Notas do Autor - Capítulo 24

Se eu dissesse que o capítulo 24 estava finalizado pouco tempo depois do 23 vocês acreditariam? Cara, faltava apenas revisar e consertar uns detalhes, mas eu simplesmente não achei tempo para isso com a volta às aulas e a dedicação a outros projetos paralelos. De repente passou um mês, e nada de capítulo! Pooorém, hoje vocês podem conferir a continuação de nossa querida história, com a passagem por um lugar que gosto muito em Kalos, a Reflection Cave.
Apesar de simples, o capítulo trouxe alguns acontecimentos importantes. Sei que há tempos vocês aguardam uma evolução, e aconteceu justamente com o primeiro Pokémon a entrar na fic como uma captura, o Flabébé. Espero que possa ter transmitido toda a singelez do momento, a ligação forte que a Serena tem com seus Pokémon e como isso reflete nas próprias habilidades deles. Chega um momento em que eles ampliam suas habilidades principalmente para serem capazes de acompanhar sua treinadora que sempre dá seu melhor por eles.
Outro personagem destaque nesse capítulo foi o Elliot. Cara, cara, cara. Esse capítulo foi super inocente, justamente pela proposta dele, mas não se enganem, o Elliot é um personagem importantíssimo para a fic, e vocês vão perceber isso porque apesar de ele ter sido convidado a andar com os principais, ele não será adicionado aos recorrentes, como a Kath, o Ald, o Mika e a Ash. Ele será colocado junto dos protagonistas, e oficialmente fará parte do grupinho. Sei que parece extremamente arriscado fazê-lo, uma vez que já estamos no capítulo 24 e estamos acostumados há uns 4 anos com o trio Calem-Serena-Charlie. Mas confiem em mim, essa ideia está em minha mente há tempos e o Elliot esteve apenas aguardando para fazer sua estreia. Eu não acrescentaria alguém a essa altura do campeonato para nada. Deem uma chance a ele!
Por fim, agradeço pela leitura e espero encontrá-los nos comentários. Espero durante a semana dar um jeito no próximo Royal Emperium, em que o Eryx ainda aparece como Flabébé (porque o especial já estava meio escrito desde antes desse capítulo) e atualizar a ficha dele também!
Resultado da Enquete
Mais uma enquete feita por curiosidade. Não julgo quem acessa o blog de vez em nunca, porque minhas postagens são bem imprevisíveis. Fico feliz de ver que tem gente que entra com certa frequência, e gostaria de poder manter atualizações sempre para fazer jus a essas visitas. Espero, de qualquer modo, que as entradas estejam sendo proveitosas no quesito de capítulos e posts agradáveis. Obrigado a todos que votaram e logo estarei substituindo a enquete
Capítulo 24
Capítulo 24
Verdadeiro Desejo
Após uma madrugada
turbulenta e cheia de acontecimentos estranhos, o trio resolveu passar mais um
dia em Geosenge para recuperar as energias necessárias. No dia seguinte, já
despertaram prontos para seguir um novo rumo, desta vez para Shalour City, uma cidade importante e
conhecida do litoral, e também sede de um dos Ginásios que Calem poderia
desafiar.
O rapaz arrumava sua
mochila cheia de bugigangas, enquanto Charlie jazia sentado na janela do hotel,
observando as humildes casinhas de Geosenge, e os famosos monumentos esculpidos
em pedra que eram a marca da cidade. Além disso, se virasse um pouco o olhar,
encontrava a Route 10, mas não
parecia muito ansioso para admirar aquele caminho depois dos acidentes
anteriores. Serena estava próxima da porta, já com sua bolsa, aguardando pelos
amigos.
— Aparentemente só
falta eu acordar no meio da madrugada e resolver enfrentar espíritos
revoltados. — balbuciou Charlie, recebendo uma revirada de olhos de Calem.
— Charlie, não
brinca com essas coisas. — repreendeu Serena.
— Estou só enchendo
o saco, princesa. — ele sorriu.
A garota virou-se
para trás e foi em direção ao quarto em frente. Mikala estava revirando suas
coisas, enquanto Ashley mexia em seu computador, deitada na cama e com a
máquina no colo. Quando ele avistou a loura, levantou-se com as mãos no rosto e
revelando um grande sorriso com os dentes.
— Tem certeza que
vai ficar aqui? — indagou ela.
— Tenho sim. Pode ir
tu na frente, que eu e a Ash vamos ficar um tempo por aqui, e depois iremos a
Lumiose. — concordou ele.
Serena sentiu um
pequeno calafrio.
— Acho que vai
demorar um pouco para voltarmos para lá.
Ele a fitou com seus
olhos cor-de-mel.
— Isso significa…
— Que a gente vai
ficar um bom tempo sem se ver. — completou ela, em um tom cabisbaixo.
Os dois ficaram em
silêncio porque não sabiam exatamente o que dizer. Na última semana, de meros
desconhecidos, ambos tornaram-se muito próximos, dividindo experiências e
pensamentos como com nenhuma pessoa antes. Todavia, encontravam caminhos que
divergiam em um lugar imenso como Kalos, e sabiam que mais cedo ou mais tarde
aquilo aconteceria. O garoto tirou a mão do bolso e dirigiu à menina, fazendo-a
estender suas mãos. Em seguida, colocou algo dentro delas e as fechou logo em
seguida.
— Fica com isso. —
pediu.
— O que é? — ela
indagou.
A garota abriu suas
mãos, e havia um pequeno colar, fino e simples, mas com um pequeno símbolo na
ponta esculpido em madeira, que parecia um totem.
— É Tapu Lele, o
guardião da ilha que eu moro. — explicou ele. — Nós acreditamos que seja o
criador de todas as pessoas, Pokémon, da natureza, e de toda vida. — ele
sorriu. — E espero que ele te abençoe na tua jornada e dos teus amigos.
A garota ficou um
momento sem reação, realmente tocada. Ela sabia o quanto Mikala era apegado às
crenças de Alola, portanto, um gesto como aquele significava muito para o
garoto, e isso era suficiente para mostrar o quantos e importava com ela. A
garota segurou o item firme em suas mãos e o estendeu em seguida, muito
contente.
— É lindo, Mika! —
exclamou, empolgada, em seguida mudando seu tom para um arrependido. —
Desculpa, eu não trouxe nada para você…
— Imagina. — ele fez
um gesto com a mão para tranquilizá-la. — Tu pagou a nossa hospedagem nos
hotéis e tudo mais por todos esses dias. A gente é que tem que agradecer.
Ela sorriu e segurou
o colar com força.
— Prometo que vou
guardar e usar com muito carinho.
Os dois deram um
grande abraço, e ficaram assim por alguns momentos, apenas os dois,
aproveitando aqueles instantes de união antes de se separarem de vez. O rapaz
acreditava que o destino não era um acaso, que as coisas aconteciam por motivos
muito mais profundos, como o próprio encontro de ambos. Por esse motivo, tinha
fé que aquela não era uma despedida definitiva. Era algo unicamente temporário,
e se os guardiões da vida quisessem, não tardariam a se reencontrar.
Após minutos, os
outros dois garotos terminaram de arrumar suas coisas, preparando-se para
deixar o local. Foram até Mikala e o cumprimentaram, desejando sorte. Ashley
levantou-se e veio despedir-se de todos também. Serena deu um abraço mais longo
que a ruiva gostaria, mas ainda assim ela se mostrou razoavelmente simpática ao
menos na partida.
— Sucesso então com
suas batalhas. — apontou para Calem.
— Obrigado. —
respondeu ele. — E boa sorte com suas pesquisas.
— Eu não acredito em
sorte. — ela deu de ombros.
— Nem eu. — rebateu
o rapaz.
Ambos começaram a
rir em sincronia, e Charlie ficou um pouco confuso. Talvez fosse bom afastar
duas pessoas com características semelhantes – especialmente se essas
características eram justamente as quais considerava seus defeitos. O trio foi
até a recepção do Hotel Marine Snow e
resolveu as pendências, em seguida dirigindo-se para a saída da cidade ao
leste, próxima a um portal feito de pedras.
O caminho da Route 11, apesar de formado
principalmente por terra e grama, levava a um solo mais rochoso à medida que se
aproximavam da Refletction Cave. Além
disso, alguns belos cristais se erguiam do chão em direção ao céu, em um
tamanho às vezes considerável. Serena adorou admirar essas formações minerais,
que reluziam à luz do sol tímido daquele dia. Não havia tantos treinadores ao
redor, mas os poucos que habitavam Geosenge aproveitavam a rota para brincar
passavam por entre o matagal e corriam pelo chão de pedra que antecedia a
caverna.

— Agora somos só nós
três de novo. — ponderou Charlie.
— Parece que fica um
vazio… — murmurou Serena.
— Um vazio que logo
será preenchido com o Calem reclamando. Para variar. — respondeu o garoto de
prontidão.
— Para seu azar,
hoje caminharemos por uma caverna, Charles. — falou Calem, seguindo um passo
relativamente empolgado. — Garanto que vou reclamar bastante.
O outro já adivinhou
que seria verdade. Após subirem algumas elevações do terreno, encontraram
várias possíveis entradas e saídas da caverna. Calem observou seu mapa por
alguns momentos para planejar o melhor caminho – e mais rápido, é claro. – de
chegar a Shalour, que ficava ao norte. O grupo se preparou antes de entrar,
passando repelente e pegando uma lanterna.
— Pronto? —
perguntou Charlie ao amigo.
Calem soltou uma
gargalhada rápida.
— Óbvio que não. —
disse ele, seguindo em frente. — Mas minha vida já está toda desgraçada mesmo.
Os três avançaram
vagarosamente alguns passos rumo à entrada. A umidade já era mais nítida, e o
som de gotas caindo de algum lugar, além de passos ecoava por entre as paredes
de pedra. O solo rochoso era liso em alguns pontos, de maneira que havia
algumas placas penduradas alertando para o perigo de escorregões. Após alguns
minutos de caminhada, os jovens depararam-se com algo surpreendente.
Vários cristais
saíam do solo como do lado de fora, mas agora eram maiores, e muitas vezes se
entrecruzavam nos caminhos. Serena passou por um deles, e eram simplesmente tão
brilhantes que conseguiu ver a si mesma com imensa clareza. Algumas paredes de
certos salões da caverna eram totalmente cobertas por esses cristais,
refletindo todo o ambiente iluminado em uma visão admirável.

— Parecem… Espelhos…
— ponderou Serena.
Alguns cristais
distorciam a imagem devido ao seu formato. Calem sabia que se tratava apenas de
um fenômeno físico, mas a sensação que tudo lhe causava não era traduzível em
palavras. Por um momento se esqueceu de todos os pesares da caverna, ao ver
dezenas de si mesmo em vários ângulos, em meio à caverna repleta de iluminação
quase natural dos minerais.
— Isso é fantástico.
— admitiu o rapaz para si mesmo.
— É um dos lugares
mais lindos que já vi. — comentou a menina, ainda admirada.
Passar pelo trajeto
passou a ser uma atividade mais prazerosa, porém, os vários reflexos vez ou outra
confundiam a mente de todos, de maneira que se perdessem de qual caminho ou
direção deveriam seguir, e não compreenderem sem uma boa olhada quantas
alternativas palpáveis havia para se seguir. Já haviam ouvido algumas histórias
de pessoas que se perdiam na Reflection
Cave justamente por essa confusão que os espelhos causavam, alguns nunca
conseguindo encontrar a saída.
De repente, do alto
teto da caverna caiu algo no meio dos três que fez um barulho alto, quase
metálico. Passado o susto, o trio notou uma criatura que se assemelhava a uma
semente de dimensões consideráveis, repleta de espinhos. Seu corpo, todavia,
parecia reluzir como metal, e um par de grandes olhos desafiadores parecia tentar
se localizar no cenário.
Calem deu alguns
passos para trás e dirigiu sua mão vagarosamente ao bolso, chamando a atenção
do amigo.
— O que você vai
fazer? — indagou Charlie.
— Seria um grande
acréscimo para meu time. — comentou Calem puxando uma Pokébola.
O outro dirigiu as
mãos à cintura, com uma expressão confusa estampada no rosto.
— Calem, estou
particularmente surpreso com você.
— Não se engane,
Charles. Metade de mim está gritando por dentro querendo correr para longe
daqui. — resmungou o outro puxando uma Pokébola e fazendo Serena dar uma
risada.
— Eu imaginei.
A julgar pelo nível
não tão alto esperado do Pokémon, Calem simplesmente atirou-lhe a esfera,
fazendo-o se converter para um conjunto de raios avermelhados e ser sugado para
dentro. A bola começou a se remexer no chão, e todos ficaram estáticos
aguardando pelo resultado. Um… Dois…Três…
Logo, ela se abriu
novamente, fazendo o Pokémon escapar. O Ferroseed fechou seus olhos, nervoso, seu
corpo se contraiu por um breve momento, e quando menos esperavam, um ruído alto
ecoou pela caverna e a criatura pareceu explodir, atirando-os para longe com o
impacto. O teto da caverna naquele local cedeu, derrubando estalactites de
cristal no solo.
O coração de todos
disparava com a surpresa. Assim que retomou total consciência e se percebeu
saudável, Calem levantou do solo correndo, balançando as mãos com repulsa de
ter deitado no chão sujo da caverna. Charlie colocou-se sentado, apoiando a mão
na cabeça para se recuperar da queda, um pouco tonto ainda.
— O que foi isso? —
indagou.
— Self-Destruct. — comentou Calem.
— Até o Ferroseed
percebeu que é melhor explodir que andar com você. — comentou Charlie.
— Bem que você
poderia tentar qualquer dia desses, Charles. — retrucou o outro, em seguida
olhando para os lados. — Onde está a Serena?
— Eu estou bem… —
uma voz ainda se fortalecendo ressoou.
A voz da garota
parecia vir de trás das estalactites caídas, que cobriam a passagem do estreito
corredor em que se encontravam. Era possível vê-la por entre as frestas dos
cristais tombados, onde Charlie foi correndo atrás para olhar. Ela parecia bem,
se levantando após o impacto e também se colocou no mesmo lugar, do outro lado
da barreira.
— Droga, esses
cristais devem ter caído do teto com a explosão… — murmurou Charlie. — Por que
o teto das cavernas sempre cai com a gente dentro?
— Acho que é um dom.
— respondeu o outro.
— Não conseguimos
destruir eles? — perguntou Charlie.
— São cristais. Não
vão sair daqui fácil. — ponderou Calem, indo ao lado do amigo. — Está me
ouvindo bem, Serena?
— Estou. — respondeu
a menina, embora só pudesse avistá-la por uma pequena fenda.
— Tem alguma saída
onde você está?
— Tem. — mais uma
vez disse de prontidão.
— Se esse mapa não
me engana, acho que podemos pegar caminhos diferentes e nos encontrar em um
mesmo ponto. — falou, pensativo.
Ele riscou seu mapa
com um marcador e passou pela fresta dos cristais, entregando à menina.
— Tente nos
encontrar nesse ponto, certo? — falou, se afastando.
— Vamos deixá-la
indo sozinha? — inquiriu Charlie, levantando a voz.
— A menos que você
tenha um teletransportador no bolso, sim. — respondeu o outro com simplicidade.
— Não se preocupe,
Charlie. Eu posso ir sem problemas. — falou a menina, do outro lado.
— Eu confio em você,
princesa. — ele disse, em seguida abaixando o tom de voz, mas tornando-se mais
agressivo. — Ela terá que ir sozinha? E se encontrar algo perigoso?
— Eu ainda estou
aqui… — murmurou ela.
— Por Arceus,
Charles, eu sei, sou eu que sempre digo isso e você nunca me ouve. — resmungou
Calem, batendo os braços. — Não é você que sempre diz que “não é nada, até
crianças de dez anos atravessam cavernas”? Pois bem.
Charlie ficou por um
tempo em silêncio.
— Não precisava ser
grosso.
Chegava
um momento que mesmo eu era capaz de atribuir certa confiança em Serena. Se
antes eu era o responsável por tentar defendê-la enquanto o Charles ajudava a
libertá-la, parecia que a situação se invertia, pelo menos depois de Lumiose,
quando ele de alguma forma parecia sentir-se responsável pelo que aconteceu com
ela. Eu permanecia desconfiado porque considerava minha prima inconsequente,
mas ainda assim reconhecia que às vezes ela era até mais habilidosa que eu para
se safar de algumas coisas.
Os dois começaram a
voltar e procurar um caminho alternativo para encontrar Serena. A garota
retirou uma Pokébola e de lá lançou sua Espurr, que saiu da esfera coçando o
próprio pelo. A menina sorriu para a criatura e ficou mais tranquila com a
companhia. A área afinal de contas não era tão ruim de se deslocar, uma vez que
estava relativamente bem iluminada – isto é, para uma caverna. – e todo o
cenário era apaixonante.
Em determinado
momento, Serena quase bateu em uma parede por pensar que se tratava de uma
passagem. Só então a garota reparou como tudo era confuso: os vários reflexos,
distorcidos ou não, pregavam-lhe peças. Já não tinha total consciência de
quantas direções de fato existiam, e o fato de o som sempre ser ecoado apenas
intensificava o sentimento de confusão. Não era possível afirmar com cem por
cento de certeza onde era a saída, e mesmo que chegasse a algum portal, todos
os lugares da caverna eram parecidos.
— É como se os
espelhos estivessem brincando com a minha cabeça. — murmurou a menina.
Assim, logo parou de
andar e fechou seus olhos. A Espurr fez o mesmo, pois assim o Pokémon poderia
concentrar sua energia psíquica e amplificar sua audição, o que auxiliaria a
encontrar o caminho certo. Contudo, quando foi capaz de realmente se concentrar
no ambiente ao redor, reparou exatamente como várias coisas aconteciam e
contribuíam para criar aquela atmosfera confusa.
Havia passos muito
ao longe; um rufar de asas de algum lugar; seu coração batia com intensidade; a
respiração tanto dela quanto de seu Pokémon ofegava discretamente. O que mais
chamou sua atenção, todavia, foi uma sucessão de estrondos não muito à frente,
acompanhada de vozes indecifráveis. A garota abriu os olhos repentinamente.
— Está ouvindo isso,
Mary?
A Espurr assentiu
com a cabeça, e ambas começaram a correr na direção do som. A criatura pôde
guiá-la melhor devido aos seus aguçados sentidos, até que entraram dentro de um
salão da caverna, onde uma batalha acontecia. De um lado, havia uma horda de
Roggenrola contra um garoto praticamente da mesma altura de Serena. Tinha
cabelos desgrenhados cor de oliva, e um par de olhos bem claros. Sua pele e
suas roupas pareciam sujas, como de alguém que passara mais tempo que gostaria
naquela caverna. Consigo, tinha uma pequena criatura esverdeada com
características reptilianas, parecendo desgastada e com dificuldades de se
movimentar.
— Kecleon, não
desista. — dizia o garoto, impaciente, sem notar a presença de Serena. — Use o Fury Swipes.
A criatura tentou
avançar, mas estava lenta devido aos ferimentos de combate. Um dos Roggenrola
atacou com uma simples investida, que foi suficiente para desestruturá-lo e
fazê-lo cair próximo do garoto. Ele soltou um grito, parecendo sem saber o que
fazer. Serena e Mary correram em sua direção, e só então ele foi capaz de
notá-las, uma vez que antes estava concentrado na batalha.
— Você está bem? —
perguntou a menina, tocando-lhe o ombro.
— A-acho que sim. —
disse ele ainda confuso.
A menina olhou para
a Espurr, que semicerrou os olhos e fez um sinal positivo com a cabeça, se
colocando à frente dos dois para continuar a batalha.
— Mary, use o Confusion. — pediu.
A pequena criatura brilhou
seus enormes olhos com um tom azul bem claro, e em seguida uma forte onda de
energia pareceu controlar um dos Roggenrola. O Pokémon de pedra manipulado demonstrou
não conseguir se movimentar naturalmente, aturdido, em seguida lançando um
ataque que não pretendia, que derrubou toda a horda.
— Acho que
conseguimos escapar agora! — exclamou a menina, puxando o garoto pelo blusão.
Aproveitando a
confusão dos adversários, ambos correram. O garoto tinha seu Kecleon no colo,
enquanto Mary acompanhava a treinadora pelo chão. Tendo passado por um corredor
da caverna e indo para uma área aparentemente mais segura, ambos pararam para
recuperar o fôlego. A loura puxou em sua bolsa uma pequena garrafa, oferecendo
ao menino:
— Tome, aqui tem um
pouco de água. — e sorriu.
Ele pensou em falar
algo, mas apenas estendeu a mão e aceitou o gesto.
— Obrigado por me
salvar. — falou.
A garota fez um
sinal com as mãos como quem não deveria se preocupar com isso.
— Meu nome é Serena.
— Eu me chamo Elliot.
— ele falou, arfando, entre os goles de água. — Eliott Dennel.
Ela concordou com a
cabeça.
— O que você estava
fazendo? — perguntou, simpaticamente.
— Eu estava indo até
Shalour, mas acabei me perdendo um pouco do caminho. — ele disse, um tanto sem
graça. — E quando aqueles Roggenrola começaram a me atacar em horda, achei que
podia vencê-los com o Kecleon, mas fomos encurralados.
Elliot pareceu
desconfortável em admitir sua falha, mas a garota não demostrou achar nada
estranho.
— Eu também estou
indo a Shalour. — comentou ela, animada. — Podemos achar o caminho juntos!
Ele sorriu.
— Parece ótimo! Você
estava indo sozinha?
— Não, eu viajo com
meu primo e um amigo nosso, mas acabamos nos perdendo. — contou Serena.
— Caramba, uma
legítima jornada Pokémon. — seus olhos pareciam brilhar. — Meu sonho é viajar
por Kalos também.
Serena olhou para
ele com mais atenção.
— E por que você não
faz isso?
— É que… — o garoto
vacilou, parecendo ficar mais uma vez constrangido. — Na verdade eu nunca
encontrei ninguém que quisesse viajar comigo.
Serena sentiu uma
pontada no peito e quis falar um monte de coisas de início, porém, pensou que o
melhor a fazer, antes de dizer qualquer coisa, era ouvir o que ele tinha a
contar.
— Eu venho de
Geosenge, e é uma cidade bem pequena. — explicou. — Estava indo deixar algumas
coisas com meu avô em Shalour.
Quando a menina por
fim estava pronta para aconselhá-lo, ou talvez consolá-lo, uma horda de
Roggenrola pareceu surgir. Contudo, levando em conta que vinham de trás,
pareciam ser ainda o mesmo grupo tentando atingi-los.
— Parece que são
eles de novo. — balbuciou a menina.
— Como eles nos
encontraram? — inquiriu o garoto, nervoso.
Antes de fazer
qualquer coisa, todos avançaram agilmente contra Mary, fazendo Serena tomar um
ligeiro susto. Apesar de serem simples Headbutt,
o impacto coletivo um por um fez com que a Espurr logo se colocasse incapaz de
combater. Serena correu até a pequena criatura, consolando-a e vendo se estava
muito ferida.
— Essa não, Mary! —
sussurrou, retornando-a para sua Pokébola e logo puxando outra de sua bolsa,
meio atrapalhada. — Flabébé, vamos
nessa!
Ela lançou a esfera
para o alto, e de lá saiu a pequena fada, flutuando por entre a caverna. Apesar
de não ser um ambiente em que ficaria muito confortável, a criaturinha balançou
sua flor e colocou-se em posição, aguardando ordens de sua treinadora.
— Puxa, que
incrível. — Elliot não evitou um comentário, ainda que baixo.
A menina ouviu de
relance o que ele dissera, e por um momento sentiu-se muito bem. Ela olhou para
um dos vários espelhos do ambiente e viu a si mesma como uma legítima
treinadora Pokémon, em posição de batalha, com seus próprios guerreiros
tentando defender alguém em perigo. Sentiu uma pontada de orgulho, pois era
assim que sempre sonhou estar um dia.
— Vamos usar o Razor Leaf! — falou, voltando para o
contexto, estendendo a mão.
O Flabébé
concentrou-se por um instante e invocou pequenas folhas, que em seguida foram
disparadas em direção às criaturas de pedra. A efetividade do ataque foi
suficiente para derrubar um dos Pokémon, mas logo outros avançaram, um deles
atacando com o Rock Blast, disparando
algumas pedras do solo em direção ao parceiro de Serena. A fada, porém, sem
muita dificuldade conseguiu desviar flutuando no ar.
— O.K., agora Fairy Wind! — pediu a menina.
O Pokémon focou
então o ataque em uma rajada de vento aparentemente repleta de pequenas
partículas brilhantes e de tom róseo e prateado, porém, não foi muito efetivo.
Um Roggenrola atirou areia contra o Pokémon, que foi atingido e ficou
desestabilizado por um momento. Em seguida, após outras rochas serem disparadas
contra ele, caiu no chão, sendo prensado contra o solo por uma das criaturas de
pedra.
Serena soltou uma
exclamação descontrolada, começando a correr.
— Aonde você vai? —
gritou Elliot ao vê-la se aproximar de seu Pokémon.
— Eu preciso
soltá-lo de lá, se não ele vai ser facilmente esmagado! — falou a menina, uma
vez que sua Pokébola não conseguia retorná-lo.
— Você não pode ir
até lá, vão atacá-la também! — interveio o garoto.
— Eu preciso. —
disse ela, parando de olhar para trás.
Elliot ficou
surpreso com a atitude, tornando a observá-la lá, ao longe. Serena correu até o
Roggenrola, que pareceu se assustar com o súbito movimento. A garota empurrou a
criatura de pedra, que apesar de pesada, se desequilibrou o suficiente para que
o Pokémon fada encontrasse uma brecha para conseguir se movimentar novamente no
ar.
— Eryx, fuja! —
exclamou ela.
A criatura saiu
flutuando, mas estava desacompanhada de sua flor, apenas conseguindo se
esquivar dos inimigos. A garota em seguida foi atingida por um Headbutt antes de conseguir correr, que
pela força fez com que caísse. Os Roggenrola restantes a cercaram, e a menina
sentiu seu coração bater com mais força, enquanto o ardor do ataque ainda
afetava seu corpo.
— Serena! — gritou
Elliot, virando-se para seu Pokémon. — Kecleon, por favor, tente fazer alguma
coisa…
Contudo, a criatura
permanecia caída em seu colo, sem responder. Ele suava de nervoso, impotente.
Naquele momento o Flabébé de Serena parou de fugir para prestar atenção no que
de fato acontecia, retomando consciência. Sua treinadora se empenhara o
suficiente para salvá-lo, colocando-se naquela situação. Sendo um Pokémon do
tipo fada, era extremamente sensível às emoções das pessoas, especialmente de
sua treinadora. Ela parecia assustada, porém não hesitou em auxiliá-lo quando
necessário e se colocar em seu lugar.
Eryx respirou fundo.
O pequeno Pokémon olhou para o alto, e embora não pudesse ver o céu, fechou os
olhinhos, como se fazendo um pedido. Era o Wish,
um golpe que poderia auxiliá-lo a enfrentar aquela batalha ao se recuperar.
Desde que Serena ofereceu aquela pequena flor – agora caída no chão e amassada.
– sempre deu motivos para que se sentisse seguro. Embora fosse receoso com
humanos, como muitas fadas, sua treinadora parecia ter um coração puro e jamais
o deixou na mão. Ele semicerrou os olhos e avançou.
A pequena criatura
puxou sua flor caída do chão, quase toda despedaçada, e chegou próxima de sua
treinadora. O ataque anterior havia finalmente funcionado, e sentiu uma forte
onda de energia o recuperando dos danos. Porém, parecia que seu verdadeiro desejo também tornou-se
realidade naquele momento. Foi tomado por uma luz prateada mais intensa do que
pensara, com seu corpo assumindo uma nova forma. Serena ficou boquiaberta, bem
como os demais Roggenrola pareceram confusos. Quando foi possível ver a
criatura com clareza, estava em uma nova forma, e sua flor encontrava-se mais
bela e sadia que nunca.

— Floette! —
exclamou a garota.
A criatura
preparou-se para usar o Razor Leaf,
invocando uma sequência de folhas. Diferentemente de antes, elas eram maiores e
em maior quantidade, atingindo os Pokémon e abrindo uma brecha para que
utilizasse o Fairy Wind,
despistando-os e os afastando com uma forte rajada circular de vento em torno
de sua treinadora. A garota pareceu surpresa com a criatura tendo seus poderes
ampliados com a evolução.
— Você evoluiu para
nos salvar… — balbuciou ela. — Eu estou tão orgulhosa!
A criatura pareceu
sorrir, colocando-se nas mãos de sua treinadora após terem despistado os
Roggenrola. Ambos trocaram um momento de olhares, e a menina aproximou o rosto,
sendo acariciada pela criatura, que aparentemente apenas retribuía o carinho de
Serena. Elliot parecia embasbacado com tudo, uma vez que a menina e seu Pokémon
fortaleceram seu vínculo ainda mais durante a batalha.
— Caramba, isso foi
fantástico. — ele disse, com brilho no olhar.
A garota sorriu,
sentindo-se muito importante. Ver alguém mais jovem e mais inexperiente a
admirando era uma honra. Finalmente alguém a olhava não como alguém a ser
protegida, mas como uma protetora. Não como uma princesa que precisava ser
resgatada, mas como uma guerreira capaz de pegar uma espada e vencer o dragão
sozinha. Esse era um dos melhores sentimentos que teve em toda a sua jornada.
Após um certo tempo,
Calem jazia de pé de braços cruzados em um salão da Reflection Cave. Encarava a si mesmo em um reflexo, junto de
Charlie, que caminhava impacientemente de um lado para o outro. O menino
reclamava que estava preocupado com Serena, mas o primo apenas ficava em
silêncio evitando prolongar o discurso do outro. Afinal de contas, alguém precisava
manter a calma. Finalmente, ouviu o som de passos em sua direção, e a menina
apareceu andando tranquilamente na companhia de um garoto.
— Por que você
demorou tanto? — indagou Charlie, indo até ela e reparando na presença de outro
menino. — Quem é esse?
A menina virou-se
para ele.
— Meninos, esse é o
Elliot. — disse, apontando. — Elliot, esses são o Calem, meu primo, e Charlie,
nosso amigo.
Os três se
cumprimentaram, um pouco confusos.
— Ele também estava
perdido na caverna. — explicou ela. — E o sonho dele sempre foi seguir uma
jornada Pokémon.
Serena fez uma longa
pausa, respirando fundo.
— Eu pensei em
convidá-lo para viajar conosco. — falou, simplesmente.
Ela possivelmente já
havia arquitetado aquilo antes, e o garoto ficou por alguns momentos impactado.
Charlie e Calem também tiveram uma surpresa no momento, de maneira que por
alguns incômodos segundos todos ficassem em silêncio. Os dois, antes de dizer
qualquer coisa, puxaram a garota para mais perto, fazendo um gesto para Elliot.
— Pode nos dar um
instante? — pediu Charlie.
O menino assentiu
sem escolha, e os dois cochicharam com a loura.
— Você nem nos
consulta mais? — indagou Charlie, com uma risadinha.
— Serena, é quase legal
encontrar outras pessoas, como já fizemos. — disse Calem — Mas isso não é um
clube que você pode sair convidando todo mundo para sair conosco sem
conhecermos.
A garota balançou a
cabeça.
— Cal, o sonho dele
é sair em uma jornada! — disse. — Não estou falando de levá-lo até Shalour.
Estou falando de ser nosso companheiro de viagem.
Os dois garotos se
entreolharam, desagradados.
— Serena, nem o
Charles deveria ser nosso “companheiro de viagem”. — rebateu o primo.
— Obrigado. — falou
o outro dando-lhe um irônico tapinha no ombro.
— Primo, você seria
uma ótima inspiração para ele, e poderia ensiná-lo a treinar Pokémon. Seria
ótimo para vocês dois! — argumentou a garota.
— Nós não o
conhecemos, Serena. — retorquiu. — E de carregar pessoas sem conhecê-las por
aí, eu já estou cheio.
— Você está vendo
que eu ainda estou aqui, né? — confirmou Charlie, acenando após as indiretas.
— Por favooor. — ela
segurou as mãos do garoto, dando pulinhos no lugar. — Prometo que não irão se
arrepender!
Ah
não! Mais uma pessoa louca que a Serena resolvia enfiar na nossa “jornada” não!
Já era um saco ter de aguentar o Charles, mas em algum momento acabei me
acostumando. Eu não queria e nem precisava, mas me acostumei. Porém, mais uma pessoa
não. Aquele garoto era mais um estranho, poderia muito bem ser um psicopata
pronto para nos atacar. Confesso apenas que ao olhar sua expressão meio acuada
e infantil não percebi nada de mal, só um menino que talvez estivesse esperando
por aquela resposta como se fosse algo mais importante que eu poderia imaginar.
Talvez eu nunca entenderia.
O garoto encarou
Charlie por um tempo, e o outro respondeu com um aceno de cabeça, como quem não
via problemas nisso. A menina deu um salto de alegria e foi correndo até o novo
amigo. Elliot ainda tinha seu Kecleon nos braços, um pouco sem saber o que
esperar. Não poderia demonstrar como tinha expectativas naquele momento. Os
demais não poderiam imaginar, mas estavam tomando uma decisão que selecionaria
o rumo de sua vida.
— O que você me diz?
— perguntou Serena
— Uma jornada
Pokémon… — murmurou ele. — De verdade?
A garota assentiu,
com um sorriso, estendendo-lhe a mão. Charlie fez uma expressão simpática, e
Calem permaneceu com sua cara de mal-humorado, como sempre. O garoto proferiuvários
sons, empolgado, sem saber ao certo como agradecer. Se eram amigos que em algum
momento procurava, finalmente havia encontrado.
— Parece que seu
desejo também virou realidade… — brincou a menina, piscando para ele
Notas do Autor - Capítulo 23
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| ALERTA DE SPOILERS! Antes de ler as notas, leia o capítulo correspondente primeiro! |
Enfim, focando no que acabamos de ler (ou que irão ler, caso tenham vindo aqui antes, mesmo com o aviso de spoilers ~rs) apresento-lhes o capítulo 23. Apesar de não ser tão explosivo, gosto muito dele pelos acontecimentos discretos que ele traz. Eu geralmente odeio acompanhar algo que eu não entendo exatamente, mas adoro fazer isso com os outros. ~rs. Vez ou outra nos deparamos com alguns acontecimentos misteriosos ao longo da fic, e acho que aqui atingimos um ápice até o presente momento. Peço para que leiam cada linha com carinho, porque algumas cenas são muito importantes para o desenvolvimento futuro do enredo.
Nem acredito que chegamos na Route 10. Lembro que eu fiquei muito curioso por ela desde que a arte do mapa de Kalos foi lançada, e eu vi essas rochas em sequência, lembrando as Carnac Stones. Não é apenas um amontoado de rochas: cada rocha é uma história, uma sepultura. Esse lugar é como atravessar um cemitério enorme de memórias, e apesar de rolar uma batalha, em nenhum momento podemos nos esquecer disso. Geosenge e a Rota 10 são lugares que gosto muito em Kalos, e apesar de não dar toda a atenção que eu gostaria agora, futuramente teremos essa oportunidade.
E o que falar sobre nossos personagens todos se unindo para uma batalha coletiva? Alguns personagens como a Ashley e o Charlie tem papéis muito maiores que carregar Pokémon ou serem rivais, eles são personagens com importância direta no enredo de outras maneiras. Poorém, hoje tivemos um gostinho de uma batalha como há muito tempo não vemos por aqui. O forte de AeXY nunca foi as batalhas, e eu sempre disse isso. Me sinto muito mais confortável criando outros tipos de enredo que narrando combates, mas não posso esquecer o que estamos fazendo aqui. Já estava na hora de todos darem as mãos e falarem: Okay, não vai ter outro jeito, temos que resolver isso assim. Nenhum desafio muito grandioso, mas se torna incrível ver o quanto alguns personagens cresceram, ou como os laços entre eles se fortaleceram a esse ponto.
Essa foi mais uma curiosidade mesmo, mas fico extremamente satisfeito com o resultado. O capítulo passado foi imenso, e fiquei com medo de que tudo tivesse sido muito exaustivo ou chato, então me alegra ver que há uma reação positiva com relação a ele. Meu plano era utilizar o Showcase para esse capítulo, e ver como a história se desenvolve. Muitas portas foram abertas, e sabendo dessa repercussão, quem sabe eles não voltam por aí qualquer dia? Confesso que gostei também de descrevê-los. Obrigado pelos votos, e estarei substituindo em breve a enquete!
Resultado da Enquete
Essa foi mais uma curiosidade mesmo, mas fico extremamente satisfeito com o resultado. O capítulo passado foi imenso, e fiquei com medo de que tudo tivesse sido muito exaustivo ou chato, então me alegra ver que há uma reação positiva com relação a ele. Meu plano era utilizar o Showcase para esse capítulo, e ver como a história se desenvolve. Muitas portas foram abertas, e sabendo dessa repercussão, quem sabe eles não voltam por aí qualquer dia? Confesso que gostei também de descrevê-los. Obrigado pelos votos, e estarei substituindo em breve a enquete!Capítulo 23
Capítulo 23
As Pedras do Passado
— Mas já estão de saída? —
perguntou Dustin.
O grupo já tinha suas mochilas nas
costas e, após um café da manhã reforçado no hotel, preparava-se para tomar o
caminho da próxima cidade. O líder substituto estava a abrir o
ginásio, onde todos o encontraram para uma despedida. Ele cumprimentou Mikala,
que respondeu, um pouco abalado:
— Nem me fala, cara, eu queria
ficar mais um tempo por aqui.
— Sóóó. — concordou o líder. — Mas
ei, se querem uma dica, vão para Shalour. É uma cidade interessante aqui no
litoral de Kalos. De vez em quando eles fazem um festival ou outro, e tem um
Ginásio também. — ele sorriu.
— Era exatamente isso que pensamos
em fazer. — assentiu Calem.
— Eu vou para Geosenge. De lá eles
poderão seguir a Shalour, que fica depois da Reflection Cave. — ponderou Ashley.
— Então é isso. — Charlie balançou
a cabeça.
Após uma despedida final, não havia
mais pendências na cidade. Serena ainda andava um pouco hesitante, pois via os
dedos apontando, e algumas vezes fora até interceptada para pedirem autógrafos.
Os amigos agiam com naturalidade, mas percebiam que ela já não estava mais tão
abalada quanto na noite anterior. Ainda assim, preferiam não arriscar comentar
muito sobre o tópico.
A saída de Cyllage ficava ao norte,
onde era um ponto relativamente mais tranquilo e afastado da cidade. Havia
pistas de bicicleta onde muitas pessoas se exercitavam por prazer, e de lá se
podia ver um encontro entre um córrego e o mar. Aquela área mais afastada e
rochosa da praia era utilizada principalmente por pescadores e alguns
treinadores. O grupo mantinha a conversa empolgados, atravessando uma última
ponte que marcava o final de Cyllage após um tempo de caminhada.
Serena olhou para trás e se
despediu mentalmente da metrópole.
Com o movimento da cidade
gradualmente diminuindo, em determinado ponto o barulho e a bagunça de Cyllage
ficaram para trás, com uma placa indicando “Route
10”. Agora eram apenas os sons da natureza, os inocentes e jovens
treinadores correndo para lá e para cá, indo ou voltando do urbano e treinando
seus Pokémon animadamente. O típico ambiente de aventura e jornada Pokémon.
Contudo, em determinado ponto, foi
como se tudo isso se extinguisse. Não havia mais nenhuma criança nos arredores,
e os sons de criaturas ao redor era quase nulo. Parecia que até mesmo o tempo
conspirava: o céu agora era encoberto por nuvens, ficando bem nublado. Todas as
mudanças foram tão sutis, que todos repararam só essa mudança quando o cenário
era totalmente diferente, mesmo que apenas poucos minutos de caminhada tivessem
se passado.
Ao virar o trajeto para uma outra
direção, se depararam com um ambiente estranho e ligeiramente macabro: uma infinidade
de rochas, quase do mesmo tamanho e formato, até onde seus olhos alcançassem,
dispostas em fileiras. A grama era mais alta e seu tom tornava-se amarronzado,
e naquele momento eles eram os únicos à vista nos arredores. Aos lados, havia
apenas mata fechada, de maneira que tivessem que percorrer aquele caminho de
pedras se quisessem chegar a Geosenge.
— Que lugar sinistro. — Charlie
quebrou o silêncio.
Todos ainda permaneciam parados,
observando tudo. Estavam em um ângulo em que podiam facilmente avistar como
tudo era belo e intrigante: as várias rochas dispostas em linhas, sem um motivo
aparente. Ashley respirou fundo, puxando um pequeno mapa de sua bolsa.
— Então é aqui. — ponderou.
— O que é aqui? — perguntou Mikala.
A garota começou a caminhar por
entre as pedras de maneira hesitante, sua expressão parecia ligeiramente
preocupada. Ela aproximava a mão, mas logo recuava, não chegando ao ponto de
tocar nenhum dos rochedos. Calem inclinou a cabeça, incomodado.
— Por que essas pedras estão
enfileiradas? — indagou.
Charlie foi dar um passo para trás,
e acabou esbarrando em uma das pedras. O garoto tornou a fitá-la, então,
reparando um detalhe que lhe passou despercebido. Um pequeno escrito no centro.
SIR ARCHY JACQUINOT
REPOSE EN PAIX
REPOSE EN PAIX
O rapaz prendeu a respiração por um
momento ao perceber que não se tratava de uma pedra comum, mas sim que
provavelmente representava um túmulo. Quando todos também notaram esse detalhe,
tiveram um pequeno susto ao olhar para frente e ver com outros olhos as centenas
de rochas idênticas enfileiradas. Era terrível a ideia de que todas seriam
sepulturas da mesma forma, uma vez que sequer poderiam contá-las de tantas que
eram.
— Exatamente. — disse Ashley quando a pergunta
aparentemente havia sido respondida.
A ruiva passou por entre algumas
rochas calmamente, refletindo. Um silêncio incômodo pairava no ar, de maneira
que apenas o som do vento balançando as árvores ao redor fosse audível, além
dos passos da menina pela grama alta.
— Aqui é o santuário dos Pokémon
que morreram na Grande Guerra, três mil anos atrás. — explicou ela, virando-se
para eles com uma expressão séria.
Serena tocou uma das rochas,
abatida.
— De repente aqui parece triste… —
comentou Mikala.
— São tantos… — ponderou a loura,
baixinho.
Charlie fitou algum dos túmulos por
alguns momentos, alongando o pescoço.
— Por que aconteceu essa guerra? —
perguntou.
Ashley voltou a caminhar entre as
pedras.
— Ninguém sabe ao certo. Não há uma
fonte segura para afirmar. — respondeu.
Serena sentia-se mal por, a
princípio, ter pensado que eram apenas pedras. Não se tratava disso. Cada rocha
representava algo, alguém que em algum momento respirava vivo como ela, com
sonhos e medos. Alguém que teve um final trágico na luta por um ideal que
talvez sequer concordasse. Alguém que perdeu tudo, e tornou-se mais um túmulo
em um santuário repleto deles, de forma que todos passassem e de início apenas
pensassem se tratar de rochas quaisquer, como a menina.
— Por que eu? — uma voz clara e diferente gritou, de maneira que
instintivamente Serena se virasse para os lados.
— O quê? — perguntou a Charlie.
Todos a fitaram, curiosos.
— Ninguém disse nada. — respondeu o
garoto.
A loura assentiu com a cabeça,
duvidosa. Olhou para os lados, mas estavam praticamente sozinhos naquele lugar,
por mais que procurasse entre pedras, árvores ou arbustos. Às vezes seus
pensamentos eram tão nítidos que ela podia confundi-los com o que acontecia ao
seu redor. Ashley continuava pensativa sobre o cenário em que se encontravam.
— Eram dois lados. Até que a Ultimate Weapon… A Arma Suprema,
colocou fim à guerra. — ela esticou os braços, abrangendo todo o campo à
frente. — E deixou isso.
Até mesmo Calem encontrava-se um
pouco cabisbaixo. O local parecia remeter a algo triste e macabro, como se o ar
ao seu redor pudesse trazer essa energia pesada àqueles que ousavam se
aproximar. Ashley abriu sua bolsa e pareceu vasculhar por algo. A ruiva tirou
uma pequena esfera e pressionou um botão, a fazendo ampliar de tamanho e
permitiu que abrisse, revelando uma pequena criatura, enquanto todos ficaram
levemente surpresos. Tinha uma cabeça maior que seu corpo, e além do tom roxo
de sua pele, parecia trajar um vestido preto e branco com laço. Era Gothita,
uma espécie não muito frequente em Kalos, típica de Unova.

— Que coisa mais linda! — exclamou
Serena.
— Achei que você não gostasse de
Pokémon. — disse Calem, com um sorriso de canto.
— Eu disse que não via graça no sistema
de batalhas. — ela segurou a criatura nos braços. — Não que não gosto de
Pokémon.
Ela permitiu que a pequena
começasse a vagar pelo ambiente. Gothita parecia se concentrar, fechando seus
grandes olhos e meditando. Os outros olharam intrigados enquanto ela fazia
isso.
— Pokémon psíquicos são mais
sensíveis a energias que não podemos ver. — disse a ruiva. — Se a Gothita
conseguir sentir algo aqui…
— É para sua pesquisa? — indagou
Calem, lembrando-se de sua conversa com a menina.
A garota fez um sinal com a cabeça,
sorrindo e confirmando a hipótese. O Pokémon de fato parecia sentir algo
intrigante naquele ambiente até então hostil e sombrio. Após alguns minutos
nesse ritmo, Charlie sentiu um calafrio, balançando a cabela.
— Podemos deixar a visita ao
cemitério para um outro dia? Eu queria realmente chegar logo em Geosenge. —
murmurou.
— Que seja. — Ashley revirou os
olhos. — Posso voltar aqui quando vocês forem embora.
O grupo voltou então à caminhada,
tentando mudar de assunto. Com o tempo o cenário tornou-se trivial, e o fato de
ser tão homogêneo permitiu que logo pudessem focar na conversa e tentar e
ignorar o ambiente. Serena ainda ficava com a cabeça longe, como se não
conseguisse se desgrudar daquele local, e a todo momento sentia como se precisasse
permanecer lá por mais um tempo.
Quando viu o final da rota,
finalmente pôde respirar aliviada. Um grande portal de pedra instruía o grupo
de que Geosenge Town enfim havia
chegado, e com isso haviam alcançado em poucas horas seu destino. O Hotel Marine Snow era o menor dos hotéis
mais relevantes de Kalos, uma vez que a cidade era tão pequena que mais parecia
um vilarejo. Contudo, devido à sua importância histórica, era uma localidade
que chamava a atenção de turistas interessados na história do continente.
Charlie jazia deitado em uma das
camas do quarto enquanto aguardava os primos resolverem as pendências da
reserva. Como de praxe, ambos se ofereceram para bancar a estada de todos,
ainda que os amigos por educação se opusessem. O garoto tinha em sua mão um
objeto em que não mexia sempre: o Holo
Caster, que receberam de um amigo do Professor Sycamore em Lumiose.
Charlie acessou a configuração de
notícias, e uma moça de cabelos róseos e óculos transmitia algumas das
principais manchetes do dia. Ele utilizava aquilo apenas para fazer som no
ambiente, mas passou a prestar atenção quando seus ouvidos captaram uma
informação que julgou importante:
— …e ontem tivemos a vitória da filha única de Stevan Windsor em um Pokémon
Showcase da cidade de Cyllage. Apesar de
não ter sido unanimidade entre os juízes, ela venceu em disparada no voto
popular da segunda rodada, tornando-se…
Ele mudou o aparelho para outro
tópico qualquer ao ouvir passos de alguém se aproximando e tentou fingir
naturalidade. Calem e Serena entraram no cômodo, prontos para deixar seus
pertences. O garoto puxou assunto, sem encarar Charlie, focado na atividade:
— O que você estava vendo? —
perguntou, indicando o Holo Caster.
— Nada. — respondeu o outro, como
se nada tivesse acontecido.
— Achei que tínhamos combinado de
não ficar xeretando essa coisa. — ele falou, apontando novamente.
— Eu estava entediado. — Charlie
desligou o aparelho e o colocou em uma bancada.
— Por que não procura algum shampoo
para roubar do banheiro do hotel? — sugeriu Calem. — Isso me lembra aquele cara
estranho amigo do Professor. — murmurou.
Charlie ajeitou-se em sua cama
sobre uma montanha de travesseiros, esticando as costas e colocando os braços
atrás da cabeça, folgado.
— Esse hotel não é tão confortável
quanto o de Cyllage, mas posso me acostumar. — bocejou, metido.
— Não pode não. — retorquiu Calem
arrancando seu travesseiro e batendo nele como se para tirar o pó. — Amanhã já
partiremos para Shalour, onde conquistarei minha terceira insígnia.
Serena deu uma risadinha.
— O que foi? — indagou Calem,
arqueando uma sobrancelha.
— É engraçado ver você falando que
vai ganhar uma insígnia. — ela apenas comentou, com um tom brincalhão. — Eu
sabia que você seria um bom treinador.
Os dois sorriram. Calem ficou
levemente corado, preparando algo para disparar tentando enfraquecer o discurso
da prima. Contudo, não falou sequer uma palavra, apenas permitiu que a ternura
do momento ficasse dessa forma. E por algum motivo gostou de não rebater, pelo
menos desta vez. Enquanto isso, Mikala caminhava pelo corredor indo ao quarto
dos meninos, esbarrando com Ashley, que saía do outro quarto. O garoto a
interceptou, vendo-lhe dirigir seus grandes olhos acinzentados sérios, como se
aguardasse por algo sem expectativas.
— Ei, Ash. Eu estou pensando em
seguir com eles depois disso. — falou ele, tímido. — Você vai ficar aqui mesmo,
e eu quero ir ao próximo ginásio.
Ashley ficou por um momento em
silêncio, mas logo reagiu balançando a cabeça e as mãos.
— Claro, não tem por que me avisar,
nem viajamos juntos. — ela deu de ombros, satirizando.
O garoto assentiu e voltou seu
caminho até o quarto. Ela também preparava-se para continuar o trajeto, mas
soltou por acidente algo quase como um sussurro, baixo, que parecia escapar de
si mesma instantaneamente e sem qualquer controle. Ela esperava que ele não
ouvisse.
— Mas sabe…
Mikala parou de andar e virou-se
para ela. A garota continuava de costas ainda, de maneira que não pudesse ler
sua expressão. Vários segundos passaram nesse vácuo de palavras, como se o
começo da frase fosse instintivo, e a menina sequer pensara em como terminá-la.
Contudo, sua voz continuou, meticulosa como sempre sem qualquer hesitação
perceptível, ainda que não pudesse ver seu rosto:
— …eu não devo passar de alguns
dias aqui. Preciso pegar algumas coisas em Lumiose, e lá também tem um ginásio
funcionando. — ela fez uma nova pausa. — Se você quiser…
— Vou esperar com você então. — ele
respondeu de prontidão, com um sorriso, como se a salvasse de precisar
continuar falando. — Posso ir treinando até lá.
Ela virou-se dessa vez e assentiu
com a cabeça, simplesmente. Quando achou que havia acabado, ouviu o som de
passos voltando atrás de si, e de prontidão já disparou:
— Nem pense nisso.
Era tarde demais. Mikala afagou-a
em um abraço, embora a ruiva parecesse resmungar e se debater negativamente, ele
continuou, dando risada. Ela bufou, reclamona:
— Eu já estou me arrependendo…
...
A noite chegara em Geosenge.
Diferente de Cyllage, a cidade do interior não tinha o som dos carros ao fundo,
tampouco o doce barulho das ondas chegando à beira da praia. Os ruídos da
natureza e das criaturas noturnas lembrava um pouco as primeiras cidades da
jornada, que com o passar das horas ficavam cada vez mais vazias e silenciosas,
como uma vila que se preparava para o dia seguinte de trabalhos.
O Hotel Marine Snow tinha seus corredores vazios, e praticamente
todos os quartos estavam inundados no silêncio. Calem dormia em sua cama
forrada tranquilamente, com uma máscara de dormir e tampões de ouvido, tentando
ignorar os roncos de Charlie e Mikala. Ashley não estava no quarto, provavelmente
se encontrava em alguma área do hotel onde pudesse trabalhar sem acordar
ninguém. Serena revirava-se em sua cama, mas não conseguia pregar os olhos.
Sentia um incômodo que a fazia virar para lá e para cá incessantemente,
perturbada.
A garota ficou de barriga para cima
a fitar o teto, respirando um pouco ofegante. Tomou coragem e se levantou do
colchão, procurando suas roupas. Vestiu de maneira ágil com apenas a luz do
banheiro acesa, e abriu a porta do quarto com toda a cautela do mundo. Se não por
uma recepcionista que tentou interceptá-la, nenhuma alma parecia vagar pela
madrugada além da menina.
Ela abriu as portas do hotel e
olhou para os lados. Ninguém se arriscava a sair àquele horário. A garota
ignorou o vento frio que soprava e seguiu seu caminho, sozinha. Não havia muita
iluminação que pudesse guiá-la, mas não foi difícil encontrar o portal de
entrada da cidade. Serena seguiu por ele e logo encontrou a placa “Route 10”. A menina continuou
caminhando, aumentando a frequência dos passos.
A loura parou de andar em
determinado momento. Havia avançado bastante na rota, e seus olhos agora se
adaptaram o suficiente à escuridão para conseguir enxergar ligeiramente onde
estava. Ela agachou, como se para recuperar do cansaço, seus joelhos tocando a
terra fria e a grama incômoda. Sem saber dizer exatamente o porquê, começou a
chorar. Ela havia segurado as lágrimas a partir do momento que pisou pela
primeira vez no local, e agora finalmente elas lhe escapavam sem conseguir
explicá-las, espontaneamente.
A garota segurou uma das pedras que
representava um túmulo, e ficou encostada enquanto percebia as gotículas escorrendo
em seu rosto e caindo na rocha. Havia um silêncio quase absoluto, apenas o
vento nas árvores e alguns sons de mato sendo remexido ao longe podiam ser
percebidos, mas na cabeça da menina, era como se um turbilhão estivesse
passando. De olhos fechados, ela ouvia tudo.
Parecia
o barulho de metal estalando, como se duas espadas se chocassem. Havia muitos
sons de vozes, mas todos abafados, eu não conseguia distingui-los, mas era como
se bradassem. Como se estivesse sonhando, o cenário mudou sem mais nem menos,
de maneira que eu só conseguisse reparar que estava lá quando tudo parecia
diferente. Muitas sombras, muitas imagens borradas de pessoas.
—
Não podem! — uma voz ecoou, e eu agora enxergava com mais clareza um lindo
palácio, mesmo que não soubesse de onde vinham as vozes.
—
Vossa majestade, receio que não tenhamos escolha. — disse uma segunda voz. — O
povo clama que ela seja convocada para a Guerra bem como todos os demais.
Uma
pausa.
—
Se algo acontecer com ela, eu jamais me perdoarei. — essas palavras pareciam
saídas com muita dor, um pesar imenso na voz de quem dissera, provavelmente o
primeiro homem do diálogo. Sem eu saber onde estava, apenas pelo tom com que ele
conversava parecia descontrolado, impaciente, nervoso, enfrentando um dilema
imenso.
—
Faremos todo o possível para protegê-la. — a segunda voz disse, mas as palavras
pareciam tão vazias, uma promessa tão grande e tão perigosa que senti um frio
na espinha de desconfiança e questionamento. O ambiente tornou-se mais turvo, e
aos poucos o palácio desaparecia, dando lugar a uma escuridão sem fim, e quando
percebi, os sons ao meu redor eram mais reais que nunca.
— Quem está aí? — a garota gritou.
Ao longe, conseguiu ver uma sombra
se levantando. Ela levou um imenso susto, mas não parecia ser uma figura
ameaçadora. Era um garoto um pouco mais alto que ela, e foi apenas o que pôde
deduzir. Não conseguia imaginar o que ele fazia naquele lugar àquele horário,
mas o garoto apenas começou a caminhar para longe, silenciosamente, como se
nada tivesse acontecido.
— Quem é você? — gritou Serena, sendo
seguida pelo silêncio desesperador da rota. — O que você está fazendo aqui?
Serena começou a caminhar atrás
dele, mas naquela escuridão conseguiu perdê-lo e sequer podia dizer se ainda
continuava lá. Quando se deu conta, a menina estava sozinha em meio àquela
rota, e sentia um vazio perturbador como em nenhum outro lugar. Por que aquele
ambiente mexia tanto com ela?
— Serena!
A garota se virou, e encontrou
Charlie e Calem ao longe, com uma lanterna. Os dois estavam com suas roupas de
sempre, mas com o cabelo desgrenhado, permitindo que se percebesse que
praticamente pularam da cama ao descobrirem que havia saído. Os dois seguiram
em direção à menina, que parecia mais tranquilo em vê-los.
— Qual a graça que vocês veem em
sair no meio da madrugada atrás de lugares assombrados? — resmungou Charlie
para o companheiro.
De repente, antes que chegasse
perto da amiga para que ela se explicasse, um som alto pôde ser ouvido, que os
fez tomar um susto. Grandes pedras esféricas começaram a rolar entre o trio.
Começaram a tomar forma, revelando uma cabeça e braços. Serena puxou sua
Pokédex, e logo ela exibiu dados daqueles Pokémon. Tratavam-se de vários
Golett, Pokémon originários de Unova e de origem extremamente antiga.

Os Pokémon
começaram a avançar na direção dos dois garotos, quase ignorando a presença de
Serena. Em reflexo, os dois puxaram suas Pokébolas dos bolsos, ficando em
posição de batalha também. Charlie olhou para o amigo e arqueou uma
sobrancelha, se divertindo.
— Não creio, finalmente
trabalharemos em equipe, “Cal”? — provocou.
— Você vai é me atrapalhar. —
resmungou Calem, bocejando, mas não escondendo um sorriso.
Charlie soltou uma risada e
arremessou sua Pokébola. O companheiro não ficou atrás, repetindo o gesto.
— Skiddo, nos ajude aqui.
— Tyrunt, saia.
Serena podia não ter dito nada, mas
aquele momento a empolgou. Ela nunca havia visto antes seu primo e Charlie
trabalharem juntos, e com certeza uma das únicas coisas que tinham em comum era
o fato de quererem sempre protegê-la. Calem trouxe para a batalha seu Pokemon
fóssil, que logo que entrou se colocou em posição de luta, abrindo a grande
mandíbula. O amigo mostrou uma criatura que nem sempre aparecia no campo de
batalha, um Skiddo que já havia resgatado tanto ele quanto a garota em outra
ocasião.

— Razor Leaf, parceiro. — instruiu Charlie.
— Stealth Rock, para começar. — acompanhou Calem.
Tyrunt golpeou o chão e disparou
diversas rochas em torno dos dois, preparando o campo de batalhas. Alguns
Golett que avançaram tropeçaram e foram afetados pelos pedregulhos levantados
ou disparados contra eles. Skiddo não ficou atrás, atirando diversas folhas de
seu corpo e atingindo em cheio os Pokémon, causando grande dano por serem do
tipo solo.
— Quem diria? Achei que iria tentar
usar seu Pancham e não conseguiria acertar os fantasmas com seus golpes
lutadores. — caçoou Calem.
— Até que eu dou para o gasto, né.
— comentou o companheiro, dando de ombros.
Calem sorriu,
— O.K., Tyrunt, utilize o Bite. — pediu o treinador.
O Pokémon avançou contra um dos
adversários, enquanto outro atacava Skiddo. O golpe parecia coberto por uma
energia obscura, um Shadow Punch.
Outro dos Golett saltou e golpeou o solo, utilizando o Magnitude, porém, aparentemente cuidou para que o golpe não fosse
forte demais, causando poucos tremores e apenas num raio pequeno de distância,
ainda assim afetando o Pokémon de grama.
— Synthesis e depois Vine Whip!
— solicitou Charlie.
— Bite mais uma vez!
Skiddo concentrou-se e fez com que
sua parte planta começasse a brilhar. Apesar do ataque não ser tão efetivo
durante a noite, foi suficiente para que se recuperasse um pouco de sua
energia, e em seguida lançasse mais uma sequência de folhas contra o grupo
adversário. Tyrunt avançou, mordendo-os e também nocauteando mais alguns. A
batalha era tranquila, contudo, quanto mais Golett eram derrotados, mais
pareciam surgir na rota, encurralando-os, enquanto olhavam Serena sozinha ao
longe.
— Charlie! Calem!
Os dois se viraram, e depararam-se
com Mikala e Ashley se aproximando. A garota carregava consigo uma lanterna
também, permitindo que vissem melhor o ambiente ao redor. Charlie sorriu:
— Acordamos vocês? — falou,
brincando.
— Tá brincando? Vocês querem ficar
com toda a diversão! — exclamou Mikala empolgado, puxando suas Pokébolas.
— Eu gosto de estudar de madrugada,
mas não era exatamente isso que eu tinha em mente. — balbuciou Ashley.
— Vá atrás da Serena! Nós cuidamos
da área aqui. — disse Mikala, apontando para a menina, metros à frente, atrás
de todos os Golett.
Charlie assentiu com a cabeça e
olhou para seu Skiddo. O Pokémon o fitava com seus grandes olhos negros.
— Sei que você não gosta muito de
fazer isso, mas pode quebrar meu galho dessa vez? — pediu.
A criatura pareceu concordar e
abaixou sua cabeça. Charlie subiu nas costas do Pokémon e se ajeitou. Em
seguida, fez um sinal, e o Skiddo começou a correr atrás da menina. Ele se
desequilibrou com o movimento repentino, mas logo apoiou-se nos chifres da
criatura e conseguiu ganhar velocidade, desviando dos adversários e criando um
caminho até sua amiga.
— Não acredito que eu realmente
levantei da cama para entrar em uma batalha Pokémon. — resmungou Ashley,
puxando uma Pokébola.
— E eu nunca imaginei que veria
essa cena. — provocou Mikala, sorrindo com os dentes.
— Aproveite, porque não vai ver de
novo tão cedo. — ela revelou um pequeno sorriso de canto, quase que invisível
àquela escuridão.
— Deve estar com as Pokébolas
empoeiradas. — ele provocou, fazendo-a ficar sem resposta de início, soltando
um risinho. — Froakie, Fletchling, vamos!
— Elgyem, vamos desenferrujar.
Mikala revelou em uma de suas
Pokébolas um companheiro já conhecido, Froakie, pronto para a luta. De uma
outra Pokébola revelou-se um pequeno pássaro, que pousou próximo do
companheiro, saltitando. A ruiva invocou uma criatura misteriosa, que começou a
fazer sons mecânicos e a piscar luzes quando entrou em campo, iluminando seu
corpo verde aparentemente robótico. Mikala soltou um grito de espanto.
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| Froakie and Fletchling by Xous54 |
— Caraca, que legal! Onde posso
pegar um desses?
— No espaço. — respondeu ela,
direta, deixando-o sem resposta.
— Vocês vão ajudar ou ficar batendo
papo? — resmungou Calem, um pouco distante.
Os dois ficaram em silêncio por um
instante, abrindo um pequeno sorriso.
— Froakie, utilize o Water Pulse! Fletchling, Peck!
— Vamos iniciar com o Confusion!
O sapo concentrou-se no ataque, e
disparou um pequeno vórtex de água, atingindo vários Golett. Fletchling cortou
o ar com suas asas e golpeou um outro com seu bico, afetando-o fortemente com
sua habilidade voadora. O Pokémon psíquico estendeu uma mão e fez vários
“bipes”, acendendo e apagando luzes azuis até disparar uma onda de energia que
deixou alguns dos inimigos perdidos.
Enquanto isso, Charlie avançava até
Serena. Calem e os outros conseguiam abrir caminho com seus Pokémon, permitindo
que o garoto alcançasse a amiga. Além disso, seu Skiddo era capaz de sentir as
emoções do treinador quando ele o segurava pelo chifre, e percebia como
alcançar a menina era importante, de maneira que encontrasse forças para
acelerar e desviar dos outros Golett.
— Serena! — gritou o garoto.
A menina novamente estava
ajoelhada, segurando-se a uma das sepulturas. Ela se virou quando o rapaz
chamou, e seu rosto estava inchado, como de alguém que chorara muito pouco
tempo atrás. Dois Gollet apareceram tentando impedir que o rapaz chegasse até
ela, afetando-o no caminho
— Vine Whip, amigo! — pediu.
O Pokémon invocou dois grandes
chicotes de planta e golpeou os adversários, os confundindo e afastando o
suficiente para que Charlie chegasse até Serena. O rapaz tentou não se assustar
com o estado em que a menina se encontrava, aos prantos, e apenas puxou-a pelo
braço, mas ela não levantou de início como esperado.
— Você está bem? — perguntou, se
abaixando também.
— Estou. — ela respondeu, limpando
o rosto.
— O que você está fazendo aqui? —
indagou.
— Charlie, tem algo muito errado
com esse lugar. — ela falava. — Ele faz eu me sentir muito… Estranha.
— Então vamos embora! — respondeu
ele se levantando com enorme simplicidade, a puxando.
Mais uma vez ela resistiu.
— Não! Eu quero entender o que é
isso. Por que esse lugar é tão importante? — questionou ela.
Charlie novamente se abaixou na
altura da amiga.
— Princesa, eu sei, mas vamos fazer
isso de manhã. — pediu. — Agora não é uma hora de vir ao cemitério resolver
mistérios.
Ela apontou para a frente quando os
dois Golett retornaram para atacá-los. Como um reflexo, o rapaz pediu auxílio a
seu Pokémon.
— Skiddo, nos ajude com o Razor Leaf.
O pequeno bode invocou mais folhas,
arremessando-as contra os inimigos e conseguindo afastá-los ligeiramente. A
menina sorriu desta vez, satisfeita.
— Faz tempo que eu não o vejo em
uma batalha.
Charlie apenas sorriu de volta.
Contudo, com a pequena distração, um dos Golett conseguiu avançar, preparando
um Shadow Punch que com certeza
mirava no garoto. Serena puxou rapidamente uma Pokébola de seu bolso e
arremessou para a frente, quase que instintivamente.
— Goomy, use o Protect!
O pequeno dragão saiu da esfera em
um conjunto de raios prateados e invocou uma parede de energia invisível à sua
frente, que reluziu com a luz do luar. O golpe do Golett não conseguiu
atravessar a tela protetora, impedindo que Charlie fosse afetado. O garoto se
protegia com os braços até perceber que não era mais necessário, uma vez que
despistou o golpe.
— Estamos quites? — perguntou
Serena se levantando.
— Com certeza. — respondeu ele, com
a cabeça.
Calem continuava no combate, porém,
já estava em um momento delicado. Um dos Golett golpeou seu Tyrunt com o Mega Punch, deixando-o muito mais
enfraquecido. O garoto puxou sua Pokébola de volta, apontando para o
dinossauro:
— Tyrunt, bom trabalho. Agora
retorne. — e guardou a esfera, puxando outra. — Honedge, vamos nessa.
Naquele instante, não muito mais
atrás, Froakie utilizava um jato de bolhas para afastar a horda ao redor.
Fletchling complementava o ataque, conseguindo escapar sempre pelo ar e
mergulhar ocasionalmente para golpear com o Peck.
Elgyem estendia seus braços e lançava intensos raios de energia, o Psybeam, que apesar de não tão efetivo,
auxiliava a enfraquecer o inimigo. Calem apontou para seu Honedge, após a criatura
entrar no campo de batalha.
— Use o Pursuit!
A espada encarou o inimigo e
preparou-se para avançar. Contudo, nitidamente foi possível percebê-lo recuando
e ficando estático no campo. Calem inclinou a cabeça em direção ao ombro,
intrigado, e esperou alguns instantes para ver se acontecia algo, mas Honedge
permanecia parado na mesma posição. Ele contestou:
— O que foi? Eu pedi para atacar. —
reforçou, com receio de não ter sido ouvido.
A espada continuou parada, apenas
se virou para seu treinador, fitando-o, e voltou para a mesma posição. Calem
sentia como se parecesse querer dizer algo, mas não conseguia adivinhar o que
era. Além disso, se nenhum movimento fosse executado, logo os adversários
poderiam avançar primeiro e derrotá-los. Contudo, perceberam um tremor além do
normal. Alguns Golett recuaram, e logo perceberam que havia algo errado.
— O que é isso? — sussurrou Calem.
Uma criatura apareceu da escuridão,
se aproximando. Assemelhava-se aos Golett, mas era metros mais alto. Sua
fisionomia era tão grande que parecia um grande guerreiro com uma armadura
reforçada. Era um Golurk, evolução de Golett e um Pokémon ancestral de grande
força. A forma com que fez alguns menores recuarem pareceu mostrar certa
hierarquia, como se fosse o líder que até então estivera ausente da batalha, e
agora que via problemas mostrava sua cara.

— É um Golurk. — ponderou Ashley.
A criatura levantou sua enorme mão
para o alto, preparando-se para um ataque. Seria um Dynamic Punch, que com certeza causaria grandes danos em quem quer
que fosse acertado. Todos se colocaram em posição de batalha mais uma vez para
derrotar o adversário, mas Ashley parecia incomodada, refletindo sobre o
fantasma.
— Algo está errado. Golett e Golurk
são criados para proteger pessoas e Pokémon. — disse. — Mas eles não param de
nos atacar.
— É um Pokémon selvagem, é isso que
eles fazem quando você está no território deles. — disse Mikala em resposta.
— Não me refiro a isso. — ela
rebateu. — Eles estão organizados, e só há criaturas da mesma espécie. Isso deve
significar algo.
Os outros absorveram as palavras,
mas voltaram a combater, pois não haveria muito tempo para tentar explicar o
que acontecia. Serena era levada de volta por Charlie pela mão, na companhia de
seus Pokémon, mas tinha a mente em outro lugar, nas palavras de Ashley, tentando
entender o que tudo aquilo poderia significar.
— Quando você está no território
deles… — repetiu a garota para si mesma. — É isso!
Ela parou de correr, e Charlie
consequentemente também foi obrigado a parar.
— Eles estão protegendo aqui… O
santuário. Talvez eles sejam sobreviventes da Guerra, ou algo do tipo. — falou
a menina.
Ashley coçou a cabeça, ao longe.
— Golurk são criaturas bem
ancestrais. Isso é possível. — raciocinou.
— Era isso que você tentou me dizer?
— indagou Calem a Honedge, e embora não ouvisse uma resposta, foi capaz de
imaginar.
— Provavelmente tem mais coisas aí,
mas isso significa que não adianta tentar lutar contra, se sairmos daqui
pararemos de ser atacados. — disse a ruiva.
— Mas por que eles só atacaram
quando nós entramos, e não a Serena? — indagou Charlie, gritando.
Antes que uma resposta visse, o
Golurk avançou, atingindo Honedge com o Shadow
Punch.
— Vamos tentar voltar sem fazer
mais estragos. — disse Calem, quase perdendo a calma.
Charlie começou a puxar Serena
novamente com mais força, mas a garota resistiu, evitando sair do lugar. Ele a
encarou, um pouco impaciente:
— Serena, nós precisamos ir agora!
Você os ouviu!
— Charlie, eu quero tentar falar
com o Golurk. — murmurou a garota.
— O quê? — inquiriu ele
instintivamente, mais alto que gostaria. — Não, óbvio que não.
— Charlie, talvez ele entenda que
nós não queremos fazer nada de mal. Me deixe tentar, pelo menos. — implorou
ela.
O rapaz encarou a criatura imensa,
que os amigos tentavam conter, sem muito sucesso. Olhou novamente para a amiga,
e viu seus enormes olhos azuis suplicantes, enquanto sua mão fria parecia
tremer ligeiramente. Ele fechou os olhos com força se a soltou, com uma
expressão de desagrado.
— Por que eu ainda concordo com
essas ideias?
A garota foi então correndo até a
criatura, posicionando-se atrás dele. O Golurk virou-se vagarosamente em
direção a ela, e apesar do tamanho intimidador, Serena não conteve suas
palavras.
— Nós não queremos causar nenhum
mal… Só queremos…
Contudo, a criatura levantou seu
braço gigante em direção ao ar. Aquilo seria, sem dúvidas um Hammer Arm. A garota congelou, seus pés
pararam de responder por um instante e a brisa da noite parecia mais fria que
nunca, fazendo-a se arrepiar por inteira. Um golpe daquela magnitude seria
suficiente para causar um grande estrago, mas além de não conseguir se mexer,
ela sentia que deveria permanecer ali, para provar seu ponto.
De repente, sentiu algo a acertando
antes de ver o braço do Golurk descer em sua direção, e logo depois ouviu um
estrondo imenso e percebeu o Pokémon com uma cratera enorme onde desferiu o ataque.
Mikala conseguira saltar junto da garota e a afastar do golpe nos últimos
instantes, por sorte. Ele logo se levantou e checou se ela estava bem.
— Acho que não deu muito certo… —
murmurou ela, gradualmente se levantando e apenas passando a mão por alguns
arranhões leves.
O Golurk se recuperou do ataque e
virou-se para os dois. Froakie colocou-se à frente de seu treinador para
protegê-lo de qualquer golpe que viria a seguir, sem se intimidar pelo
adversário tão maior e mais experiente. Mais uma vez ele se preparou para
golpear com o Shadow Punch, e apesar
do Pokémon sapo ser ágil, não conseguiu realizar uma evasiva perfeita, sendo
arremessado contra o chão.
— Froakie! — gritou Mikala,
correndo até seu Pokémon.
O garoto abaixou-se na altura de
Froakie, e o Pokémon parecia quase inconsciente. Golurk, todavia, preparava-se
para um novo golpe, estendendo um braço para um novo Hammer Arm. Contudo, enquanto Mikala, aturdido, tentava levantar
seu protegido, percebeu-o sendo tomado por uma luz prateada que subitamente o
assustou. Logo ele notou Froakie tomando uma forma maior, e um guerreiro em
novo estágio evolutivo se posicionava à sua frente.

—…Frogadier. — ponderou o garoto
por um momento, sem reação, em seguida estampando um imenso sorriso.
O Pokémon recém-evoluído
levantou-se, suficientemente confiante. Com suas patas maiores, foi capaz de
invocar uma esfera que mais parecia líquida, totalmente feita de água.
Surpreendentemente, conseguiu conter movimento do Golurk, e com o contato,
criou um vórtex aquático que afastou o golem e o desestabilizou, sem chegar
perto de pará-lo, todavia.
Mikala e Serena aproveitaram a
oportunidade para correr em conjunto do Pokémon recém-evoluído. O garoto
parecia imensamente realizado, elogiando seu companheiro, enquanto os demais
também se mostravam surpresos. Todos voltavam na maior velocidade em direção ao
hotel, vendo os Golett e seu líder ficando para trás. Serena virou-se uma
última vez para aquele imenso santuário, vendo os guardiões os encarando, ao
longe.
Novamente
o mesmo palácio, e sombras indecifráveis passando a todo o momento. Muitos sons
misturados, mas principalmente murmúrios e lamúrias abafados pareciam ser
lançadas do mesmo sujeito o qual eu já ouvira anteriormente. Eu conseguia ver
ao longe uma pequena caixa, tão pequena quanto uma caixa de sapato, feita de
madeira e perfeitamente geométrica. Alguém parecia agachado sobre ela, mas eu
não conseguia notar qualquer detalhe.
—
Eu sabia que não deveria ter permitido que isso acontecesse, eu sabia! Você não
deveria ter ido. — era a única coisa que eu ouvia, repetidamente e em um tom
tão melancólico e desesperador que imediatamente fui tomada pelo mesmo
sentimento, querendo desabar naquele mesmo lugar.
Tudo
voltou a ficar turvo, e a escuridão tomava o cenário cada vez mais a cada
segundo, deixando tudo indecifrável e perdido. Apenas o mesmo tom de perdição
ecoando em gritos e prantos, com dificuldades de formar sentenças. Uma frase,
todavia, me atingiu como uma flecha, e eu jamais consegui tirá-la da cabeça
desde aquele momento.
“Eu a perdi para
sempre”




































