Fanart~ Anne Lieurance #5



Nome/Nickname: Anne/Tsuki Lieurance

Nome da Fanart: Fear of Fate

Dados e Comentários (Anne): Então... Tudo começou quando a autora linda de Pilares de Gaia fez uma edit absurdamente surtante, envolvendo a protagonista dela, a minha, a de Demônios e Mágicos e a de Os Mistérios de Warthia. Obviamente, eu queria retribuir, mas como?

Ainda pensava nisso quando Scared of Change começou a tocar. Sabe aquele momento de desenho que aparece uma lampadazinha acima da cabeça de alguém? Então <33 Argh, mano, que música linda e /completamente/ multifandomnista. Sério, dá pra usar em muito lugar o_o Pronto, problema resolvido.
E não pude deixar a Serena de fora. Não só por ter tudo a ver com o momento da fanfic, mas uma maneira de te agradecer por ter me apresentado Our Last Night. Sério, que. banda. f*da. To encantada, e já viciei mais duas pessoas <3 <3 <3

Então, só pra apresentar todo mundo (já que a Serena cês já conhecem, né), na ordem: Julieta (PdG), Lina (Garnet), Rikko (DeM) e Serafine (MdW) - bem, quase todo mundo, esse penúltimo será segredo por mais um tempinho :33 E sim, faço questão de falar de todo mundo porque essa galerada merece divulgação, são tudo uns bbzos da vida com histórias pftas <3 <3

Comentários (Haos): Noutro dia a Anne me perguntou, se caso eu tivesse que escolher uma atriz para representar a Serena, quem seria. Depois de alguns momentos de reflexão, acabei me decidindo pela Chlöe Moretz, ainda meio sem entender o motivo. (Aliás, depois deem uma olhada nessa atriz. Ela parece muito com a Serena como eu a vejo :3 ). Um tempinho depois, sou surpreendido marcado nessa imagem. Acho que honrado define como me senti, por ver nossa jovem Serena aí junto de personagens de histórias de autores como a Anne, ou seja, autores com livros mesmo. Deles só conheço a Lina (pelo menos por enquanto), mas espero ter a oportunidade de ler as outras histórias. Aliás, deixei o link da página do Face de cada um (caso eu tenha errado algum link, me avisem q) para caso vocês se interessem em conhecer. Porque, conhecendo a Anne, não tenho dúvidas que todos eles são ótimos escritores, com livros excelentes.

O que me deixou mais contente ainda foi a música. Talvez vocês a reconheçam, afinal, é a mesma música do Capítulo 12, Scared of Change. Não tenho palavras para dizer como fiquei contente que você, Anne, tenha viciado também em OLN, porque, como eu já disse, eu amo essa banda! (E você tem essa habilidade de fazer os outros viciarem também, fiquei alegre de ver eles sendo divulgados por aí kkkkk). Eu adorei a imagem. Adorei a música aí. Adorei ver a Serena aí no meio. Agradeço pela montagem, Anne, fiz questão que você mandasse ela pra cá, e mesmo se não tivesse pedido, eu postaria mesmo assim! kkkkk Mudanças, mudanças. Quem não teme?

Espurr



Mary é a Espurr de Serena, Pokémon inicial da garota, recebida como um presente de Calem, seu primo, para o início de sua jornada. Desde o princípio Espurr e Serena apresentaram grandes laços de união, e a criaturinha parece tentar protegê-la quando alguém tenta se aproximar, como Charlie. As pessoas normalmente julgam a Espurr como perturbadora, porém, porém Serena não parece encará-la dessa forma, embora algumas vezes se pergunte como os pelos de Mary se sujaram com um líquido avermelhado. Mesmo que não seja usada em batalhas comumente, Mary está sempre treinando junto de sua treinadora.

Antecedentes

Mary vivia em uma loja junto de Neal, o Larvitar. Mais detalhes são ainda desconhecidos.

Royal Emperium

Dublagem de Mary, em sua fala única do capítulo 7.
Por Clara Helena.

Mary é a sub-administradora, vista como uma criança para os demais membros, e certamente é uma das únicas por quem Neal tem respeito e consideração. É a responsável por fazer o Guildmaster "amaciar". Alguns boatos contam histórias obscuras sobre a Espurr, mas até então ninguém consegue dizer se é verdade, até porque ela sempre costuma ter um jeito afável como o de sua treinadora. Dizem que ela esconde uma faca debaixo do vestido, mas até então ninguém conseguiu provar ou viveu pra contar


Curiosidades


  • Mary recebeu esse nome devido à lenda "Bloody Mary", ("Maria Sangrenta" no Brasil.)
  • O Pokémon inicial de Serena era uma dúvida, e provavelmente seria uma Eevee. Todavia, desde que foi revelado, Espurr ganhou a fama de um Pokémon fofo porém "perturbador", portanto foi selecionado um como uma piada interna.

Royal Emperium



Royal Emperium

Desde os antigos tempos, guerreiros das mais diversas habilidades se organizam ao redor de Guildas. Unidos não apenas pelos seus treinadores, mas também pelas mesmas estratégias, ideais e objetivos, conseguem dividir as tarefas e orquestrar um estilo de batalhas que os levem ao tão esperado Torneio de Guildas, na Liga Pokémon.

A Royal Emperium foi concebida e formada por Neal, o Pupitar de Calem, e contempla os Pokémon dos três protagonistas. Apesar da pouca idade de seu Guildmaster, as ambições do guerreiro permitiram que a Guilda se desenvolvesse rapidamente e de forma organizada. Neal tem uma visão pragmática de seu funcionamento e se espelha nas grandes heranças do passado para que a Royal Emperium possa, gradualmente, se tornar um poderoso império.

CAPÍTULOS
INTEGRANTES


ROYAL EMPERIUM

           Pokémon                      Nome             Função na Guilda    Função em Guerra  

Neal
GuildmasterMarechal
MarySub-administradoraSecretariado
ThanosTesoureiroComunicação

EryxFloricultorEnfermagem

Theodore 'Theo' Faz-tudo e
bobo-da-corte
Intendência
GwenGuardiã da Torre IInfantaria
Austin MasonGuardião da Torre IIInfantaria
VincentArtistaEngenharia
Durendall
Excalibur
CondestávelCoronel

OliverAprendizInfantaria
TiberiusSegurançaTenente da Infantaria

AgnesBesteiraInfantaria
SuryaAprendizInfantaria
LillieAprendizInfantaria
VolvaCurandeiraEnfermagem
IshanAssassinoPrisioneiro

Comunicação: Estabelecer diálogo entre os setores e preservar osr ecursos comunicativos para que não sofram interferências;
Enfermagem: Cuidados e recuperação do exército, fornecendo conhecimento médico e propiciando resgate para os feridos.
Engenharia: Projeto e construção de itens e infraestrutura que podem ser de ajuda do grupo. Também reconhecem as estruturas do adversário, prevendo riscos e auxiliando na estratégia de ataque. Pode ser ofensiva ou defensiva.
Intendência: Fornece apoio logístico à equipe, conectando os grupos e provendo suprimentos e transporte.
Infantaria: A massa de soldados, combatendo especialmente via terrestre. 

A GUILDA

Ainda que em constante desenvolvimento, a Guilda se organiza da seguinte forma: 

Torre I e II: Guardadas por Gwen e Austin, são ponto de observação e guarda da entrada principal da guilda;
Pátio: Ponto de encontro dos guerreiros e do desenvolvimento de atividades
Salão Principal: Recepção de visitantes e realização dos principais eventos entre os membros;
Aposentos: Dormitórios da maior parte dos integrantes;
Oficinas: Local onde os membros que realizam algum ofício estruturam suas atividades. É onde fica o ateliê de Vincent e a floricultura de Eryx;
Sala de Armas: Arsenal da guilda, que reúne equipamentos forjados ou conquistados em batalha. Epsaço onde os membros podem testar novos itens de batalha.
Pátio de Armas: Pátio voltado exclusivamente para treinos e combate;
Tenda: Espaço criado por Volva, onde recebe guerreiros feridos e realiza tratamentos como curandeira;
Capela: Ponto de cunho sagrado onde geralmente alguns membros visitam para professar sua fé;
Masmorra: Apesar de não costumar ser utilizado, é um espaço onde prisioneiros de guerra são retidos;
Torre de Menagem: A principal torre de comando, que esconde as principais informações e pontos de segurança da guilda. Só os membros mais altos podem adentrá-la.

ALIANÇAS E RIVALIDADES



           Pokémon                      Nome                         Guilda                  Treinador  
MagnarLes Vengeurs d'Or
Os Vingadores de Ouro
Damien


Charlotte
& Lumi
Les Veuves Noires
As Viúvas Negras
Katheryn
e Aldrick
KaneKahu Kai
Guardiões do Mar
Mikala
BlairSem GuildaAshley
ChlöePetits Monstres
Pequenos Monstros
Ga Ga
OphiraL'Aurore des Reliques
A Aurora das Relíquias
Sienna


LIGA POKÉMON



           Pokémon                      Nome                             Guilda                     Treinador  
?????????
?????????
?????????
SharulLes Chasseurs de Sirènes
Os Caçadores de Sereias
Siebold
Dianna Ninettel'Aubaine de la Lumière
A Dádiva de Luz
Diantha



OBS: O conceito das Guildas Pokémons foi criado por Canas Ominous, para a fanfic integrante da Aliança Aventuras, "Aventuras em Sinnoh". Conheça os Fire Tales para compreender melhor o conceito das guildas e ver os pioneiros.

Hoenn is Back!



Hoje a Aliança comemora! Finalmente estaremos reabrindo uma das principais regiões do mundo Pokémon, agora ainda "mais principal" com os anúncios dos novos games. Com Remakes chegando aí, Hoenn não podia ficar de fora da Aliança. Portanto, após tempos de planejamento, Hoenn se reinaugura, mais evoluída, mais nova, mais cheia de surpresas, e mais Zen.

O blog continua sob administração do original escritor da fanfic, o Shadow Zangoose, agora com o nick "Zen" (embora eu vá acabar continuando a te chamando de Shadow por mais um tempinho até me acostumar -qqq), contando com auxílio da Anne, uma leitora bem presente na Aliança, grande amiga, e excelente escritora.

A esta altura, no ano passado, Kalos era dona dos holofotes com todas as notícias dos novos games. Agora, passo sorridente o bastão para que Hoenn aproveite os próximos meses com a atenção do mundo todo, apenas aguardando esse continente com as novas mecânicas implementadas na sexta geração! Hoenn está próxima de Kalos agora, já que estaremos sendo os únicos a compartilhar mecânicas como as Mega Evoluções, e isso poderá trazer ótimas interligações.

Mas vamos com calma. Vamos aproveitar esta data festiva de dia 17 (dezessete?) de Setembro, às 17h (de novo?) da inauguração 17ª fanfic da Aliança (!!!). Desejo toda a sorte e prosperidade para o Shadow nessa nova fase, um cara que se mostrou um grande amigo (e que adora fazer bullying com os amigos, claro) nesse tempo que nos conhecemos, e me disponho a ajudá-lo para qualquer coisa, como ele sempre se dispôs a me ajudar. Bem-vindo de volta!!

Então vamos aproveitar, que Hoenn está de volta, e os Remakes virão logo logo, cheios de surpresas, assim como o Aventuras em Hoenn. 




Notas do Autor - Capítulo 12

Antes de ler as Notas, leia o capítulo correspondente primeiro.

Eu não irei revelar onde moro, para evitar bombas via correio. Grato.

Hoje as coisas assumiram um rumo diferente dos doze capítulos anteriores (inclui-se o prólogo). Tivemos uma drástica mudança nos personagens, no roteiro e na forma de encarar a história. Se por um lado estávamos vivendo o conto de fadas da Serena, agora estamos vivendo a realidade do Charlie. Se isso os tranquiliza, as coisas não vão continuar assim ~rs. Os acontecimentos vão marcar as personagens, isso é fato. Porém, logo teremos nossa Serena, nosso Calem e nosso Charlie de volta. A essência deles não vai desaparecer por causa de um ou outro acontecimento. Mas não podemos fingir que não aconteceu. E nem eles. Fiquem tranquilos, como disse o Marc, isso foi só uma "amostra grátis" pra vocês saberem que as coisas aqui podem mudar de uma hora para outra ~rsrs. 

Esse capítulo saiu relativamente mais rápido que os últimos (mesmo que um mês ainda seja uma boa demora -q), porém vou tentar acelerar meu processo criativo. Estou meio sem tempo ultimamente, mas vou dando um jeito como dá. Talvez eu tenha uns probleminhas com os próximos capítulos. Eu já tenho planejado mais ou menos o que vai rolar, só que vou precisar adaptar o roteiro para dar coerência com o capítulo de hoje. Mas não se preocupem, tudo ficará bem. Nossas personagens ficarão bem. 

Como eu disse algumas vezes, depois do capítulo 12 eu ia inaugurar algo, chamado...



ROYAL EMPERIUM!

Para quem não sabe, a Royal Emperium é a guilda de Kalos. Assim como temos os Fire Tales em AES, e tivemos a Thunder Shield em ANIL, teremos a oportunidade de construir nosso império. Vou precisar dar uma acelerada nos Gijinkas (na realidade, alguns estão prontos há um certo tempo, só que como sou "organizado" vou precisar procurar algumas horas pra achá-los). Vou abrir uma enquete ao lado para que vocês decidam a ordem em que os Gijinkas devem ser postados. 

Ah, e sobre a Litleo e o Skiddo que fizeram uma aparição hoje. Eles são Pokémons da guilda, e Pokémons do Charlie, inclusive terão sua aparição. Mas vou poupar detalhes do porquê, já que logo teremos a oportunidade de compreendê-los melhor.


Edit 1:

Eu precisei editar uma parte do capítulo, e fiz isso pelo celular. O que eu não sabia era que o capítulo ia ser colocado nos rascunhos de novo. A postagem estava programada para as 10h, assim como as notas, porém não foi... Peço desculpas pelo mal entendido. Espero que aqueles que leram as notas primeiro ainda tenham tido uma boa leitura posterior.

Edit 2
Fica uma curiosidade: Hoje eu encontrei, pela segunda vez, o Canas, de Sinnoh! O mais engraçado é que foi por acaso! Eu estava na Bienal, do lado de fora, procurado minha tia, e ele estava na fila para comprar os bilhetes. Levei duas horas para achar minha tia, que já sabia onde a gente estava. E o Canas, que eu nem sabia que ia, consegui achar bem antes. Só conseguimos conversar por alguns minutos (e não deu pra tirar foto, de novo) mas já valeu. Em uma escola com mil alunos nós nunca nos conhecemos, mas nos conhecemos pela internet. Em uma cidade pequena nós nunca nos vimos, mas em um evento lotado a gente consegue se encontrar. Dane-se a lógica. ~rsrsrs. 




Scared of Change


Quem visita o blog acredita que eu gosto só de Pop. Posso ouvir de tudo, e gosto de Rock, apesar de não costumar guardar o nome de muitas músicas ou artistas. Mas essa música eu adoro, e ela coube perfeitamente bem com esse capítulo. Se vocês leem as notas antes do capítulo, experimentem ouvir a música após passarem as "segundas reticências". A batida violenta, a energia... Simplesmente perfeita para esse capítulo.

Sou grande fã da banda Our Last Night. Eles não são tão conhecidos, e na realidade eu descobri eles vendo um cover de Rock de Dark Horse. Mas garanto que eles são fantásticos. Essa não é minha música favorita deles, mas é uma das que mais gosto. Se sentirem interesse, procurem mais sobre eles, e baixem o EP "Oak Island" (Logo disponibilizarei para download por aqui). Gosto muito de Pop, mas tem vezes que precisamos de uma música mais violenta para nos sentirmos bem. E Our Last Night é uma banda que nunca me decepciona. Seja nos clipes, nas letras, nas músicas... 

Portanto, quando virem nome de alguma música da Katy Perry ou do Our Last Night nomeando um capítulo, tenham certeza de uma coisa: Vai ser importante!

"Eu estava com medo de mudança sabendo que nada seria o mesmo
Estressado e sobrecarregado, comecei a cavar
Minha mente estava girando em círculos tão fora de controle
Eu fecho meus olhos e espero por aceitação.

A minha vida pode mudar
Mas não vai me mudar, não vai me mudar
Porque eu sempre serei quem eu quero ser
Eu posso sentir as páginas queimando
Mais rápido do que as rodas estão girando
Mas minha cabeça permanece alta

Ansioso e mal respirando, assistindo minha mente virar do avesso
Nervoso, minhas mãos tremiam
Tudo foi lentamente desaparecendo
Mas eu ficarei bem
Eu ficarei bem"

Capítulo 12



Capítulo 12
Medo de Mudança



O sol ainda saía por detrás das montanhas de Kalos, e a neblina ainda pairava sobre Lumiose. Era exatamente naquele horário que as coisas começavam a funcionar, que as lojas que fechavam durante a noite apagavam suas luzes e deixavam o Sol ter sua chance de iluminar a cidade também. De manhã, cedinho, as ruas ainda começavam a ficar movimentadas, não havia tantos carros ou Gogoats transitando pela cidade.

Neste mesmo instante, Charlie estava no banheiro do Centro Pokémon. O rapaz ficou encarando seu rosto no espelho, com a luz apagada, permitindo que os suaves raios solares passando pela janela translúcida iluminassem-no. Percebeu algo que gostava de perceber todos os dias: Como seu rosto estava limpo. Seus cabelos estavam limpos. Suas roupas não eram as roupas desgastadas de antes, rasgadas, sujas e remendadas. Eram roupas novas.

Ele era como um novo Charlie, em uma fase completamente nova de sua vida. Ele olhou para trás, e percebeu seus amigos dormindo. Serena ormindo com uma paz de espírito tamanha, como se a Bela Adormecida tivesse saído do livro e ido visitá-lo. Calem dormia sobre algumas camadas de um papel plastificado descartável. Isso fê-lo rir sozinho.

Charlie não havia parado para reparar como as últimas semanas tinham-no mudado. Ele encontrou pessoas que jamais pensou que encontraria, que lhe ofereceram uma mão amiga e o tiraram de todos os seus problemas, sem o julgar (na maior parte do tempo, pelo menos) e o tratavam como um verdadeiro amigo.

E exatamente por isso eu precisava fazer aquilo.

Ele saiu do banheiro com calma e tomou todo o cuidado do mundo para não fazer barulho. Claro, já estava acostumado com isso, e não lhe era nenhuma dificuldade. Porém, não esperava tropeçar em um dos vários nécessaires de Calem. E todos tinham algo que fazia barulho, em meio a tantos artigos aleatórios.

O rapaz permaneceu imóvel, mas Serena se mexeu na cama, e as pálpebras lentamente se abriram, revelando seus belos olhos azulados, como cortinas se abrindo e revelando o céu matutino por detrás. Ela acompanhou com o olhar Charlie parado e de pé:

— Onde você está indo? — sua voz ainda rouca perguntou, coçando os olhos.

Charlie fez um sinal com as mãos, a tranquilizando.

— Não se preocupe, eu volto logo. — ele sussurrou.

— Não, eu vou com você! — ela se prontificou, dando uma risadinha e literalmente pulando da cama.

Charlie a olhou de cima a baixo.

— Princesa, você é linda, mas tem certeza de que quer sair na rua de pijama e pantufas de coelhinho? — perguntou ele, sorrindo.

 A garota sorriu e colocou uma mecha dos fios louros atrás da orelha. Ela se levantou e buscou um pequeno estojinho, indo em direção ao banheiro, evitando ao máximo fazer qualquer barulho. Quando cruzou Charlie, virou-se de costas e parou, olhando para cima para alcançar seus olhos verdes:

— Não vá aonde você quer ir sem mim. — disse ela.

— Certo. — ele respondeu com simplicidade, sorrindo.

A garota adentrou o pequeno banheiro e fechou lentamente a porta. Charlie permaneceu imóvel. No mesmo instante que ouviu o som do chuveiro esquentando água, ele correu com agilidade para a porta do quarto, às pressas, e cruzou o corredor correndo. Como deslize, acabou deixando a porta bater, mas sequer parou para checar se Serena reparou no som, apenas correu e desceu as escadas. Correu cruzando a entrada do Centro. Correu pela porta de vidro, quase não dando tempo de ela abrir para que ele passasse.

Jogou a cabeça para os lados em movimentos rápidos, procurando onde ir. As memórias ainda lhe estavam frescas na mente, como o cheiro de terra molhada logo após a chuva. Correu pelo formigueiro que era Lumiose, desviando das pessoas ainda em um estado de zumbis, sonolentas. Então escondeu-se em um beco, entre o Boulevard Sul e Norte, que praticamente interligava os dois, do lado oposto à saída para a Rota 13. Então ouviu uma voz doce e ofegante ecoando em meio aos murmúrios aleatórios:

— Me espera!

Charlie socou a parede na qual estava recostado, praguejando em sussurros. Serena aproximou-se dele, vestindo sua roupa do estilo de sempre, meio amassada porque ela provavelmente devia ter desligado o chuveiro e colocado-a correndo, às pressas. Estava sem maquiagem, e os cabelos um pouco despenteados. Ainda assim, ela conseguia ser maravilhosa.

— Precisa de alguma coisa, princesa? — perguntou fingindo inocência.

— Eu disse para não sair sem mim! — repreendeu-o ela.

Charlie afastou-a do beco, voltando à calçada. Ele virou de costas e correu os olhos, vendo se encontrava algo. Ou alguém. Serena, todavia, batia o pé com impaciência.

— Desculpe, Serena, mas não posso deixar que vá comigo.  — ele segurou-a pelos ombros. Serena foi capaz de ver algo esquisito nos olhos de Charlie. Eles sempre eram verdes e misteriosos, como se escondessem algo. Mas desta vez pareciam desesperados, como duas esmeraldas prestes a se romperem.

— E-Eu não posso… — Serena balbuciou, baixinho.

Antes que ele pudesse perguntar “por que?”, ouviu o som de passos cada vez mais altos. Olhou para trás, no beco, mas nada viu. Antes que pudesse empurrá-la para longe, reparou movimento quase nulo naquela área que comumente era lotada. Alguém estava do outro lado da rua, porém, os observando. As mãos nos bolsos rasgados da bermuda. Cabelos grossos e sem brilho, expressão maliciosa e vestes acabadas. Como… Como Charlie quando eles o conheceram.

Por algum motivo, o coração de Serena bateu mais forte. E não no sentido positivo.

— Princesa, — sussurrou Charlie em seu ouvido. — corra o mais rápido que…

— Nem. Tente.

Charlie sentiu uma gota fria de suor escorrer pela lateral de sua face.

O som dos passos era completamente nítido. De suas costas, surgiram duas pessoas. Antes que fosse capaz de vê-los, um deles puxou-lhe para trás e pressionou um pano contra seu nariz e sua boca, sentindo um cheiro forte entrar por suas narinas. Não teve tempo de gritar, e ninguém o viu. Mas alguém fazia o mesmo com Serena. Ver a garota se debatendo, com o grito agudo abafado pelo pano e os olhos azuis cheios de pânico foi a última coisa que se lembrava antes de perder a consciência.

...

Por que sempre esqueciam de Calem?

O rapaz perguntou-se isso enquanto andava na calçada, trombando em todos que passavam, porque estava fitando um mapa. E, a propósito, ele não estava ajudando em nada. A Imprensa de Lumiose parecia um lugar interessante para se visitar, porém não conseguiria encontrá-la. Na verdade estava perdido.

Foi quando avistou um carro azulado encostado na calçada, com uma plaquinha acima escrita “TÁXI”. Sabendo do que se tratava, ele foi discretamente até o carro e bateu no vidro. Tomou um pequeno susto quando o vidro escuro começou a baixar sozinho.

— Hm… Pode me levar até este lugar? — perguntou, apontando no mapa.

O taxista mal parou para olhar, apenas acenou com a cabeça sem ânimo e deu uma tragada no cigarro que carregava. Era jovem, cabelos castanhos divididos e olhos castanho-escuros. Calem entrou no carro pelo banco da frente. Haviam esquecido de avisá-lo que devia usar o banco de trás. O motorista fez uma careta, mas não o repreendeu.

E Calem ficou observando pelo vidro as pessoas passando. Os prédios, que pareciam todos iguais, passando. E, aparentemente sem motivo, ele sentiu saudades de casa. Onde suas responsabilidades eram limitadas, e não precisava fazer nada demais a não ser se divertir na mansão o dia todo.

Agora olhava para frente. Estavam em silêncio, enquanto o rádio tocava ao fundo alguma música de décadas atrás. Porém, algo aconteceu que massacrou completamente a paz do momento.

Um Pokémon pequeno, um Bunnelby, assim como ele encontrara semanas atrás na Floresta de Santalune, decidiu atravessar a rua. O taxista buzinou alto, chamando a atenção de todas as pessoas que andavam. O Bunnelby olhou, paralisado. Foi como se os instantes seguintes passassem em câmera lenta para Calem. O táxi avançou pelo pequeno Bunnelby. O rapaz gritou. Ouviu os barulhos do Pokémon tentando escapar embaixo de si.

Em seguida, sentiu a roda escorregar em algo, somado com o som estridente do ruído do Pokémon. Todos pararam para olhar, até que alguém se aproximou mais e deu a sentença final:

— Morreu.

Calem desceu do carro, sem saber exatamente o porquê. Olhou para o Pokémon, que já não se parecia mais como antes. Estava em carne viva, ensangüentado. Nojento. O taxista deu partida no carro novamente, sem problemas. Como se nada tivesse acontecido. Logo as pessoas também voltaram a andar e continuar sua rotina. Lumiose não podia parar por causa de um Pokémon atropelado.

E Calem permaneceu olhando para a cena do crime. Tremia muito, ainda estava em choque. Foi como se conseguisse ver uma mulher de rubro e preto levar a alma do pequeno Pokémon, mas assim que piscou, percebeu que não tinha nada. Nada além dos restos do Bunnelby jogados na rua, como se fossem nada.

A culpa lhe percorreu. Se não tivesse decidido ir àquele lugar naquele exato instante, se tivesse decidido fazer outra coisa, aquela criatura estupidamente saltitante estaria viva. Era culpa dele. E agora o Pokémon não veria mais o sol nascer. Por que se sentia assim? Tão culpado?

Nunca sentiu tanta vontade de se aproximar de um Pokémon e acariciá-lo. Agora era tarde demais. Foi como se sua Pokéfobia se esvaísse naquele momento, tomada pela sensação de querer reverter tudo. De querer ver aquele Pokémon saltar de novo. Mas era tarde demais.

...

— S-Serena? SERENA! — a voz fez eco na escuridão em que estava cercado.

As luzes se acenderam e Charlie se viu amarrado a uma cadeira em um cômodo sujo, abandonado. As paredes mofadas e completamente despidas de qualquer cuidado ou higiene. E pessoas, muitas pessoas, todas encarando-o. Todos rapazes e algumas poucas moças, mal encarados e sujos, muito sujos. O pior era ele conhecer cada uma daquelas faces.

Foi quando percebeu uma cadeira de costas em uma direção totalmente oposta a ele. A cadeira se virou, revelando uma figura alta. Um homem de vinte anos, de cabelos escuros caídos aos tufos pela cabeça. Usava um terno um pouco gasto, contrastando com as vestes de todos os outros presentes. Em sua boca um charuto, e óculos escuros enegrecidos, que escondiam seus olhos, de forma que fosse impossível saber o que ele estava olhando.




— Há quanto tempo, Charles. — permitiu sua voz grossa ecoar após tirar o charuto da boca. — Achei que não se lembrava de mim.

Charlie, ao vê-lo, ficou imóvel. Foi como se seus olhos arregalassem involuntariamente, o suor escorresse sem que estivesse com calor. Ficou encarando aquela figura irônica, que sorria de uma forma maliciosa. E ele sabia muito bem que aquele sorriso não era de alegria.

— Há como esquecê-lo? — cuspiu as palavras com nojo em resposta.

O homem riu, sentando-se novamente na cadeira.

— Aparentemente sim. — ele fitou a fumaça subindo. — Imagino que esqueceu de que eu sei de tudo. Que eu vejo tudo. Tudo. — ele enfatizou a última palavra com satisfação. — Como um Deus. Sou como o Deus de Lumiose.

Ele se levantou da cadeira e segurou os braços atrás das costas, enquanto se aproximou de Charlie. O rapaz começou a se remexer na cadeira, como se tentasse se soltar, porém de nada adiantou. Parecia tremer. O homem não lhe tocou, apenas diminuiu o tom de voz:

— Achei estranho apenas você não ter vindo nos encontrar, mesmo estando na cidade. Parecia até mesmo que não fazia questão de nos ver… — novamente um sorriso.

— O que você quer, Marc? — respondeu Charlie logo em seguida.

— O que eu quero? Como assim?  — Marc se atirou para trás com a mão no peito. — Estou ofendido! Acha que eu iria reunir meu irmão aqui comigo só pra pedir alguma coisa?

Irmão.

Em um movimento rápido e repentino, totalmente inesperado, Marc desferiu um soco no rosto de Charlie. O rapaz sentiu uma enorme dor, como se um cometa lhe acertasse em cheio. Porém, nada fez. Não gritou. Não chorou. Ele tentou ficar parado, como se nada tivesse acontecido, ainda que a sensação do punho em seu rosto ainda estivesse fresca.

— Você nos traiu, seu idiota. — gritou Marc. — Você fugiu! — mais gritos. — E tem a coragem de colocar os pés novamente em nossos domínios, como se nada tivesse acontecido.

Ele voltou a andar para trás tranquilamente. Sua cabeça agora estava virada para o teto acabado e aos pedaços do cômodo, que poderia ceder a qualquer in - Por quêstante. Deu mais uma tragada e permitiu que a fumaça escura subisse no ar com toda a suavidade.

— Estão sentindo esse cheiro? — perguntou ele aos presentes, que assentiram sem sequer esperá-lo terminar de falar. — Esse cheiro doce e enjoativo. Parece - Por quê vvocê  até… — ele ponderou por um tempo com a mão no queixo, falsamente pensativo. — Xampu.

E apontou para os cabelos claros de Charlie. Brilhantes. Cheios de vida. E cheirosos. Agora Marc rodeava-o, com tranquilidade suficiente para fazer o irmão mais novo estremecer. A cada passo ouvido, seu coração tentava atirar-se para fora a boca. Até que então ouviu novamente o som da voz:

— Parece que você foi para uma vida melhor Charlie. — disse Marc com um falso tom de generosidade. — Você conseguiu finalmente subir na vida. Acha que nós não vimos os ricassos com que você está andando? — desta vez o sorriso foi um pouco maior.

Charlie pensou em qualquer coisa para dizer. Qualquer coisa. Fez seus lábios se abrirem, prontos para falar alguma coisa, porém, foi interrompido antes mesmo de dizer. Marc novamente fez as palavras carregadas de generosidade nojenta saírem de sua boca com cheiro de fumo.

— Eu, como líder da gangue, posso perdoar sua traição. — disse. — Posso mesmo.

— Eu não preciso do seu perdão. — retorquiu Charlie com a confiança que não tinha, como se as palavras não fossem sustentadas pela sua situação atual.

Seu irmão riu alto.

— Ahh, sim, você precisa. — garantiu, se aproximando. Charlie sentiu com mais intensidade o cheiro do charuto. E com mais intensidade ainda o cheiro do mal, das mentiras, do cruel. — E você só tem que fazer uma coisa, Charlie. Uma mísera e pequena coisa, tão insignificante como você. — sussurrou, com um tom perturbador o suficiente para fazer um arrepio percorrer todo o corpo do garoto.

Ele se apoiou na cadeira, ficando face a face com Charlie, de forma extremamente desconfortável para o garoto. Evitava encarar o irmão mais velho. Era como se conseguisse ver aqueles olhos rancorosos e cruéis brilhando em fogo, escondidos por detrás da fortaleza enegrecida dos óculos escuros.

— Você só tem que trazer a patricinha e o mauricinho aqui pra mim. Só isso, Charlie. — concluiu ele, usando um tom de voz que ridicularizava sua sentença, como se quisesse intensificar a simplicidade dela. — Não é difícil, e eles confiam em você. Sei que o treinei bem pra enganar os outros. O que acha, Charlie? — indagou. — Em nome dos velhos tempos? Após isso você estará perdoado, e te deixarei voltar pra nossa gangue. — ele estendeu a mão enluvada como se para um cumprimento, mesmo sabendo que o irmão estava atado.

Charlie levantou a cabeça, preparando-se para responder. Marc permitiu que seus lábios distorcessem um sorriso pequeno. Em seguida, o garoto abaixou a cabeça, disparando dos lábios um cuspe que acertou em cheio a mão do irmão mais velho.

— Você é escroto. — disse Charlie com desprezo.

O sorriso se desfez, e com exceção da mão limpando-se na calça, os demais músculos do irmão sequer se mexeram. Então, mais uma vez inesperadamente, sacou um canivete. Antes que Charlie pudesse se arrepender de ter dito qualquer coisa, o homem desatou uma de suas mãos. Marc foi atrás de Charlie e começou a pressionar o braço contra a cadeira, enquanto sua cabeça permanecia do lado da do irmão mais novo, vendo-lhe gemer de dor e tentando esconder.

— Larga. Por favor. — implorou Charlie com total fraqueza.

— Eu já quebrei seu braço três vezes, Charlie. Posso quebrá-lo de novo. — era assustadora a forma fria com que Marc conseguia dizer aquelas coisas. — Mas eu tenho algo melhor pra essa ocasião.

Ele largou o braço de Charlie, que respirou aliviado, porém amarrou-o novamente à cadeira. Em seguida saiu de perto do garoto. Jogou a bituca de cigarro no menino, e com a outra mão, fez um sinal para os outros, que apenas observavam a cena.

Alguns homens saíram, e logo em seguida voltaram carregando algo que fez o coração de Charlie tremer por inteiro. Lá estava Serena. Desacordada, ainda como uma bela adormecida, contrastando completamente com aquele ambiente hostil e horroroso. Marc sentou-se em sua cadeira, fez uma ponte com as mãos, entrelaçando os dedos, e cruzou as pernas.

— Não. Não. — balbuciou Charlie se debatendo na cadeira.  — Mande largarem ela, Marc! Ela não tem nada a ver com isso!

Marc gargalhou alto.

— E eu não sei? Mas a graça está aí: — falou, com palavras carregadas de maldade. — Fazer os inocentes pagarem, para deixar os culpados ainda mais culpados.

Charlie tremeu novamente. Seu corpo se desmontava sozinho.

— Se você já tem ela aqui, por que me pediu… — a voz saiu com uma fraqueza e insegurança tamanha, que foi interrompida sem problemas pelo irmão:

— Bem, eu ainda preciso do outro rapazinho. Mas eu estava mesmo é o testando. E você falhou, Charlie. Falhou feio. Muito, muito feio. — ele sorriu cinicamente, enquanto viu o irmão desolado do outro lado do cômodo. — Acordem a garota. — ordenou.

Um dos rapazes que a carregou se aproximou da garota, com um pequeno pesar. Ele olhou discretamente para seu chefe, que assistia sem hesitar. Ao ver aqueles óculos escuros, fechou os olhos, e desferiu um tapa no rosto da garota. Não tão forte, mas suficiente para fazer um barulho estridente que fez eco pelo cômodo até então silencioso.

— Não! — gritou Charlie, como se tivesse sentido o golpe em si mesmo.

Os olhos azuis da garota se abriram quase iluminando o cômodo. Sua cabeça se moveu para os lados, e percebeu estar cercada por pessoas que a encaravam como se fosse uma ferida nojenta. Ela era do tipo que não julgava alguém simplesmente pelas vestes ou olhar, porém, seu subconsciente nessa hora sabia que não podia vir coisa boa. Todavia, ela disse, com sua voz doce e encantadora, mesmo naquele lugar perturbador:

— Charlie? Onde estamos? — perguntou.

Marc chamou sua atenção.

— Olá princesinha. — disse. — Alguém já lhe disse que você é realmente maravilhosa?

Serena suou frio, enquanto percebeu as outras pessoas rindo ao seu redor. Ela estava nervosa. Também tremia.

— E-Eu não gosto que me chamem assim. — foi a única coisa que disse.

— Ah, mil perdões. — disse Marc.

O homem se levantou e olhou-a de lado. Agachou para ficar de sua altura. Serena tentava não encará-lo, apenas olhava para Charlie completamente assustada, como se implorasse por uma explicação. Como se implorasse para que ele dissesse que tudo ficaria bem.
Mas ele não disse nada.

Marc tocou-a no rosto, o que a fez estremecer. Em seguida ele puxou sua face para que ficasse de frente à dele. Queria ver aqueles olhos azuis cheios de medo de perto. Ela seguiu o movimento, relutante.

— O que acharia de se juntar a nós? — perguntou, novamente sem qualquer pesar em suas palavras. — Sabe quanto uma vagabunda loira e branquinha ganha em uma noite?

Ela tentou se levantar, mas a empurraram novamente na cadeira. Empurraram-na como se fosse um objeto. Sempre a ensinaram a ser respeitosa. Sempre lhe trataram como uma princesa. Sempre ensinaram-lhe que as mulheres devem ser respeitadas e tratadas com toda a delicadeza de uma flor. Porém ali aquilo completamente desapareceu, e isso a deixou ainda mais assustada.

— Hein? — gritou Marc, ainda esperando uma resposta.

— Não senhor. — a voz saiu sem qualquer vida. Sem qualquer energia. Sem qualquer encanto.
Ele ficou de frente para ela. Jogou as mãos sobre seus ombros, e ficou completamente grudado a ela, deixando-a submissa. Ela não poderia se mover se quisesse. Ele sentiu sua respiração ofegante de medo, o coração palpitando como se quisesse explodir. Os dentes se batendo, como se tentassem se destruir. Isso apenas o fazia sorrir.

— O suficiente. — falou. — Só precisamos testar se você está apta para o cargo. — dito isso, se levantou.

— TIREM. AS. MÃOS. DELA. — gritou Charlie com todas as suas forças. Mas sua voz não era de um herói. Era de total desespero. Logo em seguida tamparam sua boca, o impedindo de gritar também. O irmão balançou a cabeça negativamente

— Charles Stuart! Que modos são esses? Ameaçando o Deus de Lumiose? Você se esqueceu que não tem poder algum aqui? — indagou.

Ele levantou a mão e friccionou o dedo médio e o polegar, reproduzindo um estalo.

— Tirem-lhe as roupas! — ordenou.

Serena viu vários homens se aproximando. Ela iria se levantar, mas a seguraram firme pelos pulsos, de forma que a machucasse. Outro tampou-lhe a boca e segurou sua cabeça, a impedindo de gritar ou se mexer. Ela não entendia por que faziam aquilo, e isso tornava tudo mais aterrorizante. Não sabia o que viria depois. Em sua cabeça, as coisas nunca chegariam ter começado como começaram. Suas noções de beleza de mundo foram totalmente destruídas, como um espelho que se parte em milhões de pedaços.

Baixaram seu vestido, deixando-a apenas com as roupas de baixo. Ela queria gritar, mas não pôde. Não conseguia se mover. As lágrimas começaram a lhe descer pela face, como uma última tentativa de exteriorizar aquilo que estava sentindo. Charlie sentia ainda mais dor ao observá-la. A sensação de ser impotente lhe fincava as garras. A pior sensação, a de ver aqueles lindos lagos azuis derramarem as águas pelo rosto pálido de Serena, lhe golpeava na cara, mais doloridamente que qualquer soco.

Não importava o quanto se mexesse, nenhum dos dois nunca conseguiria se soltar. Restava apenas se encararem com medo. Ela não entendia por que estava de roupas de baixo. Tentava fechar as pernas, mas as abriam novamente quantas vezes fossem precisas. Seguravam-nas, deixando sua pele branca marcada. Terror. Tocaram-lhe nas roupas de baixo inferiores.

O inesperado, porém, aconteceu.

Uma chama surgiu de algum lugar não identificado e começou a se espalhar pelo cômodo. Houve alguns gritos e comentários, mas o fogo logo ganhou tamanhas proporções a ponto de que fosse um verdadeiro incêndio. Enquanto o desespero pairava, Serena foi largada. O mais surpreendente era que Charlie sentiu algo como uma navalha cortar as cordas que o atavam, conseguindo se soltar.

O rapaz não parou para tentar entender. Aproveitou-se enquanto todos buscavam uma saída e cruzou as chamas altas para alcançar Serena. Pegou as roupas e a devolveu. Ela não disse nada. Ele a ajudou a se vestir enquanto ela apenas acompanhava seus comandos, estática. Não tirava os olhos das chamas enquanto os soluços lhe vinham ocasionalmente, acompanhando as cachoeiras que desciam de seus olhos.

Algumas pessoas repararam que eles estavam fugindo e tentaram pegá-los, mas Charlie conseguiu despistar todos. Seus instintos estavam à flor da pele. Porém, quem tampava a porta era seu irmão mais velho, pela primeira vez com uma expressão que poder-se-ia dizer que era de raiva, exceto pelo fato de seus olhos permanecerem ocultos.

— Você…

Antes que pudesse terminar qualquer frase, um soco foi desferido em sua face. Charlie parou para reparar que sabia quem tinha feito isso. Pancham encarou seu dono, fazendo um sinal com a cabeça. Seu Pokémon sabia que ele faria aquilo. Seu Pokémon o seguiu. Seu Pokémon o salvou.

Charlie correu pela porta empurrando Serena. Estavam todos sujos de fuligem, algumas queimaduras pequenas, arranhões e hematomas. Antes de deixar o lugar, o rapaz olhou para trás e viu Marc. O homem, nas sombras, apenas deu um pequeno sorriso enquanto o fogo reinava ao seu redor.

— Charlie, darei a você um pequeno conselho de irmão. — falou ele com tranquilidade, fazendo uma pequena gota de suor frio escorrer pela lateral da face do rapaz. — Não retorne a Lumiose depois disso. Porque se você retornar… — ele fez uma pequena pausa. — Eu vou fazer você e seus amiguinhos sofrerem como eles nunca imaginaram. Hoje foi apenas uma amostra grátis. Mas na próxima…

Ele estendeu o braço e colocou o polegar levantado com o indicador apontando a ele, como se insinuasse uma arminha.

— O preço vai ser alto. — disparou na arma de mentira. — E vocês vão pagar.

Charlie correu o mais rápido que pôde, como se as sombras quisessem arrastar seus pés de volta para aquele pesadelo em chamas. Como se as coisas pudessem ficar pior. Como se fosse correr e não chegar a lugar nenhum. Ele não conseguia ver o rosto de Serena, e temeu acreditar que aquilo fosse uma coisa boa. Pancham os acompanhava.

Quando saiu, olhou para o Pokémon e se abaixou. Ele engoliu em seco, enquanto a criatura permanecia com seu olhar mal-encarado.

— Você nos salvou, Thanos. Muito, muito, muito obrigado mesmo. Não tenho como lhe agradecer. — falou Charlie, com a voz mais fraca do que gostaria.

Da sombra, surgiram duas figuras. Um filhote de felino de pelo acastanhado, com uma pequena pelugem na cabeça alaranjada, como fogo. Olhos corajosos. Como o fogo que eles tinham acabado de ver. E um Pokémon como aqueles que as pessoas montavam para ir de um lugar a outro em Lumiose, apenas menor. Uma Litleo e um Skiddo. Ele se lembrava deles.

— V-Vocês… Vocês me acharam. E me salvaram. — antes que pudesse fazer qualquer coisa a mais, ouviu um pequeno gemido de medo de Serena.

Ele se virou para a garota. A cena pela qual passaram era aterrorizante. Porém, o rosto de Serena conseguia ser pior que tudo. Os olhos marejados, avermelhados de tanto permitir que as lágrimas escorressem. As palavras lhe saíam cuspidas, como se não conseguisse formar uma sequer frase completa. Estava toda machucada. Algumas queimaduras. Vergões. Mas o maior machucado era em sua alma.

— Serena… — por alguns instantes buscou em sua cabeça qualquer coisa para falar. Qualquer coisa. — Está tudo bem agora. Está tudo bem.

Estavam os dois sentados na calçada. Ela balançou a cabeça, e permitiu que mais lágrimas lhe caíssem pela face. Onde estava o mundo perfeito que queria conhecer? Onde estavam as diferentes pessoas que queria encontrar? Onde estava a mágica pela qual esperou por quinze anos para ver?

Ela, por sua vez, viu a expressão de Charlie. Ela nunca o vira tão assustado em todo o período de jornada. Era sempre risonho, sempre descontraído. Mas desta vez estava aterrorizado, quase tanto quanto ela. E mais importante, a culpa lhe perseguia. Por ver Serena daquele jeito. Por permitir que aquilo acontecesse. Por não ter dito que o mundo não era apenas um jardim florido

— Vai ficar tudo bem, princesa. — falou ele, tremendo, como se de dentro de si algo quisesse sair, e não conseguisse. — Vai ficar tudo bem.

— Charlie… — a voz saiu como um sussurro, tamanha a fraqueza. — C-Como você não está chorando? — indagou.

O rapaz se aproximou dela e se ofereceu para limpar suas lágrimas. Ela recusou ao virar a cabeça.

— Tem um momento — disse. — em que você segura tanto as lágrimas… Que uma hora você esquece como deixá-las cair. — respondeu, engolindo em seco.

E ficaram assim. Os dois. Parados. Se observando. Serena chorava. Charlie não.

Naquele momento Calem apareceu correndo. Ele viu a prima naquele estado, e logo se aproximou. Por um instante ele não se preocupou em sujar-se na calçada. Tocou-lhe no rosto com as mãos. Ela o abraçou, com tanta força que Charlie sentiu uma pontada de ciúmes, misturado com todo o resto de culpa.

— Eu fiz uma coisa horrível, Serena. — Calem recostou seu queixo no ombro da garota. Uma pequena lágrima escorreu de seus olhos. Mas ele se sentia seguro. Ela não poderia o proteger, mas ele se sentia seguro naquele abraço.

Ela concordou com a cabeça. Ele sentiu isso em seu ombro.

— N-Não se preocupe, Cal. — ela disse, esforçando-se para fazer com que sua voz saísse. — Aconteceu tanta coisa horrível agora… Eu não… Eu não…

Ele largou o abraço e tocou o rosto da prima, limpando suas lágrimas com a mão. Ela deixou. Ambos tremiam ainda. De medo. De insegurança.

— Eu não quero ficar aqui, Cal. As coisas não são bonitas, não são mágicas. Eu quero ir embora daqui, Cal. Quero ir embora.

Calem assentiu.

— Amanhã bem cedo vamos sair daqui. Bem cedo. — garantiu ele.

— Não é seguro, ficarmos aqui, Cal. Não é seguro. — ela balançou a cabeça, frágil.

Ele a abraçou mais uma vez. Ambos se seguraram com enorme força.

— Vai ficar tudo bem. — ele garantiu. Ele não sabia se ficaria tudo bem, mas ele sentia que pelo menos tinham um ao outro. — Vai ficar tudo bem.

E saíram juntos em direção ao Centro Pokémon novamente. Era como se compartilhassem o mesmo sentimento. Como se as lágrimas de um pudessem tocar o outro. Não esqueceriam aquele dia tão simplesmente. E provavelmente passariam o resto do tempo conversando. Era disso que precisavam. Charlie ficou lá. Parado. Esquecido. Não o convidaram para voltar também. Ninguém o disse que tudo ficaria bem.




...

Eu estava voltando a passos lentos para o beco. Lá era meu lugar. Lá era minha casa. Trazia em minhas mãos algumas coisas que havia conseguido roubar de um café. Porém, não achei ninguém. Procurei pela escuridão por alguém. Onde estavam?

Ouvi alguns barulhos, e fui correndo checar. Era pequeno. Tinha quanto? Oito, nove anos…? Por aí. Vi meu irmão mais velho e alguns outros caras batendo em alguém. De verdade. Pra valer. Espancando. Ouvia os gemidos abafados do outro, como se implorasse aos céus por piedade. Deixei as coisas caírem sem querer ao ver aquilo. O sofrimento do outro cara. Como era ruim ver alguém sofrendo e não fazer nada.

Foi quando algum deles pegou uma corrente, dessas de ferro, e enforcou o homem. Seguraram-no. Ele se debateu. Tentou gritar. Chorou. Ele tentou viver. Mas acabou cedendo, e em alguns instantes vi sua vida se esvair. Como se fosse algo simples, que pudesse ser tirada a qualquer momento.

Vi Marc virar-se para mim naquele instante. Dei um passo para trás instintivamente, amedrontado. Eu não conseguia ver seus olhos. Foram raras as vezes em que eu consegui. Mas eu poderia adivinhar que estavam brilhando atrás dos óculos escuros. Ele se aproximou de mim. Tentei não recuar. Ele se abaixou e ficamos na mesma altura. Ele olhou pra mim.

Não esquenta. — disse com simplicidade. — Um dia será você que fará isso também. — e afagou meus cabelos, como se eu fosse gostar da ideia.

Alguns encaravam como orgulho. Como uma coisa boa. Mas eu só conseguia pensar: "E se eu não quisesse ser assim?"

E se eu não quisesse fazer aquilo também?

E se eu não fosse assim? 


    

- Copyright © 2014-2019 Aventuras em Kalos - Escritor por Haos Cyndaquil (Vitor Siqueira) - Powered by Blogger - Designed by CanasOminous -