de chuva fora do coberto estalava pelo ambiente. O garoto pareceu ficar um pouco sem jeito após seu próprio comentário.
— Eu sinto que começamos de um jeito errado… — disse Serena. — Será que podemos tomar um café?
Após alguns instantes de ponderação, o garoto apenas concordou com a cabeça. Àquele tempo, os cafés mais movimentados de Coumarine estavam lotados. O mais próximo que alcançaram tinha recolhido as mesas para evitar que se molhassem. A placa da porta indicava que estava aberto. Correram para alcançá-lo sem se molharem muito, espirrando a água das poças no caminho. Ao abrirem a porta, um sininho tocou.
Serena pendurou sua capa de chuva em um lugar apropriado. Sentiram uma brisa do ar-condicionado logo que pisaram dentro. O rapaz balançou o sobretudo que vestia e esfregou os pés no tapete, secando. Os dois se entreolharam e seguiram para a fila, sem trocar mais palavras. Serena pediu um mocha, bem espumado. Ele pegou um expresso puro.
Os dois sentaram-se na mesa. A garota arrumou uma mecha do cabelo atrás da orelha e tomou um gole generoso de sua bebida. O ar-condicionado resfriava suas roupas molhadas de chuva. Olhou para o lado, vendo as gotinhas caindo e escorrendo pela janela que dava para uma das ruas mais conhecidas de Coumarine.
— Meu nome é Claire. — mentiu ela, como nas muitas vezes ao longo das últimas semanas.
— Azria. — falou ele, simplesmente, encarando a própria xícara de café escuro.
— Eu não sabia que você estava em Geosenge. — falou ela.
— Você não tinha notado minha presença quando chegou. — respondeu, tocando a mesa. — Está tudo bem.
Serena apontou-lhe um olhar confuso.
— Como sabe que sou a mesma pessoa? — indagou ela.
— Acho que do mesmo jeito que você sabe que já me viu.
Serena não se lembrava de tê-lo visto em Geosenge, mas por algum motivo sua memória lhe dizia que algo naquele garoto era familiar. Sobretudo, era com certeza ele que estava na biblioteca de Coumarine no dia anterior. Por que sua mente lhe chamava a atenção a alguém que sequer conseguiu conhecer direito? Olhar para ele lhe trazia algo curioso, como rever alguém que você não vê a muito tempo e preferia esquecer. Mas ela não o conhecia, e ele parecia assombrado até mesmo com o ruído dos trovões muito distantes.
— Eu não sei. — respondeu ela. — Mas eu sinto.

Existem pessoas que passam por nossa vida que mal nos lembramos. Em compensação, algumas deixam alguma marca curiosa mesmo que não tenham desempenhado nenhum papel relevante para nós. Não sei como dizer por que eu o reconhecia, mas conseguia. Nas três vezes que o vi, meu peito foi tomado de um sentimento misto que não sei definir ao certo, - como quando você sente que está prestes a descobrir uma coisa muito ruim, e já não sabe se é melhor a dúvida ou a certeza. Eu não o diria isso, de maneira nenhuma, mas seria coincidência?
Suspirou.
— Desculpe, sei que é coisa boba.
— O que você faz aqui, Claire? — indagou ele, sério.
— Estou procurando algumas respostas… — murmurou a menina, perdida. — Quero descobrir mais sobre minha mãe, mas parece que quanto mais procuro, mais longe estou...
Ela colocou a pasta de documentos na mesa, nervosa. Não havia contado aquilo para ninguém.
— Acho que ela pode me ajudar, mas não consigo, de jeito nenhum, encontrar qualquer coisa sobre ela.
— Sei como se sente. — balbuciou o garoto.
Serena levantou o olhar. Azria encarava o vidro afora, tão distante que suas palavras pareciam vapor solto no ar, que se dissipava aos poucos até desaparecer. Mesmo presente no ambiente, era como se parte dele não estivesse ali, e sim procurando por coisas que Serena não entendia, e talvez sequer ele mesmo seria capaz de dizer.
— Eu também estou procurando respostas. — falou, preenchendo o silêncio entre os dois.
— Sobre sua família?
— Sobre mim. — respondeu. — Sobre eles também.
O garoto tomou um gole do café amargo.
— Desde que eu acordei naquele dia… Não me lembro de mais nada. — falou, com um pesar tão grande que a cada palavra parecia que alguém lhe apertava um machucado.
Ela quase prendeu a respiração.
— Desculpe. — disse ele. — Não queria assustá-la.
— Por que… — ela passou o dedo com suavidade pela beirada de sua xícara. — Por que você está me contando isso?
Ele desenhou um canto de sorriso irônico, tão frágil que logo se desfez.
— Eu não sei. Desculpe.
— Não precisa pedir desculpas, eu só…
— Quando eu disse que sabia que já a vi é porque eu também tenho esse pressentimento. — murmurou ele, inclinando-se em sua direção. — Você me traz coisas boas, e eu... E-eu não sei explicar o que, mas faz um bom tempo que não tenho um pingo de esperança igual agora.
A garota encolheu-se, um pouco confusa.
— Quando diz que quanto mais procura mais longe está… É assim que me sinto. Desculpe por tê-la deixado sem jeito, mas você parece uma frestinha de luz que há muito tempo não me aparecia. Eu não deveria ter sido tão esquisito. É melhor eu ir.
Serena tocou o próprio peito enquanto o garoto se levantava. Ele deu um tropeção desajeitado, claramente incomodado de ter falado demais. As pessoas ao redor o olharam com uma expressão negativa, vendo-o seguir o trajeto até a porta.
— Não, espere. — falou, colocando-se de pé.
— Boa sorte em sua busca, Serena. — falou o garoto, por fim, deixando a menina sozinha na mesa, só instantes depois ficando desconcertada ao assimilar como ele a chamou.
♠ ♣ ♠
Os dois rapazes caminhavam lado a lado pela rua de terra. A parte mais alta de Coumarine City tinha algumas áreas preservadas e naturais, próximas a onde Calem parara para ler no dia anterior. O garoto preferia nos últimos tempos evitar os tumultos – gente demais lhe atacava a ansiedade, pensava que poderia estar sendo observado por qualquer capanga de Stevan.
Só não estavam em silêncio pois sucedia uma conversa desconfortável e forçada. Discutiram sobre o tempo, como a chuva havia acabado de parar. Alguns lugares ainda tinham poças consideráveis, de maneira que Calem tivesse que desviar, temendo sujar seus tênis. Charlie abria um sorriso quando acontecia.
— Sei que têm andado com a cabeça meio cheia… — murmurou Charlie, com as palavras tão teatralizadas que parecia estar ensaiando aquele diálogo mentalmente havia tempos.
Calem continuou olhando para o chão.
— Charles, essa conversa… — disse ele, acenando a cabeça. — Não vamos tê-la.
— Eu quero tê-la. — retorquiu o outro, tocando-lhe o ombro.
— Não o culpo. Não preciso de desculpas. Sua intenção nunca foi ruim. — balbuciou Calem, firme. — Apenas o fato de eu ter concordado com sua abordagem que me aborrece.
— Bem, talvez você não queira, mas deixo minhas desculpas. — concluiu o outro balançando as mãos.
Seguiram pela caminhada em um silêncio desconfortável, cheio de espinhos e entrelinhas perdidos. Charlie encarava o céu, Calem encarava o chão. Entre os passos incertos pelo caminho encharcado, o menino deixou escapar:
— Como você consegue?
O outro baixou-lhe os olhos verdes.
— O quê?
— Viver escondido. — murmurou. — De mentiras.
Charlie ficou por um tempo sem resposta, preparando-se para dizer algo, mas se interrompeu quando inspirou com calma o ar. Olhou ao redor discretamente, chamando a atenção do outro.
— Está sentindo esse cheiro?
— Não, meu nariz está meio entupido. A poeira da casa atacou minha rinite. — resmungou o outro.
— É um cheiro doce e forte.
— É uma casa de incensos. — apontou Calem.
Uma fachada antiga se estendia a não muitos metros dos dois. Aquela área não era tão repleta de comércio, uma vez que era razoavelmente mais retirada da cidade. A iluminação era baixa, trazendo um ar místico para o espaço, e uma névoa suave se dissipava pelo ar. Charlie sentiu novamente o aroma atraente que o convidou a investigar a lojinha. Várias estátuas de Pokémon de madeira e pedras escuras decoravam as prateleiras, especialmente de algumas figuras que eram conhecidas pelo misticismo que carregavam – Xatu, Solrock, Lunatone, Meowth... Todos Pokémon com representações importantes para várias culturas de diferentes lugares.
Tecidos pendurados decorados à mão caíam pelas paredes, entrelaçados com todo o cuidado. Pedras místicas em colares também eram artigos frequentemente destacados à venda. Muitos acreditavam nos poderes provindos dos artigos minerais – e, depois de conhecer as Mega Evoluções, Calem também não duvidava desse poder.
— Olá, rapazes. Procuram algo específico? — uma voz rangida como uma porta velha se fechando surgiu detrás da loja.
Os rapazes se viraram ao balcão, notando uma senhora baixinha de cabelos brancos presos em um penteado exótico, envolto por alguns lenços coloridos. Usava uma roupa repleta de símbolos, assim como alguns eram desenhados com cuidado em sua pele. Esboçava um sorriso simplório, faltando alguns dentes, e os olhos quase sumiam quando o fazia.
Havia alguns piados e rufares de asas. Em um poleiro próximo à velha senhora estavam vários Pokémons gorduchos, de uma penugem rosa de tom forte e olhos avermelhados brilhantes como as pedras místicas colocadas à venda; brigavam por mais espaço um com o outro no poleiro, batendo as asas entre si.



— Não, só estamos dando uma olhada. — respondeu Charlie, simpático. — Esse cheiro chamou a atenção.
— Ah, sim. Nós vendemos aqui incensos, ervas aromáticas, e outros produtos naturais. — explicou ela.
Calem encarou uma prateleira repleta de pedras, interessado. Ele reconhecia aquelas de livros – não eram apenas pedras místicas, mas sim pedras evolucionárias. Por mais que seu poder fosse tentado traduzir desde os primórdios de seu surgimento, eram, de qualquer maneira, suficientemente raras devido ao seu potencial de influenciar certas espécies de Pokémon quando expostos a seus poderes. Algumas só eram encontradas em lojas próprias de batalha por altos preços.
— Quanto custam, senhora? — perguntou o menino.
— Depende da pedra, meu jovem. — disse ela, balançando a cabeça.
Ele estendeu a mão, levantando uma delas. Quando a luz dos candelabros batia em suas bordas, percebia-se que brilhava em tons de roxo; contudo, antes de chegarem ao seu interior, pareciam se perder, sendo absorvidos até o centro escuro como um buraco sem fim, tão negro quanto o céu noturno.
— Uma Dusk Stone. — ponderou ela. — A Pedra do Crepúsculo. Essa veio especialmente da região de Sinnoh, é raramente encontrada por aqui. — falou ela, coçando o queixo. — Mas posso tentar fazer um preço generoso para você…
Calem se aproximou, negociando com a senhora. Sem muito discutir, puxou algumas notas de dinheiro de sua mochila com simplicidade, deixando no balcão. Charlie ficou brincando com os pássaros no poleiro, que quase compravam a provocação, tentando bicar seu dedo. Quando concluíram, a senhora abriu um novo sorriso, e os dois deixaram a loja com uma despedida. Calem admirou a pedra por alguns momentos antes de guardá-la em um bolso interno da mochila.
— Por que resolveu comprar isso? — murmurou o garoto.
— Ainda vai ser útil. — ponderou o outro.
Calem inspirou fundo o ar, fazendo um barulho com as narinas entupidas. Coçou, com uma careta, ameaçando um espirro.
— Aquele cheiro fica impregnado. Vou precisar de outro banho para voltar ao normal. — reclamou. — Até meu nariz entupido detectou esses cheiros.
Charlie inspirou também, olhando para trás. Ouviu um rufar de penas pousando ao redor e percebeu a mesma espécie da loja da velha senhora, encarando os dois com seus vívidos olhos vermelhos.
— Não é o pássaro que a mulher criava lá dentro? — indagou Charlie.
— Ah, que ótimo. — reclamou o outro, batendo as mãos nas pernas. — Agora esse bicho vai andar atrás da gente. Já não bastasse você me seguindo, agora ele também vai.
Charlie levantou uma sobrancelha, o encarando com seriedade.
— Será que dá pra parar com isso? — retorquiu, amargo.
O amigo o olhou de volta com dúvida.
— Como é?
— Me alfinetar toda vez. — respondeu. — Eu ando meio cheio disso.
— Mas eu sempre fiz isso. — Calem deu de ombros, voltando a caminhar. — Por que resolveu implicar comigo agora?
— Porque chega uma hora que cansa, Calem. — ele abriu os braços, sem sequer sair do lugar. — Olha a que ponto chegamos.
Calem abriu um sorriso irônico, parando de andar e se voltando para o amigo.
— Preciso lembrar por que estamos “neste ponto”?
— Tá, tá. Agora vai me culpar. Como sempre. — Charlie disparou, com uma falsa risada. — Apontando o dedo pra mim, toda vez. Eu sempre causo tudo, eu sempre sou o problema. O “indesejado”.
— De onde vem isso? — Calem cruzou os braços.
— De você! Ou estou mentindo? Você não faz questão de deixar claro isso sempre?
Calem suspirou, descruzando os braços e voltando a caminhar.
— Charles, não sei o que deu em você, mas eu não vou comprar essa briga.
— É porque você tem medo de qualquer briga. — ouviu, baixinho. — Até comigo.
O garoto parou de andar. Virou-se vagarosamente rumo ao companheiro, com um olhar de poucos amigos. Charlie o fitava com uma expressão séria que ele não via havia muito tempo.
— O que quer dizer com isso?
— Você é covarde. — cuspiu Charlie. — E seu medo é que os outros descubram isso, né?
O garoto puxou de suas coisas uma esfera. Calem ainda ficou digerindo aquelas palavras disparadas de maneira tão crua que qualquer reação foi impossível. Charlie não parecia estar brincando, falando tudo de um jeito tão seco que ele sequer se recordava quando foi a última vez que o percebera assim. O garoto lhe apontou o dedo, jogando a mochila de lado e lançando a Pokébola para o alto.
— Vai, Litleo! — disse.
A felina se espreguiçou, esticando as esguias costas. Mostrou as garras afiadas em suas patas, e forçou os músculos do rosto em uma expressão fechada, brilhando seus olhos atentos em direção ao adversário. Os dentes à mostra revelavam que estava pronta para seguir seu treinador.
— O que pensa que está fazendo? — perguntou o garoto.
— Vai fugir? — provocou Charlie.
Aquelas palavras assemelhavam-se ao que ele ouvira de Damien outrora. Mas uma coisa era quando um estranho lhe dirigia aquelas coisas. Outra era quando um amigo que te conhece completamente dizia. O outro hesitou, mas colocou a mochila no chão e levantou uma de suas Pokébolas. Jogou, revelando Tyrunt, que mostrou de cara sua poderosa mandíbula capaz de destruir rochedos.
Take Down. — anunciou Charlie.
Ancient Power. — rebateu Calem.
Litleo investiu furiosa, atingindo Tyrunt. O dinossauro, apesar do golpe, não hesitou muito em continuar de pé. Possuía uma pele resistente como as rochas do passado, e tinha consideravelmente mais treino em batalhas que sua adversária. A criatura levantou um grupo de pedras do chão, disparando contra o Pokémon de fogo, que tomou um notável dano.
♠ ♣ ♠
Serena caminhava lentamente pelas ruas, retornando à pequena casa em que haviam conseguido estadia na cidade. Sua cabeça estava distante, perdida na turbulência das muitas informações que lhe foram dirigidas por Azria. Se achou que finalmente interagir com aquele garoto lhe auxiliaria a responder algo, estava mais enganada que nunca. Agora não apenas estava confusa como também incerta pelo próprio garoto, sem ter como ajudá-lo.
Ela teve sua atenção atraída quando ouviu vozes de seus amigos não muito distantes. Correu alguns passos e não escondeu sua surpresa ao vê-los de lados opostos, em uma batalha. Começou a desenhar um sorriso ao pensar que Charlie poderia estar ajudando Calem a treinar para sua batalha do dia seguinte no Ginásio da cidade, mas logo a expressão caiu quando percebeu a atmosfera estranha que pairava no ar.
— O que está acontecendo aqui? — perguntou a menina, então coçando o nariz. — Alguém aqui passou perfume?
Charlie virou lentamente a cabeça a ela.
— Princesa, não se envolva.
— Meus melhores amigos estão brigando, eu vou me envolver sim. — retorquiu a garota, se aproximando da briga. — O que deu em vocês?
— Ando um pouco cansado de seu primo apontando o dedo sempre para mim. — Charlie falou, seco.
— Não foi você quem disse que devemos dar um tempo a ele? — perguntou a menina, agora mais próxima dele.
— Bem, acho que demos tempo até demais. — deu de ombros.
Serena fechou a cara – outro evento não muito frequente.
— P-pelo menos ele é sempre sincero com a gente. — disse em tom quebradiço.
O outro desfez a cara que gesticulava anteriormente, razoavelmente perdido.
— O que quer dizer?
— Das suas mentiras, Charlie. — falou, direta. — Ou das coisas que você nunca conta. Eu já disse que estou cansada disso.
— Princesa, você também? — inquiriu Charlie.
— Não é questão de “eu também”, Charlie.
— Gente, será que só eu estou em sã consciência aqui? — perguntou Calem, do outro lado.
A batalha havia cessado com a entrada de Serena. Ele sentiu um frio na espinha em vê-los discutindo. Por mais que tivesse seus (muitos) poréns com o contato entre os dois, vê-los brigando naquele tom com certeza não era algo que o garoto gostaria. A seriedade em suas vozes parecia tão profunda que estava desconfortável em ver aquela troca de palavras – mas agora era quase ignorado no ambiente.
O menino soltou um espirro, coçando seu nariz já meio avermelhado.
— Se essa droga de cheiro já está me incomodando imagina se não estivesse com o nariz entupido. — resmungou ele.
De repente, Calem puxou de novo o ar, ouvindo o som das narinas presas quase assoviando. O garoto teve um leve estalo enquanto observava Charlie e Serena dialogando.
— Com o nariz entupido… — murmurou para si mesmo.
Ele olhou para os lados, procurando por algo.
— Serena, me empreste sua Pokédex. — falou.
A menina não lhe deu ouvidos, mas desta vez ele se permitiu resgatar o objeto em sua bolsa sem que ela sequer lhe desse atenção. Por mais que tivessem se desfeito de outros itens tecnológicos, tinham para si que a Pokédex era um artigo que não lhes forneceria perigo – além de sua utilidade durante as pesquisas da menina. Ele remexeu o aparelho, sem muita habilidade, levando mais tempo que gostaria para encontrar o que procurava.
Uma voz robótica anunciou, enquanto projetava a imagem de um Pokémon rosa como aquele que outrora pousara nas proximidades.
Spritzee, o Pokémon perfume. — informou a Pokédex.  Ele emite uma essência que encanta aqueles que sentem seu aroma. A fragrância varia a partir da dieta de Spritzee
O garoto deu um tapa na própria perna, agora com certeza que solucionara o mistério.
— Foi você quem fez isso? — inquiriu, procurando pelo Pokémon. Em seguida, deslizou seu olhar pelas redondezas. — Nossas mochilas!
O garoto fez o caminho inverso ao que tinham percorrido, deixando seus amigos em uma acalorada discussão. Não demorou para localizar o Spritzee a alguns metros de distância, voando com certa dificuldade enquanto carregava as mochilas de Calem e Charlie. O garoto soltou um espirro, sendo percebido pela criatura. Quanto mais se aproximava, mais intensa se tornava aquela fragrância. Ele percebia seus sentidos levemente abalados com aquela inalação.
Alcançando o Pokémon, conseguiu puxar sua mochila. A criatura tentou disputar, mas acabou tendo a bolsa arrancada. Calem resgatou no meio de suas coisas uma esfera. Sem muito ponderar, arremessou o objeto contra o pássaro, vendo-o ser arrastado para dentro.
A mochila de Charlie caiu instantaneamente no chão. O garoto correu para pegá-la, enquanto observava a esfera se remexer no chão. Não muito depois, o movimento cessou, indicando uma captura. Ele refletiu por alguns momentos. Até a Pokébola ficou levemente cheirosa.
Nem formou um sorriso no rosto, pois logo virou para trás. Levou as duas mochilas consigo, caminhando lentamente. Conseguia ouvir os brados de Charlie e Serena, mas forçou o máximo que pôde para não absorver nenhuma das palavras. Em uma de suas Pokébolas, revelou Skrelp, comandando um Water Pulse que logo atingiu os amigos.
Os dois tomaram um susto, se desestabilizando e caindo no chão, encharcados. Agora, porém, que haviam se molhado e o Spritzee já não estava mais por perto, o cheiro aos poucos se dissipou. Ambos respiraram fundo, diminuindo o ritmo. Coraram ao se observar, retomando consciência.
— Charlie…
— Serena. Céus…
Os dois  ficaram acanhados em se olhar nos olhos, desviando para baixo. As palavras outrora disparadas com tanta facilidade agora pesavam no ar em uma atmosfera sufocante.
— Essas coisas todas… — murmurou a menina.
— Eu não… Eu não sei…
— Já está resolvido. — interveio Calem. — Era um golpe. Essa fragrância provavelmente deixou vocês irritados de propósito. — deu de ombros.
Os dois se levantaram em silêncio, mexendo nas roupas molhadas. Os olhares ainda estavam cabisbaixos, como se tivessem medo de levantá-los e fossem obrigados a se encarar após aqueles longos minutos de discussão. Calem balançou a cabeça.
— Por que estão assim?
— Calem… — balbuciou Charlie. — Me desculpe.
— Não precisa se desculpar.
— Foi horrível o que…
—Sugiro que, pelo bem da convivência, consideremos que foi apenas um episódio e esqueçamos. — disse ele, voltando a caminhar
— Princesa…
— Ele está certo, Charlie… — disse Serena tocando-lhe no ombro.
A menina penteou os cabelos com a mão, forçando um sorriso.
— Me desculpe.

    

Notas do Autor - Capítulo 32

ALERTA DE SPOILERS! Antes de ler as notas, leia o capítulo correspondente primeiro!

Aparições surpresa em plena segunda-feira!

Seguindo jornada com nossos protagonistas, chegamos a Coumarine City, a cidade portuária! Espero que aproveitem nossa estadia nessa cidade, pois passaremos alguns poucos capítulos por aqui. Confesso que fiquei um pouco decepcionado nos jogos que ela não tinha muita importância, pois gosto muito da geografia dela, de ser dividida em duas partes, e especialmente por ter um importante porto. Contudo, consegui incluir alguns acontecimentos especiais enquanto estivermos aproveitando desse momento.

Acho que estes primeiros capítulos da Saga Y rememoram um pouco a Saga X. Por mais que eu tenha vários acontecimentos programados, começamos em ritmo relativamente lento. Todos eles incluem eventos importantes e algumas peças do enredo para montarmos o quebra-cabeças dos próximos arcos - mas a organização dos capítulos lembra um pouco aquele típico começo de jornada. 

Algo que ouço com muito carinho é quando dizem que os personagens da história estão equilibrados. No começo da fanfic eu tinha certas dificuldades pois, como o Calem era o único treinador, era difícil mediar os papéis dos demais personagens. Com o tempo, porém, tudo foi fluindo naturalmente de maneira que ao final da Saga X cada qual tenha mostrado como possui sua importância no enredo.  Nessa temporada - e já nesse capítulo - percebemos como cada qual está tomado por suas ambições pessoais, sem querer preocupar os demais: A Serena em busca de respostas sobre sua própria vida tentando se libertar derradeiramente; o Calem entrando em contato com seu lado mais intenso a fim de se tornar um melhor treinador (e uma melhor pessoa); o Charlie cada vez mais espremido por seu passado, percebendo que as consequências estão prestes a estourar. Posso dizer que esse balanço entre os três será cada vez mais intenso, e prometo que todos terão sua chance de brilhar de um jeito especial nos próximos arcos.

Espero que tenham todos tido uma agradável leitura e espero vocês por aqui semana que vem, com mais um capítulo! (Depois de um ano sumido, vamos aproveitar enquanto tem capítulo escrito!)

Capítulo 32


CAPÍTULO 32
Minha História


A brisa da manhã estava com mais agitação que Coumarine City geralmente oferecia a seus moradores. O céu se fechava em nuvens espessas, fazendo uma camada acinzentada até onde os olhos alcançassem. O mar balançava em tons escuros com moderada agressividade, obrigando alguns barcos a permanecerem ancorados no porto da cidade. Era de perder de vista o número de embarcações que se colocava nas docas, uma vez que estavam frente ao maior porto de Kalos.
Serena admirava com calma o ritmo de Coumarine. Da parte superior, conseguia observar uma vista agradável das áreas mais montanhosas. Era dividida em duas zonas, a cidade alta – entre as colinas – e a baixa – à beira do mar. Era interessante como representava a diferença de relevos entre a área central e costal de Kalos, abrindo caminho para o interior. Apesar da chuva forte na noite anterior, o céu ainda não havia se limpado totalmente.
— No que está pensando?
A menina se virou para trás, sem antes ter ouvido os passos de aproximação. Calem mexia uma xícara de café com uma pequena colher de metal. Ela balançou a cabeça, dançando os fios louros no ar.
— Coisa boba minha.
— Escute… — suspirou ele.  — Sinto que tenho sido um pouco injusto com você nas últimas semanas.
A garota devolveu-lhe um olhar atento, vendo sua feição cansada repousar a vista no céu nublado.
— É só que… Não é fácil encarar que essa é nossa nova vida… Parecia um pensamento tão certo, mas quando eu percebi que tínhamos entrado em um beco sem saída…
— Não é sem saída. — interrompeu ela, baixinho.
— Eu não consigo ver uma saída. — retorquiu ele. — Eu realmente quero, mas eu não consigo. Não uma boa saída.
Ele encarou a xícara quente. Nada como um café da manhã para esquentar frente à virada climática de Kalos.
— Não quero que pense que te culpo por isso. — admitiu. — Pois isso não é culpa sua.
— Nem sua. — devolveu ela.
Ele assentiu lentamente.
— Eu vou aprender a lidar. Mas preciso de tempo.
A menina encarou seus dedos ansiosos se entrelaçando sozinhos. Calem sentou-se ao lado dela e ficaram por alguns momentos em silêncio, perdidos no horizonte. O som dos lábios sugando a bebida cortava a pausa longa entre a conversa, até o momento em que o garoto voltou a encarar sua prima, abrindo um pequeno sorriso.
— O que vai fazer hoje?
— Vou resolver umas coisas minhas. — respondeu ela com um sorrisinho.
— Tipo…?
— Tipo você vai fazer suas coisas… E eu farei as minhas.
Ele arqueou uma sobrancelha.
— Desde quando você resolveu agir misteriosamente?
— Claire é uma garota misteriosa. — falou a menina com uma piscadinha, se levantando para ir embora.
— Você não venha com essas baboseiras para cima de mim, Serena Windsor. — resmungou ele, fazendo-a soltar uma gargalhada.
♠ ♣ ♠
Os olhos da garota corriam pelas prateleiras. Havia estantes até onde os olhos perseguissem. Coumarine era dotada de uma considerável biblioteca na parte baixa da cidade, uma vez que reunia pontos bem tradicionais da região. A luz entrava por janelas superiores, mas os raios logo se perdiam nas paredes e chão amadeirados de tons escuros. Amplas estantes se distribuíam em corredores, repletas dos mais variados livros trazidos naquele ponto de diálogo de Kalos com o restante do mundo.
Serena se perdia entre os títulos. Já quase nem lembrava o que fora fazer por lá. Ela sabia que, mesmo que começasse a ler naquele segundo, talvez nunca conseguisse terminar a biblioteca toda – mas com certeza não lhe faltava vontade para tentar. Desde os conhecimentos mais ancestrais sobre a formação de Kalos até contos cotidianos escritos nas cidades interioranas de Kanto. Que belo universo a desbravar.
Vez ou outra pegava um exemplar das estantes, só para xeretar. Era difícil manejar um livro e um ovo Pokémon, mas ela os revezava nas mãos. As folhas de vários já amarelavam, mais finas e empoeiradas que quando foram impressos. As histórias que carregavam, porém, permaneciam intactas. Ela queria muito pegar alguns, mas nunca viria a devolvê-los, pois passariam uma estadia relativamente curta em Coumarine. E, afinal de contas, ela tinha o que fazer.
Levantou a cabeça para frente, quando um garoto atravessou por entre as estantes. Intrigada, ela deu alguns passos à frente, tentando não perdê-lo de vista. Quando o viu entrar em um corredor, seguiu seus passos, até ser interceptada, levando um pequeno susto com o regresso à realidade.
— Posso ajudar?
Um senhor mais baixo que ela estava em sua frente. Usava roupas que pareciam ser de jardinagem, apesar de reforçadas para enfrentar o frio que vez ou outra pairava sobre a região. A ideia era fortalecida pelas botas levemente sujas com terra, e uma imensa tesoura que carregava consigo. A feição que tinha, todavia, era extremamente simpática e prestativa, abrindo um sorriso sincero para a menina que quase fez seus olhos desaparecerem.
— Que susto! — exclamou a menina.
Oh, desculpe! — falou ele, sem jeito. — Você parecia perdida, jovenzinha.
Ela coçou a cabeça, um pouco sem graça.
— Acho que aceito uma ajuda, senhor…
— Ramos!
— Prazer, senhor Ramos! Meu nome é S… Claire! — ela se corrigiu. — Claire Duval.
— É um prazer, jovem Claire. — ele concordou com a cabeça. — Que belo ovo temos aqui… — observou ele. — Qual a espécie?
Ela acariciou o ovo com as mãos.
— Eu não sei ao certo…
— Hm, uma surpresa! — ele abriu um sorriso novamente. — Interessante!
— Sabe dizer se estou no caminho certo? — inquiriu ela.
O velho senhor resgatou seus óculos, guardados meio sujos no bolso de seu casaco. Colocou e arregalou os olhos, encarando o ovo. Ramos tocou com suavidade a casca, deslizando os dedos pelo comprimento, sentindo a textura. Não evitou desenhar um sorriso novamente em seu rosto marcado pela idade.
— Ele tem uma aparência saudável! — falou, com uma risadinha. — Apenas tome cuidado com os movimentos que você realiza na companhia dele, e cuidado para que não pegue temperaturas muito amenas. Kalos às vezes resfria consideravelmente, e bebês precisam do calor para se desenvolverem.
Serena assentiu, extremamente satisfeita com a resposta.
— E o que o senhor está fazendo por aqui?
— Oras, precisava consultar um velho livro de jardinagem. — respondeu o senhor, rindo. — Com o passar das décadas, alguns nomes parecem que fogem da nossa memória.
Abriu-se um silêncio, e ele pareceu instigado com o olhar curioso da menina dançando pelas lombadas dos livros arrumados nas prateleiras.
— O que exatamente você está procurando? — indagou a Serena.
A menina pareceu precisar de alguns momentos para formular alguma resposta adequada. Afagou os braços ao redor de seu ovo.
— Hm… Eu estou procurando sobre uma pessoa. — falou, singela.
— Certo. — prosseguiu ele, depositando a mão sob o queixo de maneira pensativa.
— Eu quero saber mais sobre ela… Mas não sei exatamente onde procurar. — continuou.
— Você sabe o nome dela? — questionou ele.
A menina deu uma risadinha constrangida.
— Não exatamente…
O velho soltou um riso.
— Bem, o que sabemos sobre ela?
— Sabemos que… Bem… — ela corou, um pouco desconcertada. — Senhor Ramos, na verdade, é um assunto um pouco particular… — comentou, tímida. — Tudo bem se eu…
Oh, é claro, sem problemas. — respondeu ele, abanando as mãos. — Desculpe se a pressionei. Mas, sabe, deveria checar nos arquivos da cidade.
— Arquivos? — perguntou ela curiosa.
— Boa parte das documentações dos habitantes de Kalos se concentra fisicamente nos Arquivos, na Cidade Alta. — comentou o velho, pensativo. — Faz alguns anos que está desatualizado, mas talvez encontre algo que possa ajudá-la.
Ela abriu um sorriso, satisfeita.
— Obrigada, senhor Ramos! Será de grande ajuda! — falou.

♠ ♣ ♠
O som das ondas e dos Wingulls voando pelos ventos litorâneos não parecia tão animador naquela manhã. O céu escurecido se mostrava um tanto fúnebre para Charlie, que colocava-se perdido encarando as embarcações das mais diversas formas e cores distribuídas pelo porto. O cheiro de sal e de peixe nunca esteve tão fresco e enjoativo quanto naquela ocasião. As águas pareciam mais turvas, uma vez que a área era onde todos os barcos chegavam, misturando óleo com alguns artigos que caíam dos navegantes.
Ainda assim, seguiu caminhando pelo espaço. Serena e Calem haviam saído sem grandes satisfações. Ele também não queria se juntar a eles forçadamente. Era irônico, pois no momento em que mais deveriam estar unidos, mais pareciam, de certa maneira, distantes. Ele respeitava o tempo deles. Ele já estava acostumado a fugir. Eles não.
De fato encontrou o que procurava. Era apenas um palpite, mas estava certo. Um garoto apoiava-se em um dos barcos, descarregando caixotes para o cais. Suas pernas bambeavam levemente com a falta de firmeza da embarcação na água. O rapaz, de cabelos curtos e enrolados levantou seus olhos castanhos em direção ao garoto. Charlie abriu um pequeno sorriso, fazendo um aceno com a mão.
— Ludovic. — cumprimentou.
— Charlie! — exclamou o garoto, soltando o caixote antes de chegar ao chão. — Há quanto tempo!
O outro fez um sinal com as mãos, sugerindo que abaixasse o tom.
— Não anuncia, meu caro. — disse, com um sorriso tímido.
O outro deu uma risada desconcertada.
— Foi mal. É que realmente fiquei surpreso. — respondeu. — Devem fazer anos…
— Anos. — concordou Charlie.
Ludovic encontrou-o para um abraço. Por mais que não se prolongasse por muito, Charlie sentiu-se à vontade naquele momento, respirando fundo. Encontrou um curto conforto no contato, compensando os anos perdidos nos poucos segundos. O outro, assim que se afastou, passou o braço pela testa suada. Bateu as mãos na calça e descarregou mais um dos caixotes. O amigo sentiu-se na obrigação de ajudá-lo.
— Tenho visto seu rosto nos jornais, meu chapa. — comentou, só então o encarando — Se envolveu em problema dos grandes, dessa vez.
— Eu não me contento com pouco. — respondeu, dando de ombros.
— Caramba…  Charles Stuart… — ponderou o garoto novamente, ofegante, depositando as mãos na cintura. — Quem diria? Mundinho pequeno esse.
Charlie o acompanhou para tirar uma das caixas mais pesadas. Tinha alguns artigos de pesca metálicos que faziam barulho conforme se movimentavam. O garoto limpou uma mão na outra enquanto descansava por alguns curtos momentos.
— Sabe de algum dos outros garotos? — perguntou Charlie.
Ludovic deu um sorriso meio sem jeito.
— Você sabe como é, cara. Não os vejo há quase tanto tempo quanto você. — respondeu, simplesmente. — Não faço ideia de que caminho tomaram. Mas ninguém deve ter sido bobo de continuar em Lumiose.
Charlie desviou os olhos para o mar – a imensidão azul-acinzentada que se estendia, decorado pelos vários grandes barcos ancorados. Um vento frio balançou suas roupas, refrescando um pouco do esforço físico que acabara de fazer. Thanos descansava apoiado em um poste, observando o movimento.
— Você parece bem. — falou o menino, por fim, em um tom singelo.
Ludovic o olhou nos olhos.
— Eu tô. — falou, com um sorriso. — Vim morar em Coumarine, trabalho um período por aqui… É meio puxado, mas melhor que a vida nas ruas.
O outro concordou, com conhecimento de causa.
— E você, o que anda fazendo? — indagou de volta. — Além de fugir da polícia.
— Ando por aí com uns amigos. — respondeu. — Tipo uma jornada.
— Uma jornada. — Ludovic se levantou, olhando para as águas. — Quando criança a gente morria de vontade de sair em uma jornada. Que bom que você tá realizando isso. — falou, com sinceridade. — E teu irmão?
Charlie não demonstrou a hesitação que sentiu naquele instante, chacoalhando seu interior, rememorando os pensamentos mais diversos e bagunçados de sua cabeça.
— Encontrei ele um dia em Lumiose. — disse, simplesmente.
— Ele ficou irado da cara quando você foi embora. — falou Ludovic, sério. — Eu, se fosse você, não pisaria por lá em um bom tempo.
O outro engoliu em seco. Como explicar que ele já havia recebido o recado de uma maneira bem enfática?
— Posso imaginar.
Ludovic olhou para o barco de pesca e conferiu, mas todos os caixotes já haviam sido descarregados. Ele estendeu a mão, abrindo um sorriso.
— Meu caro, preciso resolver algumas outras coisas ainda. Mas, se for ficar pela cidade, dá uma passada quando puder. — ele apertou a mão do amigo e o puxou para um abraço. — Em nome dos velhos tempos.
— Em nome dos velhos tempos. — repetiu Charlie, um pouco sem jeito, afagando-se no abraço.
As palavras lhe escaparam por um momento. Tempos depois se arrependeria por nem conseguir formular uma despedida simples, mas permitiu que os gestos tomassem conta. O abraço de alguém que viveu seus piores dias ao seu lado é único, é especial. Ele se encaixa, porque rememora um gosto de esperança no período em que ela mais esteve em falta. Era esperança que o garoto voltava a precisar.
Preparou-se para fazer o caminho inverso na companhia de seu Pancham, quando ouviu um último ruído do rapaz, antes de ir embora:
— Ei, Charlie.
O rapaz se virou. Ludovic encarava sério os barcos no cais.
— Longe de mim querer falar igual esses merdinhas da TV, como se fosse coisa fácil. Tô ligado que não é. — disse o rapaz. — Mas, se tiver a oportunidade de voltar atrás, volta, cara. Minha vida não é perfeita. Mas nada paga minha tranquilidade de deitar no travesseiro de noite e saber que meus fantasmas das ruas de Lumiose foram embora.
Charlie abriu um sorriso de papel, frágil. O garoto jamais entenderia o que estava acontecendo e, de certa maneira, ele era grato por isso. Desejava mais que tudo que aqueles que o acompanharam no passado encontrassem a tranquilidade. Alguns, felizmente tinham sorte – o que, nos olhos de um dos garotos perdidos de Lumiose, poderia ser tomado como sorte. Será que algum dia ele também encontraria sua própria paz?
— Eu vou, Ludovic. — prometeu.
                        
♠ ♣ ♠
Calem respirou fundo. Era impossível abandonar a tensão de ser um fugitivo – a todos os momentos seus olhos pesquisavam se alguém o observava. Porém, quando na paisagem certa, sua mente conseguia momentaneamente esquecer quem era e se desligar. Coumarine City era um desses lugares.
Na parte alta da cidade, os ventos mais fortes bagunçavam as folhas das árvores. Estava por uma campina, recostado a uma árvore. Ele gostava do tempo nublado, embora a brisa parecesse premonitória de uma nova tempestade. A harmonia das folhas farfalhando e o mar quebrando no porto parecia uma melodia doce que permitia que o rapaz se concentrasse melhor em sua leitura.
Um bom dia de descanso. Até que uma voz aguda e imperativa cortasse sua paz.
— Ei, você!
Calem levantou o olhar. Um garoto o encarava a alguns metros de distância, o indicador apontado em sua direção. O rapaz deslizou a cabeça para os lados, procurando algum outro alvo, mas estavam sozinhos pela campina. O outro era baixo, mal deveria ter a altura de Serena. Os cabelos bagunçados se escondiam por baixo de um boné, enquanto um sorriso aventureiro se estampava de orelha a orelha.
— Eu o desafio para uma batalha! — prosseguiu o menino, com um tom confiante.
Calem quase fechou o livro.
— Mas eu não fiz nada para você. — respondeu Calem, dúbio.
O menino coçou a cabeça, confuso.
— Eu só quero uma batalha, pode ser, tio?
— “Tio”? — indagou de volta o garoto, ofendido, se levantando do chão (coberto por uma toalhinha) — Escute aqui, garotinho, quantos anos você pensa que eu tenho?
— Do jeito que você fala, parece ter uns cinquenta. — retorquiu o outro, depositando os braços atrás da cabeça.
Calem quase caiu no chão.
— Oras, e você que sequer entrou na puberdade ainda e está querendo opinar na minha existência. — falou, revoltando.
O menino arqueou as sobrancelhas, cruzando os braços.
— Para sua informação, eu tenho doze anos muito bem completos! — argumentou.
— Meu deus, doze anos. — Calem coçou a cabeça. — Você é tipo um bebê.
O outro pareceu furioso, cerrando as mãos.
— Quer parar de falar assim? Você não é tão mais velho que eu!
— Oras, não foi você que disse que eu parecia mais velho agora há pouco?
Humpf, então deixa. — falou, dando de ombros. — Não quero mais batalhar também.
Os dois se interromperam ao ouvir uma sequência de gritos. Não muito longe dali havia um PokéMart, e algumas pessoas pareciam fugir preocupadas de perto do espaço. Os dois garotos trocaram olhares, duvidosos.
— O que é isso? — perguntou o mais novo.
— Parece que estão tentando roubar aquela loja. — comentou Calem.
O outro começou a andar na direção da confusão, sendo interceptado por Calem, que o segurou pelo ombro.
— Aonde você pensa que vai, senhor doze anos? — inquiriu.
— Estou indo impedir eles. — falou o outro, dando de ombros.
— E o que você pensa que pode fazer contra ladrões? — falou Calem, quase rindo. — Eles podem ser perigosos.
— Tio, eu sou um treinador Pokémon. — retorquiu o outro ajeitando o boné. — Eu não tenho medo de nada.
O garoto começou a correr em direção à loja. Calem foi pego de surpresa pelo menino, encarando-o se distanciar. Mesmo que respondesse, o outro não ouviria a resposta. A impulsividade foi tanta que o rapaz sequer permitiu-se pensar muito também, apenas correu em direção a ele, tentando alcançá-lo. O jovem virou-se para trás, confuso.
— Tá indo comigo? — perguntou.
— Prevejo mais uma atitude irresponsável que eu me arrependerei cinco minutos depois, mas sim, estou indo. — respondeu Calem com um suspiro, quase que para si mesmo. — Não vou deixar uma criança fazer uma burrada dessas.
— Cuidado pra não machucar a coluna. — falou o outro, mostrando a língua.
Grr, crianças não querem mais saber de respeitar os mais velhos.
Os atendentes do PokéMart estavam rendidos, com as mãos levantadas. Por mais que houvessem sistemas de segurança, a dupla de ladrões gritava ordens. Eram acompanhados por Pokémon: Um deles trazia consigo um Ursaring que, ao se colocar de pé, quase batia no teto do estabelecimento – com uma expressão tão feroz que intimidava os atendentes a oferecerem aquilo que possuíam em caixa sem titubear. O segundo tinha um Skuntank, que mostrava os dentes em meio aos pelos desgrenhados, tão fedidos que o ambiente parecia se intoxicar só com sua presença.

— EI! PARADOS AÍ!
Os ladrões encararam a porta instintivamente, se virando com seus Pokémon. Parecia uma cena dos filmes antigos que Calem gostava de assistir quando mais novo – os ladrões mascarados assaltando um pequeno estabelecimento, e os mocinhos chegando para interceptar. Seu novo amigo de doze anos não demonstrou estar intimidado com a gritaria dos bandidos, e tampouco com os olhares ferozes do Ursaring e do Skuntank.
— Deveríamos mesmo ter chamado tanto assim a atenção? — cochichou Calem, suando frio com a situação.
— Pivete, se sabe o que é bom para você, sugiro que dê meia volta e fuja agora! — falou um dos capangas, lhe apontando o dedo.
Segundos de tensão se estenderam. O garoto tentou permanecer firme em sua pose. Calem sentia seu coração quase sair pela boca. Sabia o risco que corria, mas não poderia fazer qualquer movimento brusco naquele momento. De repente, um dos ladrões bradou:
— Skuntak, use Smokescreen!
O Pokémon levantou sua cauda enorme e peluda, emitindo uma grossa névoa enegrecida que cobriu a visão de todo o espaço momentaneamente. Não evitaram tossir com aquela bruma tóxica que fez os olhos coçarem e os sentidos se perderem por um curto período de tempo. Calem puxou o garoto para si.
— Fique atrás de mim. — disse.
— Qual é, tio? Eu não preciso de proteção! — resmungou o outro, empurrando.
Ouviram:
— Ursaring, Slash!
De repente, cortando a fumaça surgiu o enorme Ursaring, derrubando seu braço com as garras afiadas que mais parecia um machado. O menino empurrou Calem ao perceber a movimentação, de maneira que ambos conseguissem despistar o golpe a tempo de não serem atingidos. O jovem, logo se recompondo, ajeitou seu boné com um olhar de poucos amigos.
— Se for pra me atrapalhar, é melhor você ir embora! — resmungou.
— Será que dá para parar de achar que tudo isso é um jogo? — falou Calem, logo se levantando.
— Até dá. — disse o menino, puxando uma Pokébola. — Mas daí perde a graça.
Acompanhando o movimento, Calem resgatou uma das esferas também. O outro atirou-a para frente.
— Vai, Charmeleon!
— Honedge, saia! — acompanhou Calem. — Use o Swords Dance!
O garoto liberou um dragão de estatura média, de pele alaranjada tão dura quanto uma armadura capaz de resistir às chamas de um vulcão. Era um Charmeleon, a evolução de um dos clássicos iniciais de Kanto, e uma espécie relativamente rara em Kalos. Honedge colocou-se logo em posição de batalha, realizando movimentos no ar, afiando sua lâmina conforme o comando de seu treinador.

— Que tipo de golpe é esse? Ele nem causa dano. — inquiriu o menino mais novo, revirando os olhos.
Calem arqueou uma sobrancelha.
— É um golpe que aumenta o nível de ataque do meu Pokémon. — retorquiu. — Não é só porque um ataque não causa uma explosão que ele não é útil, lutar é uma questão de estratégia.
— Blá blá blá, fala demais. — resmungou o outro, abanando o resto da névoa dissipada pelo Skuntank. — Charmeleon, Flamethrower!
— Skuntank, use o Acid Spray.
O Pokémon venenoso levantou a cauda uma nova vez, esguichando um líquido de cor castanho-esverdeada. Todos se abaixaram ao perceber que a substância corria algumas das superfícies atingidas. Charmeleon desviou, enquanto Honedge permaneceu intacto frente ao golpe, tendo seu revestimento metálico imune aos venenos. 
— Use o Shadow Sneak! — ordenou Calem.
Fire Fang! — prosseguiu o outro.
A espada aproveitou-se da penumbra para se incorporar às sombras, golpeando de supetão o Skuntank adversário com seu poderoso nível de ataque. O dragão avançou em direção a Ursaring, mordendo sua pata. A criatura agonizou com a queimadura mesmo por cima de suas camadas grossas de pelo. Os ladrões cerraram os punhos.
— Não vamos deixar uma dupla de crianças estragarem tudo! — resmungou um deles. — Use o Night Slash!
Fury Swipes!! — acompanhou o segundo.
Skuntank avançou rumo a Honedge, o golpeando com seus poderes noturnos, causando grandes danos à criatura sombria. Ursaring, por sua vez, atingiu Charmeleon com uma série de golpes com suas garras afiadas, afastando o dragão. Os treinadores hesitaram, vendo o contra-ataque avançar intensamente. O menino rangeu os dentes.
— Charmeleon, não desista! Flamethrower!!
— Honedge, avance com o Pursuit!
A espada avançou cortando os ventos, investindo com um golpe certeiro em Skuntank. O Charmeleon abriu sua mandíbula e liberou um poderoso lança-chamas, tão forte que os alarmes de incêndio da loja dispararam, abrindo uma parte do teto e ativando os irrigadores. Os ladrões, tendo seus Pokémons derrubados e tendo sido rendidos pelos adversários, pareceram ceder à posição, quase que intimidados. O menino fez um estalo de vitória.
— Um bom trabalho. — confessou. — Viu, não falei que ficaria tudo bem?
Calem ponderou.
— Até que você não é um péssimo treinador.
— Pra um velho você também não é mal. — retorquiu ele, mas dessa vez o rapaz apenas soltou uma risada.
O som de sirenes se aproximou. Calem imaginou a trabalheira em reconstituir o espaço. Talvez eles devessem ter deixado a polícia agir desde o começo. Sobretudo, foi atingido por um pânico quando se lembrou que não podia ser visto ali. Não pelas autoridades. O garoto retornou Honedge para sua Pokébola, regredindo os passos em direção à porta.
— Droga, é melhor eu ir. — balbuciou.
— Aconteceu alguma coisa? — perguntou o outro, desconfiado.
— Conte pra eles o que ocorreu, tudo bem? — disse Calem, começando a sair. — Lembrei que preciso resolver uma coisa!
A adrenalina tomou conta enquanto corria, os batimentos do coração disputando com as sirenes em ritmos descompassados. Ele, contudo, não disfarçava um sorriso. Por um momento, agiu como um garoto de doze anos inconsequente. Calem sabia que era errado, poderia estar em perigo, poderia ter sido atacado, as coisas poderiam ter terminado mal. Mas, naquele momento, tudo terminou bem. Muito bem.
♠ ♣ ♠
Serena revirava páginas atrás de páginas. Por onde quer que seus olhos corressem, lá estavam mais caixas idênticas em meio àquele ambiente de tom clínico. O nariz chegava a coçar com tantos papéis históricos guardados em uma só salinha que provavelmente não era bem limpa havia um bom tempo. Não muito à frente, sua Espurr observava um rapaz dormindo, funcionário do espaço que possivelmente havia sido hipnotizado por ela.
— Serena Windsor. Serena Windsor. — murmurava ela.
Após passar por mais uma pilha de papéis, encontrou algo em seu nome. O coração apertou, mas logo a tensão se esvaiu e foi tomada pela decepção, ao ver não mais que as informações que não lhe eram relevantes. Mais uma vez, nada do que precisava. A garota guardou os papéis de volta nos arquivos, sentando desolada no chão enquanto fitava aquela imensidão de documentos – tantas palavras inúteis em um lugar só.
— Por onde começo a procurá-la, mãe? — suspirou, perdendo seus devaneios em meio à imensidão de caixas.

    

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