Notas do Autor - Capítulo 24



Se eu dissesse que o capítulo 24 estava finalizado pouco tempo depois do 23 vocês acreditariam? Cara, faltava apenas revisar e consertar uns detalhes, mas eu simplesmente não achei tempo para isso com a volta às aulas e a dedicação a outros projetos paralelos. De repente passou um mês, e nada de capítulo! Pooorém, hoje vocês podem conferir a continuação de nossa querida história, com a passagem por um lugar que gosto muito em Kalos, a Reflection Cave.

Apesar de simples, o capítulo trouxe alguns acontecimentos importantes. Sei que há tempos vocês aguardam uma evolução, e aconteceu justamente com o primeiro Pokémon a entrar na fic como uma captura, o Flabébé. Espero que possa ter transmitido toda a singelez do momento, a ligação forte que a Serena tem com seus Pokémon e como isso reflete nas próprias habilidades deles. Chega um momento em que eles ampliam suas habilidades principalmente para serem capazes de acompanhar sua treinadora que sempre dá seu melhor por eles.

Outro personagem destaque nesse capítulo foi o Elliot. Cara, cara, cara. Esse capítulo foi super inocente, justamente pela proposta dele, mas não se enganem, o Elliot é um personagem importantíssimo para a fic, e vocês vão perceber isso porque apesar de ele ter sido convidado a andar com os principais, ele não será adicionado aos recorrentes, como a Kath, o Ald, o Mika e a Ash. Ele será colocado junto dos protagonistas, e oficialmente fará parte do grupinho. Sei que parece extremamente arriscado fazê-lo, uma vez que já estamos no capítulo 24 e estamos acostumados há uns 4 anos com o trio Calem-Serena-Charlie. Mas confiem em mim, essa ideia está em minha mente há tempos e o Elliot esteve apenas aguardando para fazer sua estreia. Eu não acrescentaria alguém a essa altura do campeonato para nada. Deem uma chance a ele!

Por fim, agradeço pela leitura e espero encontrá-los nos comentários. Espero durante a semana dar um jeito no próximo Royal Emperium, em que o Eryx ainda aparece como Flabébé (porque o especial já estava meio escrito desde antes desse capítulo) e atualizar a ficha dele também!

Resultado da Enquete

Mais uma enquete feita por curiosidade. Não julgo quem acessa o blog de vez em nunca, porque minhas postagens são bem imprevisíveis. Fico feliz de ver que tem gente que entra com certa frequência, e gostaria de poder manter atualizações sempre para fazer jus a essas visitas. Espero, de qualquer modo, que as entradas estejam sendo proveitosas no quesito de capítulos e posts agradáveis. Obrigado a todos que votaram e logo estarei substituindo a enquete

Capítulo 24


Capítulo 24
Verdadeiro Desejo
Após uma madrugada turbulenta e cheia de acontecimentos estranhos, o trio resolveu passar mais um dia em Geosenge para recuperar as energias necessárias. No dia seguinte, já despertaram prontos para seguir um novo rumo, desta vez para Shalour City, uma cidade importante e conhecida do litoral, e também sede de um dos Ginásios que Calem poderia desafiar.
O rapaz arrumava sua mochila cheia de bugigangas, enquanto Charlie jazia sentado na janela do hotel, observando as humildes casinhas de Geosenge, e os famosos monumentos esculpidos em pedra que eram a marca da cidade. Além disso, se virasse um pouco o olhar, encontrava a Route 10, mas não parecia muito ansioso para admirar aquele caminho depois dos acidentes anteriores. Serena estava próxima da porta, já com sua bolsa, aguardando pelos amigos.
— Aparentemente só falta eu acordar no meio da madrugada e resolver enfrentar espíritos revoltados. — balbuciou Charlie, recebendo uma revirada de olhos de Calem.
— Charlie, não brinca com essas coisas. — repreendeu Serena.
— Estou só enchendo o saco, princesa. — ele sorriu.
A garota virou-se para trás e foi em direção ao quarto em frente. Mikala estava revirando suas coisas, enquanto Ashley mexia em seu computador, deitada na cama e com a máquina no colo. Quando ele avistou a loura, levantou-se com as mãos no rosto e revelando um grande sorriso com os dentes.
— Tem certeza que vai ficar aqui? — indagou ela.
— Tenho sim. Pode ir tu na frente, que eu e a Ash vamos ficar um tempo por aqui, e depois iremos a Lumiose. — concordou ele.
Serena sentiu um pequeno calafrio.
— Acho que vai demorar um pouco para voltarmos para lá.
Ele a fitou com seus olhos cor-de-mel.
— Isso significa…
— Que a gente vai ficar um bom tempo sem se ver. — completou ela, em um tom cabisbaixo.
Os dois ficaram em silêncio porque não sabiam exatamente o que dizer. Na última semana, de meros desconhecidos, ambos tornaram-se muito próximos, dividindo experiências e pensamentos como com nenhuma pessoa antes. Todavia, encontravam caminhos que divergiam em um lugar imenso como Kalos, e sabiam que mais cedo ou mais tarde aquilo aconteceria. O garoto tirou a mão do bolso e dirigiu à menina, fazendo-a estender suas mãos. Em seguida, colocou algo dentro delas e as fechou logo em seguida.
— Fica com isso. — pediu.
— O que é? — ela indagou.
A garota abriu suas mãos, e havia um pequeno colar, fino e simples, mas com um pequeno símbolo na ponta esculpido em madeira, que parecia um totem.
— É Tapu Lele, o guardião da ilha que eu moro. — explicou ele. — Nós acreditamos que seja o criador de todas as pessoas, Pokémon, da natureza, e de toda vida. — ele sorriu. — E espero que ele te abençoe na tua jornada e dos teus amigos.
A garota ficou um momento sem reação, realmente tocada. Ela sabia o quanto Mikala era apegado às crenças de Alola, portanto, um gesto como aquele significava muito para o garoto, e isso era suficiente para mostrar o quantos e importava com ela. A garota segurou o item firme em suas mãos e o estendeu em seguida, muito contente.
— É lindo, Mika! — exclamou, empolgada, em seguida mudando seu tom para um arrependido. — Desculpa, eu não trouxe nada para você…
— Imagina. — ele fez um gesto com a mão para tranquilizá-la. — Tu pagou a nossa hospedagem nos hotéis e tudo mais por todos esses dias. A gente é que tem que agradecer.
Ela sorriu e segurou o colar com força.
— Prometo que vou guardar e usar com muito carinho.
Os dois deram um grande abraço, e ficaram assim por alguns momentos, apenas os dois, aproveitando aqueles instantes de união antes de se separarem de vez. O rapaz acreditava que o destino não era um acaso, que as coisas aconteciam por motivos muito mais profundos, como o próprio encontro de ambos. Por esse motivo, tinha fé que aquela não era uma despedida definitiva. Era algo unicamente temporário, e se os guardiões da vida quisessem, não tardariam a se reencontrar.
Após minutos, os outros dois garotos terminaram de arrumar suas coisas, preparando-se para deixar o local. Foram até Mikala e o cumprimentaram, desejando sorte. Ashley levantou-se e veio despedir-se de todos também. Serena deu um abraço mais longo que a ruiva gostaria, mas ainda assim ela se mostrou razoavelmente simpática ao menos na partida.
— Sucesso então com suas batalhas. — apontou para Calem.
— Obrigado. — respondeu ele. — E boa sorte com suas pesquisas.
— Eu não acredito em sorte. — ela deu de ombros.
— Nem eu. — rebateu o rapaz.
Ambos começaram a rir em sincronia, e Charlie ficou um pouco confuso. Talvez fosse bom afastar duas pessoas com características semelhantes – especialmente se essas características eram justamente as quais considerava seus defeitos. O trio foi até a recepção do Hotel Marine Snow e resolveu as pendências, em seguida dirigindo-se para a saída da cidade ao leste, próxima a um portal feito de pedras.
O caminho da Route 11, apesar de formado principalmente por terra e grama, levava a um solo mais rochoso à medida que se aproximavam da Refletction Cave. Além disso, alguns belos cristais se erguiam do chão em direção ao céu, em um tamanho às vezes considerável. Serena adorou admirar essas formações minerais, que reluziam à luz do sol tímido daquele dia. Não havia tantos treinadores ao redor, mas os poucos que habitavam Geosenge aproveitavam a rota para brincar passavam por entre o matagal e corriam pelo chão de pedra que antecedia a caverna.
— Agora somos só nós três de novo. — ponderou Charlie.
— Parece que fica um vazio… — murmurou Serena.
— Um vazio que logo será preenchido com o Calem reclamando. Para variar. — respondeu o garoto de prontidão.
— Para seu azar, hoje caminharemos por uma caverna, Charles. — falou Calem, seguindo um passo relativamente empolgado. — Garanto que vou reclamar bastante.
O outro já adivinhou que seria verdade. Após subirem algumas elevações do terreno, encontraram várias possíveis entradas e saídas da caverna. Calem observou seu mapa por alguns momentos para planejar o melhor caminho – e mais rápido, é claro. – de chegar a Shalour, que ficava ao norte. O grupo se preparou antes de entrar, passando repelente e pegando uma lanterna.
— Pronto? — perguntou Charlie ao amigo.
Calem soltou uma gargalhada rápida.
— Óbvio que não. — disse ele, seguindo em frente. — Mas minha vida já está toda desgraçada mesmo.
Os três avançaram vagarosamente alguns passos rumo à entrada. A umidade já era mais nítida, e o som de gotas caindo de algum lugar, além de passos ecoava por entre as paredes de pedra. O solo rochoso era liso em alguns pontos, de maneira que havia algumas placas penduradas alertando para o perigo de escorregões. Após alguns minutos de caminhada, os jovens depararam-se com algo surpreendente.
Vários cristais saíam do solo como do lado de fora, mas agora eram maiores, e muitas vezes se entrecruzavam nos caminhos. Serena passou por um deles, e eram simplesmente tão brilhantes que conseguiu ver a si mesma com imensa clareza. Algumas paredes de certos salões da caverna eram totalmente cobertas por esses cristais, refletindo todo o ambiente iluminado em uma visão admirável.
— Parecem… Espelhos… — ponderou Serena.
Alguns cristais distorciam a imagem devido ao seu formato. Calem sabia que se tratava apenas de um fenômeno físico, mas a sensação que tudo lhe causava não era traduzível em palavras. Por um momento se esqueceu de todos os pesares da caverna, ao ver dezenas de si mesmo em vários ângulos, em meio à caverna repleta de iluminação quase natural dos minerais.
— Isso é fantástico. — admitiu o rapaz para si mesmo.
— É um dos lugares mais lindos que já vi. — comentou a menina, ainda admirada.
Passar pelo trajeto passou a ser uma atividade mais prazerosa, porém, os vários reflexos vez ou outra confundiam a mente de todos, de maneira que se perdessem de qual caminho ou direção deveriam seguir, e não compreenderem sem uma boa olhada quantas alternativas palpáveis havia para se seguir. Já haviam ouvido algumas histórias de pessoas que se perdiam na Reflection Cave justamente por essa confusão que os espelhos causavam, alguns nunca conseguindo encontrar a saída.
De repente, do alto teto da caverna caiu algo no meio dos três que fez um barulho alto, quase metálico. Passado o susto, o trio notou uma criatura que se assemelhava a uma semente de dimensões consideráveis, repleta de espinhos. Seu corpo, todavia, parecia reluzir como metal, e um par de grandes olhos desafiadores parecia tentar se localizar no cenário.
Calem deu alguns passos para trás e dirigiu sua mão vagarosamente ao bolso, chamando a atenção do amigo.
— O que você vai fazer? — indagou Charlie.
— Seria um grande acréscimo para meu time. — comentou Calem puxando uma Pokébola.
O outro dirigiu as mãos à cintura, com uma expressão confusa estampada no rosto.
— Calem, estou particularmente surpreso com você.
— Não se engane, Charles. Metade de mim está gritando por dentro querendo correr para longe daqui. — resmungou o outro puxando uma Pokébola e fazendo Serena dar uma risada.
— Eu imaginei.
A julgar pelo nível não tão alto esperado do Pokémon, Calem simplesmente atirou-lhe a esfera, fazendo-o se converter para um conjunto de raios avermelhados e ser sugado para dentro. A bola começou a se remexer no chão, e todos ficaram estáticos aguardando pelo resultado. Um… Dois…Três…
Logo, ela se abriu novamente, fazendo o Pokémon escapar. O Ferroseed fechou seus olhos, nervoso, seu corpo se contraiu por um breve momento, e quando menos esperavam, um ruído alto ecoou pela caverna e a criatura pareceu explodir, atirando-os para longe com o impacto. O teto da caverna naquele local cedeu, derrubando estalactites de cristal no solo.
O coração de todos disparava com a surpresa. Assim que retomou total consciência e se percebeu saudável, Calem levantou do solo correndo, balançando as mãos com repulsa de ter deitado no chão sujo da caverna. Charlie colocou-se sentado, apoiando a mão na cabeça para se recuperar da queda, um pouco tonto ainda.
— O que foi isso? — indagou.
Self-Destruct. — comentou Calem.
— Até o Ferroseed percebeu que é melhor explodir que andar com você. — comentou Charlie.
— Bem que você poderia tentar qualquer dia desses, Charles. — retrucou o outro, em seguida olhando para os lados. — Onde está a Serena?
— Eu estou bem… — uma voz ainda se fortalecendo ressoou.
A voz da garota parecia vir de trás das estalactites caídas, que cobriam a passagem do estreito corredor em que se encontravam. Era possível vê-la por entre as frestas dos cristais tombados, onde Charlie foi correndo atrás para olhar. Ela parecia bem, se levantando após o impacto e também se colocou no mesmo lugar, do outro lado da barreira.
— Droga, esses cristais devem ter caído do teto com a explosão… — murmurou Charlie. — Por que o teto das cavernas sempre cai com a gente dentro?
— Acho que é um dom. — respondeu o outro.
— Não conseguimos destruir eles? — perguntou Charlie.
— São cristais. Não vão sair daqui fácil. — ponderou Calem, indo ao lado do amigo. — Está me ouvindo bem, Serena?
— Estou. — respondeu a menina, embora só pudesse avistá-la por uma pequena fenda.
— Tem alguma saída onde você está?
— Tem. — mais uma vez disse de prontidão.
— Se esse mapa não me engana, acho que podemos pegar caminhos diferentes e nos encontrar em um mesmo ponto. — falou, pensativo.
Ele riscou seu mapa com um marcador e passou pela fresta dos cristais, entregando à menina.
— Tente nos encontrar nesse ponto, certo? — falou, se afastando.
— Vamos deixá-la indo sozinha? — inquiriu Charlie, levantando a voz.
— A menos que você tenha um teletransportador no bolso, sim. — respondeu o outro com simplicidade.
— Não se preocupe, Charlie. Eu posso ir sem problemas. — falou a menina, do outro lado.
— Eu confio em você, princesa. — ele disse, em seguida abaixando o tom de voz, mas tornando-se mais agressivo. — Ela terá que ir sozinha? E se encontrar algo perigoso?
— Eu ainda estou aqui… — murmurou ela.
— Por Arceus, Charles, eu sei, sou eu que sempre digo isso e você nunca me ouve. — resmungou Calem, batendo os braços. — Não é você que sempre diz que “não é nada, até crianças de dez anos atravessam cavernas”? Pois bem.
Charlie ficou por um tempo em silêncio.
— Não precisava ser grosso.
Chegava um momento que mesmo eu era capaz de atribuir certa confiança em Serena. Se antes eu era o responsável por tentar defendê-la enquanto o Charles ajudava a libertá-la, parecia que a situação se invertia, pelo menos depois de Lumiose, quando ele de alguma forma parecia sentir-se responsável pelo que aconteceu com ela. Eu permanecia desconfiado porque considerava minha prima inconsequente, mas ainda assim reconhecia que às vezes ela era até mais habilidosa que eu para se safar de algumas coisas.
Os dois começaram a voltar e procurar um caminho alternativo para encontrar Serena. A garota retirou uma Pokébola e de lá lançou sua Espurr, que saiu da esfera coçando o próprio pelo. A menina sorriu para a criatura e ficou mais tranquila com a companhia. A área afinal de contas não era tão ruim de se deslocar, uma vez que estava relativamente bem iluminada – isto é, para uma caverna. – e todo o cenário era apaixonante.
Em determinado momento, Serena quase bateu em uma parede por pensar que se tratava de uma passagem. Só então a garota reparou como tudo era confuso: os vários reflexos, distorcidos ou não, pregavam-lhe peças. Já não tinha total consciência de quantas direções de fato existiam, e o fato de o som sempre ser ecoado apenas intensificava o sentimento de confusão. Não era possível afirmar com cem por cento de certeza onde era a saída, e mesmo que chegasse a algum portal, todos os lugares da caverna eram parecidos.
— É como se os espelhos estivessem brincando com a minha cabeça. — murmurou a menina.
Assim, logo parou de andar e fechou seus olhos. A Espurr fez o mesmo, pois assim o Pokémon poderia concentrar sua energia psíquica e amplificar sua audição, o que auxiliaria a encontrar o caminho certo. Contudo, quando foi capaz de realmente se concentrar no ambiente ao redor, reparou exatamente como várias coisas aconteciam e contribuíam para criar aquela atmosfera confusa.
Havia passos muito ao longe; um rufar de asas de algum lugar; seu coração batia com intensidade; a respiração tanto dela quanto de seu Pokémon ofegava discretamente. O que mais chamou sua atenção, todavia, foi uma sucessão de estrondos não muito à frente, acompanhada de vozes indecifráveis. A garota abriu os olhos repentinamente.
— Está ouvindo isso, Mary?
A Espurr assentiu com a cabeça, e ambas começaram a correr na direção do som. A criatura pôde guiá-la melhor devido aos seus aguçados sentidos, até que entraram dentro de um salão da caverna, onde uma batalha acontecia. De um lado, havia uma horda de Roggenrola contra um garoto praticamente da mesma altura de Serena. Tinha cabelos desgrenhados cor de oliva, e um par de olhos bem claros. Sua pele e suas roupas pareciam sujas, como de alguém que passara mais tempo que gostaria naquela caverna. Consigo, tinha uma pequena criatura esverdeada com características reptilianas, parecendo desgastada e com dificuldades de se movimentar.
— Kecleon, não desista. — dizia o garoto, impaciente, sem notar a presença de Serena. — Use o Fury Swipes.
A criatura tentou avançar, mas estava lenta devido aos ferimentos de combate. Um dos Roggenrola atacou com uma simples investida, que foi suficiente para desestruturá-lo e fazê-lo cair próximo do garoto. Ele soltou um grito, parecendo sem saber o que fazer. Serena e Mary correram em sua direção, e só então ele foi capaz de notá-las, uma vez que antes estava concentrado na batalha.
— Você está bem? — perguntou a menina, tocando-lhe o ombro.
— A-acho que sim. — disse ele ainda confuso.
A menina olhou para a Espurr, que semicerrou os olhos e fez um sinal positivo com a cabeça, se colocando à frente dos dois para continuar a batalha.
— Mary, use o Confusion. — pediu.
A pequena criatura brilhou seus enormes olhos com um tom azul bem claro, e em seguida uma forte onda de energia pareceu controlar um dos Roggenrola. O Pokémon de pedra manipulado demonstrou não conseguir se movimentar naturalmente, aturdido, em seguida lançando um ataque que não pretendia, que derrubou toda a horda.
— Acho que conseguimos escapar agora! — exclamou a menina, puxando o garoto pelo blusão.
Aproveitando a confusão dos adversários, ambos correram. O garoto tinha seu Kecleon no colo, enquanto Mary acompanhava a treinadora pelo chão. Tendo passado por um corredor da caverna e indo para uma área aparentemente mais segura, ambos pararam para recuperar o fôlego. A loura puxou em sua bolsa uma pequena garrafa, oferecendo ao menino:
— Tome, aqui tem um pouco de água. — e sorriu.
Ele pensou em falar algo, mas apenas estendeu a mão e aceitou o gesto.
— Obrigado por me salvar. — falou.
A garota fez um sinal com as mãos como quem não deveria se preocupar com isso.
— Meu nome é Serena.
— Eu me chamo Elliot. — ele falou, arfando, entre os goles de água. — Eliott Dennel.
Ela concordou com a cabeça.
— O que você estava fazendo? — perguntou, simpaticamente.
— Eu estava indo até Shalour, mas acabei me perdendo um pouco do caminho. — ele disse, um tanto sem graça. — E quando aqueles Roggenrola começaram a me atacar em horda, achei que podia vencê-los com o Kecleon, mas fomos encurralados.
Elliot pareceu desconfortável em admitir sua falha, mas a garota não demostrou achar nada estranho.
— Eu também estou indo a Shalour. — comentou ela, animada. — Podemos achar o caminho juntos!
Ele sorriu.
— Parece ótimo! Você estava indo sozinha?
— Não, eu viajo com meu primo e um amigo nosso, mas acabamos nos perdendo. — contou Serena.
— Caramba, uma legítima jornada Pokémon. — seus olhos pareciam brilhar. — Meu sonho é viajar por Kalos também.
Serena olhou para ele com mais atenção.
— E por que você não faz isso?
— É que… — o garoto vacilou, parecendo ficar mais uma vez constrangido. — Na verdade eu nunca encontrei ninguém que quisesse viajar comigo.
Serena sentiu uma pontada no peito e quis falar um monte de coisas de início, porém, pensou que o melhor a fazer, antes de dizer qualquer coisa, era ouvir o que ele tinha a contar.
— Eu venho de Geosenge, e é uma cidade bem pequena. — explicou. — Estava indo deixar algumas coisas com meu avô em Shalour.
Quando a menina por fim estava pronta para aconselhá-lo, ou talvez consolá-lo, uma horda de Roggenrola pareceu surgir. Contudo, levando em conta que vinham de trás, pareciam ser ainda o mesmo grupo tentando atingi-los.
— Parece que são eles de novo. — balbuciou a menina.
— Como eles nos encontraram? — inquiriu o garoto, nervoso.
Antes de fazer qualquer coisa, todos avançaram agilmente contra Mary, fazendo Serena tomar um ligeiro susto. Apesar de serem simples Headbutt, o impacto coletivo um por um fez com que a Espurr logo se colocasse incapaz de combater. Serena correu até a pequena criatura, consolando-a e vendo se estava muito ferida.
— Essa não, Mary! — sussurrou, retornando-a para sua Pokébola e logo puxando outra de sua bolsa, meio atrapalhada. —  Flabébé, vamos nessa!
Ela lançou a esfera para o alto, e de lá saiu a pequena fada, flutuando por entre a caverna. Apesar de não ser um ambiente em que ficaria muito confortável, a criaturinha balançou sua flor e colocou-se em posição, aguardando ordens de sua treinadora.
— Puxa, que incrível. — Elliot não evitou um comentário, ainda que baixo.
A menina ouviu de relance o que ele dissera, e por um momento sentiu-se muito bem. Ela olhou para um dos vários espelhos do ambiente e viu a si mesma como uma legítima treinadora Pokémon, em posição de batalha, com seus próprios guerreiros tentando defender alguém em perigo. Sentiu uma pontada de orgulho, pois era assim que sempre sonhou estar um dia.
— Vamos usar o Razor Leaf! — falou, voltando para o contexto, estendendo a mão.
O Flabébé concentrou-se por um instante e invocou pequenas folhas, que em seguida foram disparadas em direção às criaturas de pedra. A efetividade do ataque foi suficiente para derrubar um dos Pokémon, mas logo outros avançaram, um deles atacando com o Rock Blast, disparando algumas pedras do solo em direção ao parceiro de Serena. A fada, porém, sem muita dificuldade conseguiu desviar flutuando no ar.
— O.K., agora Fairy Wind! — pediu a menina.
O Pokémon focou então o ataque em uma rajada de vento aparentemente repleta de pequenas partículas brilhantes e de tom róseo e prateado, porém, não foi muito efetivo. Um Roggenrola atirou areia contra o Pokémon, que foi atingido e ficou desestabilizado por um momento. Em seguida, após outras rochas serem disparadas contra ele, caiu no chão, sendo prensado contra o solo por uma das criaturas de pedra.
Serena soltou uma exclamação descontrolada, começando a correr.
— Aonde você vai? — gritou Elliot ao vê-la se aproximar de seu Pokémon.
— Eu preciso soltá-lo de lá, se não ele vai ser facilmente esmagado! — falou a menina, uma vez que sua Pokébola não conseguia retorná-lo.
— Você não pode ir até lá, vão atacá-la também! — interveio o garoto.
— Eu preciso. — disse ela, parando de olhar para trás.
Elliot ficou surpreso com a atitude, tornando a observá-la lá, ao longe. Serena correu até o Roggenrola, que pareceu se assustar com o súbito movimento. A garota empurrou a criatura de pedra, que apesar de pesada, se desequilibrou o suficiente para que o Pokémon fada encontrasse uma brecha para conseguir se movimentar novamente no ar.
— Eryx, fuja! — exclamou ela.
A criatura saiu flutuando, mas estava desacompanhada de sua flor, apenas conseguindo se esquivar dos inimigos. A garota em seguida foi atingida por um Headbutt antes de conseguir correr, que pela força fez com que caísse. Os Roggenrola restantes a cercaram, e a menina sentiu seu coração bater com mais força, enquanto o ardor do ataque ainda afetava seu corpo.
— Serena! — gritou Elliot, virando-se para seu Pokémon. — Kecleon, por favor, tente fazer alguma coisa…
Contudo, a criatura permanecia caída em seu colo, sem responder. Ele suava de nervoso, impotente. Naquele momento o Flabébé de Serena parou de fugir para prestar atenção no que de fato acontecia, retomando consciência. Sua treinadora se empenhara o suficiente para salvá-lo, colocando-se naquela situação. Sendo um Pokémon do tipo fada, era extremamente sensível às emoções das pessoas, especialmente de sua treinadora. Ela parecia assustada, porém não hesitou em auxiliá-lo quando necessário e se colocar em seu lugar.
Eryx respirou fundo. O pequeno Pokémon olhou para o alto, e embora não pudesse ver o céu, fechou os olhinhos, como se fazendo um pedido. Era o Wish, um golpe que poderia auxiliá-lo a enfrentar aquela batalha ao se recuperar. Desde que Serena ofereceu aquela pequena flor – agora caída no chão e amassada. – sempre deu motivos para que se sentisse seguro. Embora fosse receoso com humanos, como muitas fadas, sua treinadora parecia ter um coração puro e jamais o deixou na mão. Ele semicerrou os olhos e avançou.
A pequena criatura puxou sua flor caída do chão, quase toda despedaçada, e chegou próxima de sua treinadora. O ataque anterior havia finalmente funcionado, e sentiu uma forte onda de energia o recuperando dos danos. Porém, parecia que seu verdadeiro desejo também tornou-se realidade naquele momento. Foi tomado por uma luz prateada mais intensa do que pensara, com seu corpo assumindo uma nova forma. Serena ficou boquiaberta, bem como os demais Roggenrola pareceram confusos. Quando foi possível ver a criatura com clareza, estava em uma nova forma, e sua flor encontrava-se mais bela e sadia que nunca.
— Floette! — exclamou a garota.
A criatura preparou-se para usar o Razor Leaf, invocando uma sequência de folhas. Diferentemente de antes, elas eram maiores e em maior quantidade, atingindo os Pokémon e abrindo uma brecha para que utilizasse o Fairy Wind, despistando-os e os afastando com uma forte rajada circular de vento em torno de sua treinadora. A garota pareceu surpresa com a criatura tendo seus poderes ampliados com a evolução.
— Você evoluiu para nos salvar… — balbuciou ela. — Eu estou tão orgulhosa!
A criatura pareceu sorrir, colocando-se nas mãos de sua treinadora após terem despistado os Roggenrola. Ambos trocaram um momento de olhares, e a menina aproximou o rosto, sendo acariciada pela criatura, que aparentemente apenas retribuía o carinho de Serena. Elliot parecia embasbacado com tudo, uma vez que a menina e seu Pokémon fortaleceram seu vínculo ainda mais durante a batalha.
— Caramba, isso foi fantástico. — ele disse, com brilho no olhar.
A garota sorriu, sentindo-se muito importante. Ver alguém mais jovem e mais inexperiente a admirando era uma honra. Finalmente alguém a olhava não como alguém a ser protegida, mas como uma protetora. Não como uma princesa que precisava ser resgatada, mas como uma guerreira capaz de pegar uma espada e vencer o dragão sozinha. Esse era um dos melhores sentimentos que teve em toda a sua jornada.

...

Após um certo tempo, Calem jazia de pé de braços cruzados em um salão da Reflection Cave. Encarava a si mesmo em um reflexo, junto de Charlie, que caminhava impacientemente de um lado para o outro. O menino reclamava que estava preocupado com Serena, mas o primo apenas ficava em silêncio evitando prolongar o discurso do outro. Afinal de contas, alguém precisava manter a calma. Finalmente, ouviu o som de passos em sua direção, e a menina apareceu andando tranquilamente na companhia de um garoto.
— Por que você demorou tanto? — indagou Charlie, indo até ela e reparando na presença de outro menino. — Quem é esse?
A menina virou-se para ele.
— Meninos, esse é o Elliot. — disse, apontando. — Elliot, esses são o Calem, meu primo, e Charlie, nosso amigo.
Os três se cumprimentaram, um pouco confusos.
— Ele também estava perdido na caverna. — explicou ela. — E o sonho dele sempre foi seguir uma jornada Pokémon.
Serena fez uma longa pausa, respirando fundo.
— Eu pensei em convidá-lo para viajar conosco. — falou, simplesmente.
Ela possivelmente já havia arquitetado aquilo antes, e o garoto ficou por alguns momentos impactado. Charlie e Calem também tiveram uma surpresa no momento, de maneira que por alguns incômodos segundos todos ficassem em silêncio. Os dois, antes de dizer qualquer coisa, puxaram a garota para mais perto, fazendo um gesto para Elliot.
— Pode nos dar um instante? — pediu Charlie.
O menino assentiu sem escolha, e os dois cochicharam com a loura.
— Você nem nos consulta mais? — indagou Charlie, com uma risadinha.
— Serena, é quase legal encontrar outras pessoas, como já fizemos. — disse Calem — Mas isso não é um clube que você pode sair convidando todo mundo para sair conosco sem conhecermos.
A garota balançou a cabeça.
— Cal, o sonho dele é sair em uma jornada! — disse. — Não estou falando de levá-lo até Shalour. Estou falando de ser nosso companheiro de viagem.
Os dois garotos se entreolharam, desagradados.
— Serena, nem o Charles deveria ser nosso “companheiro de viagem”. — rebateu o primo.
— Obrigado. — falou o outro dando-lhe um irônico tapinha no ombro.
— Primo, você seria uma ótima inspiração para ele, e poderia ensiná-lo a treinar Pokémon. Seria ótimo para vocês dois! — argumentou a garota.
— Nós não o conhecemos, Serena. — retorquiu. — E de carregar pessoas sem conhecê-las por aí, eu já estou cheio.
— Você está vendo que eu ainda estou aqui, né? — confirmou Charlie, acenando após as indiretas.
— Por favooor. — ela segurou as mãos do garoto, dando pulinhos no lugar. — Prometo que não irão se arrepender!
Ah não! Mais uma pessoa louca que a Serena resolvia enfiar na nossa “jornada” não! Já era um saco ter de aguentar o Charles, mas em algum momento acabei me acostumando. Eu não queria e nem precisava, mas me acostumei. Porém, mais uma pessoa não. Aquele garoto era mais um estranho, poderia muito bem ser um psicopata pronto para nos atacar. Confesso apenas que ao olhar sua expressão meio acuada e infantil não percebi nada de mal, só um menino que talvez estivesse esperando por aquela resposta como se fosse algo mais importante que eu poderia imaginar. Talvez eu nunca entenderia.
O garoto encarou Charlie por um tempo, e o outro respondeu com um aceno de cabeça, como quem não via problemas nisso. A menina deu um salto de alegria e foi correndo até o novo amigo. Elliot ainda tinha seu Kecleon nos braços, um pouco sem saber o que esperar. Não poderia demonstrar como tinha expectativas naquele momento. Os demais não poderiam imaginar, mas estavam tomando uma decisão que selecionaria o rumo de sua vida.
— O que você me diz? — perguntou Serena
— Uma jornada Pokémon… — murmurou ele. — De verdade?
A garota assentiu, com um sorriso, estendendo-lhe a mão. Charlie fez uma expressão simpática, e Calem permaneceu com sua cara de mal-humorado, como sempre. O garoto proferiuvários sons, empolgado, sem saber ao certo como agradecer. Se eram amigos que em algum momento procurava, finalmente havia encontrado.
— Parece que seu desejo também virou realidade… — brincou a menina, piscando para ele

    

Notas do Autor - Capítulo 23

ALERTA DE SPOILERS! Antes de ler as notas, leia o capítulo correspondente primeiro!
Quem diria que finalmente os capítulos conseguiriam ser lançados sem tantos meses de distância entre um e outro? Eu adoraria manter essa média de um capítulo a cada quinze dias como tenho feito (meu sonho na verdade é um por semana, né), mas vamos ver o que a vida nos reserva, agora que começou um novo semestre da facul.

Enfim, focando no que acabamos de ler (ou que irão ler, caso tenham vindo aqui antes, mesmo com o aviso de spoilers ~rs) apresento-lhes o capítulo 23. Apesar de não ser tão explosivo, gosto muito dele pelos acontecimentos discretos que ele traz. Eu geralmente odeio acompanhar algo que eu não entendo exatamente, mas adoro fazer isso com os outros. ~rs. Vez ou outra nos deparamos com alguns acontecimentos misteriosos ao longo da fic, e acho que aqui atingimos um ápice até o presente momento. Peço para que leiam cada linha com carinho, porque algumas cenas são muito importantes para o desenvolvimento futuro do enredo.

Nem acredito que chegamos na Route 10. Lembro que eu fiquei muito curioso por ela desde que a arte do mapa de Kalos foi lançada, e eu vi essas rochas em sequência, lembrando as Carnac Stones. Não é apenas um amontoado de rochas: cada rocha é uma história, uma sepultura. Esse lugar é como atravessar um cemitério enorme de memórias, e apesar de rolar uma batalha, em nenhum momento podemos nos esquecer disso. Geosenge e a Rota 10 são lugares que gosto muito em Kalos, e apesar de não dar toda a atenção que eu gostaria agora, futuramente teremos essa oportunidade.

E o que falar sobre nossos personagens todos se unindo para uma batalha coletiva? Alguns personagens como a Ashley e o Charlie tem papéis muito maiores que carregar Pokémon ou serem rivais, eles são personagens com importância direta no enredo de outras maneiras. Poorém, hoje tivemos um gostinho de uma batalha como há muito tempo não vemos por aqui. O forte de AeXY nunca foi as batalhas, e eu sempre disse isso. Me sinto muito mais confortável criando outros tipos de enredo que narrando combates, mas não posso esquecer o que estamos fazendo aqui. Já estava na hora de todos darem as mãos e falarem: Okay, não vai ter outro jeito, temos que resolver isso assim. Nenhum desafio muito grandioso, mas se torna incrível ver o quanto alguns personagens cresceram, ou como os laços entre eles se fortaleceram a esse ponto.


Resultado da Enquete

Essa foi mais uma curiosidade mesmo, mas fico extremamente satisfeito com o resultado. O capítulo passado foi imenso, e fiquei com medo de que tudo tivesse sido muito exaustivo ou chato, então me alegra ver que há uma reação positiva com relação a ele. Meu plano era utilizar o Showcase para esse capítulo, e ver como a história se desenvolve. Muitas portas foram abertas, e sabendo dessa repercussão, quem sabe eles não voltam por aí qualquer dia? Confesso que gostei também de descrevê-los. Obrigado pelos votos, e estarei substituindo em breve a enquete!


Capítulo 23


Capítulo 23
As Pedras do Passado
— Mas já estão de saída? — perguntou Dustin.
O grupo já tinha suas mochilas nas costas e, após um café da manhã reforçado no hotel, preparava-se para tomar o caminho da próxima cidade. O líder substituto estava a abrir o ginásio, onde todos o encontraram para uma despedida. Ele cumprimentou Mikala, que respondeu, um pouco abalado:
— Nem me fala, cara, eu queria ficar mais um tempo por aqui.
— Sóóó. — concordou o líder. — Mas ei, se querem uma dica, vão para Shalour. É uma cidade interessante aqui no litoral de Kalos. De vez em quando eles fazem um festival ou outro, e tem um Ginásio também. — ele sorriu.
— Era exatamente isso que pensamos em fazer. — assentiu Calem.
— Eu vou para Geosenge. De lá eles poderão seguir a Shalour, que fica depois da Reflection Cave. — ponderou Ashley.
— Então é isso. — Charlie balançou a cabeça.
Após uma despedida final, não havia mais pendências na cidade. Serena ainda andava um pouco hesitante, pois via os dedos apontando, e algumas vezes fora até interceptada para pedirem autógrafos. Os amigos agiam com naturalidade, mas percebiam que ela já não estava mais tão abalada quanto na noite anterior. Ainda assim, preferiam não arriscar comentar muito sobre o tópico.
A saída de Cyllage ficava ao norte, onde era um ponto relativamente mais tranquilo e afastado da cidade. Havia pistas de bicicleta onde muitas pessoas se exercitavam por prazer, e de lá se podia ver um encontro entre um córrego e o mar. Aquela área mais afastada e rochosa da praia era utilizada principalmente por pescadores e alguns treinadores. O grupo mantinha a conversa empolgados, atravessando uma última ponte que marcava o final de Cyllage após um tempo de caminhada.
Serena olhou para trás e se despediu mentalmente da metrópole.
Com o movimento da cidade gradualmente diminuindo, em determinado ponto o barulho e a bagunça de Cyllage ficaram para trás, com uma placa indicando “Route 10”. Agora eram apenas os sons da natureza, os inocentes e jovens treinadores correndo para lá e para cá, indo ou voltando do urbano e treinando seus Pokémon animadamente. O típico ambiente de aventura e jornada Pokémon.
Contudo, em determinado ponto, foi como se tudo isso se extinguisse. Não havia mais nenhuma criança nos arredores, e os sons de criaturas ao redor era quase nulo. Parecia que até mesmo o tempo conspirava: o céu agora era encoberto por nuvens, ficando bem nublado. Todas as mudanças foram tão sutis, que todos repararam só essa mudança quando o cenário era totalmente diferente, mesmo que apenas poucos minutos de caminhada tivessem se passado.
Ao virar o trajeto para uma outra direção, se depararam com um ambiente estranho e ligeiramente macabro: uma infinidade de rochas, quase do mesmo tamanho e formato, até onde seus olhos alcançassem, dispostas em fileiras. A grama era mais alta e seu tom tornava-se amarronzado, e naquele momento eles eram os únicos à vista nos arredores. Aos lados, havia apenas mata fechada, de maneira que tivessem que percorrer aquele caminho de pedras se quisessem chegar a Geosenge.

— Que lugar sinistro. — Charlie quebrou o silêncio.
Todos ainda permaneciam parados, observando tudo. Estavam em um ângulo em que podiam facilmente avistar como tudo era belo e intrigante: as várias rochas dispostas em linhas, sem um motivo aparente. Ashley respirou fundo, puxando um pequeno mapa de sua bolsa.
— Então é aqui. — ponderou.
— O que é aqui? — perguntou Mikala.
A garota começou a caminhar por entre as pedras de maneira hesitante, sua expressão parecia ligeiramente preocupada. Ela aproximava a mão, mas logo recuava, não chegando ao ponto de tocar nenhum dos rochedos. Calem inclinou a cabeça, incomodado.
— Por que essas pedras estão enfileiradas? — indagou.
Charlie foi dar um passo para trás, e acabou esbarrando em uma das pedras. O garoto tornou a fitá-la, então, reparando um detalhe que lhe passou despercebido. Um pequeno escrito no centro.
SIR ARCHY JACQUINOT
REPOSE EN PAIX
O rapaz prendeu a respiração por um momento ao perceber que não se tratava de uma pedra comum, mas sim que provavelmente representava um túmulo. Quando todos também notaram esse detalhe, tiveram um pequeno susto ao olhar para frente e ver com outros olhos as centenas de rochas idênticas enfileiradas. Era terrível a ideia de que todas seriam sepulturas da mesma forma, uma vez que sequer poderiam contá-las de tantas que eram.
 — Exatamente. — disse Ashley quando a pergunta aparentemente havia sido respondida.
A ruiva passou por entre algumas rochas calmamente, refletindo. Um silêncio incômodo pairava no ar, de maneira que apenas o som do vento balançando as árvores ao redor fosse audível, além dos passos da menina pela grama alta.
— Aqui é o santuário dos Pokémon que morreram na Grande Guerra, três mil anos atrás. — explicou ela, virando-se para eles com uma expressão séria.
Serena tocou uma das rochas, abatida.
— De repente aqui parece triste… — comentou Mikala.
— São tantos… — ponderou a loura, baixinho.
Charlie fitou algum dos túmulos por alguns momentos, alongando o pescoço.
— Por que aconteceu essa guerra? — perguntou.
Ashley voltou a caminhar entre as pedras.
— Ninguém sabe ao certo. Não há uma fonte segura para afirmar. — respondeu.
Serena sentia-se mal por, a princípio, ter pensado que eram apenas pedras. Não se tratava disso. Cada rocha representava algo, alguém que em algum momento respirava vivo como ela, com sonhos e medos. Alguém que teve um final trágico na luta por um ideal que talvez sequer concordasse. Alguém que perdeu tudo, e tornou-se mais um túmulo em um santuário repleto deles, de forma que todos passassem e de início apenas pensassem se tratar de rochas quaisquer, como a menina.
Por que eu? — uma voz clara e diferente gritou, de maneira que instintivamente Serena se virasse para os lados.
— O quê? — perguntou a Charlie.
Todos a fitaram, curiosos.
— Ninguém disse nada. — respondeu o garoto.
A loura assentiu com a cabeça, duvidosa. Olhou para os lados, mas estavam praticamente sozinhos naquele lugar, por mais que procurasse entre pedras, árvores ou arbustos. Às vezes seus pensamentos eram tão nítidos que ela podia confundi-los com o que acontecia ao seu redor. Ashley continuava pensativa sobre o cenário em que se encontravam.
— Eram dois lados. Até que a Ultimate Weapon… A Arma Suprema, colocou fim à guerra. — ela esticou os braços, abrangendo todo o campo à frente. — E deixou isso.
Até mesmo Calem encontrava-se um pouco cabisbaixo. O local parecia remeter a algo triste e macabro, como se o ar ao seu redor pudesse trazer essa energia pesada àqueles que ousavam se aproximar. Ashley abriu sua bolsa e pareceu vasculhar por algo. A ruiva tirou uma pequena esfera e pressionou um botão, a fazendo ampliar de tamanho e permitiu que abrisse, revelando uma pequena criatura, enquanto todos ficaram levemente surpresos. Tinha uma cabeça maior que seu corpo, e além do tom roxo de sua pele, parecia trajar um vestido preto e branco com laço. Era Gothita, uma espécie não muito frequente em Kalos, típica de Unova.
— Que coisa mais linda! — exclamou Serena.
— Achei que você não gostasse de Pokémon. — disse Calem, com um sorriso de canto.
— Eu disse que não via graça no sistema de batalhas. — ela segurou a criatura nos braços. — Não que não gosto de Pokémon.
Ela permitiu que a pequena começasse a vagar pelo ambiente. Gothita parecia se concentrar, fechando seus grandes olhos e meditando. Os outros olharam intrigados enquanto ela fazia isso.
— Pokémon psíquicos são mais sensíveis a energias que não podemos ver. — disse a ruiva. — Se a Gothita conseguir sentir algo aqui…
— É para sua pesquisa? — indagou Calem, lembrando-se de sua conversa com a menina.
A garota fez um sinal com a cabeça, sorrindo e confirmando a hipótese. O Pokémon de fato parecia sentir algo intrigante naquele ambiente até então hostil e sombrio. Após alguns minutos nesse ritmo, Charlie sentiu um calafrio, balançando a cabela.
— Podemos deixar a visita ao cemitério para um outro dia? Eu queria realmente chegar logo em Geosenge. — murmurou.
— Que seja. — Ashley revirou os olhos. — Posso voltar aqui quando vocês forem embora.
O grupo voltou então à caminhada, tentando mudar de assunto. Com o tempo o cenário tornou-se trivial, e o fato de ser tão homogêneo permitiu que logo pudessem focar na conversa e tentar e ignorar o ambiente. Serena ainda ficava com a cabeça longe, como se não conseguisse se desgrudar daquele local, e a todo momento sentia como se precisasse permanecer lá por mais um tempo.
Quando viu o final da rota, finalmente pôde respirar aliviada. Um grande portal de pedra instruía o grupo de que Geosenge Town enfim havia chegado, e com isso haviam alcançado em poucas horas seu destino. O Hotel Marine Snow era o menor dos hotéis mais relevantes de Kalos, uma vez que a cidade era tão pequena que mais parecia um vilarejo. Contudo, devido à sua importância histórica, era uma localidade que chamava a atenção de turistas interessados na história do continente.
Charlie jazia deitado em uma das camas do quarto enquanto aguardava os primos resolverem as pendências da reserva. Como de praxe, ambos se ofereceram para bancar a estada de todos, ainda que os amigos por educação se opusessem. O garoto tinha em sua mão um objeto em que não mexia sempre: o Holo Caster, que receberam de um amigo do Professor Sycamore em Lumiose.
Charlie acessou a configuração de notícias, e uma moça de cabelos róseos e óculos transmitia algumas das principais manchetes do dia. Ele utilizava aquilo apenas para fazer som no ambiente, mas passou a prestar atenção quando seus ouvidos captaram uma informação que julgou importante:
…e ontem tivemos a vitória da filha única de Stevan Windsor em um Pokémon Showcase da cidade de Cyllage. Apesar de não ter sido unanimidade entre os juízes, ela venceu em disparada no voto popular da segunda rodada, tornando-se…
Ele mudou o aparelho para outro tópico qualquer ao ouvir passos de alguém se aproximando e tentou fingir naturalidade. Calem e Serena entraram no cômodo, prontos para deixar seus pertences. O garoto puxou assunto, sem encarar Charlie, focado na atividade:
— O que você estava vendo? — perguntou, indicando o Holo Caster.
— Nada. — respondeu o outro, como se nada tivesse acontecido.
— Achei que tínhamos combinado de não ficar xeretando essa coisa. — ele falou, apontando novamente.
— Eu estava entediado. — Charlie desligou o aparelho e o colocou em uma bancada.
— Por que não procura algum shampoo para roubar do banheiro do hotel? — sugeriu Calem. — Isso me lembra aquele cara estranho amigo do Professor. — murmurou.
Charlie ajeitou-se em sua cama sobre uma montanha de travesseiros, esticando as costas e colocando os braços atrás da cabeça, folgado.
— Esse hotel não é tão confortável quanto o de Cyllage, mas posso me acostumar. — bocejou, metido.
— Não pode não. — retorquiu Calem arrancando seu travesseiro e batendo nele como se para tirar o pó. — Amanhã já partiremos para Shalour, onde conquistarei minha terceira insígnia.
Serena deu uma risadinha.
— O que foi? — indagou Calem, arqueando uma sobrancelha.
— É engraçado ver você falando que vai ganhar uma insígnia. — ela apenas comentou, com um tom brincalhão. — Eu sabia que você seria um bom treinador.
Os dois sorriram. Calem ficou levemente corado, preparando algo para disparar tentando enfraquecer o discurso da prima. Contudo, não falou sequer uma palavra, apenas permitiu que a ternura do momento ficasse dessa forma. E por algum motivo gostou de não rebater, pelo menos desta vez. Enquanto isso, Mikala caminhava pelo corredor indo ao quarto dos meninos, esbarrando com Ashley, que saía do outro quarto. O garoto a interceptou, vendo-lhe dirigir seus grandes olhos acinzentados sérios, como se aguardasse por algo sem expectativas.
— Ei, Ash. Eu estou pensando em seguir com eles depois disso. — falou ele, tímido. — Você vai ficar aqui mesmo, e eu quero ir ao próximo ginásio.
Ashley ficou por um momento em silêncio, mas logo reagiu balançando a cabeça e as mãos.
— Claro, não tem por que me avisar, nem viajamos juntos. — ela deu de ombros, satirizando.
O garoto assentiu e voltou seu caminho até o quarto. Ela também preparava-se para continuar o trajeto, mas soltou por acidente algo quase como um sussurro, baixo, que parecia escapar de si mesma instantaneamente e sem qualquer controle. Ela esperava que ele não ouvisse.
— Mas sabe…
Mikala parou de andar e virou-se para ela. A garota continuava de costas ainda, de maneira que não pudesse ler sua expressão. Vários segundos passaram nesse vácuo de palavras, como se o começo da frase fosse instintivo, e a menina sequer pensara em como terminá-la. Contudo, sua voz continuou, meticulosa como sempre sem qualquer hesitação perceptível, ainda que não pudesse ver seu rosto:
— …eu não devo passar de alguns dias aqui. Preciso pegar algumas coisas em Lumiose, e lá também tem um ginásio funcionando. — ela fez uma nova pausa. — Se você quiser…
— Vou esperar com você então. — ele respondeu de prontidão, com um sorriso, como se a salvasse de precisar continuar falando. — Posso ir treinando até lá.
Ela virou-se dessa vez e assentiu com a cabeça, simplesmente. Quando achou que havia acabado, ouviu o som de passos voltando atrás de si, e de prontidão já disparou:
— Nem pense nisso.
Era tarde demais. Mikala afagou-a em um abraço, embora a ruiva parecesse resmungar e se debater negativamente, ele continuou, dando risada. Ela bufou, reclamona:
— Eu já estou me arrependendo…
...
A noite chegara em Geosenge. Diferente de Cyllage, a cidade do interior não tinha o som dos carros ao fundo, tampouco o doce barulho das ondas chegando à beira da praia. Os ruídos da natureza e das criaturas noturnas lembrava um pouco as primeiras cidades da jornada, que com o passar das horas ficavam cada vez mais vazias e silenciosas, como uma vila que se preparava para o dia seguinte de trabalhos.
O Hotel Marine Snow tinha seus corredores vazios, e praticamente todos os quartos estavam inundados no silêncio. Calem dormia em sua cama forrada tranquilamente, com uma máscara de dormir e tampões de ouvido, tentando ignorar os roncos de Charlie e Mikala. Ashley não estava no quarto, provavelmente se encontrava em alguma área do hotel onde pudesse trabalhar sem acordar ninguém. Serena revirava-se em sua cama, mas não conseguia pregar os olhos. Sentia um incômodo que a fazia virar para lá e para cá incessantemente, perturbada.
A garota ficou de barriga para cima a fitar o teto, respirando um pouco ofegante. Tomou coragem e se levantou do colchão, procurando suas roupas. Vestiu de maneira ágil com apenas a luz do banheiro acesa, e abriu a porta do quarto com toda a cautela do mundo. Se não por uma recepcionista que tentou interceptá-la, nenhuma alma parecia vagar pela madrugada além da menina.
Ela abriu as portas do hotel e olhou para os lados. Ninguém se arriscava a sair àquele horário. A garota ignorou o vento frio que soprava e seguiu seu caminho, sozinha. Não havia muita iluminação que pudesse guiá-la, mas não foi difícil encontrar o portal de entrada da cidade. Serena seguiu por ele e logo encontrou a placa “Route 10”. A menina continuou caminhando, aumentando a frequência dos passos.
A loura parou de andar em determinado momento. Havia avançado bastante na rota, e seus olhos agora se adaptaram o suficiente à escuridão para conseguir enxergar ligeiramente onde estava. Ela agachou, como se para recuperar do cansaço, seus joelhos tocando a terra fria e a grama incômoda. Sem saber dizer exatamente o porquê, começou a chorar. Ela havia segurado as lágrimas a partir do momento que pisou pela primeira vez no local, e agora finalmente elas lhe escapavam sem conseguir explicá-las, espontaneamente.
A garota segurou uma das pedras que representava um túmulo, e ficou encostada enquanto percebia as gotículas escorrendo em seu rosto e caindo na rocha. Havia um silêncio quase absoluto, apenas o vento nas árvores e alguns sons de mato sendo remexido ao longe podiam ser percebidos, mas na cabeça da menina, era como se um turbilhão estivesse passando. De olhos fechados, ela ouvia tudo.
Parecia o barulho de metal estalando, como se duas espadas se chocassem. Havia muitos sons de vozes, mas todos abafados, eu não conseguia distingui-los, mas era como se bradassem. Como se estivesse sonhando, o cenário mudou sem mais nem menos, de maneira que eu só conseguisse reparar que estava lá quando tudo parecia diferente. Muitas sombras, muitas imagens borradas de pessoas.
— Não podem! — uma voz ecoou, e eu agora enxergava com mais clareza um lindo palácio, mesmo que não soubesse de onde vinham as vozes.
— Vossa majestade, receio que não tenhamos escolha. — disse uma segunda voz. — O povo clama que ela seja convocada para a Guerra bem como todos os demais.
Uma pausa.
— Se algo acontecer com ela, eu jamais me perdoarei. — essas palavras pareciam saídas com muita dor, um pesar imenso na voz de quem dissera, provavelmente o primeiro homem do diálogo. Sem eu saber onde estava, apenas pelo tom com que ele conversava parecia descontrolado, impaciente, nervoso, enfrentando um dilema imenso.
— Faremos todo o possível para protegê-la. — a segunda voz disse, mas as palavras pareciam tão vazias, uma promessa tão grande e tão perigosa que senti um frio na espinha de desconfiança e questionamento. O ambiente tornou-se mais turvo, e aos poucos o palácio desaparecia, dando lugar a uma escuridão sem fim, e quando percebi, os sons ao meu redor eram mais reais que nunca.
— Quem está aí? — a garota gritou.
Ao longe, conseguiu ver uma sombra se levantando. Ela levou um imenso susto, mas não parecia ser uma figura ameaçadora. Era um garoto um pouco mais alto que ela, e foi apenas o que pôde deduzir. Não conseguia imaginar o que ele fazia naquele lugar àquele horário, mas o garoto apenas começou a caminhar para longe, silenciosamente, como se nada tivesse acontecido.
— Quem é você? — gritou Serena, sendo seguida pelo silêncio desesperador da rota. — O que você está fazendo aqui?
Serena começou a caminhar atrás dele, mas naquela escuridão conseguiu perdê-lo e sequer podia dizer se ainda continuava lá. Quando se deu conta, a menina estava sozinha em meio àquela rota, e sentia um vazio perturbador como em nenhum outro lugar. Por que aquele ambiente mexia tanto com ela?
— Serena!
A garota se virou, e encontrou Charlie e Calem ao longe, com uma lanterna. Os dois estavam com suas roupas de sempre, mas com o cabelo desgrenhado, permitindo que se percebesse que praticamente pularam da cama ao descobrirem que havia saído. Os dois seguiram em direção à menina, que parecia mais tranquilo em vê-los.
— Qual a graça que vocês veem em sair no meio da madrugada atrás de lugares assombrados? — resmungou Charlie para o companheiro.
De repente, antes que chegasse perto da amiga para que ela se explicasse, um som alto pôde ser ouvido, que os fez tomar um susto. Grandes pedras esféricas começaram a rolar entre o trio. Começaram a tomar forma, revelando uma cabeça e braços. Serena puxou sua Pokédex, e logo ela exibiu dados daqueles Pokémon. Tratavam-se de vários Golett, Pokémon originários de Unova e de origem extremamente antiga. 

Os Pokémon começaram a avançar na direção dos dois garotos, quase ignorando a presença de Serena. Em reflexo, os dois puxaram suas Pokébolas dos bolsos, ficando em posição de batalha também. Charlie olhou para o amigo e arqueou uma sobrancelha, se divertindo.
— Não creio, finalmente trabalharemos em equipe, “Cal”? — provocou.
— Você vai é me atrapalhar. — resmungou Calem, bocejando, mas não escondendo um sorriso.
Charlie soltou uma risada e arremessou sua Pokébola. O companheiro não ficou atrás, repetindo o gesto.
— Skiddo, nos ajude aqui.
— Tyrunt, saia.
Serena podia não ter dito nada, mas aquele momento a empolgou. Ela nunca havia visto antes seu primo e Charlie trabalharem juntos, e com certeza uma das únicas coisas que tinham em comum era o fato de quererem sempre protegê-la. Calem trouxe para a batalha seu Pokemon fóssil, que logo que entrou se colocou em posição de luta, abrindo a grande mandíbula. O amigo mostrou uma criatura que nem sempre aparecia no campo de batalha, um Skiddo que já havia resgatado tanto ele quanto a garota em outra ocasião.
Razor Leaf, parceiro. — instruiu Charlie.
Stealth Rock, para começar. — acompanhou Calem.
Tyrunt golpeou o chão e disparou diversas rochas em torno dos dois, preparando o campo de batalhas. Alguns Golett que avançaram tropeçaram e foram afetados pelos pedregulhos levantados ou disparados contra eles. Skiddo não ficou atrás, atirando diversas folhas de seu corpo e atingindo em cheio os Pokémon, causando grande dano por serem do tipo solo.
— Quem diria? Achei que iria tentar usar seu Pancham e não conseguiria acertar os fantasmas com seus golpes lutadores. — caçoou Calem.
— Até que eu dou para o gasto, né. — comentou o companheiro, dando de ombros.
Calem sorriu,
— O.K., Tyrunt, utilize o Bite. — pediu o treinador.
O Pokémon avançou contra um dos adversários, enquanto outro atacava Skiddo. O golpe parecia coberto por uma energia obscura, um Shadow Punch. Outro dos Golett saltou e golpeou o solo, utilizando o Magnitude, porém, aparentemente cuidou para que o golpe não fosse forte demais, causando poucos tremores e apenas num raio pequeno de distância, ainda assim afetando o Pokémon de grama.
Synthesis e depois Vine Whip! — solicitou Charlie.
Bite mais uma vez!
Skiddo concentrou-se e fez com que sua parte planta começasse a brilhar. Apesar do ataque não ser tão efetivo durante a noite, foi suficiente para que se recuperasse um pouco de sua energia, e em seguida lançasse mais uma sequência de folhas contra o grupo adversário. Tyrunt avançou, mordendo-os e também nocauteando mais alguns. A batalha era tranquila, contudo, quanto mais Golett eram derrotados, mais pareciam surgir na rota, encurralando-os, enquanto olhavam Serena sozinha ao longe.
— Charlie! Calem!
Os dois se viraram, e depararam-se com Mikala e Ashley se aproximando. A garota carregava consigo uma lanterna também, permitindo que vissem melhor o ambiente ao redor. Charlie sorriu:
— Acordamos vocês? — falou, brincando.
— Tá brincando? Vocês querem ficar com toda a diversão! — exclamou Mikala empolgado, puxando suas Pokébolas.
— Eu gosto de estudar de madrugada, mas não era exatamente isso que eu tinha em mente. — balbuciou Ashley.
— Vá atrás da Serena! Nós cuidamos da área aqui. — disse Mikala, apontando para a menina, metros à frente, atrás de todos os Golett.
Charlie assentiu com a cabeça e olhou para seu Skiddo. O Pokémon o fitava com seus grandes olhos negros.
— Sei que você não gosta muito de fazer isso, mas pode quebrar meu galho dessa vez? — pediu.
A criatura pareceu concordar e abaixou sua cabeça. Charlie subiu nas costas do Pokémon e se ajeitou. Em seguida, fez um sinal, e o Skiddo começou a correr atrás da menina. Ele se desequilibrou com o movimento repentino, mas logo apoiou-se nos chifres da criatura e conseguiu ganhar velocidade, desviando dos adversários e criando um caminho até sua amiga.
— Não acredito que eu realmente levantei da cama para entrar em uma batalha Pokémon. — resmungou Ashley, puxando uma Pokébola.
— E eu nunca imaginei que veria essa cena. — provocou Mikala, sorrindo com os dentes.
— Aproveite, porque não vai ver de novo tão cedo. — ela revelou um pequeno sorriso de canto, quase que invisível àquela escuridão.
— Deve estar com as Pokébolas empoeiradas. — ele provocou, fazendo-a ficar sem resposta de início, soltando um risinho. — Froakie, Fletchling, vamos!
— Elgyem, vamos desenferrujar.
Mikala revelou em uma de suas Pokébolas um companheiro já conhecido, Froakie, pronto para a luta. De uma outra Pokébola revelou-se um pequeno pássaro, que pousou próximo do companheiro, saltitando. A ruiva invocou uma criatura misteriosa, que começou a fazer sons mecânicos e a piscar luzes quando entrou em campo, iluminando seu corpo verde aparentemente robótico. Mikala soltou um grito de espanto.
Froakie and Fletchling by Xous54
— Caraca, que legal! Onde posso pegar um desses?
— No espaço. — respondeu ela, direta, deixando-o sem resposta.
— Vocês vão ajudar ou ficar batendo papo? — resmungou Calem, um pouco distante.
Os dois ficaram em silêncio por um instante, abrindo um pequeno sorriso.
— Froakie, utilize o Water Pulse! Fletchling, Peck!
— Vamos iniciar com o Confusion!
O sapo concentrou-se no ataque, e disparou um pequeno vórtex de água, atingindo vários Golett. Fletchling cortou o ar com suas asas e golpeou um outro com seu bico, afetando-o fortemente com sua habilidade voadora. O Pokémon psíquico estendeu uma mão e fez vários “bipes”, acendendo e apagando luzes azuis até disparar uma onda de energia que deixou alguns dos inimigos perdidos.
Enquanto isso, Charlie avançava até Serena. Calem e os outros conseguiam abrir caminho com seus Pokémon, permitindo que o garoto alcançasse a amiga. Além disso, seu Skiddo era capaz de sentir as emoções do treinador quando ele o segurava pelo chifre, e percebia como alcançar a menina era importante, de maneira que encontrasse forças para acelerar e desviar dos outros Golett.
— Serena! — gritou o garoto.
A menina novamente estava ajoelhada, segurando-se a uma das sepulturas. Ela se virou quando o rapaz chamou, e seu rosto estava inchado, como de alguém que chorara muito pouco tempo atrás. Dois Gollet apareceram tentando impedir que o rapaz chegasse até ela, afetando-o no caminho
Vine Whip, amigo! — pediu.
O Pokémon invocou dois grandes chicotes de planta e golpeou os adversários, os confundindo e afastando o suficiente para que Charlie chegasse até Serena. O rapaz tentou não se assustar com o estado em que a menina se encontrava, aos prantos, e apenas puxou-a pelo braço, mas ela não levantou de início como esperado.
— Você está bem? — perguntou, se abaixando também.
— Estou. — ela respondeu, limpando o rosto.
— O que você está fazendo aqui? — indagou.
— Charlie, tem algo muito errado com esse lugar. — ela falava. — Ele faz eu me sentir muito… Estranha.
— Então vamos embora! — respondeu ele se levantando com enorme simplicidade, a puxando.
Mais uma vez ela resistiu.
— Não! Eu quero entender o que é isso. Por que esse lugar é tão importante? — questionou ela.
Charlie novamente se abaixou na altura da amiga.
— Princesa, eu sei, mas vamos fazer isso de manhã. — pediu. — Agora não é uma hora de vir ao cemitério resolver mistérios.
Ela apontou para a frente quando os dois Golett retornaram para atacá-los. Como um reflexo, o rapaz pediu auxílio a seu Pokémon.
— Skiddo, nos ajude com o Razor Leaf.
O pequeno bode invocou mais folhas, arremessando-as contra os inimigos e conseguindo afastá-los ligeiramente. A menina sorriu desta vez, satisfeita.
— Faz tempo que eu não o vejo em uma batalha.
Charlie apenas sorriu de volta. Contudo, com a pequena distração, um dos Golett conseguiu avançar, preparando um Shadow Punch que com certeza mirava no garoto. Serena puxou rapidamente uma Pokébola de seu bolso e arremessou para a frente, quase que instintivamente.
— Goomy, use o Protect!
O pequeno dragão saiu da esfera em um conjunto de raios prateados e invocou uma parede de energia invisível à sua frente, que reluziu com a luz do luar. O golpe do Golett não conseguiu atravessar a tela protetora, impedindo que Charlie fosse afetado. O garoto se protegia com os braços até perceber que não era mais necessário, uma vez que despistou o golpe.
— Estamos quites? — perguntou Serena se levantando.
— Com certeza. — respondeu ele, com a cabeça.
Calem continuava no combate, porém, já estava em um momento delicado. Um dos Golett golpeou seu Tyrunt com o Mega Punch, deixando-o muito mais enfraquecido. O garoto puxou sua Pokébola de volta, apontando para o dinossauro:
— Tyrunt, bom trabalho. Agora retorne. — e guardou a esfera, puxando outra. — Honedge, vamos nessa.
Naquele instante, não muito mais atrás, Froakie utilizava um jato de bolhas para afastar a horda ao redor. Fletchling complementava o ataque, conseguindo escapar sempre pelo ar e mergulhar ocasionalmente para golpear com o Peck. Elgyem estendia seus braços e lançava intensos raios de energia, o Psybeam, que apesar de não tão efetivo, auxiliava a enfraquecer o inimigo. Calem apontou para seu Honedge, após a criatura entrar no campo de batalha.
— Use o Pursuit!
A espada encarou o inimigo e preparou-se para avançar. Contudo, nitidamente foi possível percebê-lo recuando e ficando estático no campo. Calem inclinou a cabeça em direção ao ombro, intrigado, e esperou alguns instantes para ver se acontecia algo, mas Honedge permanecia parado na mesma posição. Ele contestou:
— O que foi? Eu pedi para atacar. — reforçou, com receio de não ter sido ouvido.
A espada continuou parada, apenas se virou para seu treinador, fitando-o, e voltou para a mesma posição. Calem sentia como se parecesse querer dizer algo, mas não conseguia adivinhar o que era. Além disso, se nenhum movimento fosse executado, logo os adversários poderiam avançar primeiro e derrotá-los. Contudo, perceberam um tremor além do normal. Alguns Golett recuaram, e logo perceberam que havia algo errado.
— O que é isso? — sussurrou Calem.
Uma criatura apareceu da escuridão, se aproximando. Assemelhava-se aos Golett, mas era metros mais alto. Sua fisionomia era tão grande que parecia um grande guerreiro com uma armadura reforçada. Era um Golurk, evolução de Golett e um Pokémon ancestral de grande força. A forma com que fez alguns menores recuarem pareceu mostrar certa hierarquia, como se fosse o líder que até então estivera ausente da batalha, e agora que via problemas mostrava sua cara.
— É um Golurk. — ponderou Ashley.
A criatura levantou sua enorme mão para o alto, preparando-se para um ataque. Seria um Dynamic Punch, que com certeza causaria grandes danos em quem quer que fosse acertado. Todos se colocaram em posição de batalha mais uma vez para derrotar o adversário, mas Ashley parecia incomodada, refletindo sobre o fantasma.
— Algo está errado. Golett e Golurk são criados para proteger pessoas e Pokémon. — disse. — Mas eles não param de nos atacar.
— É um Pokémon selvagem, é isso que eles fazem quando você está no território deles. — disse Mikala em resposta.
— Não me refiro a isso. — ela rebateu. — Eles estão organizados, e só há criaturas da mesma espécie. Isso deve significar algo.
Os outros absorveram as palavras, mas voltaram a combater, pois não haveria muito tempo para tentar explicar o que acontecia. Serena era levada de volta por Charlie pela mão, na companhia de seus Pokémon, mas tinha a mente em outro lugar, nas palavras de Ashley, tentando entender o que tudo aquilo poderia significar.
— Quando você está no território deles… — repetiu a garota para si mesma. — É isso!
Ela parou de correr, e Charlie consequentemente também foi obrigado a parar.
— Eles estão protegendo aqui… O santuário. Talvez eles sejam sobreviventes da Guerra, ou algo do tipo. — falou a menina.
Ashley coçou a cabeça, ao longe.
— Golurk são criaturas bem ancestrais. Isso é possível. — raciocinou.
— Era isso que você tentou me dizer? — indagou Calem a Honedge, e embora não ouvisse uma resposta, foi capaz de imaginar.
— Provavelmente tem mais coisas aí, mas isso significa que não adianta tentar lutar contra, se sairmos daqui pararemos de ser atacados. — disse a ruiva.
— Mas por que eles só atacaram quando nós entramos, e não a Serena? — indagou Charlie, gritando.
Antes que uma resposta visse, o Golurk avançou, atingindo Honedge com o Shadow Punch.
— Vamos tentar voltar sem fazer mais estragos. — disse Calem, quase perdendo a calma.
Charlie começou a puxar Serena novamente com mais força, mas a garota resistiu, evitando sair do lugar. Ele a encarou, um pouco impaciente:
— Serena, nós precisamos ir agora! Você os ouviu!
— Charlie, eu quero tentar falar com o Golurk. — murmurou a garota.
— O quê? — inquiriu ele instintivamente, mais alto que gostaria. — Não, óbvio que não.
— Charlie, talvez ele entenda que nós não queremos fazer nada de mal. Me deixe tentar, pelo menos. — implorou ela.
O rapaz encarou a criatura imensa, que os amigos tentavam conter, sem muito sucesso. Olhou novamente para a amiga, e viu seus enormes olhos azuis suplicantes, enquanto sua mão fria parecia tremer ligeiramente. Ele fechou os olhos com força se a soltou, com uma expressão de desagrado.
— Por que eu ainda concordo com essas ideias?
A garota foi então correndo até a criatura, posicionando-se atrás dele. O Golurk virou-se vagarosamente em direção a ela, e apesar do tamanho intimidador, Serena não conteve suas palavras.
— Nós não queremos causar nenhum mal… Só queremos…
Contudo, a criatura levantou seu braço gigante em direção ao ar. Aquilo seria, sem dúvidas um Hammer Arm. A garota congelou, seus pés pararam de responder por um instante e a brisa da noite parecia mais fria que nunca, fazendo-a se arrepiar por inteira. Um golpe daquela magnitude seria suficiente para causar um grande estrago, mas além de não conseguir se mexer, ela sentia que deveria permanecer ali, para provar seu ponto.
De repente, sentiu algo a acertando antes de ver o braço do Golurk descer em sua direção, e logo depois ouviu um estrondo imenso e percebeu o Pokémon com uma cratera enorme onde desferiu o ataque. Mikala conseguira saltar junto da garota e a afastar do golpe nos últimos instantes, por sorte. Ele logo se levantou e checou se ela estava bem.
— Acho que não deu muito certo… — murmurou ela, gradualmente se levantando e apenas passando a mão por alguns arranhões leves.
O Golurk se recuperou do ataque e virou-se para os dois. Froakie colocou-se à frente de seu treinador para protegê-lo de qualquer golpe que viria a seguir, sem se intimidar pelo adversário tão maior e mais experiente. Mais uma vez ele se preparou para golpear com o Shadow Punch, e apesar do Pokémon sapo ser ágil, não conseguiu realizar uma evasiva perfeita, sendo arremessado contra o chão.
— Froakie! — gritou Mikala, correndo até seu Pokémon.
O garoto abaixou-se na altura de Froakie, e o Pokémon parecia quase inconsciente. Golurk, todavia, preparava-se para um novo golpe, estendendo um braço para um novo Hammer Arm. Contudo, enquanto Mikala, aturdido, tentava levantar seu protegido, percebeu-o sendo tomado por uma luz prateada que subitamente o assustou. Logo ele notou Froakie tomando uma forma maior, e um guerreiro em novo estágio evolutivo se posicionava à sua frente.
—…Frogadier. — ponderou o garoto por um momento, sem reação, em seguida estampando um imenso sorriso.
O Pokémon recém-evoluído levantou-se, suficientemente confiante. Com suas patas maiores, foi capaz de invocar uma esfera que mais parecia líquida, totalmente feita de água. Surpreendentemente, conseguiu conter movimento do Golurk, e com o contato, criou um vórtex aquático que afastou o golem e o desestabilizou, sem chegar perto de pará-lo, todavia.
Mikala e Serena aproveitaram a oportunidade para correr em conjunto do Pokémon recém-evoluído. O garoto parecia imensamente realizado, elogiando seu companheiro, enquanto os demais também se mostravam surpresos. Todos voltavam na maior velocidade em direção ao hotel, vendo os Golett e seu líder ficando para trás. Serena virou-se uma última vez para aquele imenso santuário, vendo os guardiões os encarando, ao longe.
Novamente o mesmo palácio, e sombras indecifráveis passando a todo o momento. Muitos sons misturados, mas principalmente murmúrios e lamúrias abafados pareciam ser lançadas do mesmo sujeito o qual eu já ouvira anteriormente. Eu conseguia ver ao longe uma pequena caixa, tão pequena quanto uma caixa de sapato, feita de madeira e perfeitamente geométrica. Alguém parecia agachado sobre ela, mas eu não conseguia notar qualquer detalhe.
— Eu sabia que não deveria ter permitido que isso acontecesse, eu sabia! Você não deveria ter ido. — era a única coisa que eu ouvia, repetidamente e em um tom tão melancólico e desesperador que imediatamente fui tomada pelo mesmo sentimento, querendo desabar naquele mesmo lugar.
Tudo voltou a ficar turvo, e a escuridão tomava o cenário cada vez mais a cada segundo, deixando tudo indecifrável e perdido. Apenas o mesmo tom de perdição ecoando em gritos e prantos, com dificuldades de formar sentenças. Uma frase, todavia, me atingiu como uma flecha, e eu jamais consegui tirá-la da cabeça desde aquele momento.
“Eu a perdi para sempre”


      

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