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Notas do Autor - Capítulo 16
Bem-vindos, senhores, ao décimo sexto capítulo de Aventuras em Kalos!
Hoje começamos de uma maneira diferente. Não foi uma manhã ensolarada que anunciou o início de nosso capítulo, desta vez. Não. Hoje enfrentaremos, durante a madrugada, uma rota onde vive um antigo espírito. Apesar de ter sido um capítulo sombrio pela temática, não o considero de terror. Faz tempo que vocês perguntam: quem vai ser o próximo Pokémon do Calem? Afinal, ele é nosso treinador e era o com menos Pokémons de todos! Eis que a resposta chegou. Talvez o capítulo tenha suscitado algumas dúvidas na mente de vocês, e gostaria de esclarecer desde já algumas que possam ter surgido.
Afinal, o Honedge é uma espada, um espírito, ou um Pokémon? Ele se comunicou/comunicará com o Calem?
Quanto à primeira pergunta, deixo a critério de vocês. Há Pokémons que possuem uma história própria, algo além da imagem que vemos em um jogo. Os Pokémons fantasmas considero alguns destes. São normalmente rondados de lendas e tragédias, muitos destes tendo tido uma vida anterior à de Pokémon. Eu gosto de trabalhar com isso, e podemos dizer que o Honedge é um espírito aprisionado dentro de uma espada (se é de uma pessoa, de um Pokémon, ou sei lá o quê, aí fica a duvida para vocês -q). Não é algo exatamente que eu tenha criado 100%, porque depois descobri que a descrição da Pokédex sugere exatamente isso.
Agora, sobre a comunicação com o Calem, isso é relativo. Este capítulo é algo para mexer com a cabeça de vocês. As descrições brincam. É dífícil deduzir até onde as coisas aconteceram, até onde se passaram na mente de nossos personagens, até onde são pensamentos de um narrador, até onde são peças pregadas por um espírito. Aqueles que se interessarem podem buscar um pouco sobre a cadeia evolutiva de Honedge, que descobrirão coisas curiosas sobre esses Pokémons, inclusive que são capazes de controlar pessoas. Para aqueles que não curtem as coisas muito subjetivas, podem ficar tranquilos que no próximo capítulo voltamos para nossa realidade palpável! E não veremos o Honedge distorcendo os pensamentos do Calem ou suas ações (será?) de novo tão brevemente, esta foi uma ocasião única, para que ambos se encontrassem e passassem a seguir jornada juntos. Capiche?
Sobre planos antigos
Agora, se me pergmitem dizer, esse é um dos Pokémons mais legais de nossa aventura, aos meus olhos. Ao lado tem um print de uma conversa minha com o Canas, onde falo da possibilidade de incluí-lo na aventura. Reparem que a data é do final de 2013, mas mesmo assim, ela já estava em minha mente desde os primeiros momentos quando Honedge foi revelado (veja aqui). Assim, podem imaginar como eu queria ele aqui. Não é apenas um Pokémon fortíssimo, como um guerreiro experiente para nossa guilda, cujas origens e existência são sempre carregadas de mistério; Seu gijinka considero um dos mais legais até agora. Então preparem-se para quando virem esse senhor em ação pra valer: ele sabe o que faz, e está disposto a arriscar tudo para ter sua vingança.
Resultado da Enquete
(Ignorem que a imagem bugou) |
Quis fazer essa enquete por curiosidade, sem relacionar nada com a história. Perguntei porque todos sabem como comentários são sempre bem-vindos, e para ser sincero me surpreendi de ver que tem bastante gente que acompanha a fic sem comentar. Não digo que foi uma surpresa ruim, muito pelo contrário. Se continuam acompanhando à essa altura do campeonato, julgo que tem interesse pela história, e para mim isso basta. Mas faço-lhes um convite (e talvez um apelo) para quando se sentirem confortáveis deixarem um comentário. Ocasionalmente posso demorar um pouquinho por causa da disponibilidade, mas estou fazendo o possível para responder todos ultimamente, porque acreditem: cada pequeno comentário eu leio e admiro muito, e isso não é de hoje. Àqueles que já comentam, ocasionalmente ou frequentemente, agradeço pela paciência (normalmente postar comentários dá trabalho. Escrever, verificação de palavras... ~rsrsrsrs) e pela força de sempre estarem dizendo sempre o que gostam, o que não gostam, e fazerem suas suposições (eu sempre me divirto).
De qualquer forma, comentando ou não, agradeço pelo apoio que sempre dão aqui no AeXY, e para toda a Aliança Aventuras!
Capítulo 16
Capítulo 16
Entre a Cruz e a Espada
Uma
ventania fria soprava. A lua já não estava mais em seu auge, mas dominava os
céus enegrecidos daquela noite. Àquele horário da madrugada, em rotas mais
afastadas, o movimento ainda era nulo, senão por alguns Pokémons noturnos que
utilizavam aquele momento do dia para praticar suas atividades.
O
Parfum Palace dormia. Quando já não havia visitas transitando pelos corredores,
estes ficavam vazios e até mesmo sombrios. O único barulho, de fato, era o eco
dos roncos do tio Louis, que atravessava as paredes e alcançava quase todos os
pontos do palácio.
Enquanto
todos estavam estáticos, em profundo sono, alguém fez um ligeiro movimento.
Calem suspendeu as costas, sentando-se na cama, de um instante a outro. Ficou
por alguns momentos sentado, encarando a parede à sua frente, sem fazer
qualquer movimento.
“Eu estou aqui. Venha até mim.”
Calem
moveu as cobertas para o lado, dando espaço para que seus pés deslizassem para
a beira da cama, levantando-se. Estava vestindo um pijama azul celeste, fino, e
não o trocou ao se levantar. Não pegou seus chinelos, permaneceu descalço.
Apenas deu alguns passos, transpassando por Serena e Charlie e chegando até a
porta do quarto onde dormiam, onde deixou.
O
rapaz andava de maneira sistemática, e nada falava. O som de seus pés descalços
no tapete do corredor era quase inaudível, de maneira que não se percebesse
qualquer movimento.. Parecia estar sob algum tipo de transe. Ainda assim,
desceu as escadas e chegou até a porta de entrada do palácio. Ficou por alguns
instantes a encarando, também.
Venha.
Com
uma forte rajada de vento, as portas escancararam, de forma que o garoto
pudesse seguir em frente. Seus pés livres alcançaram a fria pedra que cobria o
chão externo ao Parfum Palace. Sem hesitar ou mudar a expressão do rosto, ele
continuou caminhando, sem qualquer menção, ou qualquer sinal de emoção. Seus
olhos, apesar de abertos, talvez nem enxergassem direito.
Concomitantemente,
no quarto, Serena moveu-se em seu colchão. Abriu pouco seus olhos azuis, e
deparou-se com a cama vazia de Calem. Ainda que o sono lhe tentasse forçar a
fechar as pálpebras, abriu-as com mais intensidade, notando a verdadeira
ausência do primo. Como um reflexo, verificou um relógio, e notou que passara
pouco das quatro da manhã.
A
menina colocou-se de pé, caminhando até a porta do quarto e tentando olhar pelo
corredor, inutilmente, uma vez que estava tudo tão escuro que sequer conseguia
enxergar alguns metros à sua frente. Em seguida foi até Charlie, em uma
terceira cama, e tocou suavemente o ombro do menino, que dormia profundamente.
Charlie
abriu os olhos verdes sutilmente, enquanto ouviu a voz doce, apesar de ainda
exausta, de Serena:
—
Charlie. — ela chamou. — Charlie. — chamou mais alto, e agora ele de fato a
encarava. — O Calem sumiu, mas as coisas dele estão aqui.
Charlie
virou-se na cama, puxando as cobertas mais para si.
—
Deve estar só se lavando, ou limpando as camas. — disse, tentando voltar a
dormir, com uma voz sonolenta.
—
Não. Sinto que alguma coisa ruim está acontecendo. — ela disse, enquanto
encarava pela porta o corredor escuro novamente.
O
rapaz voltou a se virar para ela, fitando um relógio próximo com os olhos
entreabertos.
—
Serena, são quatro horas da manhã. — resmungou.
—
Eu vou sozinha procurá-lo, então. — disse a menina, com simplicidade.
A
garota começou a colocar suas roupas por cima do pijama, e a vestir suas botas.
Charlie tentava virar-se para dormir, mas sabia que não conseguiria.
—
Por que ela sempre me convence? — reclamou para si mesmo, enquanto se
levantava.
Serena
deu um sorrisinho discreto de vitória, e aguardou que o garoto calçasse alguma
coisa e vestisse uma camiseta.
Juntos,
pegaram uma lanterna, cujo tio Louis havia oferecido caso precisassem. Como o
Parfum Palace era uma estrutura antiga, não havia instalações elétricas, e
àquele horário algumas velas já haviam se apagado. Restava apenas um palácio
antigo cheio de confusos corredores e cômodos sinistramente escuros.
Charlie,
com a lanterna na mão, foi na frente, enquanto Serena o segurava pelo ombro.
Ainda que soubessem que estavam sozinhos, em segurança, ainda era um ambiente
incômodo. Apesar dos sons do ronco do tio de Serena, era como se suas mentes
lhes pregassem peças, e fossem capazes de ouvir ao longe o tilintar de espadas
se chocando, os brados de guerra e os gritos de agonia. Talvez fosse apenas
impressão.
Passaram
pelo quarto do tio Louis, com a porta entreaberta. O senhor estava deitado de
barriga para cima, com uma máscara de dormir — ainda que estivesse uma
escuridão quase total no ambiente. — em um intenso sono.
—
Esse lugar é um tanto sinistro de noite. Como seu tio consegue dormir aqui? —
perguntou Charlie, sussurrando.
Serena
observou a profundidade do sono do tio.
—
Ele não parece ser do tipo que tem problemas com isso. — brincou ela,
cochichando.
Ao
chegarem ao fim do corredor, focaram a lanterna nas escadas, e as desceram. A
luz parecia oscilante, em virtude da mão de Charlie, que inevitavelmente
tremia. Estavam sozinhos, é claro, mas ainda assim levavam ligeiros sustos ao
se depararem com algumas estátuas ou outros objetos de formato curioso. O
menino parou por um instante, pedindo silêncio para Serena.
—
Serena, está ouvindo esse barulho? — perguntou, baixinho.
A
menina fez uma concha com a mão em volta do ouvido, passando a reparar por
alguns instantes.
—
Vento. — concluiu ela. — E está forte.
—
A porta deve estar aberta. — completou ele.
Passaram
pelos últimos corredores até chegarem à entrada, onde observavam a porta de
entrada escancarada, enquanto uma corrente fria de vento entrava e movia as
coisas ao redor. Da porta conseguiam observar que a noite estava com raras
estrelas, e a lua estava suavemente encoberta pelas nuvens.
—
Por que ele saiu? — perguntou Serena.
—
Vamos descobrir. — disse Charlie colocando a lanterna em uma mesinha, e
seguindo para fora.
Do
lado de fora, já não se ouvia, claramente, o ronco do tio Louis. Em
compensação, agora ouviam ao longe o som de alguns Pokémons que viviam nas
rotas próximas. Caminharam pelo chão bicolor externo ao palácio, até chegarem
ao portão de entrada. Serena olhou para trás, reparando no suntuoso palácio
dourado, que de noite ainda parecia muito impositivo, e talvez até intimidador.
Charlie comentou, sobre o portão:
—
Está aberto.
A
garota estranhou, uma vez que o palácio possuía alarmes, e mesmo alguns
guardas, mas não havia ninguém além dos dois no momento. Não tinham ao certo
como saber como Calem conseguira abrí-lo Apenas o atravessaram, deparando-se
com o exterior do palácio.
Estava
consideravelmente frio. A grama estava um pouco lisa pelo orvalho. Ao longe
ouvia-se o som de Pokémons se remexendo e caçando. O local ao longe era um
pouco sombrio, pois não se podia avistar muito entre as árvores e arbustos
condensados na paisagem. Contudo, viam alguém caminhar cada vez mais distante,
a passos lentos e vestindo pijamas.
—
Não é ele lá? — apontou Serena, semicerrando os olhos.
—
Parece que sim. — assentiu Charlie.
Ambos
partiram correndo em direção ao rapaz. Os passos eram um tanto sutis, na
esperança de não escorregarem, enquanto lutavam contra o frio. Os batimentos
cardíacos concorriam com os ruídos ao longo da vegetação que ficava cada vez
mais próxima. Calem, em mais alguns passos, entraria dentro de um conjunto de
altos arbustos, o que seria uma escolha perigosa, dado o horário.
—
Calem! Calem!
Charlie
alcançou-o primeiro, colocando a mão em seu ombro e o virando. Soltou a mão
imediatamente ao levar um susto. O garoto não parecia consciente. Os olhos
estavam fundos e sem foco, enquanto a expressão estática do rosto não esboçou
qualq uer reação mesmo após ser
abordado. Quando Charlie o soltou, o rapaz continuou andando à frente da mesma
maneira mecânica.
—
O rosto dele… O que houve com o rosto dele? — indagou a menina.
—
Isso está ficando muito estranho… — disse Charlie, um tanto ofegante. — Serena,
olhe para os pés dele.
—
Ele está… — a garota observou. — Descalço…
Ambos
engoliram em seco. Calem nunca caminharia descalço no mato, especialmente
durante a noite. Charlie tentou segurá-lo, mas ele continuava caminhando para a
frente, quase hipnotizado, como se buscasse algo.
—
Não consigo puxá-lo.
—
Calem, me responda. — disse Serena, posicionando-se à frente do garoto. — Calem.
Primo. — mesmo que continuasse chamando, ele não atendia.
Foi
quando ouviram outros sons de passos. Ao longe, apesar da escuridão, conseguiam
localizar alguns pontos de luz caminhando — talvez pessoas carregando velas. —
em uma direção comum. Quando se distraíram para observar, Calem seguiu seu
trajeto, parando a um passo de uma alta vegetação. Em seguida seguiu em frente,
mesmo assim, desaparecendo em meio às folhas.
Já
não conseguiam encontrá-lo pela vista, e tampouco poderiam persegui-lo entre o
matagal, visto que durante a noite poderia esconder criaturas suficientemente
perigosas para espantar a ideia. Um vento frio e forte soprou, balançando as folhas
em uma harmonia perturbadora. Serena colocou a mão no rosto. Seu primo nunca
agiria assim.
—
Nós o perdemos. — falou, com uma voz frágil. — Charlie, estou ficando com medo.
—
Não se preocupe, eu estou aqui. — falou ele, a abraçando, tentando esconder que
seu coração também batia mais rápido, mas por motivos ruins.
Tentando
contornar a vegetação alta, foram de encontro às pessoas ao longe, um tanto
hesitantes. Todas caminhavam em silêncio, carregando consigo uma vela e algum
objeto chamativo: algo para comer, alguma veste, flores, entre outros.
Decidiram vencer a dúvida, indagando a uma senhora que transitava na mesma
direção dos demais:
—
Senhora, o que está acontecendo?
Tinham
medo de que ela repetisse o comportamento de Calem. Por sorte, ela os fitou, serenamente.
—
Vocês não são daqui, rapazinhos?
Ambos
fizeram que não com a cabeça, um pouco aliviados.
—
Espero não assustá-los com essa história… — ela sorriu, respirando fundo. —Mas
há um espírito que perturba nossa vila, nas proximidades dessa rota.
Os
dois engoliram em seco. Sem ao certo saber como reagir, apenas ouviram a senhora
continuando os relatos.
—
Incomoda nosso sono, assombra nossa vila, causa pequenos desastres… — listou
ela. Uma vez por mês, então, nos reunimos para trazer oferendas, esperando que
ele descanse.
A
ideia era perturbadora, mas às quatro e meia da manhã, perseguindo um primo
hipnotizado em meio a uma rota, nada mais parecia poder surpreendê-los.
Ocasionalmente Serena dava beliscões sutis em seu braço, imaginando se não
estava dentro de um pesadelo. Talvez fosse tudo coisa de sua cabeça, afinal de
contas.
—
E por que vocês não se mudam? — perguntou a menina, simplesmente.
A
senhora deu uma risada um pouco sem jeito. Normalmente aqueles que formavam
vilas em lugares perigosos ou em meio a rotas não tinham grandes condições de
morar em outros lugares. Charlie, sabendo disso, deixou a senhora ir, mudando
de assunto para com a menina
—
Não que eu acredite nessa coisa de espíritos, e tudo mais… Mas será que isso
tem alguma coisa a ver com o Calem? — perguntou.
—
Só tem um jeito de saber.
Optaram
por seguir o fluxo. Havia algumas poucas dúzias de pessoas, marchando lentamente.
Entre eles, primordialmente idosos, mas alguns adultos também. As crianças
possivelmente haviam sido deixadas em casa. O grupo seguia entre um caminho de
terra ao qual a vegetação cobria ambos os lados. Era tão densa que não se podia
avistar o que havia por trás, e ocasionalmente as folhas atravessadas tocavam a
pele de quem transpassava, causando cócegas incômodas, como se fossem dedos que
provocavam quem se aproximava.
Alguém
sussurrou:
—
Ele está ali.
Perceberam
uma área mais espaçada entre as plantas, ampla suficiente para que todos se
dispusessem em círculo. Tentando desviar das pessoas, os dois procuraram um
espaço vazio para se colocarem. Afinal de contas, qual era a aparência de um
espírito?
—
É uma… — disse Charlie, achando uma brecha. — Espada…?
O
pequeno círculo de pessoas entornava uma rocha antiga, com um objeto fincado em
seu centro: uma espada. Ela parecia uma das expostas em museus e no Parfum
Palace, com detalhes antigos, apesar de parecer bem conservada, diante das
condições. Tinha um detalhe em seu guarda-mão, parecido com um olho, o que a tornava
perturbadora.
—
É um Honedge. — explicou um senhor, ao lado, que ouviu o comentário. — Diz a
lenda que quando um guerreiro morre, e seu espírito não consegue descansar, sua
alma é aprisionada em sua espada. — explicou. — Há séculos este Honedge está aqui,
preso àquela pedra.
Eles
observaram as pessoas depositando suas oferendas próximas à pedra.
—
Isso é um tanto sinistro. — comentou o rapaz. — Parece que tem vários outros desse
por aqui. — observou o som de criaturas transitando em volta, possivelmente
outros Honedges.
—
Eles não são o problema. — afirmou o senhor.
—
Por que ninguém tentou tirá-lo de lá? — perguntou Serena.
O
senhor virou-se para ela.
—
Ninguém nunca conseguiu. — falou. — Quando alguém tenta tocar um Honedge sem
sua permissão, o espírito drena totalmente a energia de vida da pessoa.
Quando
todos depositaram o que tinham em volta da pedra, a senhora encontrada
primeiramente por Charlie e Serena assumiu a frente, abaixando-se em forma de
respeito ao Pokémon. Com a voz um pouco trêmula, disse:
—
Trouxemos isto para o senhor… Sei que não é muito, mas foi o que conseguimos
neste mês. — ela parou por alguns instantes e deu um passo para trás.
Sem
qualquer um para proferí-la, uma frase soou dentro do ouvido de todos, ecoando
com uma voz perversa e horripilante:
“O que quero já está aqui.
Portanto, vão embora”
Um
ruído metálico agudo e incômodo ecoou por toda a rota em um volume alto e
intenso — talvez um golpe conhecido como Metal
Sound. Todos saíram correndo desordenadamente tentando tapar os ouvidos,
enquanto gritavam, assustados. Charlie preparou-se para seguir o mesmo destino,
mas Serena o segurou pelo braço.
—
Charlie… É o Calem.
O
ruído cessou. De dentro do matagal denso, Calem saiu normalmente, quase intacto
— se não por algumas sujeiras e rasgos em seu pijama, frutos da paisagem cheia
de obstáculos que enfrentara. — em direção à espada. Parou à frente do Pokémon,
e assim ficou, por alguns instantes. Charlie e Serena gritavam para que os
ouvisse, mas o garoto não ouvia nada, pois sua mente estava ocupada demais para
escutá-los.
Calem P.O.V
Se é apenas um sonho, por que não
consigo acordar?
Não havia nada. Apenas um solo
terroso em um tom de cinza, contrastando com um céu mesclado entre um vermelho
rubro e um tom de roxo escuro. O único além de mim era um homem — se é que
posso dizer que realmente era. — sentado em um trono a certa elevação de mim.
Não consegui ver seu rosto, ou qualquer parte de seu corpo, porque vestia uma
armadura completamente. Só ouvia uma voz por dentro do metal, que soava até
meio ecoada.
— És um prazer conhecer-te, jovem
rapaz. — disse, fazendo um sinal com sua mão. — E creio que prazer ainda maior
és estar conhecendo-me.
Vendo seu convencimento, e sua
linguagem um tanto arcaica, não vi motivos para estender qualquer conversa.
— O que quer de mim? — indaguei
de uma vez.
Ele soltou uma risada descarada.
— Por que a pressa? Quando tu és
um espírito cuja parcela da eternidade passou estático, vê que o tempo não é
tão manipulável assim. — falou, com tanta naturalidade que quase não percebi
que o significado de suas palavras era perturbador.
— O que quer de mim? — insisti.
Ele parou de rir, substituindo
tudo por um tom de voz imperativo.
— Por tua insolência, rapaz,
minha vontade seria de castigá-lo, como outrora teria feito, de forma que te
arrependestes amargamente. — disse, e permaneci com a mesma expressão neutra no
rosto, ainda que por dentro ardesse em medo. Ele amoleceu um pouco a voz. — Todavia,
creio que são outros tempos, e partilhamos de comuns interesses.
Claro que eu sempre compartilho
interesses com um homem de armadura que fala como se estivesse séculos atrás.
Não que eu reclame de um bom vocabulário — o prefiro, na verdade, em detrimento
de um vocabulário chulo.
— Estou ouvindo. — falei,
interessado.
Ele suspirou — eu ouvi de dentro
do capacete. — e começou a contar, em tom quase histórico:
— No tempo passado, fui um nobre
guerreiro. Se me permite, na verdade, um rei. — só então percebi algo como uma
coroa, um tanto acabada, em sua cabeça. — Toda batalha, todavia, é carregada de
perdas. E numa destas, perdi minha vida.
Mais perturbador do que já
estava, só descobrindo que ele estava morto. Fiz uma expressão involuntária que
não sei definir como foi, mas a julgar por sua resposta, creio que não foi boa.
— Não chora por mim, que já faz
certo tempo. — disse despojadamente. — Que um dia a Ave da Destruição
carregaria minha alma eu já tinha consciência. — falou, como se não se
queixasse de sua morte. — Porém, o que provocou-me foi a forma com que
ocorrera.
Ele parou de falar, e deduzi que
queria que eu perguntasse:
— E como ocorreu?
— Pelas mãos de um inimigo
histórico, na frente de meus soldados. — respondeu, enfim, com um ódio
disfarçado. — Perdemos, claramente, a batalha, e toda a guerra.
— Triste história. — falei com
falsa piedade. Ele ignorou.
— Minha espada, meu maior
símbolo, fora cravada na pedra que verás. E, claro, faleci. — não me diga. — ficando
aprisionado a ela. A amarga vingança que me tomou parece ter sido o principal
esqueleto que sustentou minha permanência neste mundo.
O encarei, esperando para ver
onde queria chegar. Sonhos às vezes são bizarros.
— Posso fazer muita coisa nesta
forma etérea, jovem rapaz. Contudo, nem tantas quanto gostaria. — disse ele com
certo pesar. — Não posso deixar este objeto ao qual estou atrelado, nem
tampouco sair atrás de minha vingança de forma desordenada e insensata. — não
sabia a qual objeto se referia, mas assenti. — É cá que tu entra.
— Com todo o perdão, não entendo
como eu me encaixo nessa história, vossa majestade. — o tratamento também
carregava uma falsa e irônica admiração, mas se ele percebeu, não disse nada.
— Sei bem onde está meu antigo
adversário. Pelos próprios motivos, também neste mundo ainda permanece. —
falou, com certo gosto. — Indo atrás dele, terei a oportunidade de finalmente
descansar em paz pela eternidade. — me parecia um bom plano. — Todavia,
alcançá-lo não és uma tarefa fácil para um Pokémon.
Àquela altura já não entendia o
que aquilo era: um homem, um espírito, ou um Pokémon. Apenas assenti, esperando
para ver onde aquilo terminaria.
— Está ele entre os grandes. A
Elite dos 4, conforme chamam-lhes. — naquele momento minha atenção fora
atraída. — Curioso é o nome, mas não entrarei no mérito disso. A questão é que
há apenas um jeito de alcançá-lo, seguindo as regras tradicionais que ainda se
aplicam: um treinador enfrentar a Liga, na companhia de seus guerreiros.
— Entendo onde quer chegar. —
disse. — Espera que eu, treinador, o leve comigo, — supus que era um Pokémon. —
para que sua majestade vingue-se de seu antigo rival em um dia futuro?
— Sinteticamente, entendeste a
mensagem.
— O que exatamente eu ganho com
isso? Já que diz que é um acordo de interesse para ambas as partes.
— Ora, meu jovem rapaz. — ele
riu. — Acredite nas palavras de um rei, especialmente naquele que já partiu, e
que observa o mundo há séculos: sabemos reconhecer alguém que está destinado à
grandeza. — por um momento me senti esquisitamente lisonjeado. — Teu presente
pode ser medíocre, mas teu futuro ainda reserva-te muito, crê. Como uma pedra
que precisa ser lapidada.
Fiquei a encará-lo, sem saber ao
certo o que dizer. Destinado à grandeza. Potencial. Não tinha porque acreditar
nele, mas queria. Ele parecia saber do que estava falando.
— Para tal, precisa de bons
aliados. — concluiu. — Como guerreiro que já passou por muito, digo-lhe para
confiar em minhas técnicas e conhecimentos. Creio que para tu és uma vantagem
vezes maior ter-me a teu lado, visto que tantos gostariam deste privilégio. —
falou sem qualquer humildade. — Peço apenas para que leve-me até minha
vingança, em troca de tudo o que posso oferecer-te ao longo do trajeto.
Fiquei por alguns momentos
atordoado e pensativo. Agora o impaciente era ele:
— A ideia de me subjugar a um
garoto insolente e estúpido me é repugnante, acredita. — falou com certo nojo,
como se jogasse fora todos os elogios que me dirigira momentos antes. — Se
pudesse escrever minha própria história, jamais a colocaria desta maneira.
Contudo, não somos totais autores deste livro que chamamos de vida. O passar
dos séculos te faz repensar algumas prioridades. — disse ele.
Após a fala agressiva, amansou um
pouco a voz — embora esta nunca fosse totalmente branda, sempre viesse em um
tom grave e carregada de ódio e rancor. Falou em um volume tão baixo, como um
último recurso — um pedido de socorro, talvez? — quase como uma súplica:
— Aceita a proposta, e sigamos
com nosso caminho.
Passados alguns momentos, falei:
— O que devo fazer?
Talvez ele tivesse sorrido. Não
tinha como saber, claro, porque vestia um enorme capacete de ferro que escondia
o rosto. Mas se eu fosse um rei de algumas centenas de anos preso a uma espada
e ganhasse uma segunda chance, eu sorriria.
— Pega a espada. — disse, por fim,
em tom confiante.
Fim do P.O.V
Calem
permanecia parado em frente à espada, enquanto todos se afastavam assustados.
—
O que ele vai fazer? — indagou Charlie.
O
garoto aproximou-se um pouco, com os braços estendidos.
—
Ele vai pegar a espada? — supôs Serena.
Ambos
tentaram impedi-lo, levando em conta o triste fim daqueles que foram seduzidos
a fazê-lo antes, mas sentiram uma energia os impedindo de correr, ficando
presos no lugar enquanto Calem se aproximava cada vez mais daquela espada
amaldiçoada.
—
Calem, pare! — gritou Charlie.
—
Primo, não encoste. — falou Serena. — Eu imploro.
O
rapaz estendeu o braço. Mais alguns metros. Um metro. Alguns centímetros. Sem
hesitar, após sua lenta aproximação, pegou a espada pelo cabo, enquanto seus
amigos soltavam um grito para que não o fizesse.
Ele
ficou por alguns instantes estático, e um silêncio tenebroso instalou-se. Em
seguida, fez um movimento único para cima, puxando a espada com enorme
simplicidade, como se pegasse uma bola de algodão, de maneira que ela se
soltasse da pedra, finalmente.
—
Ele… Conseguiu? — comentou Charlie.
Novamente
aqueles ecos e brados soavam na mente de Serena. Nos milésimos de instante em
que a menina piscava, era como se ao invés da pura escuridão, tivesse
vislumbres de um cenário muito diferente — uma batalha, sangue, espadas e
orações. A madrugada pregava peças naqueles sonolentos.
Com
a outra mão livre, Calem estendeu o braço. Ainda que o gesto parecesse
esquisito, uma Luxury Ball chegou até essa mão, como se atraída por um imã. Ele
tocou a esfera na espada, de forma que o Pokémon fosse comprimido em uma forma
de energia avermelhada para dentro. A esfera sequer vibrou, completando a
captura.
Image by Jinnoxious |
Os
moradores da vila que ainda não haviam fugido, retornaram para ver o que
acontecera. A senhora que explicara a história para Charlie e Serena sorriu,
aliviada:
—
Meus avós diziam que quem conseguisse retirá-lo era um escolhido de puro
coração. Que seria capaz de executar grandiosidade, e finalmente acabar com o
terror que assolava nosso vilarejo. — disse.
Calem
permanecia naquele mesmo ponto, estático. Após alguns segundos, todavia, sentiu
um choque, quase como se tivesse acabado de acordar e descobrisse que não
estava em sua cama. Ficou olhando para os lados, perdido, enquanto seus amigos
corriam até ele — agora sem nada os segurando.
—
Cal… O que aconteceu? — perguntou Serena, o abraçando.
—
Onde eu…
Após
começar a tentar entender o que estava acontecendo, olhou para suas vestes,
confuso.
—
Por que eu estou de pijamas… No meio do mato? — olhou para baixo. — E
DESCALÇO?!
—
Ele definitivamente voltou. — confirmou Charlie.
—
Serena, Charles, alguém me dê algo para calçar, por Arceus. Essa terra está
toda nojenta. E estou todo coçando. — gritava ele, na ponta dos pés, tentando
ao máximo não tocar em nada. — Onde está o palácio?
—
Você veio até aqui descalço, — disse Charlie, repreensivo. — agora vai ter que
voltar descalço.
—
E não tem outro caminho para voltar… Se não pelo mato. — terminou ele.
Calem
olhou para os lados, notando que em praticamente todas as direções a única
coisa que via era um matagal alto, denso e escuro. Mil perguntas rondavam sua
mente, mas principalmente “Por que eu estou aqui?”. O céu estava mais claro,
uma vez que estava amanhecendo.
—
Vocês só podem estar brincando. — resmungou. — Alguém por favor chame um
helicóptero para nos levar embora.
A
senhora inclinou a cabeça:
—
Eu apenas imaginava que o escolhido fosse… Diferente.