Kalos: The Other Side
Do You Really Know Kalos?
Você entra em um pequeno estabelecimento. Por algum motivo, você não se lembra do porquê de está lá, nem como chegou. Suas roupas estão gastas, e sua cabeça dói. O ranger da porta amplifica a dor de cabeça. Ao abrir, se depara com um bar velho e acabado. O chão de madeira faz sons quando pisa. Uma música de provavelmente seis décadas atrás toca por uma vitrola, que faz alguns rangidos enquanto tenta executar a música. Mas o mais notável é o cheiro de mofo e álcool que alcança suas narinas e deixa um pouco de tontura.
A melhor alternativa é dar meia volta ir embora, mas você escuta uma voz que mostra que não está sozinho:
— É perigoso alguém jovem como você andar por aí nesse horário. — diz um senhor limpando o balcão. — Entre, ofereço algo por conta da casa.
Sem muito o que fazer, você escolhe entrar. Está frio lá fora, além de tudo. Fecha a porta e escuta o ranger chato uma última vez. Em seguida, o som dos próprios passos, até cessar quando você se senta em uma cadeira próxima ao balcão. Não há ninguém além de vocês dois.
O velho senhor começa a limpar um dos copos enquanto procura algo para servir a você. Tal como seu bar, ele tem uma aparência suja. Os poucos fios brancos que lhe restam estão emaranhados como sua barba, e as vestes são quase trapos. Quando ele encara, você percebe que um de seus olhos deve ser de vidro. Ele dá um sorriso, com alguns espaços onde deveriam estar dentes.
— Você deve ser novo(a) por aqui... Kalos é cheio de turistas. — comenta ele, organizando os copos. — Afinal, o sonho de muita gente é vir para cá. Cidades românticas como Lumiose, bonitas como Laverre, históricas como Camphrier...
Em seguida, ele para com a atividade e se apoia no balcão, se aproximando de seu rosto. Em um impulso você se afasta, mas ainda estão próximos o suficiente para que você consiga sentir seu hálito apodrecido quando ele abre a boca em um sorriso. Em seguida, com uma voz sussurrada macabra com um toque de deboche ele diz:
— E se eu te dissesse que nem tudo é tão lindo assim? — ele faz uma curta pausa. — Sabe como é, aqui é cheio de histórias, daquelas que permanecem vivas quando são compartilhadas, mesmo que não devessem... Que passam de boca em boca, sem que ninguém tenha conseguido comprovar a veracidade. Ou que tenha sobrevivido para contar. Histórias que eu não deveria contar, na verdade... Mas acho que você tem um pouco de tempo para matar, não é?
O que acha de conhecer o outro lado de Kalos?
Dados Técnicos
Publicação: Aleatória;
Gêneros: Terror, suspense, mistério, darkfic;
Classificação indicativa: +16
Avisos: Insinuações, uso de drogas ilícitas,
Contos
CONTO 1: QUER BRINCAR COMIGO?
Em uma mansão de Vaniville Town, alguns séculos atrás, uma família encontra problemas clássicos: Um pai ausente, uma garota solitária e uma madrasta má. Em meio aos mal tratos da madrasta, Sarina encontra como refúgio sua pequena boneca para brincar. Entretanto, talvez elas tenham um conceito diferente para "brincadeiras".
Parte 1
Parte 2 [Em breve]
Parte 2 [Em breve]
Notas do Autor - Capítulo 13
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| Estas notas contém spoilers, então é recomendado ler o capítulo correspondente primeiro! |
E depois de mais de um ano, finalmente a história central volta a caminhar! Admito que fiquei muito, muito atrapalhado mesmo com esse capítulo. Havia uma versão original dele que não estava fluindo e eu não estava gostando do rumo que tomava. No final das contas, eu ficava emperrado para continuar, e depois fiquei sem tempo. O resultado disso vocês já sabem. Contudo, em alguns momentos de inspiração consegui criar uma segunda versão, que é a que vocês conferiram hoje.
É possível notar que o enredo do capítulo dá um giro de 180º. Isso porque, como eu já devo ter comentado, não vou ficar arrastando a história para um drama completo logo no início. As coisas em Lumiose não foram muito bem, Serena ficou traumatizada, sim, mas como visto no capítulo 12.5, ela vai tentar dar a volta por cima. Dessa vez estamos recuperados e a jornada volta aos eixos. Dessa vez. Portanto, aproveitemos os momentos de inocência que, apesar de não voltarem mais como eram antes, ainda não sumiram.
Estamos entrando em Camphrier, uma cidade que eu particularmente gostei muito quando joguei. A cidade parece ter um ar muito histórico, como se tivesse sobrevivido no tempo. Isso é legal em Kalos: você sai de uma das maiores metrópoles do mundo Pokémon e vai para uma cidade de alguns milhares de anos ~rsrsrs Se me permitem jogar um spoiler, no pouco tempo que ficaremos em Camphrier, teremos um clima um pouco tranquilo, mas uma aparição importante de um personagem novo. Palpites?
Peço desculpas pela imensa demora novamente, mas se serve de consolo, esse era o capítulo que me atrasava. Já tenho esboços dos próximos dois, então creio que não teremos que esperar mais um ano para continuar a trama ~rsrs
Aproveito para desejar parabéns para Clara-chan, que faz aniversário hoje, a Clarinha, uma leitora que já conheço de antes de Kalos, da época de Ethron, e que considero uma irmãzinha. Para quem não sabe, ela quem fez a dublagem da Mary (Dá uma olhada na página de novo)! Feliz aniversário, Clarinha! :3
Out of the Woods (Edit)
Já estamos fora do perigo?
Já estamos no claro? Ainda bem.
[...]
Quando você começou a chorar
Baby, eu também comecei
Mas quando o sol apareceu
Eu estava olhando para você
Lembra-se de quando não conseguimos aguentar o calor?
Eu saí e disse "estou te libertando"
Os monstros voltaram a ser apenas árvores
Quando o sol apareceu
Você estava olhando para mim
Capítulo 13
Capítulo 13
Fora do Perigo
Serena acordou naquele maldito tempo nublado. Um céu triste e fúnebre, que parecia se segurar para derramar as lágrimas que trariam uma tempestade. Por que o tempo estava nublado? Por que estava tudo triste? Ou será que ela apenas enxergava as coisas tristes porque era assim que se sentia? Só ouvia o som abafado das pessoas na rua, Lumiose afora. Ela coçou a cabeça e ficou olhando para o teto até ter coragem de abrir completamente seus olhos. E se Marc a estivesse observando?
Ela levou um susto quando, de
fato, alguém a observava. Charlie sentava-se em uma cadeira aos pés da cama, e
a fitava. Ele estava com uma aparência cansada, olheiras intensas abaixo de
seus frios olhos verdes. Porém, conseguiu sorrir com suavidade ao ver a garota
acordada. Agora ouvia também o som do chuveiro, indicando que Calem estava
tomando banho.
A menina se levantou e sentou-se
ao pé da cama, próxima de Charlie. Ela afundou a cabeça nas mãos e ficou alguns
momentos na quietude total. Ele moveu o braço lentamente para se aproximar
dela, que afastou o braço dele com um tapa, por impulso. Ambos ficaram se
olhando, meio constrangidos. Droga, Serena, ele não queria te machucar.
— Eu disse que ficaria de guarda
para que você dormisse. — disse-lhe o rapaz, então.
Serena balançou a cabeça
concordando, mas não disse nada novamente. Tantas palavras rondavam sua mente
de forma tempestuosa, mas nenhum trovão lhe escapou pelos lábios. A menina se
levantou, de forma lenta e gradual. Caminhou até a janela e ficou lá, apenas
encarando aquela cidade. Aquelas malditas pessoas. Marc estava lá, em algum
lugar.
Charlie surpreendeu-se ao ouvir a
voz da menina, pela primeira vez desde o dia anterior. Tão fraca, tão trêmula,
que não era Serena.
— Não é seguro ficarmos aqui,
Charlie. Não era seguro dormirmos aqui.
Ele aguardou alguns momentos e
pensou em dirigir-lhe uma mão no ombro, porém escolheu manter-se à distância.
— O Marc não iria atrás de nós no
mesmo dia, princesa. — respondeu Charlie, alongando as costas, que estralaram
alto. — Não seria tolo. Ele só irá atrás de nós se retornarmos para cá. —
disse, tomando o cuidado para não trocar o “se” por “quando”. — Porém, por via
das dúvidas, é melhor sairmos dessa cidade o quanto antes. Vá se trocar para
que possamos ir para um lugar novo, sim?
A garota concordou com a cabeça
vagarosamente e parou de olhar pela janela. Pegou seus pertences e bateu na
porta do banheiro, avisando Calem que queria tomar banho também. Após refletir,
Charlie segurou seu pulso. Ela lhe dirigiu um olhar imediatamente. Ele não
sabia o que fazer com isso. Não sabia como olhá-la nos olhos.
— Eu disse que Lumiose não era
grande coisa, princesa. — ele queria ter um tom de razão, mas sentiu vontade de
nunca ter dito aquelas palavras. Serena apenas o encarou por alguns instantes,
até baixar o olhar até seu pulso segurado. Charlie instantaneamente a soltou, e
a deixou.
Calem saiu de lá vestido, penteando os
cabelos. Procurou um espelho e deslizou o pente pelos fios castanhos úmidos em
um movimento concentrado e relaxado. Charlie observou o movimento na janela em
silêncio, as pessoas caminhando. Aqueles meros figurantes, que conseguiam andar
pelas cidades e seguirem sua vida, como se nada tivesse acontecido. E, de fato,
nada acontecera para elas.
Ouviu uma voz quebrando o mórbido
silêncio:
— Você errou em nos seguir,
Charles. — disse Calem, sem desviar os olhos do próprio reflexo. Quando Charlie
tinha se virado, Calem continuava sua tarefa, e parecia como se ele sequer
tivesse dito algo.
— O que você…
— Eu sempre soube que era um erro
permitir que você viesse conosco. E você quase me fez mudar de ideia, Charles.
Quase. — falou Calem, abaixando o espelho e se virando. Por apenas um instante
Calem o olhou. Seus olhos acastanhados estavam firmes.
— Por decência eu não o mando
embora. — falou, se aproximando. — Mesmo que essa seja minha vontade.
...
O trio olhou para os lados várias vezes, para se certificarem de que ninguém os aguardava. Nenhuma surpresa desagradável. Em seguida, correram pelas ruas movimentadas até encontrarem um arco grande com uma espécie de túnel. Suspiraram aliviados ao chegarem lá. Sequer viraram de costas para ver Lumiose uma última vez. Não tinham essa vontade.
Após cruzarem a entrada/saída,
chegaram à Rota 5. Foi como se sentissem um alívio. Não havia barulho de gente
andando ou carros buzinando. Ou melhor, o som estava mais reduzido, já que a
cidade estava bem próxima. Mas era mais evidente o som dos Pokémons cruzando a
grama, e um curioso som de rodas girando.
Desta vez não havia asfalto, os
passos tocavam a terra diretamente. A grama fazia barulho ao ser remexida. Aos
poucos as energias de Serena retornavam ao estar em contato com a natureza,
diferente do estresse das cidades. Estava um silêncio perturbador no trio. Até
que Charlie decidira quebrar o silêncio:
— Vocês repararam que o Aldrick e
a Katheryn sumiram? Não vejo eles desde uns dois dias atrás.
Alguns passos antecederam a
resposta.
— Eles decidiram seguir outro
caminho a partir de Lumiose. — respondeu Calem brevemente. — Avisaram
anteontem.
Silêncio.
— Podemos parar um pouco? Eu
estou muito cansado. — pediu Charlie.
Serena se virou.
— Acabamos de começar a andar…
Charlie se sentou na grama,
esgotado. Do costumeiro saco que carregava nas costas, saiu Pancham, como de
praxe, mas desta vez acompanhado de outras duas criaturas. Era o mesmo Skiddo e
a mesma Litleo que Serena havia visto no dia anterior.
— Como você fez esses três
caberem em sua mochila? — indagou Calem, perplexo.
— Você carrega um kit de sobrevivência
na sua. — argumentou Charlie.
Em cheio.
Serena não se sentou, ficou
correndo os olhos pela rota, sem dizer nada. Ela ouvia um som que a intrigava:
o barulho de rodas girando ainda a intrigava. Seguiu seus ouvidos, que a
guiaram até uma depressão da rota, onde claramente não podiam avistar de onde
estavam anteriormente. Porém, de cima, Serena viu, na descida da rampa, algo
surpreendente.
O chão era coberto de concreto,
formando um enorme retângulo colorido. Algumas partes deste variavam o tom e a
profundidade, como um espaço para uma piscina, só que sem água. Mais longe,
objetos como cones dispostos em série. Guias, que mais pareciam corrimões,
faziam Serena acreditar que eram para se apoiar, porém, se surpreendeu ao ver
alguém andando encima delas.
Andando não. Os pés não se moviam
de um jeito comum. No lugar dos calçados de todas as pessoas lá, estavam
sapatos curiosos, com rodinhas na sola. Eles as usavam para deslizar pela
pista, onde exploravam os obstáculos distribuídos. Pela primeira vez nos últimos
dias, Serena voltou a dar seu sorriso de empolgação.
— Charlie, Calem, venham ver
isso! Vocês tem que ver isso! — ela gritava, subindo o morrinho até chegar aos
dois, que estavam sentados em silêncio. Assustaram-se ao ouvir o chamado,
porém, suspiraram mais que aliviados ao ver a menina saltitando de alegria —
Olhem, olhem!
Os três desceram e ficaram
observando as pessoas praticarem aquela curiosa atividade — a qual descobririam
alguns momentos depois que se chamava “patinar”. — de forma animada. Havia crianças
tentando andar em linha reta tanto quanto adultos que faziam acrobacias
complexas com os patins.
Serena, obviamente, permitiu que
seus olhos recuperassem o brilho ao se deparar com aquele exercício tão
diferente do que estava acostumada. Ao verem que a garota estava animada,
claramente ambos os rapazes quiseram estimulá-la a se divertir novamente, logo
agora que encontraram uma forma.
— Princesa, o que acha de tentar?
— sugeriu Charlie.
Serena estava prestes a concordar
com um sorriso, quando percebeu algo importante e decepcionante. Não tinham
patins, logo, era praticamente impossível que o fizessem. Antes que ela
deixasse sua cabeça baixar, Calem tocou-lhe no ombro.
— Eu dou um jeito nisso.
O rapaz puxou sua mochila e foi
de encontro a uma turma de garotos fazendo uma rodinha de patinação. Parou na
frente deles — quase foi atropelado, é claro, o que fê-lo ter um semi-ataque
cardíaco. — e perguntou se podia ter aqueles sapatos esquisitos. Recebendo uma
resposta negativa, não hesitou em tirar um bolo de notas de dinheiro e jogar no
meio da rodinha. Os jovens se amontoaram e encararam a absurda quantia e
começaram a gritar, eufóricos, tirando os patins sem qualquer resistência.
Calem pegou os patins — após
vestir suas luvas, é claro, porque nunca se sabe onde passaram os pés de
alguém—, e levou até Serena e Charlie, vendo a prima saltar no mesmo lugar com
empolgação. Charlie, por outro lado, o encarava com total surpresa e
reprovação.
— Você deu tudo aquilo de
dinheiro por três pares de patins?! ELES DISTRIBUEM DE GRAÇA EM LUMIOSE!
Calem parou um pouco para
refletir.
— Não culpe meus meios, Charles.
A menina, enquanto isso, já
vestira os sapatos com rodinhas. Quando tentou levantar, entretanto, deslizou o
suficiente para voltar ao chão com uma queda. O processo se repetiu algumas
vezes, até que Charlie decidisse ajudá-la a se levantar. Não ficando atrás,
também vestiu seu par de patins, e ambos tentaram se equilibrar juntos, à
medida que Calem limpava os seus antes de calçá-los.
Depois de algumas quedas, Charlie
conseguiu levantar-se, mesmo que precisasse se apoiar em uma barra de metal ao
lado. A loira aproveitou para permitir que ele a ajudasse, e ambos ficaram de
pé, segurando na barra.
— O que faremos agora? —
perguntou Charlie.
— Vamos pra frente! — respondeu
Serena, decidida.
O menino lhe diria que era uma
ideia com destino fixo a mais uma queda, porém, não estragaria aquele momento
de euforia de Serena, depois de imaginar que nunca mais a veria tendo mais um.
Concordou com a cabeça e ambos fizeram uma contagem regressiva. “3...2...1...”.
Os dois se impulsionaram, empurrando a barra, e foram na mesma direção. Em um
dos curtos instantes que conseguiram não cair, Serena chegou a pegar na mão de
Charlie, o que provavelmente foi o motivo pelo qual ambos tropeçaram juntos em
seguida.
Charlie foi ao chão primeiro,
enquanto a garota caiu sobre ele. Ele a segurou, e a ouviu dar risada. Que
risada gostosa. Àquela curta distância, conseguia sentir o cheiro dos cabelos
louros dela. Um cheiro doce e aconchegante. Suas mãos lisas tocavam-lhe os
braços de maneira singela e inocente. Ela levantou a cabeça, deixando-os a
curtos centímetros de distância, para que ele pudesse ver aquelas lindas
safiras em seu rosto. Os lábios não estavam tão longe. Será que conseguiria alcançá-los,
de lá?
Eles permaneceram ali. Serena não
sabia o que deveria fazer — e nem como fazer. —, mas algo dentro dela dizia-lhe
que alguma coisa precisava acontecer. Seriam as batidas fortes de seu coração
sincronizadas com o de Charlie? Ou então o arrepio que sentia enquanto ele a
segurava pelos braços com firmeza? Ou o olhar esverdeado do rapaz, que a
fitavam bem no fundo dos olhos?
— Limpos! — exclamou Calem,
aproximando-se deles com um par de patins nas mãos. — Finalmente, estão limpos!
Ambos levantaram em um pulo,
corados, enquanto Calem agia com completa normalidade. Talvez não os tivesse
visto, pois caso contrário, já estaria dando um chilique. Agora já conseguiam
ficar em pé sem tanta dificuldade, embora não estivessem exatamente acostumados
com a atividade.
— Acho que essa não deve ser sua
praia, Calem, exige bastante coordenação motora. — ponderou Charlie, vendo o
amigo vestir os patins.
Calem segurou em uma barra de
ferro para se levantar e elevou o corpo, ficando de pé um pouco trêmulo. Em seguida,
deu um impulso e fez uma trajetória retilínea, até virar uma pirueta no meio do
caminho e terminá-la de costas.
— Nossa família tem uma pista de
patinação no gelo, Charles. — disse Calem com um sorriso de vitória.
...
Serena ainda tinha um ar frio e assustado nos olhos. Ela trocava o foco do olhar constantemente, como se cada mínimo barulho que surgisse fosse alguém prestes a feri-la. Senti-me na obrigação de ficar ao seu lado, tentando transmitir o pouco de segurança que eu realmente não tinha. Estávamos sentados no topo de um morro. A pista de patinação estava um tanto distante, e os majestosos portões de entrada para Lumiose pareciam ainda menores. Por trás deles, os prédios altos e a linda e enorme Torre Prisma.
Larvitar
treinava atacando um rochedo. Desde os acontecimentos anteriores — pobre
Pokémon atropelado — não conseguia me sentir tão mais amedrontado para com ele,
ou qualquer outra criatura não-humana. Era estranho, porque eu deveria ter
sentido ainda mais repulsa. Mas não, eu queria protegê-lo.

Charlie apreciava a brisa um
tanto gélida, até que a curiosa sensação de estar sendo observado chamasse mais
a atenção. Virou-se discretamente, até se deparar com uma criatura felpuda e
cinzenta, com olhos enormes, a poucos centímetros de distância de si, o fitando
com seriedade.
— Princesa, você precisa fazer
esse bicho parar com essas coisas. — disse o garoto, após soltar um grito de
susto.
— Mary, o que eu falei sobre
assustar os outros? — disse a menina,
puxando o Pokémon para perto de si, que permanecia com a mesma expressão
estática de sempre.
— Acho que
ela se cortou, coitadinha, os pelos estão meio manchados de sangue. — observou
Calem.
Os três
Pokémons de Charlie estavam soltos, parados em um canto, um tanto isolados. O
rapaz ficou a fitá-los, um tanto perdido em seus pensamentos.
— Eu achei
que tinha perdido eles. — comentou Charlie, baixo. — Eles não eram exatamente
meus, mas… Vocês entendem?
— Na verdade
não. — comentou Calem, sendo repreendido por Serena com uma cotovelada.
— Esses
Pokémons sabem o que é viver nas ruas de Lumiose tanto quanto eu. — ele ignorou
o comentário anterior. — É uma longa história… Que bom que os encontrei
novamente.
Serena baixou o olhar, focando em
seu Pokémon.
— Você pode contar para a gente,
se quiser…
Ele a olhou, sem reciprocidade.
Não era do tipo que contava histórias do seu passado, especialmente em uma
época tão inoportuna como aquela. Calem o olhou de lado discretamente, dando a
entender que ele não aprovava a ideia. O moço então apenas ficou em silêncio,
de forma que o som ambiente era apenas a única coisa que ouviam.
— Serena, vamos fazer uma batalha. — disse
Calem, por fim.
A menina finalmente levantou o
olhar, um tanto assustada. Seu primo fico de pé, confiante. Aparentemente
Larvitar ouvira a sugestão, e parou um pouco o que estava fazendo. Entretanto,
Calem puxou uma outra Pokébola do bolso.
— Vamos lá, faz tempo que isso
não acontece. E eu preciso estar pronto para o próximo ginásio, não é?
Ela concordou, com um sorriso
pequeno. Soltou Flabébé e se colocou de pé, para que ambos caminhassem até
certa distância do garoto. Charlie ajeitou-se em seu lugar e colocou as mãos em
volta da boca, em uma concha, como se tentasse amplificar o som de sua voz:
— E agora está prestes a dar
início uma das batalhas mais aguardadas de todos os tempos… — gritou, vendo os
dois primos o encararem. — De um lado, — apontou para a menina — a garota de
Kalos mais bonita, mais inteligente, mais doce, mais…
— Vamos logo com isso, Romeu. —
interrompeu-o Calem.
— E do outro, o maior
estraga-prazeres mau-humorado de Kalos. — falou sem qualquer entonação.
Serena deu o comando para Flabébé,
que avançou um pouco, pronto para a batalha. Calem puxou novamente a Pokébola
do bolso e a lançou para a frente desengonçadamente, fazendo, após o envoltório
de luzes brancas, uma criatura vermelha com formato písceo e detalhes dourados
em si.
O Magikarp instantaneamente caiu
no chão e começou a se debater. Charlie e Serena se entreolharam.
— Vamos, peixe, eu sei que você
consegue! — incentivou Calem.
Charlie suspirou.
— A criatura passa a vida inteira
estudando pra depois achar que um peixe vai nadar em terra firme. — comentou,
baixinho.
Calem, sem ouvir, encheu o peito
de confiança, estendendo sua mão ao comandar:
— Peixe, Splash!
O Magikarp começou a se debater
ainda com mais intensidade, quase saltando do solo. O movimento, que mais
parecia uma dança, não chegou a atingir o adversário, de forma que a menina
ficasse intrigada.
— Isso foi um ataque…? — indagou
ela.
— Não sei, mas eu adorei quando
descobri que ele faz isso! — exclamou o garoto.
Charlie começou a gargalhar alto.
— De que está rindo, Charles?
— De nada, desculpe. — falou,
limpando as lágrimas. — Continue, está no caminho certo para ser um mestre
Pokémon.
Calem virou o rosto, sem se
importar com o comentário. Serena agora era quem comandava seu Pokémon,
confiante:
—
Use o Vine Whip, Flabébé!
O Pokémon fechou os olhos e
concentrou sua energia no solo, fazendo vinhas finas se levantarem e golpearem
o peixe. Fadas eram conhecidas por sua harmonia com a natureza, logo, ataques
do tipo Grass eram comuns,
especialmente para aquela espécie.
Os chicotes, apesar de finos,
fizeram grande dano em Magikarp, que apenas repetiu o ataque anterior, voltando
a se debater. Flabébé, por sua vez, também repetiu o golpe, causando graves
danos e derrotando o Pokémon de Calem. Charlie levantou uma mão para o lado de Serena.
— A vencedora é a princesa
Serena! — anunciou.
Calem fechou a cara por um
momento, mas logo amaciou, percebendo que pelo menos sua prima havia ficado
mais contente após a curta batalha. Cada vez mais percebia que o plano de se tornar um treinador bem
sucedido estava realmente distante. Era como se algo tão simples ao mesmo tempo
fosse imprevisível. Isso, apesar de um pouco deprimente, o incentivava.
A garota ajoelhou, estendendo as
mãos. O pequeno Pokémon flutuou até ela, parando entre as mãos abertas, um
tanto tímido. Desde sua captura, Serena havia conquistado mais sua confiança,
apesar de ainda ser um pouco incerto com relação às pessoas.
— Você fez um ótimo trabalho em
nossa primeira batalha juntos, obrigada. — e sorriu.
O Pokémon permaneceu a observando.
Assim como os demais de seu tipo, também era fortemente ligado às emoções, e
provavelmente conseguia ver como a menina se sentia. Com esse pensamento em
mente, Serena o fez retornar para a Pokébola.
— Você foi muito bem. — disse
Calem, aproximando-se da menina. — Para uma não-treinadora, digo.
A menina sorriu.
— E você não foi muito bem. —
respondeu ela, rindo. — Para um treinador, digo.
...
Conforme a tarde passava, o trio e os Pokémons de Charlie começaram a se aproximar da próxima cidade. Sentiram um alívio, de certa forma, ao descobrirem que Camphrier Town era uma cidade histórica, um pequeno conjunto de vilarejos, portanto completamente diferente da agitação de Lumiose. Ao fim da rota conseguiriam alcançar a entrada.
Apesar de algumas cidades de
Kalos acompanharem os avanços tecnológicos, outras eram preservadas ao máximo,
uma vez que o continente possuía grande parte da história do mundo Pokémon.
Camphrier era um exemplo. Era envolta por um muro alto, uma vez que em épocas
passadas, onde a guerra predominava, eram importantes para proteger cidades
contra invasões.
Serena, como de costume, ficou
alguns momentos ponderando a imagem da bela cidadezinha. Calem também se
interessava, pois sabia a importância histórica daquele lugar. Mesmo Charlie parecia
mais contente por fugir um pouco dos problemas da cidade grande.
— Vamos logo fazer nossas
reservas no Centro Pokémon. — avisou Charlie, olhando para baixo para conferir
se seus três Pokémons ainda o acompanhavam. — Aqui ele é pequeno, os quartos podem
acabar logo.
Antes que dessem mais um passo,
Calem gritou:
— ESPEREM AÍ!
O garoto ficou encarando um mapa
que jazia em sua mão, tremendo. Seus olhos pareciam começar a lacrimejar,
enquanto os joelhos abaixavam, quase tocando o chão (Ao lembrar que o chão era
sujo, Calem levantou novamente). Ficou com o dedo fixo em um ponto, tentando
conseguir vencer a vontade de chorar para falar.
— Cal, o que aconteceu? Você está
me assustando!— perguntou ela, indo olhar, vendo que o primo sequer conseguia
pronunciar qualquer palavra. Ao olhar para onde ele apontava no mapa, leu: —
“Hotel Camphrier”.
— Chega de dormir em camas de
hospital que todas as crianças do mundo dormem. Chega de dormir em chalés
velhos. Chega de dormir no mato. — ele falava, tremendo. — EU VOU DORMIR NUMA
CAMA RECÉM-ARRUMADA HOJE MESMO!
Antes que pudessem falar qualquer
coisa, Calem começou a correr como nunca na vida.
Serena abriu a porta do quarto,
discretamente. Quando abriu, encontrou novamente a visão do quarto de hotel que
vira alguns momentos antes. Um visual higiênico e ao mesmo tempo aconchegante —
tudo o que Calem mais desejaria. Tinha em seus braços Espurr, e uma sacolinha
presa em uma das mãos.
— Onde está o Calem? — indagou,
um pouco ofegante.
— Tomando banho. Ainda. — respondeu Charlie.
O rapaz até então estava sentado
na cama, mas se levantou para ficar mais próximo da menina. Antes que ele
chegasse mais perto, ela deu um passo involuntário para trás. Ficaram um
momento em silêncio e ela, percebendo o que fez, deu um passo para a frente
mais uma vez.
— Fiquei preocupado que você saiu
sozinha.
— Não tem problema, eu fui
correndo. — ela sorriu, respirando ainda ofegantemente. — E a Mary estava
comigo.
Ela colocou a Espurr no chão por
um momento, e pegou a sacolinha.
— Eu estava precisando de alguns
suprimentos. — puxou duas Pokébolas comuns e as entregou para Charlie. — E
comprei isso pra você.
Ele ficou observando as esferas,
desconfiado.
— Você comentou que não capturou
exatamente a Litleo e o Skiddo. Agora você não precisa mais carregar eles, pode
levar na Pokébola. — ela sorriu, inocentemente. — Só não comprei uma para o
Thanos porque ele não gosta da ideia de morar em uma, segundo você.
Charlie pegou as Pokébolas e as ficou as observando por um momento mais longo que gostaria.
Tinha medo de encarar de volta os olhos de Serena, mas o fez, e viu o que imaginou que veria: O olhar inocente e compassivo da menina. Ela não estava brava, afinal. Os mil cacos em que se despedaçou puderam ser unidos, pelo menos dessa vez.
— Não posso aceitar. — respondeu.
— E me desculpe por…
Ela tocou o lábio do garoto com o
indicador, o interrompendo.
— Esqueça isso. — falou. — E
aceite o presente.
Ele pegou as Pokébolas, sem saber
ao certo como agradecer.
— Um dia eu vou retribuir. —
falou. — Por tudo.
Ela sorriu, contente.
— Eu sei.
Nesse momento, Calem abriu a
porta do banheiro, envolto por um roupão branco tão espesso que o fazia parecer
um Beartic. Estava com uma expressão de total satisfação, o que já fazia algum
tempo que não acontecia. De dentro do banheiro saiu uma espessa camada de vapor
que enevoou o quarto inteiro.
— Que droga, não tenho nenhum
Pokémon com Defog. — resmungou
ironicamente Charlie.
— Após um duro pedaço de jornada,
finalmente poderei me restabelecer em um lugar próximo de uma casa decente,
com… — ele parou de falar ao notar os Pokémons de Charlie deitados na cama onde
ele dormiria. — O QUE ESSES COISOS EMPULGADOS ESTÃO FAZENDO NA MINHA CAMA?
Charlie colocou as mãos na
cabeça.
— Calem, foi mal, dessa vez não
foi por querer. — ele desculpou-se, usando as novas Pokébolas para fazer os
Pokémons saírem de lá. Thanos desceu da cama sozinho.
O garoto se aproximou da cama,
vendo uma mancha preta de sujeira onde cada um dos Pokémons havia se deitado.
— Eu não acredito! Vou ter que
dormir em uma cadeira forrada de novo! — praguejou ele.
Charlie começou a puxar as
cobertas sujas.
— É só a gente mandar lavar e…
Naquele momento levou um golpe
que o derrubou, sem sequer ver de onde tinha sido atingido. Quando se virou,
percebeu a assustadora figura de um Calem de roupão com um pé sobre ele, e um
travesseiro em mãos, como uma arma.
— Ahh, Charles, você sempre sendo
um empecilho na minha vida. Eu já falei o quanto eu o odeio?
— Eca, você não está usando nada
por baixo do roupão. — disse ele, tapando os olhos.
Calem tirou a perna de cima de
Charlie, envergonhado, em seguida o golpeando novamente com o travesseiro.
Serena tampava a boca evitando rir da cena.
— E você está rindo do quê,
menina? Você sabe que é tudo culpa sua eu estar aqui, né? Eu te odeio também,
vem aqui levar traveseirada! — resmungou ele, tentando acertar a menina com o
travesseiro, levando agora um ataque de Charlie. — Ei, não vale me acertar, eu
tenho alergia.
Charlie e Serena riram, cada um
com um travesseiro em mãos, tentando se acertar. Após alguns minutos de briga,
os dois caíram na cama, e Serena os prensou com seu travesseiro, tentando fazer
força. Ela gargalhava, como não fizera nos últimos tempos. Uma risada
maravilhosa e espontânea, e olhos tão brilhantes como os de uma criança em sua
primeira guerra de travesseiros.
Calem e Charlie se entreolharam,
sorrindo, como quem cumprira uma missão.
— Uma pena que você me odeia, —
disse ela. — porque eu amo vocês!
Notas do Autor - Royal Emperium #1

Já faz quase um ano desde que aguardamos o lançamento desse especial. Isso se não considerarmos todo o período em que montar uma guilda esteve em mente, mas não pude realizar. Mas, com muita paciência, chegamos ao primeiro passo para iniciar esse projeto.
As guildas tiveram início com os Fire Tales, de Sinnoh, inspirado no anime famoso Fairy Tail. O que começou com uma descontraída conversa entre Pokémons tomou imensas proporções, de forma que fossem as maiores estrelas nos momentos finais da fanfic. A ideia de levar as guildas Pokémon para outras regiões da Aliança já esteve presente, e aconteceu. Desde aquele tempo eu já buscava manter a ideia de construir uma, mas tive que aguardar um bom tempo, já que nem sabíamos direito quais Pokémons seriam da 6ª Geração.
Porém, agora, estamos no momento perfeito para começar esse novo especial. Lá para o capítulo 6 ou 7 tivémos uma pequena pontinha de Pokémon P.O.V, que foi suficiente para atacar a ansiedade. Nela, Neal, Mary um rival apareceram com pouquíssimas falas, mas já era possível ter uma ideia de como eles seriam. Agora, temos um total de 7 Pokémons. Fui aos poucos trazendo os Gijinkas e um pouco de cada um, para que se tivesse uma ideia de como eram. Agora vem a prática.
E como eles influenciarão a fanfic? Vamos ter mais Pokémon P.O.V? É difícil dizer agora. Quero que tanto a história central quanto a RE se interliguem, mas por enquanto prefiro que cada um mantenha-se independente. Cada um possui sua trama, embora o objetivo seja igual. Quero que pensem na RE como algo para descontrair, uma diversão sem postagem certa. Pode chegar em qualquer dia da semana, em qualquer época.
Agora falemos sobre o capítulo em si! Eu estava um pouco incerto sobre a postagem, mas pude contar com uma leitura prévia do Canas, que me deu segurança para trazê-lo ao público. Estive um bom tempo sem escrever de verdade, e para ser sincero estava enferrujando ~rs.
É possível perceber que os Pokémons distribuem-se em grupos. Não fui eu quem escolheu, foram eles. De certa forma é como se as próprias personalidades e atitudes ganhassem vida, e eu apenas narrasse tudo, escondido em uma moita ~rs Atentem-se aos pequenos detalhes do capítulo. Acreditem, cada detalhe, cada frase pode trazer algo importante. Adoro esconder algumas surpresinhas no meio, que podem ser importantes futuramente.
Deixarei para que vocês descubram ou percebam o que pode ser importante ou não. Àqueles que quiserem deixar um comentário, ficarei extremamente feliz em saber o que acharam, quais Pokémons parecem mais interessantes, e o que aguardam nos próximos capítulos.
Como o Neal disse, esse é o primeiro passo!
Royal Emperium #1
Capítulo 1
Em Obras
— Theodore! — a voz ecoou pelo imenso campo vazio.
Eis que um sujeito
baixo e gordinho começou a correr, atrapalhado, na direção onde o som fora
proferido. Após tropeçar nas próprias pernas três vezes, ele finalmente chegou
e se posicionou, batendo continência, enquanto mantinha uma expressão séria. À
sua frente estava Neal sentado em uma mesinha, com Mary ao lado.
— Sim senhor, senhor.
— falou o Magikarp.
O Larvitar fechou os
olhos e aguardou alguns instantes antes de começar a falar. Sua voz, mesmo ele
sendo jovem, era grossa, áspera. Como uma rocha se partindo em pedacinhos.
— Como deve ter
percebido, estamos passando por algumas pequenas mudanças. — disse. Antes que
pudesse continuar a falar, ouviu uma resposta:
— Mudanças…? Mas que
tipo de… — o Magikarp se virou e olhou ao redor, soltando um grito de surpresa.
— SANTO KYOGRE, O QUE VOCÊS FIZERAM COM ESSE LUGAR?
Theodore, distraído
acima de tudo, não havia parado para reparar ao seu redor antes. Um conjunto de
Pokémons lutadores e do tipo rocha trabalhavam em conjunto em uma obra,
construindo algo. Algo grande. Algo grande o suficiente para que fosse
impossível alguém não perceber. Theodore, no entanto, era sempre uma exceção à
regra.
— Caso não tenha
percebido, há alguns dias essa “mudança” está acontecendo. — falou Neal com
toda a calma e firmeza que já lhe era costumeira. — Estamos construindo uma
guilda.
O Magikarp soltou um
grito exasperado e choroso, enquanto se perguntava “o que vocês fizeram com
esse lugar?”, e alternava entre movimentos desajeitados, como um peixe fora
d’água. Quando se deu conta, parou para refletir um instante e perguntar:
— O que é uma guilda?
Mary se levantou da
cadeira.
— Como assim, Theo,
você não sabe o que é uma guilda? — perguntou a menina, colocando as mãozinhas na
cintura. — Aliás, o que é uma guilda, Neal?
O Larvitar respirou
fundo uma vez antes de perder a calma. Se levantou calmamente da cadeira.
Estava tudo calmo. Por que perderia a calma? Começou a narrar algo, como se
contasse uma história. Uma antiga história que perdurara por anos, contada de
geração a geração.
“Nos
primórdios de Kalos, guerras entre grupos de diferentes ideais já ocorriam.
Como resultado de uma delas, aliás, que a famosa arma de destruição foi
inventada. Não que isso venha ao caso agora. Enfim, essas guerras eram lutadas
por exércitos, exércitos que formavam guildas.
As
guildas eram compostas por guerreiros com diferentes funções. Aos poucos,
conforme o diálogo tornou-se mais importante, as batalhas foram consideradas
apenas entretenimentos. Não que isso as fizesse serem menos sangrentas, é
claro, mas tornaram-se menores.
Como
reconhecimento das difíceis batalhas enfrentadas no passado, batalhas continuam
ocorrendo em arenas especializadas, conhecidas como ginásios. A vitória nos
ginásios, leva ao Torneio das Guildas, onde as mais poderosas se enfrentam em
busca de um prêmio: Lutar contra a Elite 4.
Conhecida
como uma das guerras mais duras que se enfrenta hoje, as guerras contra a Elite
4 permitem que o desafiante, caso ultrapasse as 4 Casas, enfrente A Campeã, com
o exército mais poderoso conhecido em Kalos.
—Uaaaaaau. — disseram
os dois em uníssono.
Neal assentiu,
orgulhoso.
— Só não entendi uma
coisa. — disse Theodore. — Por que então vamos criar uma guilda?
(Em
respeito aos leitores e à elegância, a cena foi cortada).
...
— O.K. — ponderou o
Magikarp . — Por que eu tenho que
fazer isso? Sou apenas o Bobo da Corte.
Neal o encarou com
seus olhos rígidos.
— Eu, como sou o
membro mais poderoso e de mais conhecimento, é claro, serei o Guildmaster. —
falou, cerrando um dos punhos. — A Mary, como minha protegida, é a segunda no
comando. — ele olhou para a menina, que deu um sorrisinho meigo. — E você, pode
ser o terceiro. Pelo menos até que eu arranje alguém melhor.
Theodore suspirou.
— Certo. Então eu
devo recrutar os outros membros para nossa guilda. — falou ele. — Mas e se eles
não aceitarem?
Mary se prontificou.
— Eu vou com você, Theo!
— saltitou em direção a ele. — Eu sei ser convincente, acredite! — e deu uma
risadinha.
Os dois foram juntos
procurar os demais membros, que, na realidade, conheciam apenas de vista. O
grupo de Pokémons estava sempre distribuído, dificilmente se misturavam.
Talvez, com a construção de uma guilda, aquilo viesse a mudar. A Espurr ia
saltitando na frente, enquanto o Magikarp ofegava para tentar alcançá-la na
corrida.
Após chegarem a uma
área florida daquele campo aberto, ela sabia que encontraria alguém lá. Chamou
por ele, até vê-lo saindo do meio das flores, tão pequeno que facilmente
conseguia se esconder naquele lugar. Theodore teve certa dificuldade de deduzir
se era um menino ou uma menina a princípio, até ver Mary conversando com o ser.
— Eryx, precisamos
falar com você sobre algo importante! — falou ela.
O Flabébé cheirou uma
das flores, tranquilamente, e em seguida olhou para a amiga, animado.
— Pode falar, Mary! —
como uma criança, sua voz era frágil.
Theodore ficou
encarando o pequeno sujeito enquanto Mary o explicava todas as informações que
Neal havia dado. Após observar uma flor curiosa que jazia em sua mão, o
Magikarp percebeu que era um guerreiro do tipo fada, um raro tipo que até determinado
tempo só havia sido visto na região de Kalos. Normalmente a raça dos Flabébés
era formada apenas por mulheres, o que chamou sua atenção ao ver o rapazinho.
Ele decidiu se
aproximar um pouco. Acenou quando Eryx o olhou, e recebeu um tímido aceno em
resposta. Mary tentava convencê-lo, com sua voz aveludada e doce, e ele apenas
concordava.
— Eu não sei, Mary. —
disse, tímido. — Fadas prezam o bem de todos… Eu não gosto de brigas.
— Por que não, Eryx?
Brigas tem mortes, e mortes são… Legais… — ela falou, vendo o pequeno arregalar
os olhos. — O que foi? Estou brincando, oras. — deu-lhe um tapinha na cabeça. —
Você pode ser, não sei, responsável pela… Floricultura?
— Mary — chamou
Theodore — por que diabos uma base de exército precisa de uma floricultura?
Ela o repreendeu com
o olhar. Mary sempre conseguia repreender as pessoas com aqueles olhos púrpuros
enormes, por algum motivo.
— Eu estou tentando
ser criativa aqui, Theo.
— Desculpe.
— Você só precisa
participar, arranjaremos alguma coisa pra você contribuir sem ter que machucar
os outros. — ela garantiu.
O pequeno assentiu,
um tanto relutante.
— O.K.
— Pronto, missão
cumprida. — anunciou Theo, aliviado. — Ainda bem que nossos senhores tem poucos
Pokémons. Agora podemos voltar e…
— Ainda faltam três
membros. — repreendeu Espurr, pensativa.
O Magikarp parou de
andar e encarou a pequena de olhos púrpuros. Em seguida, soltou uma gargalhada
cínica que até o fez lacrimejar.
— Você não está falando
daqueles três, Maryzinha, meu amor.
Eu sei que não está.
Ela o acompanhou com
as risadas.
— Estou sim, bobinho.
— e fez uma pausa, o encarando seriamente com um tom assustador. — Agora anda.
...
Distante o
suficiente, onde a sombra da construção que estava sendo feita tampava o sol
que chegaria a um pequeno casebre, ouvia-se murmúrios dentro da construção
simples de madeira, que praticamente caía aos pedaços. Era um cubículo.
Theodore e Mary caminharam até ele. O Magikarp ainda um tanto relutante,
virou-se para a Espurr:
— Podemos ir embora,
ninguém saberia
— Theo, quando um
Guildmaster dá uma missão, você precisa cumpri-la! — alertou-o Mary.
Ele respirou fundo.
— Por que sempre fico
com as piores tarefas?
O rapaz esticou e,
após alguns longos instantes ouvindo seu próprio coração bater, resolveu dar
alguns soquinhos na porta. Assim que o fez, rápido como um raio, escondeu-se
atrás da garota, que sequer se moveu. Da porta, um pequeno retângulo se abriu,
revelando um par de olhos verdes como safiras, mas cruéis como um redemoinho no
oceano. Eles foram acompanhados por uma voz doce:
— O que querem aqui?
— ou quase doce.
Silêncio.
— Eu perguntei o que
vocês querem.
— Ah, nada, foi um
engano. Pensei que aqui fosse o Centro Pokémon, desculpa. — falou Theodore,
preparando-se para correr, mas tropeçando em seus próprios pés e caindo no chão
antes.
— Temos um convite
irrecusável pra vocês! — falou a menina com empolgação.
O retângulo foi
colocado novamente a porta, tampando os olhos que antes podiam ser vistos.
Alguns momentos depois, sons como de vários cadeados se abrindo ecoaram e a
porta se abriu. Alguns pares de mãos os
puxaram para dentro.
O lugar era tão
feioso quanto aparentava ser por fora. Era ainda menor por dentro. Se é que era
possível juntar sala de estar com cozinha e com quartos, essa era definição
perfeita do casebre desgastado. Três pessoas curiosas encaravam os dois jovens,
suficientes para intimidar Theodore.
Um rapaz alto e
barbado os encarava, ao lado de um jovem — o mais baixo entre os três. — mal
encarado vestido com roupas primordialmente enegrecidas, que estava no centro.
De seu outro lado, a moça dona dos olhos e da voz anteriores tinha os braços
cruzados. O mais chamativo eram seus cabelos vermelhos, que pareciam chamas no
topo da cabeça. Ela parecia cruel.
Mary continuava
sentada com uma expressão séria, como se nada tivesse acontecido, enquanto o
Magikarp tremia o suficiente pelos dois. O fato de aparentar estar intimidado
parecia agradar aos três que o encaravam. A ruiva olhou para eles e disse:
— Estou esperando.
O Magikarp fez uma
expressão de quem não havia entendido.
— A proposta.
Mary se levantou
repentinamente, animada, assustando os três, que se colocaram em posição de
luta. Ela, sem perceber, começou a falar:
— Estamos montando
uma guilda, e como são os Pokémons do senhor Charlie, gostaríamos muito que
entrassem.
— Não estamos
interessados. — disse a moça, a Litleo, de cara.
— Você nem sabe o que
é isso, Gwen. — argumentou o garoto mais alto, o Skiddo.
— Cala a boca, Mason.
— disse a menina. — Seja lá o que vocês estejam tramando, não nos interessa. Só
porque nossos treinadores resolveram fazer um “grupinho” e sair em uma
“jornada”, não significa que temos que ser amigos.
O silêncio perdurou
por alguns momentos, preenchidos apenas por olhares duvidosos, até que Theodore
o quebrasse:
— Boooom, o convite
está feito, não queremos atrapalhar vocês, não se esqueçam de ir qualquer dia
tomar um suco de Oran Berry, sim? —
disse, puxando a menina, que não se moveu. — Vamos indo nessa.
Mary não saiu do
lugar.
— Neal disse para
convencermos eles a insegrar na
guilda, eu vou fazer isso.
— É “ingressar”. —
corrigiu, aos sussurros. — E eles não estão a fim, não percebeu?
Nesse momento, o ouro
rapaz, que ainda não havia se pronunciado — o Pancham de Charlie — avançou em
direção à menina. Aproximou seu rosto e a encarou. Ela se deparou com aqueles
olhos enegrecidos, com olheiras marcantes que indicavam que este provavelmente
não tinha boas noites de sono há tempos.
— Não queremos entrar
para o grupinho de vocês. — falou, seco. — Agora dêem o fora.
Theodore, sem
aguardar, saiu correndo levando Mary para longe, antes que fosse tarde demais.
A garota provavelmente retrucaria, e ele não queria ver como isso ia acabar.
...
— Nós fizemos o
possível, senhor, mas não deu… Eles foram muito cruéis, muito. — dizia
Theodore, sentado em uma cadeira, com um copo de água com açúcar na mão.
— Tudo bem, Theo, já
passou, já passou. — consolava Mary.
Neal, de braços
cruzados, apenas ouvia. Já estava um pouco acostumado com seu companheiro
Magikarp, e de fato não sabia o que esperar do recluso outro grupo de Pokémons.
Talvez não fossem um acréscimo grande à guilda.
Sem dizer nada, foi
andando até uma pequena casinha com beliches. Enquanto a guilda de fato era
construída, e ninguém tinha seus quartos ainda, todos ficavam em um mesmo
dormitório. Talvez um pouco incômodo, mas sabiam que era temporário.
O rapaz deixou por um
momento parte da armadura e subiu em sua cama do beliche, deitando-se. Seus
pertences também estavam lá, em um pequeno saco. Puxou de dentro um amontoado
de papéis que havia recolhido de manhã, de um Fletchling carteiro. Era um
jornal.
O garoto puxou a
folha e a amassou, atirando para longe. Em
breve a minha guilda vai estar na página principal. Era o pensamento que
tomava sua mente. Faria o que fosse preciso, e sabia que não seria pouca coisa.
Não seria mesmo. Em conjunto com os melhores integrantes, construiria o
verdadeiro império da nova geração. Chegaria ao topo, e seria o melhor.
Topo. O melhor.
Puxou uma outra folha
dos pertences, essa também um pouco amassada, ainda mais por ser fina. Nela, a
foto de um vigoroso Garchomp. Um pôster, que Neal provavelmente apenas
aguardava a oportunidade para pendurar novamente. Embaixo, a palavra “Lenda”
estava gravada com letras douradas.
— Um dia chegarei ao
seu nível. — sussurrou para a foto.
Fora interrompido por
Theodore, que adentrava o dormitório correndo. No susto, Neal guardou novamente
o pôster.
— Você está bem,
senhor? — perguntou o Magikarp.
— Estou bem. E você?
— indagou de volta.
— Estou melhor, sim.
— respondeu ele, sorrindo.
— Hm, que bom. —
disse Neal, fazendo uma pausa. — ENTÃO POR QUE ESTÁ AQUI PARADO? Temos um monte
de coisas pra fazer antes que escureça. Vamos! — falou.
— Ai, como o senhor é
rude às vezes. — comentou o Magikarp, voltando ao trabalho.
...
Já estava escuro, e o
trio continuava colocando a conversa em dia. Ainda que fossem de poucas
palavras com outrem, entre eles mesmos eram comunicativos. Desde seu convívio
afastado em Lumiose, não haviam se visto mais. Agora, o destino os havia unido
novamente nas mãos da única pessoa que mais poderiam considerar um treinador, e
finalmente chamá-lo de “mestre”.
— … Claro que no dia
antes eu já tinha encontrado a Gwen. Ela estava me perseguindo, provavelmente,
porque você sabe que ela não resiste aos meus charmes. — contava Austin.
— O quê? Você que me
encontrou, idiota. — falou ela, semicerrando o olhar.
O Skiddo riu.
— Ah, sim, verdade.
Errei nos detalhes. Mas ei, você está muito estressada! — comentou. — Quer uma
ajuda para desestressar? Soube que massagens são ótimas para isso.
Um repentino chute
atingiu seu rosto, antes que pudesse prever a reação da garota. Thanos esboçou
um ligeiro riso. Não importava quanto tempo passasse, seus amigos eram os
mesmos de sempre. O Skiddo levantou-se, com a mão no local atingido.
— Não vai me dizer
que doeu, porque foi fraco. — disse a Litleo, com um pequeno sorriso.
— Tá louca, menina?
Depois dessa vou até tomar um ar lá fora.
Ainda que com algumas
brincadeiras, o rapaz abriu a porta da cabana e saiu. Uma brisa fresca da noite
resfriou sua pele e balançou ligeiramente seus cabelos. Aquele lugar que haviam
escolhido era silencioso, e àquela hora as construções dos outros Pokémons
estavam bem menos intensas. Foi quando algo quebrou o silêncio:
— As fronteiras de
Lumiose City… Não são um local muito seguro para Pokémons indefesos ficarem,
sabia?
Austin virou-se assustado
para a direção de onde ouvira a voz, e se deparou com um homem sentado sobre o
teto da cabana. Não parecia muito preocupado, sentado de uma forma despojada.
Após alguns momentos saltou e chegou ao chão de uma forma simples, como quem
não fizera grande esforço.
Austin ainda estava
um pouco em choque com o susto quando parou para observar melhor aquela figura.
Estava encapuzado, o que impossibilitava que se visse seu rosto exatamente.
Apenas tinha seus olhos à mostra, nos furos do capuz: um par de orbes
azul-escuros, como o céu noturno. Apesar disso era alto e forte, o que o
deixava um tanto ameaçador.
— Você é o…? —
apontou Austin.
— Onde está o meu
amiguinho? — interrompeu-o. — Tenho certeza que ele iria ficar feliz em me
rever.
Naquele momento Gwen
gritou de dentro:
— Com quem você ta
falando, Mason?
— C-Com ninguém,
estou falando sozinho. — gritou ele de volta, inseguro. — Olha, sugiro que você
vá embora daqui antes que eu meta minha mão na sua cara.
O par de olhos
semicerrou-se, e provavelmente por dentro de seu capuz formara-se um sorriso.
— Proposta tentadora.
— falou, aproximando-se alguns passos. Mason inevitavelmente recuou alguns para
trás. — Mas não, obrigado.
Ao proferir as
palavras, estendeu sua mão direita na direção de Austin. O rapaz, antes que
pudesse reagir, conseguiu ouvir apenas um disparo de energia em sua direção,
forte o suficiente para atirá-lo contra as paredes frágeis do casebre, abrindo
um buraco e praticamente derrubando toda a deplorável instalação.
— MASON! — gritaram
Gwen e Thanos, assustados.
— Rapaz, eu saio pra
tomar um ar, e tomo é uma surra. — resmungou Austin, colocando a mão no rosto.
Tremia. — Que mundo é esse?
Todos pararam para
observar aquele que disparara o raio. Thanos, por um instante, perdeu seu olhar
mal-encarado. Ficou estático, enquanto observava a figura encapuzada, que
alongava o pescoço, enquanto seus olhos também o fitavam de volta em tom
debochante.
— V-você? — indagou,
um pouco mais baixo do que gostaria.
O homem começou a
rodeá-lo. Ele permaneceu parado, apenas movendo os olhos, tentando não
transparecer o quanto estava nervoso. Talvez tivesse sido inútil, pois engolira
em seco quando ouviu a voz novamente do moço:
— Soube que você
causou algumas intrigas em Lumiose, e resolvi tirar a limpo, velho amigo. —
disse, enfatizando as últimas palavras com certo humor. — Afinal, já faz um
certo tempo.
Cerca de cinco
segundos de profundo silêncio rondaram o ambiente, enquanto todos permaneceram
imóveis, como se alguém tivesse apenas pausado a cena. No instante seguinte, de
forma repentina, Thanos desferiu um rápido soco, que teria facilmente acertado
outros adversários, mas para seu azar, o homem desviou.
Sucederam socos e
chutes trocados, quase no mesmo nível. O inimigo, entretanto, apenas brincava
com Thanos, que dava o seu melhor diante das condições. Algumas palavras
atravessavam o combate, sempre em diálogos breves e interrompidos
— Eu achei que você
estivesse…
— Achou errado. —
disse, interrompendo o Pancham.
Gwen ajudava Austin a
se levantar, enquanto observavam atentos o combate. Até então não haviam se
envolvido, mas notaram um chute certeiro que fora desferido na lateral do rosto
de Thanos, fazendo o rapaz cair. O outro prendeu-o por cima e continuou
acertando sua face com socos, quando Gwen avançou para tirá-lo de lá.
Após alguns empurrões
falhos, a garota conseguiu apenas concentrar energia para gritar:
— Vá. Embora. —
porém, ao proferir as palavras, o grito saiu bem mais agudo e baixo que
planejava.
O objetivo,
entretanto, fora quase atingido, pois ambos pararam de brigar. O homem
encapuzado levantou-se, rindo.
— O que foi isso? Um
“rugido”? — questionou, humilhando-a.
A Litleo baixou o
olhar, enquanto seus punhos se fechavam. Antes de qualquer ataque, o rapaz
virou-se para o Pancham, com um olhar autoconfiante.
— Foi bom ver você
novamente, Thanos. Espero que saiba que da próxima vez não será assim tão
agradável.
E com grande
agilidade desapareceu nas sombras da noite, e nenhum dos três tentou impedi-lo.
Um enorme silêncio permaneceu por alguns momentos, enquanto Austin agora
auxiliava Thanos a se levantar. Gwen lançou um chute com força para uma das
tábuas que faziam parte da cabana, quebrando-a no meio.
— Por que o estresse,
gatinha? Só porque seu rugido é meio tosco e ele riu de você? — indagou o
Skiddo.
Agora Austin que era
o alvo do chute, mas não ficara bravo. Até riu discretamente. Ele levantou-se,
parando para observar a bagunça que havia ficado. A cabana onde estavam antes
estava destruída, e era praticamente impossível remontá-la.
— O que vamos fazer
agora? — perguntou.
— Vamos dormir no
chão. — disse Gwen, certa.
Mason ponderou por
alguns instantes até virar-se para eles:
— Por que não vamos
morar com os outros Pokémons?
Silêncio.
— Você não ta falando
sério, né? — perguntou a Litleo.
— Qual o problema?
Ela riu, um tanto
inconformada.
— Você pirou?
— Gwen, eles estão
construindo um castelo. — falou o rapaz, estendendo os braços. — A gente não
precisa ficar resistindo. Até o mestre Charlie topou andar com aqueles garotos.
Eles não precisam saber que estamos indo só pra ter conforto. — piscou. — Penso
nisso desde que os vi planejando a obra.
A garota virou-se
para Thanos.
— Você segura e eu
bato?
O rapaz limpou a
poeira de sua roupa.
— Então vamos para
lá.
Novamente o silêncio
tomou conta, até que Austin começou a rir discretamente da amiga, que parecia
incrédula. Ela seguiu o Pancham, tentando convencê-lo do contrário.
— Você ta zoando. —
afirmou.
Ele levantou o braço,
como se pedisse silêncio. Ela não conseguia enxergar seu rosto estando atrás,
mas por algum motivo parecia que ele preferia assim.
Thanos jamais falaria
qualquer coisa, mas sentia-se inseguro. Aquele momento fora suficiente para
deixá-lo um tanto assustado. Mais do que gostaria. Talvez estando naquela
guilda encontraria proteção, além de ter uma cama boa para dormir. Ter que
aturar aqueles Pokémons sonhadores e felizes era um pequeno preço a ser pago.
— Vocês vem?
...
A passos lentos
chegaram até o local onde os demais Pokémons estavam. Era um imenso campo
aberto, onde aos poucos uma instalação imensa estava sendo construída. Ficaram
observando aquele lugar por um momento, boquiabertos. Seria bem maior que a
cabana em que se encontravam antes.
Espurr e Flabébé
corriam pelas proximidades, até se depararem com os três e pararem de brincar.
Ambos se aproximaram do trio, que os observou. Mary deu um sorriso com os olhos
fechados, contente:
— Que bom que vocês
pensaram melhor. — falou, com um tom aconchegante. — Neal, eles vieram mesmo!
O rapaz, que
dialogava com algum dos Pokémons construtores, foi até eles, acompanhado — como
sempre — por Magikarp. Claro que Theo tropeçou algumas vezes até chegar ao
destino, mas no final estavam todos reunidos.
— Isso é muito
importante. Estão fazendo uma escolha realmente próspera, garanto que não se
arrependerão. — disse Neal, estendendo a mão para Thanos. — Bem-vindos.
Thanos apertou sua
mão, e os dois trocaram um sorriso discreto, quase imperceptível. Nenhum dos
dois era exatamente alguém muito simpático, e a princípio não haviam ido um com
a cara do outro, mas naquele momento foram capazes de se juntar. O Larvitar, em
seguida, prosseguiu:
— Ainda estamos com
dormitórios provisórios até que a guilda fique pronta, mas estão convidados a
eles. — falou. — Mas antes tomem um bom banho, parece que acabaram de sair de
uma guerra. O garoto Calem teria um treco se os visse assim. — brincou. —
Theodore, mostre a eles os alojamentos temporários.
— Sim, senhor. —
concordou o Pokémon, os guiando.
Antes que Gwen
continuasse andando, sentiu algo a puxando com pouca força. Quando se virou,
viu Eryx, o Flabébé. Encarou-lhe com seus olhos verdes sem muita compaixão,
porém surpreendeu-se quando viu que o garoto lhe estendia a mão com alguma
coisa.
Era uma pequena flor.
— É pra mim? —
perguntou a Litleo, tímida.
— É sim. — falou,
sorrindo. — As flores são lindas, não são? Todos gostamos de ganhar.
Gwen não conseguiu
permanecer neutra, revelando um pequeno sorriso para o garotinho. Crianças às
vezes são capazes de fazer pequenos gestos que comovem qualquer um. Mesmo
quando se veste uma proteção invisível contra os outros, como ela.
— Obrigada, garoto. —
falou, continuando a andar.

...
Já era tarde, mas
estavam todos reunidos em um círculo, pelas ordens de Neal. Este encontrava-se
de pé em uma pedra, no centro. Virando-se sempre para fitar cada um de seus
companheiros, iniciou o discurso:
— Companheiros, hoje
damos o primeiro passo de uma extensa maratona. — falou. — Com toda a certeza
não será uma jornada fácil a que estamos traçando. Mas, afinal, nunca é.
Fez uma pequena pausa
e observou a construção. As estruturas já estavam ganhando forma, e muito em
breve poderia chamar aquilo de guilda. Seus olhos escuros brilhavam
intensamente ao pensar.
— Enfrentaremos os
melhores e os piores, desde os mais compassivos até os mais cruéis.
Encontraremos todos os tipos de guerreiros, e teremos o prazer de receber
alguns deles um dia em nossa guilda. — proferiu, alto. — Mas não se esqueçam:
Somos os originais, os fundadores desse novo império.
— E como se chama? —
questionou Theodore.
Neal sorriu de canto.
— Guerreiros, sejam
bem-vindos à Royal Emperium!







































