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Um Sonho Dentro de um Sonho (Especial de Aniversário)



Um Sonho Dentro de Um Sonho

— Eu queria propor um brinde. — disse o moço, se levantando. — Ao aniversariante da noite.
Os olhos se viraram animados para o indicado, com uma série de gritos empolgados, alguns batendo na mesa. Olhares incomodados se voltaram para o grupo no bar, mas ninguém estava em grandes condições de se importar. A música estalava em uma batida de funk que só se abafava pelas conversas atravessadas e barulhos de garrafas se tocando. Uma série de copos foi levantada para o alto, em sequência.
— A gente já tá brindando desde as nove da noite. — retorquiu o aniversariante.
— São 20 anos completos. — argumentou a moça de cabelos cacheados ao seu lado. — Deveríamos brindar até o vigésimo copo.
— Deus me livre. — comentou a menina do outro lado, balançando o copo. — Mas quem me dera.
Após uma sequência de risadas, o rapaz de pé levantou seu copo cheio novamente.
— Ao Vítor. — falou, animado.
— Ao Vítor. — concordaram os outros, brindando.
O aniversariante tomou um gole. O gosto já parecia bem mais amargo que às nove da noite. Fez uma careta, mas sorriu, abraçando os amigos. Era seu dia, seu momento. A cena já se desenrolava em ritmo reduzido, os barulhos abafando em um torpor que inevitavelmente fazia um sorriso se abrir em seu rosto. Disparou palavras de afeto aos conhecidos, agradecendo pela ocasião. Duas décadas.
...
Quando a porta do elevador se abriu naquela manhã, ele não evitou um olhar arregalado. Tirou os óculos de sol e conferiu as olheiras grossas e roxas em torno dos olhos avermelhados de sono. Haja pepino para tratar isso. A ideia de usar boné para disfarçar os cabelos desajeitados também não parecia ter funcionado perfeitamente. O moletom rosa por dentro da calça estava meio amassado, mas ele sequer reparou naquilo ao vesti-lo.
Deu uma mordida no croissant tão pequena que pareceu mal diminuir de tamanho. Ainda assim, mastigou tantas vezes que até perdeu a conta. Tentava ignorar o cheiro da comida, que lhe revirava o estômago do dia anterior. Tentou todas as chaves para abrir a porta de vidro da secretaria, mas claramente apenas a última servira.
Sentou em sua cadeira, ligando o computador. Encostou-se e respirou fundo, tentando ignorar o cheiro doce do aromatizador de ambientes. 9:38. Nunca chegou tão atrasado – e olha que era relativamente famoso por seus atrasos onde quer que fosse. Ainda tinha a desculpa do aniversário, que poderia funcionar, caso alguém perguntasse.
Tomou um gole forçado de água por impulso, tentando ajudar o salgado a descer. Em seguida, um gole de café bem quente. Algum dos dois deveria ajudar.
Ouviu o som dos saltos batendo pelo corredor. Por pouco não chegou depois da chefe – não que pudesse ter o luxo de se orgulhar, mas atrasar a esse ponto seria vergonhoso. Ela usava um vestido preto com uma estampa floral linda, em conjunto a um casaco de cor viva. Os olhos brilhantes corriam pelo corredor, enquanto sua voz doce cumprimentava aqueles que cruzavam seu caminho. A chefe pisou com passos tranquilos, enquanto enviava um áudio pelo celular – segurado na mão direita, enquanto a esquerda estava cheia de pastas e sua bolsa.
— Bom dia. — disse, levantando o olhar o estagiário, em seguida esboçando uma expressão de susto. — Meu deus, você tá bem?
O garoto não abaixou os óculos escuros, recostando-se na cadeira.
— Já tive momentos melhores. — respondeu com relativo delay, o tom mais rouco que o usual.
Ela deu uma risada, colocando suas coisas na mesa. Aproximou-se dele, botando as mãos na cintura.
— Quando eu fui embora você parecia bem. — comentou.
— E eu tava. — disse o garoto, tomando um gole de água. — O problema foi agora de manhã.
Ela deu uma risada de preencher o ambiente e jogou alguns bilhetes na lixeira.
— Aniversário de segunda-feira nunca é uma boa.
— Foi o que aprendi esse ano. — murmurou, massageando sua testa. — Acho que eu tive o pior encontro da minha vida depois do bar, mas eu já não tenho mais certeza.
A moça balançou a cabeça sorrindo, em sinal de julgamento. Ajeitou a ordem das pastas que acabara de trazer, logo as depositando na mesa do estagiário.
— Pode levar esses documentos pra mim, por favor? Lá no setor de diplomas.
— Posso, claro. — falou Vítor, pegando no mouse do computador. — Espera só eu terminar de mexer nessas fotos.
Ela assentiu.
— São pro post do evento de vocês?
— Isso. — assentiu ele.
O garoto abriu os arquivos, editando as fotos o mais rápido que conseguia. Contudo, sua mente estava em relativo atraso. Ele tentava morder o croissant vez ou outra, mas nunca teve tanta dificuldade de ingerir qualquer coisa nos últimos tempos. Ainda assim, sequer tivera tempo de tomar café em casa. Precisava forrar o estômago de algum jeito. Mais uma vez ouviu passos se aproximando, agora um par de chinelos batendo até a porta da secretaria. A menina de longos cabelos pretos passou pela porta transparente com sua calça larga estampada, disparando:
— Amigo, já fez o post? — inquiriu, só então fitando os óculos escuros do rapaz e sua expressão mórbida. — Meu deus o que aconteceu com você?
— Bom dia. — respondeu Vítor, irônico. — Não, amiga, tô mexendo com as fotos ainda.
— Ah, tudo bem. — ela assentiu, olhando para a tela do computador. — O Lucas pediu pra eu perguntar se você já terminou o checklist pras gravações desse final de semana.
O garoto apoiou a cabeça no braço, cansado.
— Faltam as barracas ainda. — respondeu, tirando os óculos. — Eu já vou conseguir isso, vou correr atrás hoje de tarde.
Ele mordeu o salgado, vendo a garota levantar uma sobrancelha.
Croissant? Achei que você não comia mais esse tipo de carboidrato. — falou, em tom de deboche.
— Vítor! — repreendeu a chefe, só então notando o culposo salgado engordurado.
— Hoje eu como. — balbuciou o garoto.
Aquele dia em especial poderia ter lhe dado uma trégua, mas o “pós-aniversário” nunca tem o mesmo glamour para autorizar isso. Especialmente quando o aniversário coincide em um contexto de milhares de acontecimentos ocorrendo simultaneamente na vida acadêmica. Por sorte, o rapaz não tardou muito para melhorar seu ritmo. Os primeiros semestres universitários ensinaram que água, remédio para enjoo e um pouco de comida resolviam qualquer pós-festa. Ainda assim, sentiu que parte das pendências daquela terça ainda estavam sem resolver.
Mas quando, afinal, ele sentia que todas as pendências estavam resolvidas?
Chegou em casa às nove e pouco. Esqueceu que ainda tinha agendado uma reunião após o jantar, o que o fez voltar à casa mais tarde do que gostaria. Era seu dia de lavar roupas, mas a previsão do tempo dizia que iria chover no dia seguinte, então de que adiantaria? A pilha já estava maior que o cesto permitia; isso iria ter que esperar. Enquanto tivesse roupa limpa poderia sobreviver.
Sentou-se na cadeira, quase caindo. Respirou fundo e olhou para o teto por alguns segundos, enquanto retomava o ar. Sabia que tinha escrito na agenda as últimas coisas que precisava realizar antes de dormir. Ainda assim, pensou que merecia um relaxo de alguns minutos. Abriu o feed de alguma rede social para poder se ocupar com algo extra, mas era sempre atrapalhado pela notificação das mensagens de algum grupo. As conversas já se estendiam a um nível que o rapaz perdera o controle.
Ana (3 mensagens): Oi amigo, tudo bem? Sei que tá atarefado, mas olha, achei uma referência legal pro nosso trabalho de Roteiro. Assiste depois e me avisa, tá?
Crush (4 mensagens) : Oi. Queria te ver, comemorar seu aniversário... Mas não vai dar, tô ocupado essa semana. Desculpa :(
BFF (20 mensagens): AMIGO KKKKKK VC NÃO SABEEE PRECISO TE CONTAR
Lucas (6 mensagens): Amigo, ainda não conseguiu as barracas né? Tenho uma ideia de pra quem você pode perguntar. Vou te mandar o contato.
Bia Figurino (4 mensagens): Preciso que me passe a paleta de cores da diária do final de semana para eu poder selecionar os figurinos, por favor.
Calourete (8 mensagens): Queria te convidar pra assembleia do CA que faremos semana que vem, falando sobre o posicionamento do curso diante das eleições. É bem importante!
Professora (2 mensagens): Oi, querido. Pode me confirmar se a equipe de som vai nas entrevistas de sexta?
Chefe (3 mensagem): Vítor, só pra lembrar que amanhã tenho reunião e chego mais tarde! Se rolar algo importante pode me deixar um recado :)
Deutschkurs (15 mensagens) : Hallo Leute! Não esqueçam que o Hausaufgabe de amanhã vale nota e deve ser entregue em folha separada!
Nutricionista (1 mensagem): Olá, Vítor. Nossa consulta está agendada para quinta às 10h. Confirma?
Mãe (4 mensagens): Oi filho... Tudo bem? Faz tempo que não falo com você... Me liga quando der.
Operadora dos infernos (1 mensagem): Atenção, sua conta com vencimento 20/09 não consta como paga. Por favor, efetue o pagamento ou sua linha será cancelada.
O garoto jogou o aparelho na cama, agitado. Por mais que seu corpo implorasse por descanso, sua cabeça trabalhava a mil. Fazia semanas que não via as mensagens totalmente lidas, sem pendências. Quando lia, sempre faltava responder alguém. Não fazia muito que tinha o sonho de ter celular, quando mais novo. Era da geração que já cresceu sabendo da existência do aparelho móvel, querendo poder “bater foto” de tudo e “jogar joguinho”. Hoje, seu sonho era sumir com aquele dispositivo dos diabos. Ainda assim, sua existência dependia quase intrinsicamente daquela droga digital.
Ele se jogou na cama. De que iria adiantar tentar fazer mais coisas naquelas condições? No dia seguinte tiraria um tempo a mais para resolver o que precisava de mais urgente. Isso. Merecia um descanso, certo? Arrumou a cama da maneira que pôde e tomou um banho quente, sentindo o jato de água estalando nas costas com gosto.
Quando foi que a vida ficou tão complicada?”  — perguntou-se, mentalmente.
...
Saiu do banho enrolado na toalha, como era típico, toda noite. O vapor embaçou o espelho, de maneira que precisasse esfregar  a mão molhada para conseguir se ver melhor. Sentou na cama, pegando o celular. Abriu na conversa usual do grupo de amigos, que já acumulava uma sequência de mensagens.
Lio: Gente vou só tomar uma ducha e já to descendo na casa do Lu
Fer: Tamos esperando. Ana vem?
Ana: Yes. Vcs já tão bebendo ou vão passar comprar alguma coisa no caminho?
O rapaz olhou o reflexo ao longe, fitando os próprios olhos exaustos. Será que algum dia não teve olheiras?
Vítor: Gente, hoje eu não vou.
Após clicar “enviar”, aguardou alguns segundos pela repressão.
Ana: QUE
Lucas: Hã
Fer: Ihhhh miado..
Vítor: Eu não tô muito bem. E amanhã tem aula cedo.
Lio: Sim, eu tô nessa aula com vc. Vamo, a gente não precisa voltar tarde.
Isa: Quinta de noite é nosso diaaaa
Vítor: Hoje não vai dar.
Ele soltou o aparelho na cama quase como se estivesse pegando fogo. A tela voltou a acender, revelando as muitas mensagens em sua resposta. Retirou forças não soube de onde para não lê-las e evitar o reflexo de pegar o aparelho. Sempre parecia que era importante demais para ignorar. Deu para trás quando uma nova conversa chamou sua atenção, todavia, autorizando-se a voltar ao dispositivo.
???: Oi Haos.
Precisou de alguns segundos encarando a tela do aparelho para assimilar aquela palavra de quatro letras. Há quanto tempo não lhe dirigiam aquele nome? Alguém sequer se lembrava dele? Um sentimento gostoso percorreu o corpo e, após ponderar, optou por responder, ignorando as notificações das demais conversas.
Vítor: Oi. Quem é?
O número apareceu digitando.
???: Uma amiga antiga... Estava pensando se você estava a fim de sair comer alguma coisa.
Vítor: Ah, hoje vai ser difícil... Preciso resolver algumas coisas e amanhã cedo tenho que ir na aula. E vou tentar passar na academia antes... Na verdade já deveria estar dormindo.
???: Por favor, prometo que vai ser rápido... Eu estou com saudade.
Ele tinha ideia de quem poderia ser. Isso o forçou a tomar forças para sair de casa. Não precisaria ir muito longe, felizmente. A amiga concordou em encontrá-lo lá perto. O garoto não caprichou muito nas roupas que escolheu – em questão de pouco tempo já iria voltar dormir, mesmo. Por um momento ficou chateado de se despedir de sua cama. Ela estava tão convidativa. Mais uma noite dormindo menos que seis horas. O mito das oito horas de sono era com certeza a lenda de sua geração.
Chegou no lugar marcado e pegou uma das mesas de madeira, sentando-se. De lá conseguia observar o movimento, via os carros passando na rua, os demais universitários caminhando em direção ao happy hour, carregando garrafas já meiadas e ouvindo música em volume alto. O ritmo até que fazia seus dedos baterem em sincronia na mesa.
Ele a viu se aproximar, tocando-lhe nas costas. Seus olhos não evitaram esboçar uma surpresa. Suas suspeitas foram confirmadas, mas a moça parecia diferente da última vez. Seu estilo estava mais refinado, ainda que mantivesse a mesma meiguice costumeira. Os olhos sempre empolgados agora pareciam mais maduros, condizentes com sua idade. Seus cabelos compridos divididos entre o azul e o rubro se distribuíam em belas mechas presas atrás da cabeça. Ela se sentou, abrindo um sorriso.
— Oi… — murmurou o garoto. — Nossa. Você tá diferente. — disse sem pensar.
— Eu não estou tão diferente assim. — respondeu a amiga. — Você está.
Ele apoiou-se na mesa, ainda um pouco surpreso.
— Meu deus quanto tempo faz? — perguntou ele.
— Quase um ano. — falou ela, com um sorriso sem graça.
Ele se jogou para trás, quase que levando uma pancada.
— Tudo isso? Tem certeza? — indagou.
A moça balançou a cabeça.
— Tenho. — respondeu, com convicção.
Ela sabia mais que ninguém. O menino corou, um pouco sem jeito. A garota mexeu as mãos, corrigindo-se.
— Eu não tô ofendida. — disse, com uma risadinha. — Eu sei que não sou a única amiga que você não fala há meses.
Vítor sentiu-se ainda pior com o comentário, dando uma risada constrangida.
— Não é. — concordou. — Desculpa, eu me sinto mal por isso. Mas juro que nas férias…
— Você falou isso nas férias de Julho também. — ela lançou um olhar de julgamento
— Justo.
Sabe quando você encontra uma pessoa que outrora lhe foi muito especial, mas parece que a intimidade já não é a mesma? Que os assuntos antes tão naturais agora pareciam íntimos demais para tangenciar? Que medo temos disso. Que medo temos de um dia transformar um coração meramente em um rosto conhecido. Quantos protagonistas nos caminhos de nossa vida – e como nossa vida tem caminhos – não se tornam meros coadjuvantes sem uma lógica explicação?
— O que você está olhando? — perguntou a garota, com seus olhos profundos heterocromáticos.
O menino forçou um sorriso encabulado.
— Por que as coisas não são mais as mesmas com você? — perguntou, quase que como um suspiro.
— Porque você não é mais o mesmo. — respondeu a moça com tranquilidade.
Ele aceitou as palavras, com uma expressão perdida. Por um milésimo de segundo viu-se como um estranho naquele espaço, como uma criança procurando pelos pais. Durou pouco, ele sabia onde estava. Sabia onde seus pais estavam. Mas resquícios daquele sentimento ainda lhe apertavam o peito olhando para aquela mulher.
A amiga se levantou, estendendo-lhe uma mão.
— Pra onde nós vamos? — perguntou ele.
— Viajar. — respondeu a moça com um sorriso simpático.
Ele esqueceu como ela sorria. Sorria como ninguém, em um ar reconfortante e familiar. Com leveza. O moço sentiu seus músculos quase sendo puxadas para suas mãos, e em momento algum se opôs. Levantou-se e caminhou com ela, deixando-a guiar o caminho. Era consumido pelas palavras.
Não soube dizer em que momento o cenário mudou. Parecia um sonho, quando os contextos mudam drasticamente sem que se perceba, aceitando-se consumir apenas o motivo da transformação. Não era como estavam lá, mas sim por que estavam.
Os prédios transformavam-se em árvores retorcidas pela idade, em cores sazonais mágicas. O céu escuro fechado se abria em uma noite estrelada onde ele podia avistar as mais diversas constelações e sonhar com as criaturas desconhecidas escondidas na imensidão. Uma estrela cadente, faça um pedido. O concreto esburacado da rua passava a ser um caminho de terra por entre as flores mais belas que a estação podia proporcionar. O som dos carros aos poucos se convertia a ruídos da noite, o que poderiam ser grilos, mas em um cantar quase melódico e convidativo. Não tinha medo, pois sabia onde estava. Sentia o aroma doce das flores que tinha o perfume que mais gostava. Sentiu os dedos macios da garota deslizando por sua mão suada. Tentou reagir, mas ela levemente soltava sua pele, deixando-o caminhar sozinho.
Haos desamarrou os cadarços de seus tênis apertados, deixando-os de lado como se pudesse esquecê-los ali. Sentiu a pele quente tocar a grama fofa, fazendo leves cócegas. Abriu os braços com a brisa refrescante daquela noite, como há muito tempo não podia.
— Peguei. — disse ela, tocando-lhe o ombro.
O menino saiu de seu transe após alguns curtos momentos, tentando assimilar.
— Faz tempo que não brinco disso. — falou com uma risadinha, disfarçando.
A moça colocou as mãos na cintura. Ele continuou rindo de um jeito forçado, olhando para os lados levemente.
— Esqueceu que ninguém pode vê-lo aqui? — indagou a moça.
O garoto ficou em silêncio. Olhou mais uma vez para os lados e correu. Os primeiros passos foram desengonçados, incertos. Mas logo retomou a corrida em um disparo, sem mais hesitação pelos julgamentos. Correram livres pelo campo de flores, sozinhos. Ele conhecia cada centímetro daquela terra. Ele já esteve lá muitas vezes, e sabia que ninguém iria observá-los e julgá-los.
...
Encararam-se.
Ambos deveriam ter em torno dos quatorze, quinze anos. Um garoto franzino, olhos castanhos curiosos e tímidos ao mesmo tempo, e a menina de cabelos coloridos com as mãos atrás das costas. Seus olhos eram das mesmas cores opostas do penteado. Eles sorriam, um tanto sem jeito. Parecia o protocolo a seguir.
— Hm… Oi.
— Oi.
— Eu sou o Haos. — falou o garoto. — Sou novo na Aliança.
A menina concordou com a cabeça suavemente.
— Você é meio tímida. — comentou ele. — Não vai nem me falar seu nome?
Ela nada disse, evitando fitá-lo nos olhos. O menino não julgou, respeitou seu tempo.
— Tudo bem, vamos dar tempo ao tempo. — disse, com empolgação. — Se não acredita em mim, pode perguntar pro meu amigo, o Ethron! Nós trabalhamos juntos já faz um ano!!
A garota brincou com uma das mechas de cabelo, enrolando-a nos dedos.
— As pessoas estão meio curiosas. — comentou, singela.
— Sim. Mas todo mundo confia na gente. — ele murmurou.
A garota olhou perdida para o céu, suspirando.
— E qual será nossa história? — perguntou, abrindo um sorriso ainda de papel, frágil.
Ele correspondeu.
— Ainda não sei. — disse. — Mas sei que vai ser inesquecível.
E seria. Ela se chamava Kalos, descobriu algum tempo depois. Tornaram-se amigos como as pétalas caídas transpassam pelo rio – seguindo o fluxo, em seu tempo. Ela lhe apresentou os castelos mais bonitos que ele teve o prazer de apreciar, tão majestosos que jamais pensou que seria capaz de pisar lá; as maiores e mais movimentadas cidades, tão brilhantes que transformavam a noite em dia com suas luzes singulares; as praias mais límpidas, onde podia ver os próprios pés enquanto pulava as ondas, admirando a imensidão azul encontrando o horizonte; as montanhas gélidas mais frias, onde os flocos formavam desenhos e esculturas de gelo; as cavernas onde os cristais brilhavam e reluziam feito espelhos; os campos de flores mais cheirosos e tranquilos que jamais teve a oportunidade de conhecer.
Compartilharam dos melhores e piores dias.
Naquele, em especial, ele chorava, sentado no escuro. Sentia a mão dela no ombro, mas os pingos escorriam como uma tempestade que não poderia ser amansada com tão pouco. O respirar dela parecia lhe dar mais motivos para permanecer ali, por mais que o fizesse em silêncio.
— Eu não aguento mais, Kalos. — disse, engasgado.
— O que?
— Eu… Eu me sinto estagnado, sabe?
Ela passou a mão em suas costas, com uma expressão afetada.
—. Parece que eu tô preso… Briguei com meus amigos, briguei com minha família... Eu não… Eu preciso de espaço, eu preciso respirar, e não consigo. Tem tanta coisa guardada e eu não consigo soltar.
— Por que não vem comigo? — perguntou ela, tentando levantá-lo. — Conheço um lugar ótimo pra tomarmos café!
Ele não aceitou ser puxado.
— Kalos, tudo isso é ótimo… Mas mesmo quando você tenta me ajudar a esquecer, o problema continua.
Kalos baixou o olhar. Agachou até ficar em sua altura e limpou suas lágrimas com os polegares. Ela não parecia saber muito mais o que fazer, mas tinha ternura em seus olhos.
— Haos, eu não posso resolver seus problemas. — falou, tímida. — Mas eu posso estar com você, independentemente deles.
— E o que eu faço?
O silêncio preencheu a pausa.
— Nada se transforma do dia para a noite. — ela disse. — Mas você pode amenizar a dor escrevendo.
Ele balançou a cabeça.
— Escrever igual sempre fez. — incentivou.
— Como isso pode resolver qualquer coisa?
— A dor existe, mas você é livre para fazer o que quiser dela. — falou a moça, colocando um caderno e uma caneta no chão, desgastados pelo uso.
Não foi do dia para a noite, mas aos poucos ele conseguia ver quem Kalos lhe instigava: era uma moça de louros cabelos, dourados e brilhantes; olhos azuis como o céu mais aberto e belo que alguém poderia sonhar; um sorriso puro como o de uma criança pronta para desbravar o mundo. As palavras ganhavam vida, as correntes eram arrastadas pelo quarto, tentando se romper, em um grito no escuro que ninguém iria escutar, mas que ecoava pelas paredes;
“Eu sinto que estou morta há muito tempo, e quero renascer. Há muito tempo essa princesa cansou de esperar pelo príncipe, cansou de pensar no mal como o ruim, cansou de ver sem experimentar. Há uma linha tênue entre a vida e a morte, e a qualquer momento ela pode ceder. Eu não quero esperar por este rompimento, quero aproveitar as últimas oportunidades”
Sua jornada erguia-se aos poucos em três pilares: os sonhos de uma criança em ver o mundo pela primeira vez, em sentir as primeiras experiências e atribuir valor a cada sopro de sua vida; as hesitações de conhecer um universo que lhe parece às vezes hostil, onde se precisa esquecer do pré-concebido e retornar à pureza dos primeiros anos; e a tentativa de avançar mesmo com os pesos do passado, independentemente das dores e dos fantasmas, sem perder a chance de sorrir mais uma vez. Serena. Calem. Charlie.
Observava aquela liberdade da janela, admirava uma jornada que com certeza sonharia, na esperança de ter a sua. Suas asas ainda eram pequenas demais, mas ele conseguia ajudar alguém a voar independentemente delas. Ninguém lhe tiraria duas coisas: sua imaginação e seus sonhos.
E Kalos lhe dava a mão. Trilhavam cada rota, sentindo a textura de cada pedra desgastada amontoada no canto; as gotas das tempestades mais violentas que percorriam o corpo molhado; ouviam o farfalhar da grama conforme surgiam as criaturas mais fascinantes que o mundo jamais veria, que poderiam ser um conjunto de pixels programado para qualquer um que avistasse: mas em seus olhos o mundo ganhava a proporção que quisesse. Os mundanos tornavam-se heróis e, as criaturas, guerreiros. Os sonhos nunca eram bobos demais ou grandes demais, eles sempre tinham espaço. O impossível estava a algumas palavras mágicas de distância.
Os ecos do real, todavia, sempre estavam presentes em sua cabeça. Abria os olhos às vezes e se lembrava de onde estava. Os cantos mágicos das aves lendárias tornavam-se piados; os grilos, buzinas; as batalhas que sempre teriam o final que desejasse tornavam-se imprevisíveis e perigosas, e a espada em sua mão era apenas um simples lápis, pequeno demais para ser apontado de novo.
— Acho que precisaremos nos esforçar para o próximo capítulo. — disse, segurando com firmeza as mãos de sua amiga Kalos. — Vou precisar de mais algumas semanas.
Até as mãos tão firmes afrouxarem.
— Kalos, vou precisar ficar na escola até de noite. Estou estudando para o vestibular. Nos vemos no final de semana, ok? — falou, vendo os olhos compreensivos da moça esboçarem um tímido concordar.
…até quase soltarem.
— Kalos, eu não passei na prova. — ele socou a mesa. A moça segurava seu ombro, tentando abraçá-lo, mas ele não permitiu, enquanto as lágrimas correram pelos olhos. — Eu vou continuar preso. Eu não vou aguentar, eu não quero fazer tudo de novo.
Ela o abraçou, e assim ficaram. Tentou memorizar o rosto do garoto, pois já o via tão vagamente que quase esquecera sua feição. Os olhos brilhantes pareciam opacos e cansados. Os cabelos desgrenhavam-se em tufos sem brilho. Ele já tinha aquelas grossas olheiras? E desde quando lhe crescia barba? Aquelas espinhas com certeza não deveriam estar ali aos montes. A cada vez, mais distantes, ele parecia diferente. Ela jamais o confrontou: respeitou e falou que aguardaria. Acreditava que ele voltaria.
E ele voltou, tempos depois.
— Eu consegui, eu passei! — exclamou, parecendo reganhar as luzes em suas pupilas. — Será minha vez de começar uma jornada.
Ela festejou junto. Esperaram por esse momento havia muito. Mas as promessas pareciam se distorcer com facilidade conforme percebia seus dias mudando. O sorriso de Kalos não perdia seu brilho, mas começava a se desfazer. Cada vez que acreditava em algo, passava a se perguntar se de fato aquilo se tornaria realidade:
— Kalos, estou meio ocupado, mas é só agora no começo. — falou. — Assim que puder voltamos a planejar coisas, ok?
Ok. Ela concordou. E ele voltava. Os dois tinham resquícios de seus melhores dias pelos lugares mais belos daquele místico continente, mas ele sempre parecia meio distante. Interrompiam a viagem por causa de bobas mensagens no celular. Ele sumia da mesma maneira que voltava, em um piscar de olhos.
— Eu não sei se sou bom pra estar aqui na faculdade, Kalos. — falou, um dia, desabafando. — E se aqui não é meu lugar?
Ela já não sabia o que dizer. Kalos conhecia lindas paisagens, mas não era capaz de lidar com aquilo. Ela já havia dado todos os conselhos que conhecia. Não podia ensiná-lo a cozinhar, não sabia como mostrá-lo a pagar suas primeiras contas. Ela nunca precisou lidar com o perigo das ruas que não fossem as de Lumiose, e com certeza não podia consolá-lo de um relacionamento que partira seu coração.
O garoto precisou buscar aquelas respostas sozinhos, longe do mundo que tanto lhe ensinou. Por mais que questionasse às vezes seus novos passos, acreditou talvez fosse seu lugar aquele em que precisava estar. Ele olhava para Kalos e sabia que gostava daquilo que ela ensinou, ele amava contar histórias. Ela era testemunha.
— Kalos, as pessoas compartilharam uma história que eu postei. — ele falou, empolgado. — Olha quanta gente viu!
Ela sorriu e o parabenizou, mas seus olhos escondiam algo distante. Havia outra história? Por que ninguém nunca a reconheceu daquela forma? De repente suas belezas naturais e seus velhos contos de deuses da vida e da morte pareciam história de criança que todos já não queriam mais ouvir. Haos dizia assim dela em outros tempos, estampava com orgulho a página de seu blog aos amigos. Dizia com orgulho que participava de uma Aliança, que era um autor, um ficwriter...
...mas, nas últimas semanas, ela parecia uma amizade boba do passado, daquelas que não se confessa sem constrangimento.
— O que é esse arquivo “AeXY” no seu computador? — indagava alguém.
— Ah, é um arquivo velho. — respondia Vítor, fechando a tela. — Devo ter esquecido de deletar.
Até que os meses, e mesmo anos, se passaram.
— Kalos, eu fui chamado para uma pesquisa!
Passaram.
— Kalos, eu vou começar um estágio!
Passaram.
— Kalos, me convidaram para fazer um filme.
Passaram.
— Kalos, conversei com minha mãe, e agora voltamos a nos falar normalmente.
Passaram tanto que ela se tornou um arquivo nas profundezas do virtual. Um blog que os mais saudosistas visitavam de vez em quando, esperando por uma novidade, um sinal de vida do autor. A moça sabia que eles tinham momentos de vez em quando. Uma anotação, um parágrafo perdido. Um desenho esquecido na gaveta que nunca veria a luz do dia. Mas os outros não sabiam.
Pelo menos naquela noite, em meio a um turbilhão, ele voltou. A moça via seus perdidos olhos castanhos correndo pelos prédios iluminados de Lumiose, balançando a colher de metal pela xícara de café preto. O vapor subia até seu rosto, perdendo-se no alto ao se dissipar. Kalos tocou-lhe os dedos, resgatando-o para o presente.
— Eu estou feliz que você voltou. — murmurou a moça.
— Desculpa. — ele falou.
Fungou o nariz.
— Eu não queria ter colocado você para trás assim.
Era difícil decifrá-la na penumbra, parecia estar no único ponto escuro da cidade, onde os flashes já não mais alcançavam e os postes deixavam de iluminar. Ouvia sua respiração pesada, quase mais alta que todos os ruídos orquestrais da cidade.
— Você precisou abrir mão da nossa jornada — Kalos preencheu o silêncio. — para começar a sua própria. Eu estou orgulhosa.
Kalos se levantou e virou de costas. Não havia mais Lumiose, não havia prédios ou Prism Tower, não havia os rostos borrados no fundo e os gritos dos pneus atravessando o asfalto. Havia só um quarto escuro e um silêncio ensurdecedor; só um par de olhos cansados e pernas exaustas demais para dançar, rendendo-se aos joelhos.
Ela sentiu seu corpo ser abraçado. Braços trêmulos envolvendo seu corpo, com tanta força, como se quisesse entrelaçar-se com sua alma. E sentiu gotas escorrendo pelas costas, não de chuva, mas dos olhos fechados do rapaz tocando sua pele fina.
— Você foi minha jornada enquanto eu não podia ter uma. — falou ele, a voz falhando. — Desculpe se eu me esqueço disso às vezes.
Kalos se virou de frente a ele e retribuiu o abraço. Os olhos escorreram, inundaram. Como as duas crianças perdidas e reclusas, sonhando com uma aventura que não poderiam viver, procurando consolo em um mundo onde poderiam ser tão grandes quanto almejassem. Onde poderiam ser todos e, ao mesmo tempo, um rosto anônimo e desconhecido, escondido nas sombras de um arco-íris.
— Você sempre vai ser minha melhor jornada. — gaguejou Haos.
Kalos se afastou e encarou seus olhos fundos, onde os fantasmas translúcidos do passado já não mais habitavam, e abriam espaço para a sóbria opacidade de uma criança livre ao universo, mas que perdera aonde poderia se segurar nas quedas que lhe ameaçavam. Passou os dedos com um carinho que já não encontrava há muito tempo e desenhou um fino sorriso no canto da boca, tão verdadeiro que mais uma lágrima se formou. Ela passou o dedo indicador, limpando.
— Não precisa ter medo que eu desapareça. — sussurrou a moça. — Eu sempre vou estar aqui.
Ela deu-lhe um beijo na testa.
— Você cresceu tanto...
Algo em si gritava que ela estava para partir. Instintivamente o moço segurou-a com mais firmeza. O sorriso se abriu como o sol primaveril após uma noite de tempestades, trazendo a luz e o calor para as almas perdidas. Era como segurar água, que escorria pelos dedos e respingava pelo chão.
— Me desculpe. — reiterou ele, abrindo um choro como há muito não fazia. — Desculpe, desculpe, desculpe.
Ela tocou seu lábio com o indicador, pedindo silêncio. O garoto desabava. Com o passar dos anos aprendemos a controlar nossos instintos. O choro era um deles. Mas, uma vez que se abria aquela porta, era difícil fechar. Apenas a paciência e tranquilidade de Kalos conseguia acalentá-lo para que sua ofegante respiração se transformasse em uma inspiração de paz.
— Quando as coisas apertaram, eu estava aqui. — disse Kalos. — Se elas apertarem de novo, eu continuarei aqui. Senti que você precisava que eu te lembrasse disso.
Ele tentou segurá-la.
— Continue aquilo que nós começamos — pediu ela, com palavras que nunca esqueceria. — E conte as aventuras que seu coração pede.
Ele não se lembrava mais como era ser aquela criança. Os pensamentos outrora tão vivos tornavam-se memórias de alguém que não mais morava naquele universo. Por isso sempre estava diferente. Sempre que voltava ao seu mundo, olhava tudo com novos olhos. Poderia não ser mais os olhos de uma criança que queria sair em sua primeira aventura...
...mas talvez os olhos de um adulto que, em meio a tantos caminhos, sonhava com a inocência e singularidade dos primeiros passos; que queria se lembrar como era aquele trajeto que tanto fez que até esqueceu da mágica. Como amava aquela terra. Como não poderia? Era sua própria jornada que contava, eram seus sentimentos perdidos que ali estavam. Eram seus sonhos abertos a quem tivesse paciência e coragem de ler.
Sabia que o mundo mudava. Os dias se passaram com tanta velocidade que se arrependeu de um dia querer avançá-los. Como odiou, no passado, aqueles que diziam que era horrível crescer. Seu maior sonho era crescer, parecia um desperdício dizê-lo. Agora era ele que dizia aos céus que gostaria de ter demorado mais para crescer. O crescimento é como uma flor se abrindo: parece tão fluido que só percebemos que aconteceu tempos depois, olhando para o jardim e pensando “faz tempo que isso aconteceu? Passo aqui todo dia e esqueci de conferir”
Depois de um tempo, foi capaz de compreender e entender. Com as grandes responsabilidades veio sua liberdade, e com a liberdade lhe vieram as responsabilidades. Com a maturidade vieram as incertezas, e com as incertezas veio a maturidade. Não era um ponto, mas um conjunto de vírgulas, um amontoado de paradoxos e um eterno ciclo. Era essa a beleza do viver: não chegar a um ponto, mas aproveitar a sua jornada, cada uma das cidades, cada um dos amigos, cada uma das rotas.
Como em um jogo.
Ele se transformou, mas não abandonou seu eu antigo. Ele nunca saiu de lá. Apenas custava um pouco deixá-lo falar às vezes. As memórias não sumiram, elas estavam vivas e quentes em seu coração, em um lugar onde colecionava tudo com muito carinho. Era no passado que se encontrava não as respostas do futuro, mas sim a coragem para procurá-las. Suas histórias estavam todas lá, apenas aguardando para serem escritas. E ele queria contá-las. Kalos mostrou isso. Ele precisava contá-las.
Faltava apenas abrir os olhos, mas permitiu-se ficar assim mais um pouquinho. Poderia voltar para aquele mundo quando quisesse, não se esquecia. Poderia demorar. Mas ele sempre voltava, pois era na fantasia de suas histórias que eternizava a verdade de seu coração. Quase sentia sua pele brilhar, envolvida em um brilho prateado.
What? CYNDAQUIL is evolving!
E abriu os olhos, pois ainda tinha uma longa jornada pela frente.

{DNA} JULHO


JULHO
Data Not Available - Parte I

FARAWAY ISLAND
05 de Julho
Algumas décadas atrás
Um novo Pokémon foi descoberto na selva, em Guyana.

— Por aqui.
Uma gota de suor escorria pelo rosto sujo do explorador. Ele olhou para trás, e checou se seus sete assistentes o acompanhavam. O percurso era complicado, a vegetação era densa, repleta de folhas dos mais diversos tamanhos bloqueando a passagem por entre as árvores – imensas árvores geracionais, que se estendiam tantos metros acima que as copas verdejantes cobriam se não por pequenos feixes o azul do céu. Apesar de felizmente os galhos dessas árvores impedirem o sol intenso de chegar com força no chão, o calor do espaço ainda era extremamente notável – as temperaturas das florestas tropicais daquela região eram altíssimas.
O ar era sobretudo úmido. O chão terroso afundava vez ou outra enquanto pisavam, mas era coberto quase completamente por folhas e galhos caídos, fazendo ruídos conforme os pés se moviam. Contudo, quase não ouviam os próprios passos em meio aos cantares das mais diversas espécies de Pokémon que habitavam aquele lugar exótico e inexplorado, aparentemente sem qualquer interferência humana conhecida.
Poucos cientistas e exploradores haviam chegado tão longe.
— Há criaturas formidáveis por aqui. — exclamou o homem, em torno de seus trinta e cinco anos, que liderava a expedição, com uma bússola na mão. Seus olhos brilhavam.
Vez ou outra era possível ver alguma criatura passando de relance ao longe. Nenhuma espécie ainda desconhecida, de fato, mas já haviam avistado vários Pokémon que não eram usualmente encontrados em outros lugares. Com colorações levemente diferentes, ou mesmo emitindo sons diferentes. Aquele espaço tinha uma aura que nenhum outro lugar no planeta possuía. Era quase um mito entre os exploradores – se não tivessem conseguido alcançar, depois de dias de viagem.
— Será que podemos fazer uma parada, doutor? — pediu um dos rapazes, diminuindo o ritmo do passo.
O homem que caminhava à frente parou de andar. Esfregou uma das mangas na testa, emitindo um suspiro não tão contente, mas consentindo.
— Tudo bem. — concordou, ofegante.
Havia horas que chegaram na ilha, e desde então não pararam de andar. O doutor era obrigado a admitir que se contaminou pela forte energia e vontade de conhecer aquele espaço. Não se conteve e começou a querer desbravar tudo. Já havia coletado algumas espécies de planta que acreditava que eram novas – ou, ao menos, extremamente raras na região que vivia, Kanto. Ele beijava seu colar em um gesto religioso, agradecendo às divindades por permitirem que seu grupo encontrasse aquela ilha perdida.
Alguns dos homens aproveitavam a pausa para checar os equipamentos que carregavam, que poderiam ter sido danificados com a mudança de ambiente. O doutor parou um momento, pedindo silêncio, e em seguida buscou um cantil pendurado em sua mochila. Era possível, com a quietude, notar o barulho de água corrente a uma distância relativamente baixa.
— Estou ouvindo som de água. — comentou. — Deve haver algum riacho por perto. Irei buscar um pouco e já volto. — informou, por fim.
Os outros assentiram, ofegantes, sentando-se. O doutor avançou alguns passos, ainda com a bússola na mão. Seus olhos curiosos corriam por todas as direções, pesquisando naquele paraíso verde alguma novidade. Seu sonho estava se realizando. Depois de anos planejando e pesquisando sobre aquele lugar, finalmente encontrara.
O som de água corrente se intensificava. Dito e feito: encontrou um riacho estreito em largura, mas com comprimento que fugia de sua vista. Agachou cuidadosamente, analisando por alguns momentos a água. Pegou em sua mochila algo como um filtrador simples de papel, e o depositou na boca do cantil, recolhendo a água em seguida. Apesar do cuidado, a água era tão cristalina que parecia mais pura que qualquer outra a qual já bebera.
Inclinou sua cabeça para o lado inocentemente, enquanto o recipiente enchia, se deparando com algo que roubou sua atenção. Ele nunca havia visto algo como aquilo antes.
Um pequeno ser bebia água do riacho, a certa distância, pacificamente. O ato não era o anormal, e sim a forma da criatura: Tinha um tom róseo em todo o seu reduzido corpo. A cabeça tinha um formato felídeo, e o que mais se destacava era sua longa cauda. Ele não tocava o chão, parecia flutuar. Era como um embrião em um tamanho ampliado – como o próprio cientista assimilou mentalmente em um primeiro momento.
O doutor vagarosamente levantou, tentando não chamar a atenção. Quando foi dar um passo para a frente, contudo, pisou em um galho, o quebrando e fazendo um ruído mais alto que gostaria. Por que sempre aconteciam coisas assim nos momentos mais cruciais? A criatura virou-se para ele em um instante, e logo fugiu, arregalando os olhos e deslizando em grande velocidade pelos ares, para longe.
— Venham aqui, depressa! E tragam suas coisas! — gritou o doutor para seus companheiros, correndo atrás daquele intrigante ser antes que o perdesse de vista.
Os demais fizeram o possível para acompanhá-lo, e ele mesmo corria o mais rápido que podia, mas além de não ser muito ágil, era complicado alcançar uma criatura que parecia dançar no ar, com a sutileza com que flutuava por entre árvores e arbustos. O que era aquilo? Quando seus companheiros estavam mais próximos, não evitaram um tom de surpresa nas vozes ao observar aquele ser estranho. Com certeza era uma nova espécie.
Quando a surpresa parecia não poder ser maior, o doutor notou um comportamento estranho na criatura. Enquanto se esquivava das árvores e arbustos ao redor, o Pokémon parecia modificar por milésimos de segundo sua forma. Já se parecera com outras criaturas, ou apenas sumia temporariamente, mas sempre retornava ao estágio de embrião. Estaria o pesquisador delirando, após tantas horas caminhando sob o sol?
— Me dê aquilo. — proferiu o doutor, olhando por alguns instantes para trás.
— Mas ainda — respirou um dos assistentes. — ainda estão testando, doutor! É só um protótipo! — disse, tentando não perder o ritmo da corrida.
— Não importa!
Um dos rapazes tirou sua mochila das costas, buscando um objeto dentro, enquanto tentava driblar as árvores. De lá, retirou uma esfera bicolor, mas não como qualquer outra já vista antes por olhos quaisquer. Era púrpura onde ficava o tom vermelho das Pokébolas normais. Além disso, tinha adereços rosados em seu topo, onde uma letra “M” estava centralizada em branco.
Ele aguardou o doutor virar por mais alguns instantes para trás, e atirou o objeto visando acertar sua mão. Era uma tentativa arriscada, pois qualquer erro e consequente demora para pegara a Pokébola poderia resultar no Pokémon escapando. Por sorte, o doutor conseguiu pegar a bola, e sem muito tempo para pensar, disparou-a em direção à criatura.
Os momentos subsequentes ocorreram em sua mente quase que em slow motion. Sequer parou para calcular como deveria lançá-la, sendo que as chances de errar eram altas. Surpreendentemente, a esfera atingiu em cheio a criatura rósea, que sem esperar por aquilo, foi materializada em energia avermelhada e contida dentro da Pokébola. A bola caiu no chão terroso no mesmo momento, e todos congelaram em seus lugares. O item ficou a oscilar no chão, debatendo-se em uma luta que parecia durar eternidades; uma luta que dividia entre o sucesso de uma descoberta e o fracasso; como era possível que sentisse um frio percorrendo sua espinha se estava um calor dos infernos?
1… 2… 3… Por que demorava tanto?
Seu coração quase parou quando os movimentos da Pokébola cessaram. Ficou por alguns segundos piscando, checando se não era uma ilusão. A captura estava completa.
O doutor deu uma última corrida — desta vez não tão desesperada. — até a esfera, e a pegou do chão, onde havia caído. Fitou por alguns instantes o item, enquanto buscava com seus pulmões todo o ar que podia, aliviado. Funcionara, ele encontrara mesmo uma possível nova espécie.
O que ele não contava, é que aquela criatura mudaria mais sua vida do que poderia imaginar.
...
Foram necessários mais alguns dias de viagem marítima para retornar à sua origem. Cinnabar Island era uma ilha do extremo sul do continente de Kanto. Apesar da suposta atividade vulcânica que poderia ocorrer, possuía uma boa localização, ao menos para o doutor. Outros pesquisadores gostavam de se colocar em cidades grandes, ou em polos de estudos científicos, mas ele especificamente gostava do clima privativo que tinha na ilha, e do caráter exótico que Cinnabar permitia com seu vulcão.
Após deixar quase todos os equipamentos de volta em seu laboratório, seguiu acelerado rumo à sua moradia. Não era muito longe, conseguia ir a pé tranquilamente. O dia estava frio, com o céu fechado em nuvens e uma fina garoa caindo na direção da ventania gelada. Sua humilde casinha era branca, tinha um teto baixo cor-de-barro e uma porta de madeira simplória.
Ele puxou uma chave e destravou a porta, entrando ansioso. Colocou as tralhas em suas mãos em um canto no chão e espiou o corredor. Sua esposa apareceu indo de encontro a ele, e por baixo da franja castanha escondia-se um par de olhos cor-de-mel acuados. Os dois se abraçaram antes de trocar quaisquer palavras, o som das gotas caindo no vidro da janela sendo o único ruído além das respirações inquietas. O abraço durou longos segundos, e parecia incomodado, hesitante.
— Estou de volta… — murmurou o doutor, com uma pausa. — Como está minha pequena…?
A mulher respirou fundo e o encarou, seus olhos melancólicos e abatidos.
— Ela piorou. — disse, simplesmente.
O pesquisador não evitou ficar cabisbaixo, revirando algumas das coisas que trouxera.
— Talvez com os exemplares de plantas que eu encontrei eu consiga fazer algum antídoto… Há espécies bem raras onde fomos e…
— Querido… — ela o tocou no braço de um jeito frágil, o interrompendo, como quem dava uma má notícia a uma criança. — Ela precisa do tratamento. Eu sei que não podemos pagá-lo, mas temos que dar um jeito… — a esposa tinha a voz fraca, e os olhos corriam perdidos pelo ambiente, procurando uma luz. — Talvez se a casa…
Ele sentia uma apreensão enorme ao vê-la assim. Suas palavras soavam com fragilidade, os olhos antes cheios de vida pareciam cansados, envolvidos por olheiras grossas como de alguém que já não tinha uma boa noite de sono havia tempos. O rosto da mulher parecia melancólico, sempre pálido no cômodo velho apenas iluminado pela pouca claridade que atravessava a janela da sala. O doutor a segurou pelas mãos, tentando transmitir-lhe uma confiança que não tinha. Sentia as tremulações das mãos de sua mulher, mas acariciava aquela pele fina com cautela.
— Eu vou dar um jeito. — disse, olhando-a fixamente. — Eu prometo.
As palavras saíram de uma forma tão automática, como se fosse a coisa certa a se dizer, que ele sequer tomou cuidado. Promessas eram perigosas, mas ele deveria fazê-lo, porque faria qualquer coisa que precisasse para ver sua filha saudável novamente. Ela fora diagnosticada alguns meses antes com uma doença rara, e apenas um tratamento extremamente específico – e caro – não muito comum em Kanto poderia dar-lhe uma chance de sobreviver. Em poucas semanas ela piorou, tendo que abrir mão da escola e de outras atividades, ficando restrita à casa. Mesmo os tratamentos alternativos tentados pelo doutor não pareciam surtir efeito.
Ele fingia que tinha a situação sob controle para sua esposa, mas era nítido que não tinha. Todos os dias aquilo lhe ocupava sua mente, aquela responsabilidade que não conseguia arcar. Cada segundo era um instante a menos no relógio da vida, e se o tempo chegasse ao final, ele jamais se perdoaria. Aquilo lhe tirava noites de sono e momentos de concentração. Mas talvez tivesse conseguido uma alternativa. Talvez.
No dia seguinte, tomou uma xícara de café puro e colocou seu uniforme habitual, caminhando até sua área de trabalho. Não era difícil encontrar, não havia tantas coisas em Cinnabar, portanto as pessoas o cumprimentavam ao longo do caminho, e sabiam apontar o seu espaço de pesquisa caso alguém pedisse uma informação. Era uma grande estrutura pintada de branco, com uma placa inconfundível na lateral, agora já meio desgastada pelo tempo:
Pokémon Lab.
Dr. Fuji
As portas de entrada se abriram automaticamente e ele fez um aceno para a recepcionista. Em seguida, seguiu para a área de pesquisa, e logo foi interceptado por um de seus principais assistentes, que aparentava estar extremamente inquieto. O rapaz segurou o doutor pelo braço, e seus olhos quase saltavam para fora do rosto. Ele nunca aparentou estar assim antes.
— Doutor, esta criatura é… Parece que nunca vimos algo antes assim. Os níveis de força… Não pode ser um Pokémon qualquer. — ele dizia, atropelando a si mesmo. — E aparentemente ele possui habilidade de mutação… Nós nunca vimos nada com essa capacidade.
O doutor Fuji folheou os relatórios que o assistente lhe dirigiu, em silêncio. O rapaz continuou a lhe dirigir palavras, mas todas escapavam pelo ambiente e eram absorvidas pelo doutor tal como o som do ar condicionado. Sua mente não conseguia focar em todos os termos escritos nas páginas, ele só conseguia capturar algumas que eram chave. Mas tudo aquilo era suficiente para ele perceber que não estava lidando com uma descoberta qualquer. Aquela criatura era completamente outro patamar. Replicação. Mutação. Regeneração. Todas as palavras grudavam em seu cérebro como se tivessem sido gritadas em seu ouvido.
— Preciso que você faça três coisas para mim. — disse ao assistente, saindo de seu transe.
— Pois não, doutor. — respondeu ele, agitado.
— Primeiro, certifique-se de capturar várias amostras do material dessa criatura. Se tudo isso for verdade… — ele murmurava, passando as folhas cheias de anexos e escritos científicos.
O assistente assentiu com a cabeça.
— Segundo, — prosseguiu. — dê prosseguimento ao teste de número 5.3, para confirmar algo que tenho em mente.
Ele estendeu o papel para o assistente.
— Por último: entre em contato com companhias que apoiam projetos científicos. — falou, respirando fundo. — Dê-lhes uma prévia da espécie que encontramos aqui.
O assistente ficou ainda mais agitado.
— Mas doutor, ainda não sabemos do que a criatura é capaz! — interveio.
— Nós não conseguiremos explorar todo seu potencial sozinhos. — rebateu o doutor. — Precisamos de apoio.
O moço ficou parado, o encarando. Geralmente o doutor Fuji era um homem cauteloso, e tomaria muito cuidado antes de anunciar uma descoberta daquele porte, ainda que seu laboratório nunca tivesse feito grandes experimentos que exaltassem o suficiente o nome daqueles pesquisadores. Porém, nas últimas semanas, esse homem empolgado e cuidadoso abria espaço para um senhor cansado e insistente, que fazia seus ajudantes mais próximos se perguntarem o motivo de tal mudança.
Ele respirou fundo.
— Apenas faça o que eu pedi. — disse, quase como uma súplica para que não fizesse nenhuma pergunta.
O assistente concordou, sem conseguir olhar nos olhos do doutor, que escondia sua feição. Apenas disse, antes de passar por uma porta e executar o que lhe fora pedido:
— E como será o nome do novo Pokémon?
Nós batizamos o novo Pokémon descoberto de Mew
...
ROUTE 17, Kalos
Presente
— Slurpuff, Cotton Spore!
— Inkay, Psybeam!
A fada não conseguiu se esquivar totalmente do golpe psíquico, parecendo ficar um pouco desnorteada com o golpe dirigido a ela. Contudo, balançou seu corpo gordo como um doce, e o que pareciam ser esporos atingiram a pequena lula, causando impacto suficiente para que paralisasse seus movimentos. Isso abriu oportunidade para que desse uma investida, e o Slurpuff conquistasse sua vitória.
O treinador retornou Inkay desagradado para sua Pokébola, enquanto uma menina comemorava do outro lado. Ela tinha o cabelo dividido em grandes mechas castanhas dos dois lados, e usava uma roupa rosa cheia de laços. Seus olhos verdes enormes e inquietos brilhavam em orgulho com o resultado da batalha, abraçando seu Slurpuff.
— Eu venci! — anunciou, feliz, mudando para um tom soberbo. — Não que eu esteja surpresa com isso, né, mas…
Atrás de si, ouviu um par de aplausos. Um garoto baixinho de cabelos ruivos, e um garoto mais alto e robusto de cabelo espetado preto pareciam elogiá-la, se aproximando após o combate ter sido concluído.
— Boa batalha, Shauna. — disse Tierno, o mais alto.
— Eu sei! — respondeu a garota, rindo.
— Você ainda precisa tomar cuidado com esses golpes psíquicos… A líder do próximo ginásio usa apenas Pokémons desse tipo. — alertou Trevor, o ruivo.
A garota fez que sim com a cabeça.
— Sem problemas. — disse. — Eu tenho treinado para isso.
— Dizem que é ela é capaz de prever acontecimentos no futuro… — ponderou Trevor.
— Será que ela consegue prever se eu vou vencer o próximo concurso de dança? — indagou Tierno.
O rapaz em seguida fez uma sequência de passos de dança, sem querer tropeçando nos próprios pés e caindo no chão. Os amigos apenas assistiram à cena sem nenhuma surpresa, como quem estava acostumado com aquilo.
— Acho que não precisamos dela para prever isso… — murmurou o outro.
...
CELADON CITY, Kanto
Algumas décadas atrás
O doutor Fuji entrou na sala de reuniões após algumas batidinhas e teve um pressentimento não muito positivo. O cômodo era extenso, mais do que os outros em que costumava se reunir. Contudo, era escuro: as lâmpadas modernas no teto não traziam tanta claridade, pareciam prezar por um ambiente à meia-luz. Em uma parede oposta à porta que entrou estava um imenso vidro fumê com vista para a parte metropolitana mais movimentada de Celadon. Os imensos prédios cortavam o céu em um espetáculo urbano, e um homem alto assistia serenamente a paisagem de cidade que se estendia até onde seus olhos alcançassem.
— É incrível ver o que o ser humano foi capaz de criar do zero… — ponderou o homem com uma voz grave e imponente, notando a presença do doutor Fuji e os tirando da quietude.
O doutor o acompanhou, encostando sobre a janela a observar aquela cidade. Era uma das maiores metrópoles de Kanto, a selva de pedra se estendia até onde seus olhos tentassem percorrer. As pessoas, muito abaixo, se moviam como insetos indefesos, correndo contra o tempo em suas vidas monótonas pelas ruas, que se interligavam como veias de um corpo cinzento.
— Como um cientista, sou obrigado a concordar. — ele sorriu, tentando ficar mais confortável.
O homem se virou para ele com um sorriso no rosto também. Sua expressão era intensa: os olhos desafiadores fizeram o doutor Fuji inconscientemente desviar seu olhar. As grossas sobrancelhas arqueadas pareciam provocar, ainda que não fizesse nada demais. Ele juntou as mãos enormes em uma pirâmide, depois de ajeitar seu terno e se sentar na mesa de vidro da sala de reuniões. O doutor o acompanhou.
— Obrigado por conseguir um tempo para conferir minhas pesquisas. — disse Fuji.
— Eu que devo agradecê-lo, doutor. — respondeu o homem. — Soube que anda muito requisitado ultimamente.
O pesquisador coçou a cabeça, desconfortável, embora soubesse se tratar apenas de uma brincadeira.
— Sabe como é. — respondeu, fingindo descontração.
O outro deu uma risada discreta, e logo ficaram em silêncio novamente, mas era um silêncio perturbador e sufocante. A sala era quase completamente isolada dos ruídos ao redor, de maneira que o doutor conseguisse ouvir sua respiração ofegante, a saliva empurrada deslizando pela garganta, o coração batendo de maneira descompassada, seus pés inconscientemente se movendo em um tique de nervosismo. O outro não parecia fazer nenhum barulho, apenas o fitava da maneira mais crua possível com seus olhos negros como buracos profundos cujo fim não se era possível avistar. Ele se perguntava se ele conseguia ouvir toda sua inquietude, e se essa ansiedade lhe era divertida.
— Mostre-me. — disse ele com simplicidade.
O doutor engoliu em seco e puxou um envelope, pegando alguns rascunhos e os espalhando na mesa.
— Como pode ver, essa é a anatomia do novo Pokémon. — disse. — O chamamos de Mew.
— Não é exatamente como o imaginei. — respondeu o outro observando o desenho da criatura.
O doutor respirou fundo, tomando coragem.
— A melhor parte vem agora. — anunciou.
Ele puxou outro envelope e estendeu diversos relatórios, repletos de fotografias e anotações datilografadas. O homem os pegou nas mãos enormes e ficou a folheá-los, enquanto o doutor o orientava.
— Como pode ver, esse é um exemplo de tecido de Mew. — apontou para uma gravura com sua caneta. — As células aparentemente possuem um número incrível de genes não ativados, que correspondem ao código genético da maioria dos Pokémons que testamos.
Ele indicou uma outra página, e o senhor foi para ela.
— Além disso, há várias células totipotentes que se diferenciam quando expostas a uma criatura diferente. — prosseguiu. — E a parte mais incrível: o código fica armazenado no DNA, como você viu, e as células se regeneram para a forma inicial.
O homem ouvia tudo em silêncio, lendo as páginas brevemente enquanto o doutor falava. Ele tentou resumir todas as informações que lhe foram dirigidas, voltando seu olhar ao pesquisador:
— É um Pokémon que pode copiar o código genético de qualquer outro. — sintetizou.
— Mais que isso, senhor. — falou Fuji fazendo uma pausa, inquieto. — Ele talvez seja a origem de todos os Pokémon.
O homem ficou quieto, digerindo todas as informações. Aqueles não eram dados quaisquer: elas explicavam alguns dos maiores mistérios da humanidade, se de fato fossem realidade. Ele apenas encarava o doutor, impassível.
— Vocês ainda têm o Pokémon? — inquiriu.
Fuji se recolheu.
— Infelizmente ele escapou. — falou, logo adicionando informações. — Porém, conseguimos recolher seus dados e extrair tecidos o suficiente para muitas pesquisas.
O outro aproximou seu rosto, falando em um tom mais baixo.
— O suficiente para uma… — ele parou de falar e disse o final da frase quase que como um sussurro. — Cópia genética?
— O senhor diz… Clonagem? — indagou Fuji em sequência.
Após receber um aceno afirmativo, ficou alguns instantes refletindo.
— Bem, teoricamente sim. — falou, em seguida completando. — Porém, os equipamentos necessários para isso não estão no orçamento do meu laboratório.
— Você busca financiamento. — concluiu o outro.
Fuji concordou, sem rodeios.
— Em troca da maior descoberta científica do século. — persuadiu.
Ele entregou um modelo de contrato para o dono da sala, que deu uma olhada rápida. Em seguida, sem ler com atenção, deixou a página cair na mesa e voltou a olhar para o pesquisador.
— Eu poderia fazê-lo. — disse. — Poderíamos equipá-lo com todo o necessário e mais moderno, e enviar uma equipe de cientistas altamente qualificados. — falou. — Se aceitassem fazer parte de nossa empresa.
Ele entregou um outro contrato para o doutor, que olhou ligeiramente e ficou um tanto decepcionado.
— Mas isso significa que o senhor quer comprar o laboratório. — disse, jogando o contrato de volta. — Não posso fazer isso. Sinto muito, senhor, mas tenho recebido grandes propostas e que não envolvem vender o meu nome. — disse ele, juntando as coisas e se levantando.
O outro subitamente bateu a mão na mesa, prensando uma das folhas que Fuji tentou puxar, surpreendendo-o. O barulho do golpe no vidro ressoou pela sala, e ficaram assim por alguns momentos desconfortáveis.
— Você ainda receberá todo o mérito por suas descobertas. — explicou, puxando em seguida um cheque do bolso e o jogando para o pesquisador. — Escreva aqui o quanto de dinheiro você acha necessário. Mais que qualquer proposta que te ofereceram. Nós pagamos tudo.
Fuji ficou a observar aquele pedacinho de papel. Tinha quase tudo preenchido, menos o valor. Como um pequeno pedaço de papel, tão frágil e simples podia deixá-lo tão desestruturado e obsessivo? Tinha receios, seu corpo demonstrava todo o nervosismo possível demonstrando que havia algo errado. Mas ele não conseguia tirar a imagem de sua filha da cabeça. Assim seria possível tratá-la, com mais certeza que qualquer outra proposta que recebera antes. O homem estava sério, e parecia provocá-lo com suas sobrancelhas enormes. Sua filha.
Por fim, o doutor Fuji destampou sua caneta e escreveu um generoso valor no cheque, em seguida assinando seu nome no contrato com a mesma caneta em uma grafia trêmula.
...
ANISTAR CITY, Kalos
Presente
Uma brisa gélida noturna soprava por entre os prédios no lado leste de Kalos. Os postes acesos se estendiam até os limites da rua, terminando em uma saída para um canal, onde a água fazia um leve barulho de ondas quando se movimentava com o vento. Já era tarde, e a rua estava praticamente deserta. Os saltos de Olympia faziam um grande barulho quando batiam nas pedras antigas da calçada, e a mulher aguardava impacientemente o grande portão de seu ginásio se fechar para trancá-lo. Não era frequente que ela se encarregava de fechar o próprio ginásio, mas naquele dia fora necessário.
Um ruído ao longe chamou a intenção da líder, que se virou em posição de alerta instantaneamente. O coração da mulher bateu mais rápido, e ela não evitou um ligeiro susto quando os passos tornaram-se mais nítidos e foi capaz de perceber alguém se aproximando. Respirou aliviada ao ver que era apenas um trio de crianças, correndo em sua direção.
— Moça, espera! — gritava Shauna, parando em frente a ela extremamente arfante, tentando se recuperar. — Por favor, não fecha! Atrasamos no caminho, mas eu preciso batalhar contra a líder de ginásio!
Olympia franziu o cenho.
— Eu sou a líder de ginásio. — retorquiu ela.
— Ah, que ótimo! Achei que já tivesse ido embora! — exclamou a garota.
— Isso não quer dizer que eu aceite seu desafio. — interveio a mulher para os três. — É quase meia-noite! O ginásio já está fechado. Se quiser batalhar, deverá marcar um horário na recepção a partir de amanhã.
Shauna preparou-se para discutir, mas Trevor tocou-lhe no ombro e fez sinal para que não o fizesse. Os três dirigir-se-iam para o Centro Pokémon. A líder ficou de braços cruzados vendo-os partir, soltando um longo suspiro de exaustão. Em seguida também seguiu seu rumo, caminhando pela rua solitária a passos lentos, passando pelos postes de luz fraca.
Ouviu o som de motor e olhou discretamente para trás, vendo um táxi frear próximo de seu ginásio. Mais uma vez encheu seus pulmões de ar e soltou lentamente. Um novo treinador querendo desafiá-la àquela altura da noite era um teste para sua paciência. Contudo, o táxi logo partiu, e enquanto a mulher se preparava para seguir sem sequer olhar para trás, ouviu um barulho alto quando a pessoa que desceu do carro esmurrou os portões do ginásio.
Olympia foi em direção do indivíduo e encontrou uma moça agachada contra as portas, suas mãos ainda estendidas no portão depois do impacto. Quando ela chegou perto o suficiente para que a luz do poste iluminasse a figura, percebeu que a moça era pálida e de cabelos azuis, dirigindo-lhe seus olhos misteriosos e vermelhos como rubis. Ela parecia subitamente satisfeita ao vê-la.
— Senhora Olympia… — ela se levantou, recompondo-se. — Olá. Meu nome é Sabrina.
Olympia assentiu com a cabeça.
— Eu sei quem você é. — disse, simplesmente. — É meia-noite, e você está na porta do meu ginásio. Sem rodeios, por favor, eu estou realmente exausta. — falou a líder.
Sabrina a fitou.
— Sei que a senhora é dotada de certas habilidades especiais, e creio que elas poderiam ajudar a…
— Querida, essas coisas são apenas… Rumores criados por treinadores. — interrompeu ela, fazendo um gesto com a mão. — Não acredito que viajou de Kanto a Kalos por causa dessas bobeiras.
A mulher preparou-se para caminhar de volta, mas todos os postes da rua subitamente se apagaram. Sabrina permanecia impassível parada ao longe, observando a líder de Kalos, cuja respiração começava a pesar. Ela foi obrigada a parar e se virar de volta, e encontrou a moça de Kanto a encarando na penumbra com seus olhos vermelhos como uma criatura infernal à espreita de sua presa.
— Eu sei que você também deve ter tido visões dele. — disse Sabrina, quase que assoprando as palavras. — E saiba que de fato há um perigo bem grande se aproximando. Maior que nós somos capazes de prever.
Olympia ficou quieta e permitiu que o som do vento assoviando fosse o único ruído no ambiente por alguns momentos. Uma presença imprevisível e incomparável era sentida não muito longe, e parecia que seus palpites pareciam mais concretos que nunca, como se aquela moça viesse como uma mensageira confirmando suas hipóteses. Ela quebrou a quietude amedrontadora com uma voz firme e ligeiramente cansada.
— Aceita um chá? — perguntou ela, séria. — Deve ter sido uma viagem longa.

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